JURUÁ
Anísio Mello
Estrada de cristal num engaste de esperança
Aos olhos de um artista, és mar, és paraíso!
Teu leito colossal misterioso avança
E rasga a natureza em forma de sorriso!
Teus lábios virginais contrito na aliança
Do vinho natural que ao mundo é tão preciso
Vão beijando a natura entre a espuma e entre
a frança,
Na comunhão mais santa – aroma de narciso.
E o rio qual serpente a se enroscar nervosa
Vai procurando o mar, fazendo sinuosa
E encontra o Solimões, depois o Amazonas!
Logo defronte o mar – Atlântico bravio
Que qual fera voraz devora sem cicio
O esbelto Juruá das auriverdes zonas.
O APUÍ
Antônio Beltrão
Era pequeno, lembras-te? Passamos
Uma vez por aqui. Buscando o espaço
Da sumaumeira esplêndida de ramos
Surgia ele tímido ao regaço.
Era o idílio da morte. Os dois deixamos
Empolgados de amor naquele abraço.
Volvemos hoje, vê: desfez-se o laço
E só o arbusto árvore encontramos.
Que é da outra pujante e hospitaleira
Que a ele tão solícita abrigou?
– Morreu exausta consumida inteira!
– Também eu cego ao teu amor cedi
E essa paixão fatal me dominou
Qual à madeira o pérfido APUÍ...
LUAR AMAZÔNICO
Mavignier de Castro
Verão, Rio em eflúvio. A lua cheia
só a fauna da noite ali vagueia
a sombra errante que o luar dilata...
Álgido, estreito igarapé serpeia
qual sinuosa lâmina de prata...
Que melopeia o urutau-í flauteia
na solidão lunar da terra grata!
Amanhece; mas imitando um rito
sobre a mata flutua um véu de neve...
E o Sol – patena de ouro do Infinito,
espera que no altar da selva nua
o Sacerdote imaterial eleve
a imagem eucarística da lua!
MELLO, Anísio. Lira amazônica: antologia. São
Paulo: Correio do Norte, 1965. p.38, 44-45, 46-47