Maria Lúcia Medeiros
Passeava pelas mesas nos fins-de-semana apenas.
Só aos sábados penetrava no cenário das toalhas xadrez, dos pratos de rosinhas,
dos copos coloridos de suco.
Antes disso, guardava qualquer cenário dentro
da pasta escolar, junto às canetas, aos cadernos e aos papéis coloridos de “sonho
de valsa”.
Desenhava, cantarolando, as espessas sobrancelhas
da professora, debruçada na carteira da escola. Enjoava. Entediava-se.
Não acreditava no Arroio-Chuí. Não conseguia
viajar pelos afluentes da margem esquerda nem atravessar depois para a margem
direita. A professora era feia. A cor da saia da professora era feia. O giz
colorido era úmido e não desenhava o cachorro de coleira e sapatos.
Voltava pra casa com o sol a pino, suor escorrendo
pelas costas, vontade de fazer xixi, em meio às pastas, sacolas e folhas de
cartolina, no meio dos irmãos, no banco traseiro, no volkswagen azul do pai.
Gostava de banana quando ela já ia ficando
passada com uns pontos pretinhos na casca. Ficava mais doce, mais cheirosa,
mais macia. Mas gostava de banana assim, sem entusiasmo, como ouvia as
conversas à noite na cozinha. Sem entusiasmo.
Roía as unhas nem que estivessem pintadas com o
esmalte da empregada. Roía o esmalte, sim.
Foi por essa ausência de entusiasmo que começou
a passear por entre as mesas, aos sábados.
Oferecia seus préstimos e a mãe, atarefada com
os fregueses esperando, aceitava que ela passeasse por entre as mesas ajudando,
conversando.
Equilibrando bandejas de fayança ela
trazia os sucos e anotava as preferências: limão, abacaxi, limão de novo,
laranja...
Botava também o aventalzinho xadrez, like
mumie, e passeava.
O senhor grisalho que perguntava seu nome, o
outro que queria saber o que ela já havia aprendido de matemática, e a moça
loura que brincava beliscando, de leve, o seu braço: “Oi menina!”.
E os copos tilintando, derramando, coloridos,
gelados no calor de sábado.
Longe no pensamento, agora ocupado, ficava a
professora, ficava a escola, o olho azul do menino que sentava ao seu lado nas
aulas.
Agora reinavam as mesas, o xadrez das toalhas,
o barulho da registradora. O cenário perfeito.
As pessoas perfeitas. O sábado perfeito. - Qual
o suco por favor? E a voz cálida, suave, vinha do freguês que tinha muita pena
da menina que trabalhava aos sábados como gente grande.
Uma vez uma mulher espigada achou de lhe fazer
perguntas: Qual a capital da Checoslováquia?
E da Turquia? Qual o rio que banha Porto Alegre?...
Mas ela não ligava. Nem pras perguntas (que ela
não sabia) nem pra mulher, nem pra nada.
Ninguém ia saber daquele cenário preferido.
Ninguém ia saber do sabor que tinha esperar o sábado sem aulas, sem notas, sem
a chatice de ir e vir, sem vontade.
Para o sábado ela se guardava se dava inteira,
menina ainda. Ninguém desconfiaria que a menina antes de penetrar no cenário
tirava os óculos e, míope, percorria as mesas, vendo as silhuetas dos
fregueses, não vendo nariz nem cílios.
Ninguém saberia que ela usava óculos de lentes
claras e que ela dispensava a nitidez e algumas formas. Que era como se visse
tudo pelas suas próprias lentes e mergulhasse assim no cenário agradável com
cheiro de sábado, com barulho de sábado, com imagem não muito nítida que ela
recobria do jeito que bem entendia e queria, sem medo, sem óculos, ela que os
usara sempre desde muito tempo, para ver melhor...
MEDEIROS, Maria Lúcia. Zeus ou a menina e os
óculos. 2ª ed. Belém: Maria Lúcia Medeiros, 1994. p. 27-29
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Maria Lúcia Medeiros nasceu em 1942, em
Bragança, Pará, e lá viveu até os 12 anos de idade. Em Belém, foi professora da
Universidade do Pará e consultora da Casa da Linguagem da Fundação Curro Velho.
Seu primeiro trabalho publicado foi na antologia Ritos de Passagem da Nossa
Infância e Adolescência, organizada por Fanny Abramovich em 1984. Depois
vieram Zeus Ou A Menina e Os Óculos (1988), Velas Por Quem?
(1990), Quarto De Hora (1994) e Horizonte Silencioso (2000). Seu
último livro, Céu Caótico foi lançado em 2005, logo após seu
falecimento.


