quarta-feira, 25 de março de 2020

12 OBRAS FUNDAMENTAIS SOBRE A NOVA HISTÓRIA INDÍGENA

História em rede

Durante muito tempo, a historiografia se limitou a encarar as populações indígenas como vítimas passivas ou meros espectadores de situações que os envolviam diretamente. Quando muito, reagiam à interferência e aos agravos da sociedade envolvente, mas nunca dispondo de estratégias de ação conscientes. Os índios, concebidos como uma categoria genérica, sem qualquer consideração às diferenças étnicas e culturais, não eram vistos, portanto, como sujeitos históricos ativos e capazes de incidir sobre a realidade nas quais se inseriam. Esse quadro começou a mudar a partir da emergência de uma nova compreensão histórica a respeito dos povos nativos. A “Nova História Indígena”, como viria a ser chamada, teria como principal objetivo redimensionar o papel dos índios na História, recuperando o protagonismo dos mesmos.

No que se refere ao surgimento deste novo viés, dois pontos fundamentais devem ser considerados. O primeiro está relacionado à aproximação entre a História e a Antropologia: cada vez mais intensa desde fins da década de 1970, o diálogo entre elas incidiu significativamente sobre essa perspectiva, uma vez que a combinação de renovados pressupostos teórico-metodológicos das duas disciplinas expandiria significativamente os horizontes de análise histórica. Nesse sentido, a compreensão tanto da cultura, quanto da identidade étnica como produtos históricos, somada a uma maior atenção da História às vivências e experiências das pessoas comuns, com grande influência da história social inglesa, foram decisivas. Tal confluência possibilitou um olhar sobre os índios que contempla tanto a sua diversidade étnica e cultural, quanto o papel de sujeitos de sua própria história. Além disso, a questão indígena na contemporaneidade também influenciou essa nova reflexão. O crescimento demográfico das populações nativas e a atuação cada vez maior dos movimentos indígenas na segunda metade do século XX contrariavam veementemente o discurso de desaparecimento e extinção. No Brasil, a atuação do movimento a partir da década de 1970 reflete-se nos direitos obtidos através da Constituição de 1988. Dessa maneira, novas observações sobre o passado puderam ser pensadas a partir de questionamentos do presente.

1) CUNHA, Manuela Carneiro da. (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

No que diz respeito à emergência de uma nova compreensão histórica dos povos nativos, o livro organizado por Manuela Carneiro da Cunha, “História dos Índios no Brasil”, é de suma importância. Publicado em 1992, o livro contou com artigos de diversos especialistas no assunto, contemplando variados aspectos ao longo do espaço e do tempo. Esse trabalho teve papel fundamental ao apresentar e sistematizar de forma clara e objetiva uma nova postura – que já vinha sendo esboçada nos anos anteriores – em relação aos índios, reconhecendo os mesmos enquanto agentes históricos. Propondo a inclusão dos índios na historiografia e rompendo com uma visão tradicional que enfatizava a passividade dos povos indígenas frente aos processos de Conquista e expansão empreendidos pelos europeus, a coletânea representou um marco quanto ao assunto, tendo inspirado diversos estudos específicos nesta mesma linha e contribuído decisivamente para difundir a referida perspectiva.

2) FARAGE, Nádia. As muralhas dos sertões: os povos indígenas no Rio Branco e a colonização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

Com o foco no processo de colonização da região amazônica, Farage realiza um excelente trabalho ao situar o Rio Branco nas intensas disputas territoriais que envolveram portugueses, espanhóis, holandeses e ingleses. Contudo, o grande mérito da autora é considerar o papel e a participação dos indígenas entre os diferentes agentes sociais envolvidos na contenda. Em particular, convém destacar que o estudo de Farage foi inovador ao demonstrar que a aplicação do Diretório, legislação que equiparou juridicamente os indígenas aos demais súditos portugueses, foi diretamente influenciada pela ação dos índios. Com a atenção voltada para as comunidades indígenas de fronteira no norte da América portuguesa, a autora ressalta que a transferência destas comunidades para compor núcleos populacionais previstos pela lei, que iriam compor verdadeiras muralhas nesta região de fronteira, dependia da negociação com os grupos locais na figura das lideranças indígenas. Dessa forma, Farage, considerando o protagonismo indígena, revela que a dinâmica de aplicação não se resumiu ao que as autoridades metropolitanas almejavam, mas também aos interesses dos próprios indígenas.

3) MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Dentre os trabalhos publicados na década de 1990 que renovaram os estudos a respeito da História Indígena e que a abordaram a partir de recortes específicos, há de se destacar este grande estudo de John Monteiro. Em tal obra, que se tornou rapidamente uma importante referência, o autor atenta de forma pioneira para a articulação entre as bandeiras e a produção agrícola de São Paulo, pontuando que era a mão de obra escrava indígena, adquirida através dos apresamentos, das guerras movidas contra os nativos e também dos descimentos, que viabilizava a agricultura paulista. A contribuição mais importante de seu livro, porém, é o destaque dado ao processo de inserção dos indígenas na sociedade paulista, que variou da escravidão à condição de índios administrados. Ao fazer isso, John Monteiro deixou claro que os índios foram parte fundamental da formação sociocultural de São Paulo.

4) VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Nesta célebre obra de Ronaldo Vainfas, o diálogo com uma perspectiva que prima pelos intercâmbios culturais se faz evidente. Ao analisar o movimento religioso da Santidade de Jaguaripe, ocorrida na Bahia da segunda metade do século XVI, o autor atenta para a clara mistura entre os rituais nativos e os elementos do catolicismo reconstruídos à luz do colonialismo, denotando, então, o hibridismo cultural característico da Santidade, que contava com o apoio de um senhor de engenho local. Indo além, Vainfas chama a atenção para a notável circularidade referente às crenças de tal movimento, que contou com a adesão não apenas de índios, mas igualmente de mamelucos, negros e até de brancos, tendo incidido significativamente sobre a religiosidade popular do Recôncavo baiano quinhentista. Destacando também a fluidez das fronteiras culturais nesse contexto, que coincidia com a fluidez da própria colonização, Vainfas tem ainda o grande mérito de recuperar o caráter de resistência de tal movimento, uma vez que a Santidade de Jaguaripe representava a busca por uma identidade indígena que, paulatinamente, via-se atacada pelo avanço da colonização portuguesa.

5) ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

Em relação ao período colonial, um aspecto que mereceu grande destaque da Nova História Indígena diz respeito aos aldeamentos. Inserida nesta vertente historiográfica, Maria Regina Celestino de Almeida trouxe à tona uma perspectiva que foi um verdadeiro marco na abordagem a respeito dos aldeamentos indígenas. Reconhecendo os índios enquanto sujeitos históricos, Almeida ressaltou que as aldeias, para além de atender aos interesses e às expectativas da Coroa, dos missionários ou dos colonos, também tiveram um relevante significado para os índios. Recorrendo ao conceito de territorialização, inicialmente utilizado por João Pacheco de Oliveira e que é crucial em “Metamorfoses Indígenas”, Almeida destaca que os aldeamentos foram apropriados pelos índios como um espaço de proteção e de sobrevivência, evidenciando a participação ativa dos mesmos. Indo além, a autora reflete sobre a importância que os aldeamentos assumiram para os índios no contexto da colonização, concluindo que, diante de um mundo colonial que se construía de forma cada vez mais hostil em relação aos indígenas que não eram aliados dos portugueses, tais espaços representavam um “mal menor”, já que na condição de aldeados eles ao menos estariam livres da escravidão e garantiam acesso a alguns direitos, como o da terra coletiva. Assim sendo, mais do que um local de imposição e de aculturação, os aldeamentos constituíram importantes espaços de socialização, de modo que, ao reunir diferentes indivíduos e etnias que se misturaram no seu interior, elas propiciaram a rearticulação étnica, cultural e social dos índios aldeados. Partindo desta linha de raciocínio, a autora pondera que, em longo prazo, a vivência compartilhada no interior desses aldeamentos conduziu a um sentimento de pertença comum e de solidariedade entre os índios que lá viviam.

6) POMPA, Cristina. Religião como Tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil Colonial. Bauru: Edusc, 2003.

Criticando a dicotomia que opõe de um lado a imposição dos missionários e de outro, os índios, vistos como um conjunto homogêneo e passivo, Cristina Pompa defende a perspectiva de que o processo de evangelização na América portuguesa levado a cabo nos aldeamentos foi, antes de tudo, fruto da mediação constante entre os religiosos e os próprios indígenas. Isso resultou, segundo Pompa, em traduções mútuas, influindo diretamente tanto sobre a ação missionária – que passou a se preocupar em adaptar e traduzir o cristianismo para a linguagem nativa, convertendo os ensinamentos e símbolos cristãos de acordo com as concepções e os mitos indígenas – quanto sobre a recepção dos nativos a essa evangelização, que em muitos casos aceitaram essas traduções, mas apreendiam as mesmas à sua maneira e dentro de seus próprios termos. Com este ponto de vista, a autora permite perceber as interações religiosas como um processo dinâmico no qual o indivíduo, mais do que simplesmente assimilar uma dada cultura ou crença, a interpreta e a reconstrói mediante os seus próprios valores e referenciais. Assim, ao considerar as múltiplas e diferentes traduções propiciadas a partir dos intercâmbios culturais e religiosos, Cristina Pompa recuperou o protagonismo indígena neste processo, evidenciando a existência de uma interação dialógica e passível de adaptações no interior dos aldeamentos.

7) CORRÊA, Luís Rafael Araújo. Feitiço caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição. Jundiaí: Paco Editorial, 2018.

O autor recupera a vida do índio Miguel Pestana, condenado pela Inquisição portuguesa sob a acusação de feitiçaria na primeira metade do século XVIII. Utilizando a trajetória de Pestana como fio condutor, Corrêa analisa a formação religiosa deste indivíduo, que viveu boa parte de sua vida na aldeia jesuítica de Reritiba, no Espírito Santo. Atento à complexa relação mantida entre missionários e índios aldeados, o historiador ressalta as diversas interações sociais tecidas por Miguel Pestana com o mundo colonial, fato que leva o índio a questionar a disciplina regrada dos jesuítas e a ter contato com diversas práticas mágico-religiosas desviantes. A relação conturbada com os padres motiva Miguel a fugir de Reritiba e rumar para o Rio de Janeiro, onde transforma a sua vida: nas freguesias do Recôncavo da Guanabara, o índio ganha a confiança dos senhores locais e torna-se capitão do mato, alcançando uma posição social diferenciada em meio à hierarquia colonial. Em sua vida cotidiana, porém, as erronias perante à Igreja Católica se aprofundam: ele torna-se um afamado usuário de bolsas de mandinga, vendendo artigos mágicos aos que procuravam por sorte e proteção. Contudo, tendo atraído mais atenção do que devia, acaba preso pela Inquisição. Remontando o julgamento do índio, o autor traz à tona os meandros do processo e as insistentes estratégias do réu a fim de evitar sua condenação. Além de refletir sobre diversos aspectos pertinentes à religiosidade e à história indígena, a obra reflete a respeito da ação inquisitorial em relação aos indígenas, tema pouco estudado até hoje.

8) DOMINGUES, Ângela. Quando os índios eram vassalos: colonização e relações de poder no Norte do Brasil na segunda metade do séc. XVIII. Lisboa: CNCDP, 2000.

Nesta obra, Domingues analisa a sociedade resultante na região amazônica a partir da aplicação do Diretório dos Índios. A legislação, de claro cunho assimilacionista e que visava integrar os índios como súditos indistintos aos demais, era parte do projeto que a administração pombalina tinha em relação à Amazônia. Analisando os desdobramentos da mesma, a autora teve um papel importante ao destacar que as pretensões metropolitanas e a realidade nem sempre caminharam juntas. E este descompasso devia-se em grande parte à atuação dos próprios indígenas, que ao invés de meros objetos da dita política, incidiram diretamente sobre os seus rumos ao participarem da administração das vilas de índios criadas para civilizar os nativos ou por resistirem aos pressupostos assimilacionistas.

9) SPOSITO, Fernanda. Nem cidadãos, nem brasileiros: indígenas na formação do Estado nacional brasileiro e conflitos na província de São Paulo (1822-1845). São Paulo: Alameda, 2012.

O livro de Fernanda Sposito tem o grande mérito de refletir sobre um período que só recentemente vem recebendo maior atenção da Nova História Indígena: o Brasil Império. Ao analisar a política indigenista imperial, a autora relaciona com argúcia como ela foi construída dentro de um contexto no qual o próprio Estado e a nação brasileira estavam em formação. Ainda do ponto de vista político, Sposito contribui para a discussão em torno da cidadania no período imperial, atentando para o fato de que a Constituição de 1824 não fez menção aos índios em momento algum do texto, negando qualquer direito aos mesmos. Se por um lado os índios foram excluídos de participar dos rumos do país recém-independente, fazendo justiça ao título do livro, por outro não puderam ser apagados da História: tomando como exemplo os conflitos motivados pelo avanço das fronteiras da província de São Paulo em direção aos territórios indígenas do interior, a autora demonstra a ação e resistência dos índios neste contexto, deixando claro então que eles eram agentes sociais relevantes.

10) MATTOS, Izabel Missagia de. Civilização e Revolta: os Botocudos e a catequese na Província de Minas. Bauru, SP: EDUSC, 2004.

Amparada em uma farta e rica documentação, a autora realiza um excelente trabalho ao recuperar a história dos diferentes grupos indígenas que foram genericamente denominados botocudos pelos colonizadores. Concentrados principalmente em Minas Gerais, estas populações foram atingidas pela marcha civilizadora imposta tanto pela política colonial, quanto pela imperial, tendo sido a última ainda mais intensa. Interessada particularmente pela realidade vivida por estas populações no século XIX, a autora demonstra habilmente como as intervenções promovidas pelos governos provincial e imperial resultaram na sujeição e na desterritorialização dos índios. Diretamente atingidos pelo Regulamento das Missões (1845), pela Lei de Terras (1850) e pela Companhia do Mucuri, órgão provincial responsável pelas ações empreendidas em relação aos índios, Mattos demonstra os múltiplos processos de mestiçagem vivenciados pelos botocudos no interior dos aldeamentos dirigidos pelos missionários capuchinhos. No entanto, ao trazer à tona a revolta indígena ocorrida no aldeamento de Itambacuri em 1893, a autora denota de forma acurada que este processo complexo e violento não anulou a atuação dos índios em prol de seus interesses.

11) WITTMANN, Luísa Tombini. O vapor e o botoque: imigrantes alemães e índios Xokleng no Vale do Itajaí/SC (1850-1926). Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2007.

A partir do século XIX, o avanço da propriedade privada sobre as terras indígenas ganha contornos cada vez mais dramáticos e violentos no Brasil. E no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, esta situação foi particularmente intensa. Focando sua análise nos índios Xokleng que viviam em tal região, Wittmann realiza um trabalho muito competente ao trazer à tona os conflitos que se deram entre os indígenas e os imigrantes alemães, que chegaram ao local com o apoio do governo imperial. Consideradas devolutas apesar da ocupação indígena ancestral, as terras do Vale do Itajaí foram palco de forte perseguição aos Xokleng, considerados pelo governo da província catarinense e pela imprensa local como selvagens ou um entrave para a modernidade. Para além do conflito, a autora contribuiu de forma decisiva ao recuperar a trajetória de indígenas que viveram nesta realidade e tiveram suas vidas reviradas. Transcendendo os marcos do período imperial, Wittmann analisa ainda a atuação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), já na Primeira República, em relação aos Xokleng, contemplando uma época ainda pouco estudada pela historiografia. Por fim, a obra tem grande valor ao retirar da invisibilidade os índios Xokleng, dando o devido lugar que possuem na História.

12) VALENTE, Rubens. Os fuzis e as flechas: história de sangue e resistência indígena na ditadura. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Ainda pouquíssimo explorado pela História Indígena, o período em que vigorou a ditadura cívico-militar é abordado por Rubens Valente em sua obra. Recuperando o contexto da época, o autor articula uma volumosa documentação oficial referente à política indigenista com depoimentos de índios. Destacando a atuação dos diferentes agentes da política levada a cabo pelo governo brasileiro em relação aos indígenas, o que incluía militares, missionários e servidores da Funai, Valente evidencia a violência sofrida pelas populações nativas e a resistência indígena em mais um capítulo dramático de suas histórias.

sábado, 7 de março de 2020

Cesar Garcia Lima - Trópico de papel

Por Alexandre Kovacs

Poesia brasileira contemporânea
Cesar Garcia Lima - Trópico de papel - Editora 7Letras - 64 Páginas - Capa: Alice Garambone - Lançamento: 2019.

A poesia segura e madura de Cesar Garcia Lima tem inspiração na fina ironia de Carlos Drummond de Andrade, nosso maior poeta modernista que, não por acaso, é citado em alguns poemas deste livro. De fato, Trópico de papel tem como base aquele mesmo sentimento de inadequação do indivíduo diante de uma sociedade sem valores, a mesma forma de descobrir o drama e a comédia nas coisas simples do cotidiano, a expressão do universal na visão do particular, aspiração de toda obra literária.

Destaquei três poemas que compartilham dessa visão existencial de Drummond sobre a vida (e a morte), seja no bem-humorado Indulgências onde o artista aceita um marcador de livro como pagamento, na rara e sofrida beleza de Um corpo que cai ou na crítica social presente em Vale-transporte da poesia.

Convido o leitor a conhecer mais sobre Cesar Garcia Lima, repetindo a oração da simplicidade que o poeta nos ensina: “Senhor, / fazei de mim / qualquer um / à maneira de São Francisco de Assis / com moedas imersas / na fonte dos desejos / as janelas abertas / aos aromas das estações / e os animais lambendo as patas / depois do jantar.” (Oração a qualquer um)

INDULGÊNCIAS

Sou pai de livros
e por isso estou vendendo
estes poemas para me ajudar

Vinte poemas de amor
para me publicarem

Vinte poemas de natureza
para me lerem

Dez poemas de liberdade
para me respeitarem

Aceito marcador de livro


UM CORPO QUE CAI

O corpo abandonado é sinal da desimportância
do vivo tornado morto.
O corpo ao sol prolonga uma sirene de dor.
O corpo ancorado no playground é insígnia
alardeada de que nós, inquilinos da carne,
teremos o mesmo fim.
O corpo tatuado no cimento é uma pista
da angústia grisalha, visível da janela.
O corpo calado rouba a cena
de quem quer continuar vivo
e vê-lo convertido em pequena notícia de jornal.
O corpo ensanguentado é uma risada sem freio,
chama atenção para si,
é tragédia que nos ignora e paralisa.
O corpo, coberto dos pés à cabeça espatifada,
incentiva nossa culpa
de algo que poderíamos ter feito.
O corpo, à espera dos bombeiros
é memória transformada em espetáculo palpável.
Seria mais confortável vê-lo emoldurado na TV
ou no cinema.
O corpo dobrado nos faz duvidar de Deus
e querer, ao mesmo tempo, o seu conforto.
O corpo, visível mesmo depois de retirado,
nos dá ânsia de fugir da paisagem
do prédio cinza de onde veio
e adivinhar a história que caiu
e as que lá permaneceram.


VALE-TRANSPORTE DA POESIA

Ao incontrolável desejo
De ser lido
Sobrepõe-se o alívio
De ser esquecido.
A compreensão não se mede
Ao acaso da mídia,
Ao relutar acadêmico.
Importa que Suely,
Profissão balconista.
Doméstica por circunstância,
Peça ao patrão
As obras completas de Drummond
Para guiar seu trajeto
Da Baixada Fluminense
Aos corações de Copacabana.

Sobre o autor: Cesar Garcia Lima nasceu em Rio Branco (AC) em 1964. Poeta, jornalista e professor, participou do grupo Cálamo, de criação e pesquisa literária, em São Paulo. É autor dos livros de poemas Águas desnecessárias (Nankin, 1997) e Este livro não é um objeto (edição do autor, 2006). Vive no Rio de Janeiro.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ACRE

Gerson Rodrigues de Albuquerque

Para nos movermos à margem do ufanismo de muitos que passaram a se identificar como “acrianos” e a difundir a idealizada noção de que o “melhor lugar é aqui” – no estado do Acre –, pensamos ser interessante percorrer as definições da palavra “acre”, em sua forma dicionarizada, a título de introdução deste breve ensaio. Nessa direção, destacamos que o “Dicionário etimológico da língua portuguesa”, de Antônio Geraldo da Cunha, descreve o verbete “acre” de duas maneiras: 1. na condição de adjetivo de dois gêneros que, oriundo do latim acre (século XVII), é designativo de “ácido, áspero, árduo”; 2. Na condição de substantivo masculino que, oriundo do inglês acre (1871), é designativo de “medida agrária”. Ainda pelas linhas descritas nesse dicionário, ácido é, ao mesmo tempo, adjetivo e substantivo masculino que designa algo ou alguma coisa “de sabor acre, azedo” (século XVII); áspero é adjetivo de “acidentado, irregular, desagradável, ríspido” (século XIV); e árduo é adjetivo que designa algo “escarpado, espinhoso, áspero”, “trabalhoso, custoso” (século XIV).[1]
O mesmo verbete “acre” pode ser encontrado no Michaelis, dicionário eletrônico de língua portuguesa, que assim o descreve:
Acre
1. sm (ingl. acre) Metrif. Medida agrária de superfície variável, usada em certos países e baseada em uma unidade antiga que correspondia à área de terreno arado por uma junta de bois em um dia.
2. adj m+f (lat. acre) 1 De ação picante e corrosiva. 2 Com odor forte; áspero, irritante. 3 De sabor ácido, azedo. 4 Fig. Que causa aflição. 5 De som estridente. 6 Fig. De grande aspereza.[2]
Não pretendemos fazer incursões para evidenciar que “acre” – definidor de uma medida agrária – não tem nada a ver com “acre” – definidor de um sabor –, mas, seguindo as definições acima descritas, podemos fazer alguns deslocamentos, posto que na estrutura das línguas criadas pelos homens – na condição de estruturas rígidas e abstratas – é possível transitar em meio ao léxico, acompanhando a mutação presente nos movimentos históricos das palavras/conceitos e suas possibilidades de interpretação e tradução. Assim, chegamos a outros adjetivos/substantivos que nos levam a acre ou que dele são derivados.[3] Vejamos os que mais se destacam: picante, corrosivo, áspero, irritante, azedo, acerbo, desabrido, irascível. Mais uma vez recorremos ao Michaelis que, de um modo em geral, assim descreve esses termos: 1. picante é aquilo ou algo que pica, que excita o paladar, que estimula o apetite, que é ácido, apimentado, que é malicioso, mordaz, provocante; 2. corrosivo é aquilo que corrói, que é erodente, que destrói, desorganiza, que é cáustico; 3. áspero é algo ou alguma coisa com superfície desigual, incômoda ao tato, algo duro, rígido, que não se dobra, que é acidentado, escabroso, fragoso, irregular, que é desagradável ao paladar, acre, azedo, que é desagradável, sem harmonia, desbotado, que é acerbo, desabrido, grosseiro, intratável, rigoroso, rude, severo; 4. irritante é algo ou alguma coisa que irrita, que excita a cólera, que provoca inflamação, que estimula, excita, que produz irritação, que anula; 5. azedo é aquilo que tem sabor ácido, acre, que tem sabor desagradável, que é fermentado, que é áspero, acerbo, que é rude; 6. acerbo, diz-se de algo com sabor acre, sabor ruim, que é áspero, duro, rigoroso, severo, que é cruel, pungente, terrível; 7. desabrido é aquilo que é desenfreado, desordenado, que é áspero, violento, que é rude, grosseiro, insolente, inconveniente; 8. Irascível que é propenso à irritação, que se irrita com facilidade.[4]
Para contextualizar nossa análise, não temos a intenção de entrar no mérito ou em maiores discussões sobre esses adjetivos/substantivos, posto que o foco de nosso interesse é a historicidade do enunciado “Acre”, nome com que os colonizadores batizaram um rio amazônico, como forma de retirar-lhe a aparente naturalidade, especialmente, porque esse “Acre” passou a ser difundido como referência de um lugar, uma “parte da Amazônia” e da narrativa da “nação brasileira”, romantizando, harmonizando, homogeneizando e tornando a-histórico e abstrato todo o conjunto de experiências de mulheres e homens de “certa Amazônia”.
“Acre” é uma palavra produzida pelos homens para designar ou classificar/catalogar um sabor, uma medida de terra, um rio ou uma unidade da federação brasileira. Desta última, uma invenção datada do início do século XX, derivou “acreano”, também utilizado para adjetivar ou classificar/catalogar a pessoa nascida no “estado do Acre” ou que “vive no Acre” ou que “escolheu ser acreana”. A partir desse termo, outros – derivados seus – foram e vêm sendo inventados e reinventados: “falar acreano”, “cultura acreana”, “música acreana”, “culinária acreana”, “mercado acreano”, “hino acreano”, “bandeira acreana”, “governo acreano”, “identidade acreana”, “mulher acreana”, “homem acreano”, “orgulho acreano”, “acreanidade”, “cidades acreanas”, “política acreana”, “economia acreana”, “religião acreana”, “desenvolvimento acreano”, apenas para citar alguns. Tais palavras/conceitos foram produzidas ou sub-produzidas por diferentes narrativas, historicamente datadas e articuladas a determinados interesses, intenções ou projetos de grupos sociais e, em seguida, propagandeadas e difundidas de múltiplas e repetidas formas para que parecessem/pareçam e sejam sentidas ou incorporadas como coisas naturais.
Enquanto designação de um sabor azedo, amargo ou enquanto medida agrária, acre não é um dado da natureza, como também não é na forma da designação atribuída a um rio e, bem mais tarde, a uma porção de terras disputada entre o Brasil, a Bolívia e o Peru, que, pela força da persuasão diplomática registrada em acordos, convenções e tratados internacionais passou a configurar como parte do território e da narrativa da nação brasileira. O destaque aqui é para o Tratado de Petrópolis, gestado pelo manuseio e a movimentação de palavras e armas.
Se, na designação de um sabor, que ninguém deseja, ou de uma medida de terra, que muitos desejam, acre não é algo natural, na forma de parte da narrativa da nação também não é, posto que narrativa, produto da experiência e das relações sociais e de poder humanas e, nesse sentido, algo que não brotou do solo, das águas, do ar ou da floresta.
Feitas essas observações mais gerais, pensamos ser necessário ou, no dizer do poeta, “urgente e preciso” submeter o óbvio “Acre”, estado e constituidor de certas “identidades” locais/regionais ao escrutínio da interrogação, começando pela lenda que nos contam desde décadas atrás, turvando as possibilidades de vermos o mundo das margens do rio, grafado Uwa’kürü, Uákiry, Aquiry ou Acre, sob os tons de suas próprias cores, distante das patologias ufanistas e dos brasões, símbolos e insígnias da pátria e seus patriarcas. Lenda essa que Napoleão Ribeiro registrou em uma passagem de seu “O Acre e os seus heróis”, publicado no ano de 1930 (reeditado em 2008), fazendo alusão a uma carta que Gabriel de Carvalho e Mello, um dos colonizadores da Amazônia acreana, enviara à casa aviadora do Visconde de Santo Elias, da cidade de Belém do Pará. Segundo Ribeiro, a missiva teria sido escrita às pressas e “apesar de ter boa letra, tais garatujas imprimiu que a sua carta, no escritório do Pará, passando de mãos em mãos, para se verificar o nome do lugar, foi decifrado – Acre e o Aquiry passou a ser mesmo Acre”.[5]
Em seu ardor patriótico e fantástica imaginação, Ribeiro parecia imbuído do propósito de fazer com seus leitores levassem ao pé da letra o sentido etimológico da palavra lenda que, oriunda do latim medieval, quer dizer “aquilo que deve ser lido”.[6] Seu escrito foi não apenas lido e relido, mas reescrito inúmeras vezes por sócios do Instituto Histórico e Geográfico do Acre (IHGA) e por diferentes escribas da história regional. Um desses escribas, Sílvio Augusto de Bastos Meira, decidido a aprimorar tal ficção, constituiu o cenário com mais alegorias e, trinta e sete após a publicação de Ribeiro, reescreveria tal lenda, enfatizando que, em um dos barrancos do rio Aquiry,
aportou João Gabriel e ali montou o seu barracão, dando origem a um novo “seringal”. Com sua mão áspera escreveu uma carta comercial ao Visconde de Santo Elias, em Belém, solicitando mercadorias. E enviou o novo endereço: João Gabriel, rio Aquiri.
No escritório do Visconde de Santo Elias embalam-se as mercadorias pedidas por esse cliente de lugar tão remoto. Ao ser escrito à tinta azul, nos variados caixotes, o nome do seringalista, surge um obstáculo. O nome de João Gabriel está bem legível, ninguém entende, porém, o do rio por ele indicado: rio Aquiri, rio Acri ou Acre? As letras manuscritas grosseiras resistem a vários exames. Na dúvida, lança-se em grandes letras o endereço que parece mais provável: João Gabriel, rio Acre. Era o rio Aquiri completamente desconhecido. Jamais alguém havia ocupado as suas margens ou explorado o seu curso. João Gabriel, o pioneiro, sem o saber, batizou o novo território a explorar.
Naquela tarde chuvosa de 1877 surgia no escritório comercial de Belém o nome que haveria de designar uma bela e rica região.
[...]
E assim surgiu para a História o nome Acre, corrupção de Aquiri, o rio que dava acesso a um Novo Mundo de riquezas incalculáveis, perdidas outrora nas florestas povoadas de índios. Quando João Gabriel chegou ao Aquiri em 1877, em toda a extensão do curso fluvial viviam tribos indígenas apenas: os Catianas e Maitenecas nas cabeceiras, os Amoacas, Araras, da família dos Nauas, os Canamaris, Catianas, Maneteris e Ipurinás, estes últimos da família dos Aruaques, que se estendiam do Baixo Acre até o vale do Purus.
A pouco e pouco os selvagens viram a sua terra devassada por nordestinos e o seu rio, que antes se chamava Aquiri, passou a ser conhecido pelo nome “Acre”.[7]
Na produção de tal acontecimento, Meira repetia a lenda, agregando cores, sons e uma “tarde chuvosa” à história que difundia como parte da bucólica invenção de um “Acre épico”. Uma invenção que, repetida inúmeras vezes, se tornaria “importante topos da narrativa regionalista da história nacional”, adotando a identidade nordestina como uma espécie de “entidade coletiva”[8] para milhares de diferentes homens e mulheres que invadiram a Amazônia acreana e devassaram territórios e culturas de populações indígenas que habitavam a região, impondo a barbárie da impiedosa exploração de sociedades e natureza como símbolo da “civilização” que avançava sobre os “sertões”. Uma identidade, devemos enfatizar, completamente anacrônica e a-histórica, no dizer de Albuquerque Júnior, “pois não existia a identidade nordestina, nem o sujeito nordestino até o final dos anos dez e os anos vinte”
do século XX.[9]
À anacrônica identidade nordestina, enquanto um dos marcos da invenção do Acre, se fez acompanhar da invenção da lenda em torno da origem do nome do lugar Acre, primeiramente como um rio e depois como um território que abrangia muitos outros rios, terras e florestas, especialmente, que fossem abundantes em árvores de seringueiras. Não temos nenhum interesse e nem acreditamos que faça qualquer sentido acompanhar a obsessão de muitos historiadores pelas origens disto ou daquilo, mas consideramos curioso que os apegados às ideias fixas não tenham se dado conta que, em 1872, portanto, 58 anos antes da publicação de “O Acre e os seus heróis” e 95 anos antes da publicação da “A epopéia do Acre”, a Typographia do Paiz, imprensa de M. F. V. Pires, da Província do Maranhão, publicara o relato de Antonio Rodrigues Pereira Labre, intitulado “Rio Purús”, no qual a grafia do rio que Napoleão Ribeiro e Bastos Meira atribuíram ao erro de um “nordestino” chamado João Gabriel, já aparece literalmente estampada como “rio Acre”, um dos afluentes do Purus em cujas margens, “no tempo da vasante, mostra-se nas ribanceiras grandes quantidades de salitre”.[10]
Esse “desconhecimento” torna-se mais intrigante quando percebemos que o “Relato do Purús” circulou na capital do império e, após 1889, da república, com parte dos escritos de Labre ganhando eco nos “Apontamentos para o Diccionario Geographico do Brazil”, de Alfredo Moreira Pinto, cujo esboço para a primeira edição, datado do ano de 1883, seria publicado pela Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, em 1894. No verbete “Aquiry”, constante dessa edição, Moreira Pinto descreve:
Um dos tribs. da margem dír. do Purús, aff. Do Solímões. E’ o maior de todos os tribs., que lhe augmenta consideravelmente o volume e é navegável durante o inverno até próximo á barra do rio das Pontes. (Chandless). O tenente-coronel Labre deu a esse rio o nome de Acre. “M. Urbano, diz o Dr. S. Coutinho, navegou por elle 20 dias, em canoa regular, pelo verão. Nas margens encontra-se tabaco silvestre e salitre. Acorrente é forte. Muitas tribus habitam em suas proximidades, porém são quasi desconhecidas. Urbano esteve com alguns índios, mas não entendeu-lhes a giria, e conta que são bonitos, bem feitos e barbados. A vegetação nas margens é muito acanhada, e pouco além, por um e outro lado, começam os campos. Os índios usam de machados de ferro, e deram a entender a Urbano que iam compral-os a outras tribus que vivem muito adiante nos campos da margem esq. Aqui as margens do Purús são altas: os terrenos não ficam tão alagados, e assim continúa”. É de agua branca. Nasce na Bolívia. (os grifos são nossos).[11]
O interesse e as disputas pelo controle da economia da borracha envolveram nações, governantes, homens de negócios, políticos e intelectuais e o debate sobre o “batismo do rio Acre” esteve a tal ponto latente, em alguns momentos da primeira metade do século XX, que levou historiadores e especialistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) a se manifestarem sobre essa questão, inevitavelmente, sempre sob o invólucro da preocupação com a verdade científica e certos interesses pátrios. Nessa direção, José Moreira Brandão Castello Branco, em artigo publicado na Revista do IHGB, no ano de 1954, dedica-se a esclarecer que,
Havendo divergência sôbre a origem dêsse famoso rio e quanto à data do início de seu povoamento por João Gabriel de Carvalho Melo, procurei explicar o que havia a respeito, num artigo intitulado O nome do rio Acre [Revista Selva, 1949] e na monografia Caminhos do Acre [Revista do IHGB, 1947].
[...]
Pelo exposto, ficou demonstrado que a denominação de “Acre” para o rio que serviu de epígrafe a essas linhas, já existia antes da viagem de João Gabriel, em 1878, nem foi uma conseqüência dessa jornada, como se pensava, a qual indubitàvelmente, concorreu para que, bem ou mal interpretado o conteúdo da carta comunicando o abastecimento, se o divulgasse mais ràpidamente, em vista do povoamento daquela ribeira, e do intenso comércio que se estabeleceu com as praças do Pará e Manaus. Pela própria correspondência translada acima e datada do “Rio Purús”, desde 1877, o seu autor não fala em rio Aquiri, e sòmente em Acre, e, como regularmente redigida e anônima, não é incabível que se atribua ao referido Antônio Rodrigues Pereira Labre, o explorador mais inteligente, mais expedito e mais letrado da bacia puruense, ali residente, e o maior interessado no seu progresso, como se depreende de sua constante atividade.[12]
Como quem busca colocar um ponto final sobre a questão da origem do batismo do “rio Acre” e da data do início de sua colonização, Castello Branco economiza nas palavras e remete os leitores não apenas aos seus escritos e publicações anteriores, mas a uma plêiade de outros documentos e autores com os quais “esfumaça” a lenda em torno da carta de um “bandeirante” semi analfabeto ou, nas palavras de Leandro Tocantins, do “pobre moço da serra de Uruburetama”,[13] que invadiu e se apossou de imensas áreas de terras nas cobiçadas fronteiras amazônicas das últimas décadas do século XIX. Invasão essa marcada por um tipo de lógica muito conhecida nos processos de expansão ocidental para as Áfricas, pois no seu cerne prevalecia a noção de que “nem todos os homens têm os mesmos direitos”, como escreve Achille Mbembe: para os “civilizados” predomina certo direito de “dominar os não civilizados, de conquistar e de subjugar os bárbaros, devido à sua intrínseca inferioridade moral, de anexar as suas terras, ocupá-las e explorá-las”.[14]
Com “raízes embraquecidas”, a formação histórica do Acre, de Leandro Tocantins, em suas duas primeiras edições, também reproduziu a lenda da “carta de batismo” do rio “Acre”. No prefácio à “edição especial”, datada do ano de 1973, passados mais de cem anos da publicação do “Rio Purús”, de Labre, o paraense-acreano Tocantins mantinha inalterada a versão inicial de seu livro, “sempre servido da verdade do documento”.[15] No entanto, nos anos seguintes descobriria que sua “verdade dos fatos” estava com a data de validade vencida e, em 1979, no prefácio à terceira edição (publicação resultado da parceria entre o Instituto Nacional do Livro, o governo do estado do Acre e a Editora Civilização Brasileira), apresentaria a seguinte nota explicativa sobre “a origem do nome Acre”:
Nas edições anteriores de Formação Histórica do Acre, em nota preliminar sob o título A ORIGEM DO NOME, transmitia-se a versão corrente, em vários documentos de que ACRE teria surgido quase por adivinhação de quem procurava ler, na Casa Aviadora do Visconde de Santo Elias (Belém do Pará), carta que o cearense de Uruburetama, João Gabriel de Carvalho e Mello (o primeiro a estabelecer-se na região do rio Acre), escrevera, solicitando mantimentos para assegurar a posse da terra e uma grande produção de borracha. João Gabriel era homem de poucas letras. Daí o nome AQUIRY (pronúncia proparoxítona, na língua dos índios Apurinas), muito mal escrito, ser traduzido para ACRE, popularizando a corruptela. Acontece, porém, que o autor deste livro recebeu (carta de Campinas, em 11-9-1975) do Professor Luiz Antônio Pompeu de Camargo, Coordenador Associado do Campus Avançado de Cruzeiro do Sul, Acre, e do jurista de Rio Branco, Dr. Lourival Marques de Oliveira (correspondência de 1977), duas notícias semelhantes: O Diário Oficial do Império, de 31 de maio de 1913, ao transcrever notícias das Folhas do Amazonas, já citava o rio Acre. Cinco anos antes, portanto, do estabelecimento de João Gabriel nesse rio, em março de 1878, o Professor Pompeu de Camargo que residia 2 anos e 4 meses em Cruzeiro do Sul, desempenhando a função de Diretor do Campus Avançado (Projeto Rondon – Universidade de Campinas), também remeteu ao autor Xerox de uma página de O Juruá, órgão da imprensa de Cruzeiro do Sul (n° 153, de 31-1-1970), onde se comprova o nome ACRE, já citado em 1872 pelo grande sertanista e desbravador do Purus Cel. Antônio Pereira Labre. Em homenagem à imprensa acreana, menciona-se aqui, O Juruá, como veiculador da notícia que coloca definitivamente na História a versão exata dos fatos. Assinale-se que, antes, em O Juruá, de 1°-5-1966, o Professor João Mariano já se pronunciara, à luz de documento, a favor da primazia do Cel. Pereira Labre em mencionar o nome ACRE, aportuguesando, assim, o topônimo indígena AQUIRY.[16]
Leandro Tocantins sinaliza com um gesto de grandeza e humildade ao reconhecer que sua “verdade anterior” foi suplantada por “outra verdade”. Porém, trata-se de um gesto limitado a algumas linhas escritas em uma nota de rodapé na qual sequer reconhece que a “nova verdade” era centenária e antecedia mesmo à sua obra acerca da “triunfal” formação histórica do Acre. Para não deixar dúvidas quanto ao seu positivismo exacerbado, ao invés de adotar as narrativas que lhe foram enviadas como evidências de ruptura com um saber e um conhecimento histórico que tinha como algo inalterável, as insere em seu texto como uma “versão exata” e definitiva “dos fatos”.
Essa abordagem de Tocantins e de todos aqueles que o acompanham na esteira desse tipo de interpretação e controle da “verdade histórica” é, na feliz acepção de Albuquerque Júnior, algo demasiadamente tirânico, posto que, “a partir dos sinais deixados pelo passado” procuram construir e impor uma “verdade definitiva” e não uma interpretação, uma possibilidade de interpretação histórica. A imposição de uma “verdade dos fatos históricos”, uma “verdade isenta e imparcial” é o que proclama o autor de Formação histórica do Acre, em uma perspectiva que é autoritária porque se alimenta da “história das certezas”, solapando “qualquer perspectiva democrática que nasce do respeito às diferenças e não a uma hierarquia de identidades instituídas”.[17]
Qual é a diferença que faz saber se foi João Gabriel ou Labre o primeiro “desbravador” a denominar de “rio Acre” o “mundo natural” que os Apurinã chamavam de Uwa’kürü, Uákiry ou Aquiry? Qual é a diferença que isso faz, especialmente, quando sabemos que Uwa’kürü, Uákiry ou Aquiry, assim como Acre, são grafias dos próprios “desbravadores” ou dos escribas desses devassadores de rios, florestas e gentes? Qual é a diferença que faz se sabemos que Labre, João Gabriel e tantos outros “amansadores de deserto” eram movidos pelos mesmos interesses econômicos, definidores de seus amores a pátrias e patrões? Quantas incursões pelos rios da região foram feitas – deixando ou não relatos escritos – ou quantas incursões e devassas culturais foram necessárias até que se chegasse a essa grafia “Acre”, com aventureiros e exploradores de diversas nacionalidades se cruzando com os diferentes grupos étnicos da região, conversando e procurando se entender em suas línguas e códigos? Quantas experiências nos rios e florestas com homens, mulheres, palavras, produtos e mercadorias transitando e produzindo diferentes rotas foram necessárias para o ato de batismo do rio “Acre”?
Não cremos que essas problemáticas possam ser respondidas com a obsessiva procura pelas origens, tradições, identidades, continuidades, verdades dos fatos, fundamentalmente, porque no âmago da “história dos vencedores”, na Amazônia acreana, o que fica latente é o seringalismo, que, de acordo com João Veras Souza, implicou na “racialização dos sujeitos indígenas e seringueiros, de modo a considerá-los, especialmente para efeito de suas explorações e domínios, como, respectivamente, não humanos e sub-humanos”, algo que funcionou “como elemento legitimador da dominação e da exploração moderno colonial na região”.[18]
A origem do nome “rio Acre” foi transformada em ponto de partida para “Acre”, “acreanidade” e “acreano” ou, como agora “manda” a norma da língua portuguesa, “acriano”. Uma origem que historiadores e outros escribas da “saga épica” – responsável pelo esticamento e expansão das fronteiras e narrativa da nação para essa parte do globo – acreditam ter brotado do erro de um cearense iletrado ou da intrepidez de um maranhense letrado. Uma crença que foi transformada em “versão exata dos fatos”, em um exercício prático de eliminar ou tornar invisível outras possibilidades de diálogo com as experiências de milhares de mulheres e homens que foram jogados nas margens do espaço/tempo da história.
A crença na “versão exata dos fatos”, exaltada por Leandro Tocantins em obra reeditada pelo Senado Federal como parte das celebrações dos “500 anos de Brasil”, atualiza esse “rito de batismo” enquanto amálgama de distintos processos históricos: “Acre” (dos “nordestinos” ocupando seus “sertões vazios e solitários”), “Acre” (estado independente), “Acre” (dos brasileiros do “Acre”), “Acre” (da “Revolução Acreana”), “Acre” (do Tratado de Petrópolis); “Acre” (Território Federal), “Acre” (do Movimento Autonomista), “Acre” (dos acreanos), “Acre” (estado autônomo da federação brasileira), “Acre” (dos “Povos da Floresta”), “Acre” (da florestania”), “Acre” (da sustentabilidade), “Acre” (do “melhor lugar” para se viver), “Acre” (do orgulho de ser acriano), entre outras invenções desse porte que apareceram/aparecem ou desaparecem/reaparecem no interior do campo de forças e das relações de poder que as institucionalizam em ordenamentos discursivos secularmente datados: “não se pode falar qualquer coisa em qualquer época”.[19]
Esses distintos “Acre(s)” não existem e jamais existiram enquanto “realidade concreta”, mas tão somente enquanto enunciados que nada revelam, isto é, que não têm como encontrar seus supostos referentes em espaço/tempo algum. Trata-se de um conjunto de práticas discursivas, lançando mão das reflexões de Foucault, e as práticas discursivas não são um amontoado de palavras e seus referentes, pois as palavras não são a mera representação da realidade. As práticas discursivas têm suas próprias regras e essas regras desfazem “os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas”. Essas regras, insiste Foucault, “definem não a existência muda de uma realidade, não o uso canônico de um vocabulário, mas o regime dos objetos”. Mais que isso, para esse pensador francês o desafio ou tarefa que se apresenta é a
que consiste em não mais tratar os discursos como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos, mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse “mais” que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever.[20]
Na clareira aberta por tais reflexões, não nos interessa analisar certas “realidades acreanas” – ou o conjunto de escritos e imagens que supostamente representariam essas realidades – como se elas estivessem ali, desde sempre, passíveis de representação. Ao contrário, pensamos que é necessário superar a alienação que nos acomoda a um lugar que não existe, a um Acre narrado como um dado objetivo, um dado natural, com uma cultura, uma identidade, uma história, um tipo de gente, uma vegetação, uma fauna, uma fronteira, um pretensioso modelo de desenvolvimento sustentável para si e para o mundo. Acreditar em toda essa parafernália discursiva nos torna seres alienados, sem saber quem somos, onde estamos, de onde viemos ou para onde queremos ir.
A identidade acreana, assim como a identidade nacional e a regional nada mais são que construções mentais, retornamos a Albuquerque Júnior, para quem esses tipos de identidades
são conceitos sintéticos e abstratos que procuram dar conta de uma generalização intelectual, de uma enorme variedade de experiências efetivas. Falar e ver a nação ou a região [ou o estado, a cidade, a floresta, o rio] não é, a rigor, espelhar estas realidades, mas criá-las. São espaços que se institucionalizam, que ganham foro de verdade. Essas cristalizações de pretensas realidades objetivas nos fazem falta, porque aprendemos a viver por imagens. Nossos territórios existenciais são imagéticos. Eles nos chegam e são subjetivados por meio da educação, dos contatos sociais, dos hábitos, ou seja, da cultura, que nos faz pensar o real como totalizações abstratas.[21]
À guisa de conclusão, ressaltamos que “Acre” é algo que não encontra referente em espaço/tempo algum, em coisa alguma, em região, floresta rio ou cidade alguma: é somente um enunciado. É algo que foi naturalizado pelas estratégias e acervos de imagens e palavras que o inventaram e reinventaram, decantando-o e repetindo-o inúmeras vezes, objetificando suas características, cores e identidades como partes indissociáveis dessa invenção. Uma invenção ancorada na estética amazonialista que é essa estética do vazio – desértico, distante, dependente, solitário, isolado, insalubre, vítima – que governa nossas subjetividades. Uma estética que precisa ser problematizada em outras escritas sobre os mundos que habitamos. Escritas essas que, nas palavras de Albuquerque Júnior, privilegiem
tudo o que remete ao sabor acre, a escrita de uma história que sabe a acre, ou seja, uma história ácida, não necessariamente azeda, [...], capaz de cortar todas as certezas e verdades, de ferir os bem pensantes e os bons pensamentos. [...] É preciso, para isso, que os historiadores estabeleçam uma outra relação com a linguagem, rompam com a visão de que a linguagem é um espelho ou um mero instrumento de expressão, é preciso que deixem de acreditar ainda que as palavras dizem as coisas, realisticamente. Uma historiografia que nos faça manter uma relação problemática com as memórias, com as lembranças, tornando nossa relação com o passado distanciada e crítica, longe de saudosismos e nostalgias, mesmo as populistas. Uma historiografia capaz de nos afastar da adesão aos códigos que regem nossa cultura, capaz de problematizar os conceitos que nos definem e que nos servem para dizer e inventar o mundo à nossa imagem e semelhança. É preciso a construção de um discurso historiográfico áspero, seco, que não seja fácil de ser tragado, que incomode a quem lê e também a quem produz. [...] É preciso escrever um texto historiográfico que fira, que provoque dor ao trazer para a cena os eventos e personagens que foram feridos, magoados, que doloridos viveram vidas de resto e de rastro. Uma história que trate dos homens e mulheres que viveram vidas ásperas e rústicas. [...] Uma escrita historiográfica que perturbe nosso pensamento e nossos sentimentos, que nos faça pensar e sentir diferentes, uma história que nos desencaminhe mais do que nos oriente. [...] A história acre embora amarga não é aquela que busca fazer chorar, mas aquela que busca contorcer, distorcer e torcer os sentidos e os significados hegemônicos para a vida e para morte...[22]
Precisamos produzir escritas de sabor/saber acre, escritas capazes de destruir esse “Acre” que nunca existiu, esse “Acre” objetivado por certa narrativa, esse “Acre” ensinado e atualizado pelo conjunto de instituições que, dia e noite, trabalham a serviço da ordem. Precisamos produzir outras escritas, capazes de alterar a vida que vivemos, capazes de nos ajudar a redefinir nossos “territórios existenciais”, nossas escolhas, nossas experiências em um mundo que subjuga a vida a um mero conjunto de palavras, mercadorias e imagens sem significado, destinadas ao consumo e ao descarte imediato. Precisamos produzir essas outras escritas, social e eticamente comprometidas com as lutas para mudar a aparente “ordem natural” da história de violências e injustiças contra as humanidades e naturezas dos espaços/tempos que habitamos.

REFERÊNCIAS
ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. A invenção do Nordeste e outras artes. – 4. ed. – São Paulo: Cortez Editora, 2009.
ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. Por uma história acre: saberes e sabores da escrita historiográfica. In: ALBUQUERQUE, G. R.; ANTONACCI, M. A. Desde as Amazônias I – colóquios. Rio Branco (AC): Nepan Editora, 2014, pp. 111-133.
ARAÚJO, A. P. Mito ou lenda? In: InfoEscola – navegando e aprendendo. Disponível em https://goo.gl/XHynF. Acesso em 19 de maio de 2016.
CARNEIRO, E. A. O discurso fundador do Acre(ano): história e linguística. Rio Branco (AC): EAC Editor, 2016.
CASTELO BRANCO, J. M. B. O rio Acre. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB. v.225, out./dez/1954. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1955, pp. 294-298.
CUNHA, A. G. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon Editora Digital, 2007.
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves – 6. ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
LABRE, A. R. P. Rio Purús – notícia, 1872. In: ROCHA, H. Coronel Labre. São Carlos (SP): Editora Scienza, 2016.
MBEMBE, A. Crítica da razão negra. Tradução de Marta Lança. Lisboa: Antígona, 2014.
MEIRA, S. A. B. A epopéia do Acre: batalha do ouro-negro. Rio de Janeiro: Record, 1967.
MICHAELIS, Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Disponível em https://goo.gl/H45bSX. Acesso em 17 de maio de 2016.
MOREIRA PINTO, A. Apontamentos para o Diccionario Geographico do Brazil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1894.
RIBEIRO, N. O Acre e os seus heróis: contribuição para a História do Brasil, Brasília: Senado Federal 2008 [1930].
SOUZA, J. J. V. Seringalidade: a colonialidade no Acre e os condenados da floresta. Florianópolis (SC): UFSC, 2016. (Tese de Doutorado em Ciências Humanas).
TOCANTINS, L. Formação Histórica do Acre. – 4. ed., v.1 – Brasília: Senado Federal, 2001.

GERSON RODRIGUES DE ALBUQUERQUE
Doutor em História Social (PUC-SP, 2001)
Professor da Universidade Federal do Acre
Centro de Educação, Letras e Artes



[1] Cunha, Dicionário etimológico da língua portuguesa, 2007.
[2] Michaelis, Dicionário brasileiro da língua portuguesa.
[3] Embora partindo de uma abordagem diferente da nossa, um importante e indispensável estudo sobre os signos “Acre(s)” pode ser encontrado em Carneiro, O discurso fundador do Acre(ano), 2016.
[4] Michaelis, Dicionário brasileiro da língua portuguesa.
[5] Ribeiro, O Acre e os seus heróis, 2008, p. 38.
[6] Araújo, Mito ou lenda? 2016.
[7] Meira, A epopéia do Acre, 1967, pp. 12-14.
[8] Albuquerque Jr., Por uma história acre, 2014, p. 126.
[9] Idem.
[10] Labre, Rio Purus, 1972. Cf. Rocha, Coronel Labre, 2016, p. 147.
[11] Moreira Pinto, Apontamentos para o Diccionario Geographico do Brazil, 1894, p. 124.
[12] Castello Branco, O rio Acre, 1954, pp. 294 e 298.
[13] Tocantins, Formação histórica do Acre, 2001, p. 179.
[14] Mbembe, Crítica da razão negra, 2014, pp. 110-111.
[15] Tocantins, Prefácio à segunda edição de Formação histórica do Acre [1973], 2001, p. 13.
[16] Tocantins, Prefácio à terceira edição de Formação histórica do Acre [1979], 2001, p. 15.
[17] Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste e outras artes, 2009, p. 350.
[18] Cf. Souza, Seringalidade, 2016. Ver também o verbete “Seringalismo”, parte constante deste
fascículo.
[19] Foucault, A arqueologia do saber, 2000, p. 51.
[20] Foucault, A arqueologia do saber, 2000, p. 56.
[21] Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste e outras artes, 2009, p. 38.
[22] Albuquerque Jr., Por uma história acre, 2014, pp. 128-130.