sábado, 20 de janeiro de 2018

AS QUATRO ESTAÇÕES DA MORTE

Fátima Cordeiro 


         Um mendigo a vagar pelas ruas de Viena, gritando.
         - Un piatto di cibo, per l'amor di dio!
         - Ora, ora, vejam quem está aqui! – disse ao padre ruivo.
      - Não sei do que está falando! – defendeu-se do nada o pedinte e depois continuou sua cantilena.
      - Um prato de comida, pelo amor de Deus!
      - Sou apenas um pobre miserável a vagar pelos campos e admirando a primavera. Ela chegou! Os pássaros celebram a sua chegada em canções festivas. Os riachos murmuram docemente e os trovões vestem o céu com um negro manto, assim como a minha vida. – filosofava o mendigo.
       - Bravo, bravo. Percebe-se que ainda és um destemido sonhador! – indagou sorrindo o padre ruivo e seguiu seu caminho.
      Alguns que o ouvem lhe jogam parcas moedas. O mendigo caminha com dificuldade, ora grita, ora murmura, parece olhar para um vazio, para muito além das ruas.
      Certa noite, ele desceu as ladeiras das ruas, recitando, para uma certa dama chamada Anna. Seus versos soavam como os ventos ameaçadores, tal como a violenta tempestade que transformou o seu destino. Beijos roubados com medo dos castigos de Deus.
      Enquanto ele recitava, ele pensava em sua boca de forma carnal, pecaminosa, suja.
      - Perdão Deus, perdão, mas o desejo devora a minha alma, consome a minha razão!
       Naquela noite, o mendigo dormiu no prado cheio de flores, com ramos cheios de folhas, entre um rebanho de cabras. Um fiel cão pastor vem dormir ao seu lado. Sonhou, em companhia dos ratos, com o som festivo das gaitas de foles, ninfas e pastores dançavam levemente na festa da primavera.
       Amanheceu, as pessoas se apressam para algum destino, o sol está muito belo e brilhante no céu azul. O mendigo não tem para aonde ir.
      - Un piatto di cibo, per l'amor di dio!
      - Um prato de comida pelo amor de Deus!
      Sobre uma estação dura de um sol escaldante o homem descansa.
      - Orate, fratres, orai irmãos, agnus dei, agnus dei, cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo, tende piedade de nós, cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo, dai-nos a paz.
      - És louco, como podes falar das coisas sagradas desta forma? Que blasfêmia! – exclama um passante.
      - Tu preferes música a que fale em Deus?
       Ouvem-se então as canções doces da pomba. Doces aragens agitam o ar... Mas os ventos ameaçadores do norte subitamente aparecem. O pastor pedinte treme, temendo a violenta tempestade e o seu destino.
      - Uma inspiração bem na hora sagrada qual um tormento... Que pecado! Prefiro a inspiração que se perde com o vento, não posso deixá-la ir, pois veio ao meu encontro, minha respiração é a inspiração.
      - Minha culpa, minha tão grande culpa.
      Com dificuldades caminha. O medo dos relâmpagos e ferozes trovões rouba o descanso aos seus membros cansados. As moscas voam zumbindo furiosamente. O lixo das ruas escuras se confunde com a escuridão de sua alma.
      Apenas um sopro, um som o separa das graças de Deus. Infelizmente, os seus receios estavam justificados, os trovões rugem e majestosamente cortam o milho e estragam o grão.
     A música embala o mendigo.
     A música alimenta o mendigo.
     A música é o pecado do mendigo.
     Uma grande muralha divide os palácios luxuosos de ouro da miséria humana, da sujeira espiritual, dos desvalidos, dos sem medalhas, dos sem pátria, dos sem títulos, dos sem dotes, dos abandonados, dos sem alma...
      Não se sabe o porquê, então, um aleijado passa pelo mendigo vestido com uma capa, meio escondido, cego e com um cajado. Ninguém o vê, apenas o mendigo que o reconhece:
      - Monge Hermano!
       Este apenas lhe diz sorrindo:
      - Salve rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!
       A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
      A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
      Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro nos mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre.
      Aproxima-se de um pequeno chafariz e molha o seu rosto quente.
      A febre alta lhe traz devaneios e alucinações. São cavalos alados. Misturam-se numa dança celestial, celebram com canções e danças.
     A felicidade de uma boa colheita.
     Cavalo negro,
     Cavalo cor de fogo,
     Cavalo esverdeado,
     Cavalo branco.
     Todos esquecem as suas preocupações, cantam e dançam.
     O ar está temperado com prazer e pela estação que convida tantos, tantos a saírem do seu recobro para participarem e se divertirem. O tempo passa e o mendigo parece sofrer muito com uma respiração ofegante. Uma dor no peito. Um espírito angustiado nas madrugadas...
      Os caçadores aparecem com a madrugada. Com trompetes e cães, além de espingardas começando a sua caçada. A caça foge e eles seguem o seu rasto, ela aterrorizada e cansada de tanto ruído. De espingardas e cães, a caça, ferida, morre.
     Sem posses e abandonado, o mendigo misterioso sofre e é acolhido por uma viúva artesã. Mora de caridade, numa modesta casa. Anônimo. Com o passar dos dias, a luz lhe parece mais distante, mais sombria.
     O tempo muda lentamente. Chega o inverno. A saudade lhe visita sempre. Até dos inimigos tem saudades.
     - Aquele cretino do Benedetto... Bem que deveria ter dado-lhe um soco!
     Saudades do luxo de outrora.
     - Por onde andarão os meus irmãos?
     Ah! Doce recanto de virgens belas.
     - Maria nossa mãe, tenha piedade de mim! Queria apenas cantar a vida, a natureza, o belo de Deus que aqui se faz.
     A música é o meu refúgio, a única forma que tenho para traduzir as maravilhas do sagrado.
     Sinto-me inquieto, como se o tempo fosse um pequenina chama de vela acesa ao ponto de apagar-se...
      E, pressa, tenho muita pressa e necessidade da contemplação ao mesmo tempo, da extravagância, do imediato, do finito, do profano...
     - Uma vontade de dar glória, glória, glória, glória a Deus nas alturas, no entanto, meu corpo já não corresponde meu espírito cansado.
     - Essa agonia, esse desejo sufocado, oh Deus, o que fiz de minha vida?
     - O que a vida fez de mim?
      - Tanto eu queria Te servir, mas preferi servir aos homens e seus enganos fúteis, onde tudo tem um valor.
      Meu espírito abatido chega a ti em súplicas. Enquanto houver fagulhas de teu sopro divino, ainda restará esperanças para os que o temem.
     - Queria que me ouvisse no alto do céu, meu coração atormentado e juvenil de outrora, agora, abandonado.
     - Quantas vezes, chorando, orei a ti o salmo 38 de Davi: ‘‘Não me repreendas, Senhor, na tua ira, nem me castigues no teu furor.
     Cravam-se em mim as tuas setas, e a tua mão recai sobre mim. Não há parte sã na minha carne, por causa da tua indignação; não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado. Pois já se elevam acima de minha cabeça as minhas iniquidades; como fardos pesados, excedem as minhas forças. Tornam-se infectas e purulentas as minhas chagas, por causa da minha loucura”.
     Ele, tremendo de frio, no meio de cortantes ventos.
     Os dentes tremem de frio. Descansa contente na sala, enquanto os que estão fora são atingidos pela chuva que não para.
      Andamos com cuidado no caminho gelado com medo de escorregar e cair.
      Depois voltamos abruptamente e com cuidado, mas caímos no chão e atravessamos o gelo enquanto não se quebra.
      Voltamos a sentir o cortante vento norte apesar das portas fechadas.
      Isto é o inverno que não obstante tem as suas delícias.
      Vivo a mendigar o pão que, em outros tempos, era farto.
      Desfruto da angústia! Preciso de ar. Pega a sua bíblia, corroída pelo tempo, guardada numa maleta velha de couro. Emociona-se, quando reconhece a caligrafia de seu pai escrito:
À meu filho Antônio Vivaldi com amor,
Giovanni Battista Vivaldi,
Veneza,1963.
      Então, um fiapo de voz, lê com muita dificuldade, o salmo 143, como uma despedida.
     - “Ó senhor Deus, ouve a minha oração!
           Escuta o meu pedido.
           Responde-me, pois és fiel e bom.
           Não julgues a mim, este teu servo,
        ...Ele me pôs numa prisão escura,
        …E eu sou como aqueles que morreram.”
         Ouço a tua música aos meus ouvidos. É um som refrescante, tem cheiro de rosas brancas...
        Sente-se sonolento, ao mesmo tempo, feliz.
        - Quem será ele?
        - Não tem nome.
        - Deve ser um coitado qualquer sem estirpe!
        - Está morto...
        - Olhem, tem algo na suas roupas.
        - Parece uma... medalha de ouro!
        - Ouro?
        - Ele era um cavaleiro?
        - Quem sabe... Pode ter sido roubada.
     Foi enterrado como um indigente.
     Uma gôndola navega no céu de Viena.
     Um violinista mascarado o espera lá dentro. É o seu pai. Que lhe entrega o instrumento. 
     Antônio toca, divinamente, não há tristezas, não há mais alegrias, não mais ilusões, não há mais vaidades, eles continuam a navegar até os altos do céu. 


*Fátima Cordeiro é autora do livro de poesias Sementes de mostarda (2016). Tem passagem pelo cinema e pelo teatro acreano.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Em memória de MEU AMIGO RADIALISTA JOSÉ DE SOUZA LOPES

Gilberto A. Saavedra – Rio de Janeiro.


Nesta passageira vida de todos nós, felizmente há tempo de ocorrerem muitas coisas boas, pois as que não são é melhor a gente esquecê-las.

Eu tenho muitas histórias para contar. Eu narro muitas delas que aconteceram comigo, não com o efeito de esnobação, soberba, pois nenhuma delas, aliás! não fiquei mais prestigiado e nem rico.

Mas uma coisa eu senti! “FELICIDADE”, como qualquer ser humano normal naquele momento sentiria.

Gostaria de ter convivido mais um pouco com esse grande profissional e colega (amigo do peito). Infelizmente nos deixou muito cedo.

Vou narrar resumindo, um pouco dessa franca amizade, que nasceu do fruto do esforço; do reconhecimento do trabalho, daquilo que é feito com esmero, com carinho e competência. Sem ambição e sem maldade. É apenas uma singela homenagem a este extraordinário radialista do Acre, pois não disponho de outro meio.

JOSÉ DE SOUZA LOPES, o nosso ZÉ (era carinhosamente assim chamado por todos), teve a ideia (uma difícil proeza) de transmitir pelas ondas da Rádio Difusora Acreana, o meu enlace matrimonial. Façanha complicadíssima, pois naquele tempo, (Década de 1970) não existia essa extraordinária tecnologia de celular, quanto mais internet.

O ZÉ (ele mesmo) à frente de João Nascimento (técnico) e mais alguns funcionários do setor de apoio da rádio, tiveram o encargo na preparação da fiação nos postes, começando na emissora até à casa da noiva no bairro da Cerâmica; uma distância bem razoável (ponha fio nisso).

Ficou acertado com os pais da noiva (Alany Mesquita), que durante o trabalho de colocação dos fios nos postes, a equipe ficaria almoçando na casa da noiva.

Passado um mês e o trabalho não terminava, então, fui perguntar ao meu diretor:
– ZÉ, o que está faltando para a transmissão do casório? Ele respondeu, rindo!
– Saavedra, é a culinária saborosa da tua sogra que está dificultando o acabamento.

O José Lopes era assim mesmo; brincalhão, simples, trabalhador de primeira grandeza, honesto, educado, amigo para valer. E não se engane: inteligente, de uma cultura fora do padrão normal.

ZÉ, meu amicíssimo, você foi muito legal. Eu sei disso desde o nosso tempo de rádio, mas só agora, decorrido esta vida toda, é que eu plenamente, estou reconhecendo o valor, do que você fez por mim.

Quero te pedir desculpas pela singela homenagem, mas é de coração. Obrigado pela transmissão do casório. Deu certo! Acho que Dom Giocondo Maria Grotti (bispo que celebrou o casamento) com suas milagrosas mãos nos abençoou. (Quase 50 anos decorridos). Obrigado por tudo. Você foi um amigo que muitos gostariam de ter.

Na foto
1 – Na frente de óculos - Garibaldi Brasil (Jornalista e Advogado);
2 – Natal de Brito (Radialista);
3 – João Lopes (Radialista e irmão do Zé);
4 – Elzo Rodrigues (Jornalista);
5 –José Lopes (Radialista e Advogado);
6 – ( ? ) Estou c/ o nome na boca...)
7 – Ênio Aires (Deputado Estadual – Presidente da Assembleia);
8 – Gerardo Madeira (Jornalista).

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

MEU ENVOLVIMENTO COM O CORDEL

Jorge Carlos Amaral de Oliveira 


Numa de minhas viagens pela BR 364, no tempo dela em barro, quando para se chegar mais rápido, ia-se trocando de carona de atoleiro em atoleiro, peguei uma carona com o senhor Zezinho e ia pensando que uma boa maneira de retribuir a gentileza seria dedicar-lhe uns versos, para além de bater os pneus, verificar o óleo, limpar o para-brisa ou servir de companhia, combatendo a solidão da estrada e a tortura do sono. O tema para os versos seria as diferentes coisas e costumes das terras por onde íamos. Começou assim, o que chamei de Do Norte e do Sul, meu primeiro cordel:

“Seu” Zezinho me levou
Na boleia do “alfão”
Lhe dedico esses versos
Com muita admiração
Pois é um grande motorista
Esteio desta Nação

De Norte a Sul viajando
Comecei a reparar
Que as coisas mudam de nome
Dependendo do lugar
Às vezes, mudam as coisas
E, algumas, vou comentar

Ia por aí... até falei da jabuticaba, minha tão bem conhecida, me vingando dos cupuaçus e graviolas que provocavam risos com o meu estranhamento e que hoje todo mundo conhece com a globalização.

Quando voltei da viagem, procurei os amigos gráficos da UFAC e imprimimos uns cem exemplares da brincadeira. Outras ideias vieram e rapidamente saiam para as ruas e bares vendidas de mão em mão. E olha, que durante pelo menos um ano e meio, comi graças aos livretos de cordel. Até dizia que, no Brasil só eu e o Jorge Amado vivia de literatura, guardando as devidas proporções. Ele, o outro Jorge, comia bem.

Tudo podia servir de tema. Até uma briga conjugal terminou em versos onde entrei com sextilhas e a mulher com quadras. Foi o deleite do público que pagava para saber mais detalhes do que o que a imprensa só noticiava superficialmente.

A política era um bom tema. Para ludibriar a censura com o Transformações, juntei no mesmo livreto o Sou Homem de Xapuri, Cabra Macho Pra Lascar, que dissertava comicamente sobre o fato de Xapuri ser a cidade do Acre eleita para as gozações sobre as opções sexuais dos homens nela nascidos.

Apertos mesmo, só os passei quando editei o A Guerrilha do Araguaia, de Raimundo Nonato da Rocha, poeta de Brasiléia, de quem já havia editado o Espártaco. Esses dois tive que os fazer praticamente sozinho e a distribuição era feita muito na calada até que sofri uma ameaça quando divulguei o A Guerrilha... no I Encontro de Escritores de Rondônia. Disseram que não poderia vendê-los ou... um tapa de leve na cara foi um bom pretexto para desistir da venda durante o encontro e entregar todos os exemplares para o pessoal da resistência camponesa que os distribuiu gratuitamente em Guajará-Mirim. Saiu melhor que a encomenda.

Durante um Congresso Nacional de Professores, em Vitória, Espírito Santo, a verba que o Estado destinara para a participação acreana emperrou-se na burocracia. Como muitos dos participantes tinha levado castanha que serviriam para troca de mimos com participantes de outras regiões do país, resolveu-se colocar à venda numa banca à porta do auditório. Rapidamente, saíram alguns versos de criação coletiva falando dos valores nutritivos da Castanha do Brasil (antiga do Pará), que os palhaços Tenorino (Dinho Gonçalves) e Trimpulim (eu) cantamos apregoando. De volta, saiu o livreto De Como Quando e Porque o Professor Acreano Vendeu Castanha. A renda foi entregue à Associação dos Professores para não depender tanto da burocracia estatal em outros eventos. 

Do meu tempo de cordel fica o eterno agradecimento aos operários da gráfica universitária que muitas vezes se viam obrigados a fazer o serviço às escondidas, em horas mortas. Também ao saudoso Nivaldo, da gráfica da Fundação Cultural do Acre. E aos mimeógrafos!