sábado, 19 de junho de 2021

A LEI DO RETORNO

Leila Jalul


Entrevistada por uma moça que fazia doutorado, me foi perguntado sobre onde nasci, idade, filiação etc. Vamos chamar de ficha técnica. Nasci no Acre, mas gostaria de ter nascido nas Rochosas. O calor daqui arrebenta com os meus fogachos.

Nem só por esta razão. Sempre fui medrosa, espantada, ouvidos sensíveis, pavor de cobra, de macaco gogó de sola, aranha caranguejeira, calango elétrico e briba, vulga taruíra ou “largatixa”. Tudo isso tinha de monte por aqui. Sem contar com as assombrações e fogos-fátuos nada raros de aparecerem.

As assombrações nem sempre eram de verdade. Vez por outra, o Duca, irmão da Dona Consuelo, resolvia fazer marmotagens na Floriano Peixoto, colocando uma capa preta fingindo ser visagem. Quase causa uma tragédia com ele mesmo. Por pouco não levou um tiro do Doutor Matoso, o boticão.

Nem por todo esse acumulado de problemas, deixei de gostar da minha casa e dos meus amigos. Não temia sair depois de escurecer. Nas cercanias, fui vendo, ouvindo e sentindo o passar dos dias, as meninas ficando moças, os meninos criando bigodes e engrossando a voz. Poucas ambições, muitos sonhos e desejos.

Na pauta, martelava a ideia de aprender violão. Aprender violão com o Professor Aníbal Brasil, o Dilermando Reis do Acre. Era o professor da Zilde, filha do Seu Sabino e da Marísia Castro, filha do Zé Fontenele mais a Dona Marieta Mapirunga. E cadê dinheiro para pagar o professor? Não me deram crédito, nem violão!

Tudo bem, pensei, tem gente que toca de ouvido, tem gente que toca por música, eu vou aprender de olho. E ficava ali, horas seguidas escutando Abismo de Rosas e a Marcha dos Marinheiros. No meu primeiro salário, um violão preto e verde. Aprendi pouco, mas sabia dar o tom.

Acontece que, nem preciso falar, instrumentos de corda e sopro atraem cobras. E eis que, num belo dia, depois dos exercícios noturnos, me aparece uma surucucu facão. Saiu de debaixo do sofá, fingindo que não me conhecia. Não deu outra. Fiz o escândalo.

– Pai, pelo amor de Deus, corre aqui. Uma cobra. É surucucu facão. Venha logo!

– Calma, minha filha, não tenha medo, uma cobra não morde a outra!

A bicha foi embora, sem nem olhar para trás.

Não muito tempo depois, Seu Manoelzinho, correndo para pegar de cinta meu irmão, cai certinho no canil de um vira-lata doido, chamado Tigre. Arrebentou-se todo, mordidas nas pernas, nos braços, um terror. Teve até que baixar hospital.

Lá fui saber o que tinha acontecido. Deu pena de ver. Ainda na maca, voz de anjo, me diz:

– Veja, minha filha, que cachorro mais infeliz! Olhe o estado do seu pai.

Cuidei dele como devia, claro! Porém, não perdi a oportunidade.

– Pois é, papai, o senhor veja como são as coisas. Uma cobra não morde a outra, mas os cachorros, quando se estranham, fazem um estrago, né?

 

LEILA JALUL, poeta, cronista e contista, é autora de “Suindara” (2007), “Das cobras, meu veneno” (2010), “Minhas vidas alheias” (2011), “Luzinete: um angu de caroço?” (2014) e “Memórias andantes” (2015).

quarta-feira, 2 de junho de 2021

O TOCADOR DE CHARAMELA

Erasmo Linhares (1934-1999)


Tem álcool?

Tem.

Me dê um cruzeiro.

Trouxe o vidro?

Não, me dê num copo.

O copo não pode levar.

Eu não vou levar.

Como assim?

Vou beber aqui mesmo.

 

Só então o reconheci – Zacarias!

Era, agora sou o Torto.

 

Os cabelos estavam mais ralos e a barba de muito não fazer estava esfarinhada e suja e os bigodes de piaçaba usada armavam uma cortina de palco mambembe, dilacerada nas colunas dos caninos amarelos.

 

E a charamela?

Quebrei na cabeça de um safado.

Era a única herdade que recebera do pai, que por sua vez a recebera do avô e este do bisavô e este de toda uma geração de músicos profissionais, cuja vocação fora declinando através de muitos anos até Zacarias, que nem ao menos podia ser considerado amador, embora tocasse por música. Possuía uma coleção de velhas partituras que exercitava nas suas tardes de folga de funcionário público de meio expediente. Música estranha, desconhecida do comum dos vizinhos que se estorvavam com o som agudo do instrumento, tanto que, umas três ou quatro vezes, arrebentaram-lhe as vidraças, para espanto e raiva da patroa que saía ao quintal gritando ferozes ameaças às vizinhas inimigas de ferro e fogo, a cujos filhos sempre atribuía a origem dos petardos, e, arrebatada, respondendo aos berros, quando acaso era contestada, com um vocabulário tão rasteiro que fazia dona Joaninha persignar-se e fechar todas as portas e janelas da casa, entupir os ouvidos com mechas de algodão e cobrir com uma toalha os antigos santos do oratório. Também ensaiava outras músicas, escolhidas entre as valsas e chorinhos preferidos pelos Inveterados do Copo e do Ritmo, com os quais se reunia no Chopp de Ouro todas às noites de sábado, e estas eram de mais agrado dos vizinhos ignorantes. Mesmo assim, nem sempre podia integrar o regional, porque o som da charamela não harmonizava, em determinados números, com os violões e cavaquinhos. E foi numa noite em que não participou da execução de nenhuma peça, que se descobriu. Já meio embriagado, tanto bebera porque ficou desocupado como pela chateação, pulou num ônibus e foi aguardar no Camilo’s, bem localizado na periferia da zona, assim que era dela e não era, e aí, a charamela sob o sovaco, encharcou-se por completo. Quando saiu, sem atinar com o motivo que o levara ao centro da cidade, foi caminhando até os fundos da Matriz onde sentou-se e começou a tocar a valsa que ensaiara durante toda a semana e foi quando passaram dois senhores com cara de quem não é daqui e um deles lançou entre suas pernas uma nota de dez e mais tarde uma senhora que empurrou uma nota no bolso de sua camisa e mais outras pessoas que jogaram notas de um e de cinco, além de moedas miúdas, de modo que, quando chegou em casa, lá pelas duas da madrugada, conferiu trinta e sete cruzeiros, com os quais amenizou a ira da mulher.

Segunda-feira, na repartição, com a cabeça desanuviada da ressaca que o fizera dormir todo o domingo, apesar das brigas constantes da mulher e das estripulias dos meninos, fez as contas e concluiu que tocando charamela todas as noites nos fundos da Matriz, ganharia o dobro de seu vencimento de auxiliar de portaria. Levou a semana inteira pensando no caso e no sábado passou ao largo do Chopp, tomou o ônibus e foi para o Camilo’s, bebeu até às oito e meia e depois dirigiu-se aos fundos da Matriz e desta vez conseguiu juntar cinquenta e oito cruzeiros. De volta ao bairro bebeu no bar do Esmeraldo que estranhou a visita numa noite de sábado e quando chegou em casa, pelas duas e meia, amenizou novamente a ira da mulher. Durante um mês, todos os sábados, repetiu o mesmo programa e no segundo resolveu aparecer no ponto também às terças e quintas, vestindo roupas velhas e sandálias japonesas. Passou a beber no Quintino’s, frequentado por estivadores, e no quarto mês ia todas às noites, menos aos domingos, até o dia em que a mulher impôs as condições, ou a farra ou ela, e ele optou pela primeira, não voltou mais a casa e abandonou de vez a repartição, onde suas faltas constantes já lhe tinham produzido duas repreensões, uma verbal e outra através de portaria afixada na parede para que todos pudessem ler a sua vergonha.

Inaugurando a nova vida, com o único remorso de abandonar os filhos, mas com o propósito de mandar algum dinheiro por semana, alugou um covil no vasto cortiço que dominava todo o quarteirão entre a rua de Frei José Inocentinho e a avenida do Almirante, habitado por prostitutas, gigolôs e cafetinas, cujas iras aplacava, vez e outra, pagando-lhes umas cervejas, até o dia em que não mais suportou aquela colmeia fervilhante que não parava noite e dia, dia e noite, com seu cheiro de mofo permanente e penetrante; movimentada pelas brigas das putas, entre elas mesmas, delas com os gigolôs, de marinheiros e soldados, de marinheiros e meganhas autoritários, delas com os bêbados e seixeiros; aturdida a qualquer hora, fosse sol ou fosse lua, pelos bichos de cria, macacos, cachorros, papagaios, gatos, galinhas e a jiboia da negra Belmira cujas bostas cosia em saquinhos de pano e os vendia às raparigas mais antigas que os usavam como bentinhos e com a dupla função de afasta-inveja e chama-machos; e as crianças empambadas, sábias e malignas, que vagavam pelas vielas cloacinas que separavam, coisa de um metro se muito, as casinhas de madeira e os quartos de taipa espremidos. Além de que o Português, dono dessa angustiada Sodoma escatológica encravada no coração da cidade, que nenhuma força conseguira demolir, andava anunciando de cama em cama, de catre em catre, de rede em rede, o aumento dos aluguéis, com a desculpa de que a caixinha da polícia, com o novo e faminto delegado, estava cada vez mais gulosa, com todo o raio da puta que o pariu. Fugiu às quatro e quarenta e cinco e a única mágoa era perder o cálido excitante da menina que todas as manhãs vinha, nua, mijar no minúsculo alpendre da casinhola fronteira e exibir, a dois palmos do seu nariz, a tenra e fresca pérola do tamatiá repousada nos veludos da vitrine de cristais opacos.

Em cinco meses de ofício conhecia toda a malandragem da zona, as manhas e venetas de prostitutas e viados, fez-se amigo de todos os mendigos que agiam num raio de um quilômetro e, por isso, conseguiu abrigo junto ao bando do Capitão-Gancho, admirador intermitente de suas valsas e chorinhos, que habitava o velho barco abandonado sob a ponte de ferro, transformado com paredes laterais de tábuas de caixas e folhas de zinco roubadas à cidade flutuante, para proteger a malta, em suas horas mais íntimas, dos olhares curiosos dos canoeiros ou de algum policial bêbado e mais afoito. Ali ferviam o café e coziam o peixe em latas enegrecidas pela fumaça do fogareiro e pela carência de uma lavagem meticulosa. E podiam beber à vontade, chupar seus tarugos tranquilamente e, vez por outra, arrastar uma rameira da Pausada, bêbada o suficiente para suportá-los em uma proximidade mais estreita.

Foi no velho barco, em noite de farra escandalosa, que partiu a charamela no crânio do Cabeleira, numa disputa por uns restos de Cocal, e nunca mais perdoou o desafeto, que além de ladrão era fresco, pois em mais de uma noite o ouvira fungar e gemer sob o peso e o encanto brutal do Capitão. Batera com tanta violência que o antiquíssimo instrumento de cana provençal espatifou-se instantaneamente em doze pedaços, não havendo meio ou modo de consertá-lo, pois o mecanismo interno de suas chaves era também de madeira delicada e enfraquecida pelos anos e pela saliva abrasiva de seus muitos tocadores ancestrais. Deu-se a partir daí sua preferência pelo álcool puro, mais barato, e também porque descobriu, no dia seguinte, que sua féria de mendigo dos fundos da Matriz provinha muito mais do som agudo e inquietante da charamela do que mesmo da caridade das pessoas. Passou a beber mais ainda e a comer menos ainda, dormia noites e dias nos bancos e sob os bancos da praça, sem ânimo e coragem de voltar ao velho barco abandonado sob a ponte, as pernas e os braços cobertos de escaras que se abriam em pontos diferentes imitando cores e caprichos de cravina.

No dia em que recebeu alta da indigência da Santa Casa de Misericórdia, após receber contrito os conselhos do médico paizinho dos pobres, já tinha amadurecido o projeto de reconquistar o velho posto de funcionário público e de reconciliar-se com a mulher, mas quando saltou do ônibus pela porta da frente a viu entrar pela porta de trás, com uma barriga que calculou de oito meses, e compreendeu que o plano falhara, mas a vida continua e pode ser longa e boa, dependendo da gente. No caminho do bar vislumbrou à distância as largas tábuas das caixas de embalagem da vizinha loja de eletrodomésticos e teve a ideia salvadora de construir uma bandurra e voltar às noitadas dos sábados de antigamente, sem mulher para vigiar a hora, sem choro de criança, sem Capitão, sem Cabeleira, sem putas e gigolôs, nem barcos velhos abandonados sob a ponte de ferro, nem paizinhos médicos, mas, de verdade, um filiado permanente e efetivo dos Inveterados do Copo e do Ritmo, pois afinal teria um instrumento de corda e não seria posto de lado como antes e porque foi a porra da falta dessas cordas maravilhosas que me botou no centro pegajoso e infernal desse tremendo pesadelo.

Bota mais um álcool.

Não, toma uma cana decente. É oferta da casa.

 

LINHARES, Erasmo. O tacador de charamela. Manaus: Edições Rádio Rio Mar, 1979. p. 35-41

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A obra de Erasmo Linhares (1934-1999) é um testemunho vívido dos dramas, das angústias e esperanças do ser humano. A temática recorrente de seus contos é a vida, o homem em face de seu destino, a precariedade do cotidiano, sua insignificância, o sentido da liberdade, o mundo e seus mistérios. Seus textos se afirmam pelo conteúdo de humanidade que vibra em seu discurso ficcional.

 

TELLES, Tenório; GRAÇA, Antônio Paulo. Estudos de Literatura do Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2021. p. 477

segunda-feira, 17 de maio de 2021

PREFEITOS DE CRUZEIRO DO SUL

Prefeitos Departamentais

7-9-1904 – Marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo

1-10-1906 – Dr. João Virgulino de Alencar

14-7-1907 – Dr. Antônio Manuel Bueno de Andrada

9-5-1910 – Cel. João Cordeiro

2-5-1911 – Cel. Pedro Avelino

17-2-1912 – Capitão Francisco Siqueira do Rego Barros

6-4-1916 – Dr. Eleutério Frazão Muniz Varela

25-9-1916 – Dr. José Augusto Carvalho Melo

11-4-1918 – Dr. José Joaquim da Costa Pereira Braga

17-4-1920 – Cel. Miguel Teixeira da Costa (interino)

Prefeitos Municipais

21-1-1921 – Manuel Acrísio Xavier Bezerra

10-1-1923 – Cel. Mâncio Agostinho Rodrigues Lima

30-7-1926 – Cel. Miguel Teixeira da Costa

1-7-1927 – Cel. Mâncio Agostinho Rodrigues Lima

13-11-1930 – Pedro de Moraes

10-12-1931 – Mâncio Agostinho Rodrigues Lima

28-9-1934 – Mâncio Agostinho Rodrigues Lima

21-2-1936 – Raimundo Augusto de Araújo

16-6-1939 – Mário de Oliveira Lobão

14-8-1939 – José Felipe da Costa Abreu

25-10-1941 – Mário de Oliveira Lobão

5-11-1943 – Silvestre Gomes Coelho

4-8-1945 – Raimundo Mendes de Brito Arraes

26-11-1945 – Dr. Abel Pinheiro Maciel Filho

23-5-1946 – Alfredo Pereira Sales

26-1-1948 – José Jeferson de Andrade

11-5-1949 – Osvaldo d’Albuquerque Lima

3-12-1949 – Antônio Miguel Nicolau

28-6-1950 – José Klermann de Mesquita Meira

27-12-1951 – Ten. Tancredo Maia

15-9-1953 – Joaquim Lopes da Cruz

11-6-1956 – Fernando Peres Nobre

10-6-1961 – Ten. Francisco Aluizio de Queiroz

28-7-1962 – Osvaldo d’Albuquerque Lima

17-10-1962 – Francisco do Vale Vieira

12-10-1963 – Maurício Peres Nobre

31-1-1967 – Moacir de Souza Rodrigues

27-5-1971 – Francisco Maciel Cardoso (Presidente da Câmara)

27-8-1971 – Pedro Ranzi

19-9-1972 – Francisco Maciel Cardoso

1-4-1975 – João Soares de Figueiredo

31-3-1980 – João Soares de Figueiredo

1985 – Pedro da Silva Negreiros (provisoriamente)

1-1-1986 – João Barboza de Souza

1-1-1990 – Pedro da Silva Negreiros

1-1-1993 – Orleir Messias Cameli

1994 a 1995 – João Barboza de Souza

1-1-1997 – Aluízio Bezerra de Oliveira

1-1-2001 – Carlos César Correia de Messias

1-1-2005 – Maria Zila Frota Bezerra de Oliveira

1-1-2009 – Vagner José Sales

1-1-2013 – Vagner José Sales

1-1-2017 – Ilderlei Cordeiro

18-8-2020 – Clodoaldo Rodrigues (Presidente da Câmara)

1-1-2021 – Zequinha Lima

 

Raramente a posse de um prefeito coincide com a retirado do antecessor, pois muitas vezes já aquele se havia retirado, encontrando-se na cadeira o secretário, assim, Osvaldo d’Albuquerque Lima exerceu o cargo cerca de uma dezena de vezes, assim como Newton de Vasconcelos Pessoa e outros.

Ainda, em 1910, no regime prefeitural houve uma revolta autonomista que depôs o então prefeito João Cordeiro, constituindo-se uma junta governativa que teve a duração de cem dias e foi composta de Mâncio Agostinho Rodrigues Lima, Francisco Freira de Carvalho e João Bussons.

Dita revolta foi sufocada pelo Ten. Fernando Guapindaia de Souza Bregence, que assumiu a direção do município por 3 meses e 4 dias, quando passou o governo ao Cel. Pedro Avelino.

 

Jornal O Rebate, Cruzeiro do Sul-AC, 28 de setembro de 1967, Ano XLVI, N.1.156, p. 4

LIMA, Raimundo Carlos de. Na Amazônia Ocidental: a cidade-sede do Alto Juruá revelada (como nasceu, cresceu e se desenvolve a capital do Alto Juruá). Cuiabá: Carlini & Caniato Editorial, 2015.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

CONQUISTADORES DO DESERTO VERDE

 Fernandes Távora (1877-1973)

Artigo escrito em 11 de agosto de 1911, a bordo do antigo vapor “Bahia” – pelo autor – no seu regresso do Acre, onde havia clinicado durante 12 anos; e publicado no “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro, depois do seu desembarque.


Vai para quarenta anos.

Uns homens tristes, maltrapilhos e esquálidos, de olhar embaciado e passo tardo, as feições contraídas pelo surdo pungir de sensações inauditas, o pensamento desvairado por alucinações dolorosas, arrastavam-se ao sabor de desventuras imensas, através de campos combustos e desolados, fulminados por um sol candente, num desfilar macabro que mais se assemelhava a uma procissão de sombras.

A fome, a sede, a dor e a morte formavam o fundo desse quadro dantesco, onde um perene crepúsculo de desesperança enlutava as almas combalidas pelo maior infortúnio que já pesou sobre terras da América.

Pela retina alucinada passavam céleres os belos quadros da passada ventura, contrastando com a visão apavorante de um presente cheio de negrores, repleto de misérias e incomportáveis desventuras.

Quem eram esses homens?

Para onde iam nesse caminhar doloroso e lento?

Que buscavam, rumando o Norte numa tenacidade de quem cumpre um destino?

Escutai-me oh! Vós que me quiserdes acompanhar nessa tremenda via-sacra, que representa, sem dúvida, a mais alevantada epopeia da constância e resignação humanas. Eram uns desditosos filhos do nordeste brasileiro, aos quais o destino cego dera em partilha um solo ubérrimo e cheio de encantos, a par de um clima invejável, mas de estações inconstantes.

Ali viveram felizes algumas décadas, deslembrados do futuro, que não podiam sonhar calamitoso, presos à terra que lhes dera venturoso abrigo. Um dia, com o cérebro ainda povoado de visões risonhas da passada primavera, vêem irromper o flagelo tredo e feroz, calcinando os campos, crestando as pastagens, secando as fontes, destruindo os rebanhos e exaurindo a vida, como se fora a vingança tremenda de uma divindade irritada contra a humanidade revolta.

O êxodo começa; e nos poeirentos caminhos alastra-se a miséria que foge ao terrível açoite da calamidade implacável, iniciando-se a grandiosa caminhada que se epilogará em região remota, que a natureza preparava ainda, para complemento da terra flagelada.

Providência ou acaso, ela lá estava no extremo norte, grande como um continente, ubertosa como nenhuma outra, coberta das mais belas florestas, sulcada pelos maiores rios, povoada pela mais rica fauna, formosa Canaan desses novos hebreus que fugiam ao cativeiro do fado.

Por uma dessas profundas intuições, só peculiares às raças predestinadas, aqueles homens rumaram ao Norte, numa estranha pertinácia, como se os atraíssem forças desconhecidas ao cumprimento do altíssimo destino. O Norte era então o desconhecido país remoto que as amazonas cruzaram nas correrias lendárias, sombria morada da morte, cujo símbolo, a mancenilha, lá desdobrava a sedutora copa num eterno convite ao aniquilamento.

Era a terra de onde se não voltava; onde a vida era mágoa contínua e a morte libertação desejada; país de lendas apavorantes que as distâncias ensombravam ainda mais, envolvidas na ignorância e no mistério.

Mas seguiam sempre sob o mesmo influxo da desgraça que os arrancara da pátria, suportando as inclemências de outros climas, arrostando os elementos sempre hostis, sujeitos a todas as vicissitudes e maus tratos, desde o infecto porão dos navios sem ar e sem luz, até as praias desertas onde o sol equatorial os siderava; desde o ressequido torrão da pátria que lhes negava a gota dágua, até as diluviais torrentes amazônicas, que os encharcavam até a medula dos ossos.

Ei-los chegados, após inerráveis sofrimentos, às margens soberbas do grande rio, espraiando melancolicamente a vista amortecida pela vastidão tristonha das águas sem fim. Sobem mais e o cenário muda.

Quadros inéditos se desdobram a perder de vista como se foram mágicos oásis encantadores, onde descansassem a vista os míseros proscritos, mal despertos ainda de um sonho doloroso.

Tudo ali os convidara a radicarem-se ao solo e descansarem da longa caminhada, ao rumor constante de cascatas, ao brando murmúrio dos regatos, na contemplação de eterna primavera.

O solo era úbere, as sementeiras desabrochavam em fartas messes que produziam abastança, a caça abundantíssima, o peixe inumerável, a floresta frutífera, a natureza pródiga.

Que mais queriam os estranhos viajores? Por que se não detiveram nesse trecho de terra admirável que primeiro lhes feriu agradavelmente a retina acostumada aos quadros dolorosos?

E que força oculta e misteriosa os impelia para os confins da terra imensa que então pisavam pela primeira vez? É que traziam no sangue o germe de espantosos heroísmos, que precisavam de um cenário condigno para sua manifestação.

Eles haviam acumulado, em séculos de atrozes sofrimentos, através de calamidades sem conta, essa reserva imensa de energia que havia de manifestar-se um dia na mais assombrosa epopeia da expansão pacífica dos povos. Foi por isso que a caudal humana não parou um só instante nas regiões vizinhas à foz do rio-mar, e continuou, precipite, na marcha encetada, galgando a embocadura dos grandes afluentes para a verdadeira obra da conquista.

Julgar-se-ia que ali deveriam abrandar seus sofrimentos ante a visão edênica dessa terra de seiva incomparável, na magnitude desses panoramas onde a natureza na máxima virgindade parecia elevar um solene protesto contra a miséria e contra a dor. Puro engano!

Aí começa o seu verdadeiro martirológio. Novos Tântalos, eles sofrem as mais profundas misérias, as mais intoleráveis dores que já foi dado sofrer a seres humanos, em meio da mais rica e pujante natureza do globo.

A marcha continua; os navios abarrotados vão dispersando pelos barrancos desertos dos grandes rios os prisioneiros da dor e os ecos do labor humano cantaram pela primeira vez, naquelas selvas, o hino triunfal da civilização.

Subiram os igarapés, vararam os furos, cruzaram os lagos, rasgaram a floresta, galgaram cambirotos, atravessaram os chavascais, vadearam os rios... Estava encetada a conquista e lançado o primeiro desafio à natureza inimiga. De então em diante a luta foi tremenda: as levas humanas não mais pararam nessa escalada épica e, através de obstáculos sem conta, num frêmito de incontidas energias, sobranceiros à dor e à morte, que sempre desprezaram, domaram afinal a natureza áspera, e, sobrepondo-se à ação do tempo, numa sublime violência, obrigaram-na a cumprir em pouco mais de trinta anos o que não faria, talvez, em trinta séculos, estreme daquela estupenda ação humana.

Euclides da Cunha disse alhures, numa das suas admiráveis concepções sintéticas, que “a natureza amazônica ainda não estava preparada para receber o homem”.

A terra, na verdade, formava-se, os aluviões se superpunham numa cadência fastidiosa de séculos; os rios, num titubear de infantes, iam sacando as voltas, quebrando os barrancos, mudando as praias, nessa função geológica intensa dos talwegs que se definem; e a natureza toda, na rudeza das coisas inacabadas, eriçada de arestas, esperava o deslizar dos milênios para mostrar-se em perfeição.

Parou, por acaso, algum momento ante a intimação formal da natureza o rude conquistador do deserto?

Parou, sim, apenas um instante, para encarar resoluto a morte e seguir avante, no arrojo supremo dos abnegados! Dezenas, centenas, milhares de irmãos foram ficando na via dolorosa, tristes marcos da cruenta jornada de um povo inflexível que, apesar de todos e de tudo, havia de vencer. Ei-los afinal, alguns anos depois aflorando as nascentes remotas dos pequenos tributários do grande rio.

Onde estavas eles? Em que latitude, em que país se achavam?

Sabiam lá!...

Diante deles era o deserto, para os lados ainda o deserto e para trás, bordando a fita interminável dos rios, um vago pontilhado de núcleos humanos na vastidão incalculável das terras percorridas, frágeis elos que a morte ia quebrando, como que empenhada em dissolver a débil cadeia humana, que apenas o pensamento unia, na imensidade daquelas selvas! Passaram-se anos em que a luta continuou com suma violência. Domada a natureza, restava ainda subjugar o selvícola, seu irmão gêmeo na hostilidade e na rudeza, que defendeu sempre com galhardia as suas terras até cair vencido ou recuar ante a energia incontrastável da raça conquistadora, para continuar mais adiante a luta interrompida.

Afinal o índio foi domado ou fugiu para o planalto, e os recém-chegados puderam internar-se nas matas, fazendo brotar a flux o ouro vegetal que, numa secular virtualidade, só esperava pela mão do homem audaz, que o havia de levar aos quatro mundos.

Estava feita a conquista da Amazônia e firmada para todo o sempre a grandeza de uma raça! Quem seria capaz de medir a funda nostalgia, a mortal saudade dos desventurados proscritos que, através das distâncias imensuráveis, sonhavam com a pátria estremecida, arrancando, do suave escrínio de sua alma dolorida, os cânticos singelos dos sertões de sua terra e no dedilhar da viola gemente, iam suavizando as mágoas, quase em soluços, numa ânsia infinita de voar!...

E acaso poderiam esquecer, nos momentos de tréguas, tudo que haviam deixado longe, debaixo do adorado céu da pátria, nesses incomparáveis recantos da terra do berço, gravados indelevelmente na alma como parte integrante de todos os seres e patrimônio inalienável de todos os proscritos? Eles viam, num sonho pungente, de amaríssimas saudades, a casinha solitária a ermida, o campo, o arvoredo, o rio... e por sobre tudo isso, o sol, o abençoado e fecundante sol de sua terra, a cujos raios benéficos esperavam aquecer-se ainda um dia, haurindo, num imenso raio de luz, a saúde, a seiva perdida, a mocidade gasta nas regiões da morte. Pobres sonhadores! Num desfiar contínuo de suspiros, vão soltando a vida, como se a quisessem transmitir em fluidos às regiões amadas; e, no diluir-se em saudades, iam morrendo esses novos argonautas do ouro negro, num itinerário inverso, bem mais triste que o primeiro, em demanda da pátria que raramente chegavam a rever.

Quando subiam, devorados de sonhos, sentiam menos o acicate da miséria que os tangia, deslumbrados que estavam, pela visão longínqua da independência que entreviam além, sempre além dos horizontes atingidos.

Agora o caminhar é outro, como outro é o pensamento que os consome. Já não são os mesmos homens de rijo querer e robusta organização que venceram a dor e conquistaram o deserto, são restolhos humanos, uns semi-mortos que, no arquejar de uns restos de vida, vêm rolado ao sabor das correntezas, descrentes do futuro que lhes fugiu com a saúde, desiludidos, numa tortura sem par de quem se sente morrer sem ter vivido e que, muito longe ainda da pátria, perde a esperança de nela dormir o último.

E os barrancos se vão novamente cobrindo de cruzes, e a natureza, vingada, assiste solene e implacável do castigo de seus dominadores, abrindo sorridente o seio para receber essas heroicas sementeiras humanas, lastro sangrento mas inevitável do progresso, que há de germinar mais tarde numa frutificação bendita, num desabrochar de eternas aleluias!

Era já tempo de pararem na sua vertigem os sublimes bandeirantes do norte que, ao galgarem os primeiros contrafortes das regiões andinas, entestaram com povos de outra raça. Um dia, ofegantes ainda da luta com a natureza, surge-lhes no horizonte o fantasma da guerra, desta vez não mais com o gentio, senão com outra raça, também forte, que pleiteava, em nome de outra nacionalidade, o domínio do deserto. Nem por um momento recuaram os denodados campeões da nossa raça. Perdidos no meio da selva infinita, segregados dos homens, abandonados da sua nacionalidade que, num eclipse do bom-senso e com soberana injustiça, os renega, deixando-os à mercê do contendor estrangeiro, eles, os denodados voluntários da morte, aceitaram a luta. Tudo lhes prenunciava a derrota, e eles venceram ainda uma vez, para suprema afirmação de sua heroicidade!

A nação contestante abateu armas ante esse pugilo de bravos que, mercê do gesto nobre e altamente patriótico do mais glorioso dos brasileiros, viram de uma vez para sempre confirmados os seus direitos à terra conquistada.

O historiador do futuro, relendo um dia o feito estranho, julgará certamente que muito ouro nos terá custado a conquista da Amazônia e que séculos tenham sido precisos para levar a termo a obra colossal.

Pouco mais de três décadas, alguns milhares de homens fortes, aquinhoados pela supina indiferença dos seus compatriotas, eis tudo quanto bastou para levar a término a obra singular!

O país, coisa notável e sem par nos anais da expansão humana, não gastou um ceitil na realização do magno empreendimento, para cuja execução outras nações não trepidaram em mobilizar exércitos e gastar bilhões.

Sabia, vagamente, que uns perseguidos filhos do Nordeste se encaminhavam para aquelas bandas, carentes de todo conforto, desajudados de todos os amparos, a marcarem o doloroso itinerário com a modesta cruz de covas rasas e as ossadas dos insepultos. Não teve um gesto sequer de piedade para os bravos que, nos longínquos pântanos da morte, iam alargando, num contínuo morrer, os domínios do pavilhão auriverde! Deixou correr a esmo a grande obra que deveria ter sido guiada pela assistência moral de governos conscientes; permitiu que morresse no mais impiedoso abandono a flor daquela mocidade forte; cerrou ouvidos aos justíssimos reclamos daquela sociedade nascente que, composta de homens rudes, suspirava por um bafejo de civilização.

E não desanimaram esses incompreendidos super-homens; e não morreram essas nascentes agremiações na sua tenacíssima vontade de viver!

Cresceram malgrado o desamparo, senão hostilidade dos governos, medraram apesar do vento de morte que nunca cessou de soprar sobre elas; e sobranceiras a todos os auxílios, constituíram-se no mundo o supra sumum das energias humanas! Hipérboles, dirão! Justiça é que é, que para definir a grandeza da Amazônia um vocábulo ainda não existe e muito menos para a glorificação de seus conquistadores. Estes, no estreito âmbito de seus destinos simples, e na adorável candura de suas almas desambiciosas, irão passando, inconscientes de sua grandeza e indiferentes à tremenda injustiça que lhes irroga à memória uma nação de deslembrados!

Nulle souffrance ne se perd, toute douleur fructifie” supremo consolo dos deserdados, fórmula soberana que vincula insofismavelmente o mundo moral ao mundo físico e sintetiza o eterno evoluir do sentimento, a sublime frutificação da dor humana!

Não poderiam realmente esses filhos prediletos da dor e do sofrimento augurar para a sua obra imorredoura o destino inglório dos atos infrutíferos.

Erguendo pelo sofrimento e cimentando com o suor de supremas angústias o edifício grandioso da conquista do deserto verde, o acreano, esse símbolo vivo da constância humana, ao calcar o terra onde inumeráveis irmãos dormem o sono derradeiro e onde abrem os olhos pela primeira vez os filhos da sua mágoa e da sua saudade, encastelado nos extremos lindes da pátria, pode, relanceando o olhar pela mais vasta e pujante região do globo, nobremente exclamar como o grego de Byron!

“Standing on the persian grave,

I should not dream myself slave”

(De pé sobre o túmulo dos persas

Eu não podia reputar-me escravo).

 

TÁVORA, Fernandes. Algo de minha vida. 2.ª edição. Fortaleza: Departamento de Imprensa Nacional, 1963. p. 147-155

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Manuel do Nascimento Fernandes Távora (Jaguaribe, 1877 – Fortaleza 1973), médico, farmacêutico, jornalista, professor e político. Deputado Estadual, Constituinte e Federal, além de Interventor e Senador, todos pelo estado do Ceará. “Entre 1904 e 1916 radicou-se na Amazônia, empregando seus serviços de médico no rio Juruá e afluentes. [...] Como jornalista, escreveu em jornais no Amazonas, no Acre e no Pará. No Ceará, em 1921, fundou A Tribuna, que fazia oposição ferrenha ao governo de Artur Bernardes.” Escreveu, entre outros, Considerações sobre o Estado Mental do Padre Cícero (1943); Joaquim Távora: A Alma da Revolução (1944); Algo de Minha Vida (1961) e Idéias e Perfis (1967).