COMEMORAÇÃO
Deixa-me cantar porque o dia amanheceu chovendo
e as folhas brotam verdes,
e as flores desabrocham!
Deixa-me cantar porque eu me sinto criança
ainda com tranças,
correndo descalça no capim molhado!
Deixa-me cantar porque o meu vestido é novo,
e as meninas me acham bonita e perfumada,
e eu quero brincar de ciranda e bom barqueiro!
Deixa-me cantar porque hoje eu sou pluma,
sou avezinha pulando no galho que fez o ninho,
sou pensamento divino, sou lírio do altar da
Virgem!
Deixa-me! Deixa-me cantar mais e muito!
Deixa-me rir, deixa-me fazer tolices!
Deixa-me rodar até cair exausta,
porque hoje, querido, faz um ano
que chegaste de uma viagem para o meu amor! p. 43
PAISAGEM MARAJOARA
Da migração úmida e mansa do crepúsculo
ficou um olor de maresia brava,
lambendo o limo lodoso das raízes.
A lua, ciumenta e oca,
encolhida e acuada,
espia desconfiada,
pelas frestas da mata,
a terra grávida de sombras e silêncios...
O vento é um passarão agourento
voando por sobre os contornos ondulantes
da grande ilha supersticiosa
de litorais iluminados
pelos olhos da boiúna! p. 15
AQUELA CANOA...
(Musicado pelo maestro
Armando Angeles)
Aquela canoa sem rumo, à-toa,
branquinha, sozinha, que vai e que vem,
parece uma sombra
que a gente quer bem.
Aquela canoa perdida, sem dono,
que em pleno abandono
flutua, flutua,
parece um cadáver com medo da lua.
Aquela canoa alguém já me disse
(só mesmo se eu visse)
que o boto alagou na noite da festa
que não começou.
E contam que viram
um moço bonito vestido de branco
chorar junto à moça que ia remando
pedindo-lhe amor, tremendo de frio.
E contam que viram a moça gemendo
desaparecendo nas águas do rio...
Aquela canoa, fazendo visagem,
na sua viagem não cansa, não cansa.
Parece o barquinho da minha esperança... p. 19
SORTILÉGIO
Há um pensamento chorando dentro da noite erma.
Há um pensamento virgem, solitário,
apalpando a floresta,
roçando no rio largo,
por onde boia, em cada estirão,
o sortilégio da mãe-d'água.
O jurutaí canta para a lua cheia.
Os grilos arremedam o assobio do vento.
As nuvens sacodem chuva e tristeza
só porque eu quero luar nos meus pés.
E vem lá de dentro da mata,
lá de onde eu não sei como está,
a voz rouca do silêncio amazónico
consolando as umbaubeiras perdidas
que a trovoada vergou.
Há um pensamento chorando dentro da noite
esquecida...
Descendo pela correnteza,
pedindo a mão das estrelas...
Há um pensamento com sono e sem poder dormir...
Marinheiro, vê se tu podes compreender
esse pensamento de mulher. p. 21
PASMO
Depois que o momento passou,
fiquei quieta na tua alma,
qual gota de orvalho
dormindo na pétala de um lírio.
Fiquei parada nos teus olhos,
qual vitória-régia
na doçura da onda
de um lago azul! p. 29
POEMA
Nasci dos lírios boiando
na água barrenta do inverno,
por isso que o meu amor tem a força
das grandes enchentes!
Nasci da boca da meia-noite
lavada de orvalho virgem,
por isso que o meu beijo tem o gosto
das açucenas da madrugada!
Nasci quando as águias solitárias
atravessam os espaços,
chorando,
por isso que em todo o meu pensamento
existe uma lágrima sem destino!
Nasci do êxtase de atmosfera,
quando a lua cochila, insatisfeita,
por isso que o meu desejo
flutua agoniado
no sono da luz coada do dia!
Nasci da angústia cósmica, quando os astros
perdem o ritmo do movimento,
por isso que a minha paixão é desordenada
e a ansiedade em mim permanece!
Nasci do cheiro do ar, quando o mundo se deita,
por isso que a minha alma
tem um corpo que sofre sozinho,
qual bólido isolado, rolando, rolando,
esquecido de Deus! p. 30
O RIO VEM PARA O MAR
Os olhos humildes e bons do caboclo
sorvem a manhã deliciosa.
Os olhos humildes e bons do caboclo
estão também cheinhos de lágrimas,
mas todos pensam que é o borrifo das águas.
Vez em vez, nas rembiúas
os botos, quietos, fitam o barco...
O barco parando, o barco mexendo,
seguindo o destino do rio amoroso...
Vento do norte sopra de manso,
com vontade de fugir para o oceano...
Vento do norte sopra e assusta
o sono das mamoranas que acordam...
E o dia sedento bebe água fria
nas bandejas verdes da flor de aguapé.
E as flores vaidosas recuam felizes.
E o rio se alarga e se deita,
e se joga pra longe,
com o pensamento no mar!
As nuvens cochilam cansadas e pálidas.
Passam as vigilengas,
passam as praias anônimas
sem poetas, sem histórias.
Passam as canaranas, mururés e periantās
por sobre as pálpebras das ondas...
O vento do rio vem alisar os cabelos da noite.
E o rio vem para o mar
e se inclina magoado,
sem poder dormir o antigo sono de paz,
ouvindo ao longe, muito longe,
as folhas caírem na ponta dos pés
das árvores verdes da margem! p. 83-84
BLIZZARD
Sultana, este
é o teu
do meu
coração
Palavras não cantam o poema inventado
no silêncio do espaço
quando incide em teu seio.
Ninguém quer ler mensagens de fuga
do infinito
soprada de vento
em cinza ainda estuante da fogueira
onde nascem as estrelas.
Prostrada em marasmo
a cair branca e bela,
mal tocas o chão da terra
és lágrima sem face pra escorrer!
Não te lembras dos olhos bons
que te choraram
nem do poeta que escreveu
a minuciosa ilação
do teu sofisticado silêncio...
Junto à janela te vigio
e obstinada desliguei o rádio.
Estranha é esta ausência de ânimo
para acender a lenha verde
da lareira.
Ponte, gramado e arvoredo cobertos,
coberto não ficará meu corpo senão de amor:
teus flocos não serão nunca o bastante
para apagar o braseiro
de um coração brasileiro!
Devo sair. Sou impura de medo
e um som
em tom
de amor
me invade.
Que horas são eu não sei.
Noite ou dia, que me importa?
Só sei que sou amada
e que inda não sou morta
com todo este segredo e toda esta saudade! p. 151-152
PEQUENINO
No meu mar vieram dois olhos boiando
e eu guardei-os nas mãos como duas misteriosas
sementes.
Choramos juntos e juntos
imaginamos construir algo sem música
nem vício, tempo ou eternidade.
E agora desça o céu e desça o mundo.
Estes dois olhos eu não dou nem mostro.
Só depois do imaginado.
acenderęi a estrela,
contarei a lenda
e enxugarei todas as lágrimas! p. 161
SONHANDO
Vem dormir na maqueira dos meus olhos,
meu amor.
Eu estou sob a sombra da saudade
com medo que o luar
venha me descobrir toda de branco,
à tua espera.
Vem beber do licor da minha boca,
meu amado.
As estrelas debruçam-se curiosas
em me vendo rolar na areia fria,
e eu não lhes conto nada,
de covarde.
Vem passar tua mão
nos meus ombros doídos de preguiça,
meu querido.
Estendi minhas mãos para o teu beijo,
e os frondes das mangueiras
cobriram-nas de orvalho, persuadidos
que fossem duas folhas pequeninas.
Vem que eu te escondo aqui
nos meus cabelos compridos, volutuosos,
da cor deste luto que eu tenho na alma:
saber que te amo, saber que me amas
e sentir que não sou tua nem tu és meu.
Mas vem, meu amor, que a cauda dos astros
será o cortinado do nosso himeneu! p. 341
ADALCINDA. Antologia poética. Belém: Cejup,
1995.
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Adalcinda ou Adalcinda Magno Camarão Luxardo
nasceu em Muaná-PA, em 18 de julho de 1914, e faleceu em Belém-PA, no dia 17 de
janeiro de 2005. A primeira mulher a integrar a Academia Paraense de Letras
(1949). Escreveu para rádio e teatro e para todas as revistas da Amazônia de
seu tempo. Viajou aos Estados Unidos com bolsa de estudos oferecida pelo
Departamento de Educação, onde graduou-se em Linguística na America University.
Estabelecida nos Estados Unidos, em 1960 abriu o Departamento de Português da
Georgetown University (Institute of Languages and Linguistics), onde também
lecionou literatura brasileira e de Portugal. Lecionou Português na America
University, na Graduate School os the Agriculture Departament e ainda na Casa
Branca, para assistentes do presidente Nixon e Ford. Foi casada com cineasta Líbero
Luxardo (1908-1980). Publicou: Despetalei a Rosa (1940, poesia), Vidência (1941,
poesia), Baladas de Monte Alegre (1949, poesia), Entre Espelhos e Estrelas
(1953, poesia), Um reflexo de aço (1956, monólogo), o Mar e a Praia (1956,
poesia), Eu não posso te amar (1956, ensaio), Brasil fala Português (1961,
livro didático), Caminho do Vento (1968, poesia), Folhas (1979, poesia), À
sombra das cerejeiras (1989, poesia) e Antologia Poética (1995).



