segunda-feira, 1 de junho de 2020

YARA CECIM: alguns poemas

Poeta, contista, artista plástica e pesquisadora da realidade Amazônica, Yara Cecim nasceu em Santarém-PA, em 13 de maio de 1916. Tem uma vasta produção na área da cultura Amazônica e das artes. Seus poemas e contos estão publicados em dezenas de revistas, antologias, jornais, etc..., e foram distinguidos com os prêmios Samuel Wallace MacDowell e Terêncio Porto, da Academia Paraense de Letras. É autora de “Folha de Outono” (poesia, 1983) e Arabescos e outros poemas (poesia, 1990); Taú-Taú e outros contos fantásticos da Amazônia (1989), Histórias daqui e dali (contos, 1993) e Lendário: contos fantásticos da Amazônia (2004). A escritora faleceu em Belém-PA, no dia 26 de outubro de 2009, aos 93 anos.

ARABESCOS

 

No silêncio enervante do meu quarto

só tua ausência me faz companhia,

enquanto lentamente as horas passam

silenciosas, lentas e vazias.

De repente, uma luz se esgarça,

um perfume sutil de primavera

e o rumor cauteloso dos teus passos...

Pela porta entreaberta

um vulto se adelgaça

e na parede fria,

uma sombra que passa...

Estendo as mãos, tateio na penumbra

e o frio se faz mais frio nesse momento

e o vazio mais vazio entre os meus braços.

Sento na cama. Afasto o cortinado...

Pelo vidro embaçado da janela,

a lua cheia, sonâmbula e vadia

põe arabescos na parede fria

enquanto um pirilampo vagabundo,

buscando a lua como um seresteiro,

foge para o jardim, pela porta entreaberta

e vai dormir, feliz, no jasminzeiro.

            O silêncio da noite me apavora

            e mais uma esperança se evapora. p. 11

 

 

“NOSSA CASINHA”

 

A hera está subindo, se enredando

pelas paredes da Nossa Casinha

e dando a ela aquele ar tristonho

de uma velha tapera abandonada.

Por fora, tábuas podres, carcomidas

e o mato entrando aos montes pelas frestas.

As estrelas que antes me sorriam

com aquele ar feliz, esperançadas

de ver-te entrar

por essa mesma porta

agora velha, torta, já empenada,

esticam seus olhinhos marejados

e úmidos de orvalho

pelas frestas quebradas do telhado

e recuam assustadas...

Os sabiás fugiram para longe

porque a velha mangueira do quintal

não deu mais flores

e não deu mais frutos.

Somente a longa sombra da saudade

escurece o quintal.

 

Quando a comprei,

há pouco mais de um lustro,

ela era um chalezinho de madeira

todo branquinho, alegre, sorridente.

Uma porta somente, uma janela

e um patiozinho na frente,

olhavam para aquela ruazinha

onde as crianças brincavam

e por onde desfilavam bronzeadas

turistas, nos seus trajes resumidos

enquanto a rede branca acalentava

os meus sonhos perdidos.

Entre os crepúsculos e as alvoradas,

a esperança cantava nos meus sonhos

onde o amor fez guarida:

– Ele virá, vais ver! Ele virá!

E a casinha sorria para a vida.

 

Mas o tempo, inclemente foi passando

e junto com ele tu também passaste

um dia, em minha porta

e não ficaste...

Mas se outra vez voltares, viageiro,

evita o chalezinho abandonado.

Volta sobre teus passos

e não olhes para trás...

Como a felicidade,

a rede branca não existe mais.

A esperança fugiu pelos vidros quebrados.

Os pássaros se foram.

As crianças cresceram.

A cadeira quebrou com o peso da saudade

e aquele sonho bom que acalentamos

como um filho dileto,

morreu quando partiste...

E nada mais existe. p. 27-29

 

 

SEMPRE HAVERÁ PRIMAVERA EM NÓS

 

Vem, meu amado!

E de mãos dadas vamos caminhar

por esse mundo afora,

atravessando o tempo, ao encontro da aurora.

Adiante de nós há uma estrada de luz.

Fujamos por aí.

Deixemos para trás as regras, os preceitos,

o que importa é o amor

e o amor nos conduz.

Vem, meu amado!

O dia já vem vindo das bandas do nascente.

O frescor da manhã já penetrou no quarto

e perguntou por ti.

Amemo-nos um pouco,

depois sairemos pelos campos em flor

levando o amanhecer do nosso amor

e vamos nos banhar nas águas do regato

e descalços pisar as pedrinhas do chão.

 

Vem, meu amado!

Há uma estrela luzindo

e chamando por nós.

Não percamos mais tempo.

É tão linda a manhã!

São tão verdes os campos

e o orvalho da noite deixa-os tão fresquinhos!

À sombra de uma árvore descansaremos.

Tecerei com meus braços o teu ninho

e te acalantarei com meu carinho.

Vem, meu amado!

Sempre é tempo de amar quando se encontra o amor.

Caminharemos juntos pela Eternidade,

não sentiremos frio nem teremos calor.

Eu te confortarei quando estejas cansado,

quando eu esteja cansada

tu me confortarás.

Me darás a beber na concha de tuas mãos

e eu farei para ti lindo versos de amor.

 

Vem, meu amado!

Temos diante de nós o Paraíso.

A estrela da manhã nos encaminhará.

Depois, que venha o céu, o mar, o infinito...

Nada será tão forte nem será mais bonito

que este bendito amor que já nasceu comigo.

O Éden é todo nosso. É só estender a mão.

Não importa o outono. Não importa o inverno.

Sempre haverá em nós primavera e verão. p. 35-37

 

 

POSSO MORRER COM O LUAR...

 

Vem, amor!

Estou te esperando.

Não te faças demorar.

Olha o mar como está lindo!

Como está lindo o luar!

Vem, amor!

Não custes tanto!

Posso morrer com o luar.

Meus sonhos sonham contigo.

Minhas mãos pedem tua mão.

Meu corpo pede teu corpo

para apertar contra o meu

num acesso de emoção.

Os cordames do meu corpo

só tu soubeste vibrar.

                    Vem, amor! Não custes tanto!

                    Posso morrer com o luar. p. 39

 

 

GAIVOTA

 

Gaivota ou gaviota,

como te queiram chamar.

Viageira, mensageira

de uma saudade sem fim.

Voa! Voa, companheira,

na distância de nós dois.

Cruza mares, cruza céus

enfrenta rudes tormentas

e vai fazer o teu ninho

na varanda do meu bem

e baixinho, ao seu ouvido,

conta o que ouviste de mim...

E se voltares aqui,

cruzando mares e céus,

dá-me notícias de lá.

 

Leva em tuas asas meu sonho

para que sonhe comigo.

Traz o seu sonho contigo

para com ele eu sonhar!

Gaivota, gaviota,

como te queiram chamar.

Como tu, quisera eu

poder emigrar também,

cruzando mares e céus

para encurtar a distância

que me afasta do meu bem.

Gaivota, gaviota,

vem me ensinar a emigrar!

Quero voar para ele,

quero aninhar-me em seus braços

enquanto posso voar! p. 45-46

 

 

FRAGMENTOS DE ILUSÃO

 

O vento passou gemendo

por cima do meu telhado.

Abri a porta, ele entrou

chamando pelo meu nome

e nem mesmo sei por

meu pensamento, querido,

foi voando pra você:

“Ele veio! Ele voltou”

Como você fez um dia,

ele também me sorriu,

fez-me um afago no rosto,

deu uma volta e se foi,

deixando flores e folhas

espalhadas pelo chão

– retalhos de fantasias,

fragmentos de ilusão... p. 47

 

 

COMO UM VERSO DE ÉLUARD

 

Meu amor veio e se foi

como as espumas do mar

deixando na minha boca

um gosto de preamar.

Quem me dera ser um barco

para nelas naufragar.

 

Suas mãos como a correnteza

seus olhos como o luar

das noites de plenilúnio,

me fizeram imaginar

um remanso nos seus braços

onde eu pudesse ancorar.

 

Seus dedos qual corredeiras,

sem que eu pudesse evitar,

deslizaram no meu corpo...

Joguei os remos no mar,

soltei as amarras do barco

e me deixei arrastar...

 

Meu amor veio e se foi

como as espumas do mar.

Sua boca tem a doçura

de um poema de Éluard.

Quisera ser uma estrofe

para nela demorar.

 

              Meu amor veio e se foi

              como as espumas do mar... p.59-60

 

 

O RIO E O MAR

 

Amo a tranquilidade das águas serenas

do rio, que descem cantando pro mar.

O doce ondulado das calmas maretas

que batem na areia

sem a machucar.

Adoro a cantiga serena da yara

em noites prateadas com a luz do luar

que me fala à alma,

que entorpece o espírito,

que não me magoa

nem me faz chorar.

Amo a placidez das coisas encantadas.

As lendas que falam de coisas bonitas,

do boto encantado, do uirapuru,

da cigarra amiga ao cair da tarde

ciciando na folha do pé de caju

                 Sou rio e não mar.

                 Sou yara e não ninfa.

                 Sou cabocla flor,

 

                 como dizia meu pai

                 com carinho e amor.

                 Sou musgo da pedra

                 que o vento arrancou

                 jogando no mar

                 e o mar destroçou.

 

Eu não sou aquele Nega Fulô

do romance escrito por Jorge de Lima

que conta a história de outros amores

bem mais diferentes do amor que te dou.

Da minha janela contemplo o horizonte

aberto, terrível, de ondas bravias

que se atiram ferozes nas pedras escuras

se despedaçando, quebrando-as também.

Que levam pra longe a mirada da gente,

arrastando, ondulando como uma serpente.

Adoro a mareta que vem se chegando

de manso, rolando na areia branquinha,

chegando, chegando, suave, maneira

e eu caminhando tranquila, sem medo,

esperando que venha, amorosa, cheirosa,

molhar os meus pés, me contar um segredo!

                 Prefiro ser lenda

                 a ser uma história

                 de heróis, de Vikings,

                 de naus com mil remos

                 lutando, matando,

                 sofrendo, morrendo

                 por uma coroa,

                 por um Imperador.

 

Sou mansa, sou fraca,

sou canto de pássaro,

sou água serena dos igarapés.

Sou vitória-régia que em noites de luar

esconde a morada dos tucunarés.

Meu grito de guerra não é grito de luta.

Não é de revolta,

não é de labuta.

É um grito de paz, é um grito de entrega...

É um grito de ave arrulhando no ninho,

na ponta de um galho que o vento balança

com voz de acalanto,

pra lá e pra cá...

Sou vitória-régia, não estrela do mar.

Sou limo que cobre o espelho do rio

formando uma colcha macia de veludo.

                 Sou tronco arrancado da margem, levado,

                 arrastado com fúria pro meio do mar,

                 tentando agarrar-se nos galhos, raízes,

                 cipós do barranco, querendo ficar...

                 ....................................................................................

                 Mas a noite vem vindo com sua solidão

                 e o tronco arrancado da margem é jogado

                 e então abandonado em um porto qualquer

                 de pedras sem alma e sem coração. p. 81-83

 

 

A FELICIDADE

 

No dia em que eu nasci

os anjos me disseram

que eu seria feliz.

Eu cresci procurando a tal felicidade

por todos os caminhos não antes procurados.

Comecei pelas praias, procurei pelos rios...

Na Amazônia sem fim perguntei para os pássaros

que nos galhos teciam seus ninhos de amor,

onde morava essa dona dos destinos da gente,

como seria ela e como se vestia.

Que idioma falava. Como a conheceria?

A resposta que ouvi foi que continuasse

a procurar por ela pela vida afora,

que logo a encontraria.

Tantas vezes de longe, eu vislumbrei seu vulto...

Uma sombra imprecisa, arisca e fugidia.

Eu tentei agarrá-la, mas logo se desfez

e minhas mãos inúteis se quedaram, vazias!

Continuei andando, continuei tentando

e quando já cansada desistia de encontrá-la,

bem longe a avistei, numa nuvem de pó,

sorrindo para mim, acenando com a mão.

Corri ao seu encontro, sorrindo de alegria

e quando já a julgava presa nas minhas mãos...

Ouvi meu coração chorando de desgosto

e uma lágrima amarga

rolando no meu rosto. p. 84

 

CECIM, Yara. Arabescos e outros poemas. Belém: CEJUP, 1990.