segunda-feira, 23 de abril de 2018

VILA SEABRA (TARAUACÁ): ATA DA INSTALAÇÃO E INAUGURAÇÃO


O texto, a seguir, foi retirado de O Cruzeiro do Sul, jornal oficial da Prefeitura de Cruzeiro do Sul, Acre, publicado no dia 3 de fevereiro de 1907 (Ano II, N.30). Traz-nos informações relevantes do início da história político-administrativa de Tarauacá. O seringal Foz do Muru foi elevado à categoria de Vila em 1.º de janeiro de 1907, com o nome de Seabra, integrado ao Departamento do Alto Juruá, pois o Departamento do Tarauacá só seria criado em 1912. A Vila tornar-se-ia cidade, e sede do Departamento do Tarauacá, em 24 de abril de 1913.
Tarauacá, 1919
VILA SEABRA
Inauguração                                                                                                                      

Escrevem-nos:
“Na foz do Muru foi inaugurada no dia 1 de janeiro a vila Seabra, em um terreno de 250.000 metros quadrados, cedido à Prefeitura, sem o menor ônus, pela firma J. V. de Menezes & Filho, proprietária do seringal Novo Destino.
Em um almoço que se realizou no dia 24 de Dezembro na casa de residência dos Srs. Coronel Juvêncio Victorino de Menezes, oferecido ao Prefeito, aqueles comerciantes ofereceram gentilmente o referido terreno, para a criação da vila, procurando assim promover o desenvolvimento do Tarauacá.
Resolvida a criação da vila, que viria a tomar o nome do eminente estadista José Joaquim Seabra, o Prefeito designou o dia de Ano Novo para a sua inauguração, que se revestiria de toda a solenidade.
Para esse ato era preciso derrubar parte da espessa floresta da margem esquerda do rio Tarauacá, na foz do rio Muru, em uma belíssima terra firme, que se prolonga em planície até grande distância, e imediatamente vários proprietários, entre os quais os concessionários do terreno, o Sr. Raymundo Costeira e o Sr. Coronel Ramiro Chaves, ofereceram o pessoal necessário para a derrubada.
Esse penoso serviço foi iniciado, entrando em ação cerca de 30 homens, pondo abaixo árvores enormes, com muita dificuldade, até que, com admiração geral, no fim de quatro dias, já estava aberta a avenida principal, numa largura de oito metros, a qual começa ao lado do edifício do Posto Fiscal e vai até a terra firme, desembocando numa grande praça, que também ficou pronta e até destocada.
Todo esse serviço foi fiscalizado em pessoa pelo Prefeito, que teve como seu auxiliar o engenheiro Dionysio Dantas, que prestou gentilmente relevantes serviços.
Em meio da avenida, que o Prefeito deu o nome de D. Constância, onde passa um igarapé, aquele engenheiro construiu uma ponte de paxiúba, trabalho que foi muito elogiado pela sua segurança e bem acabado.
A praça, onde vai essa avenida desembocar, o Prefeito denominou-a “Primeiro de Janeiro”, em homenagem à data da inauguração a vila.
No decorrer da avenida, no seu lado direito, foi apenas cortado o mato, ficando as grandes árvores, formando belíssimo e encantador bosque que foi denominado “Anisio de Abreu”, tornando-se um lugar aprazível para recreios.
Na vila foram demarcadas as ruas, ficando as da frente com os nomes de: Coronel Frota e D. Inocência; as paralelas: Raymundo Cidade, Coronel Patriolino e Coronel Juvêncio; e as perpendiculares: Esquinauas, Catuquinas, Jaminauas, Colinas e Capanauas.
Todas a tabuletas, com a denominação das ruas, praça, avenida e bosque foram pintadas pelo Sr. Franz Schoenemann, concorrendo todas as pessoas com os contingente de seus esforços para o desenvolvimento da vila.
Assim, tendo o Prefeito encontrado a melhor vontade por parte do laborioso povo do Tarauacá, no dia marcado realizou-se a inauguração da Vila Seabra, que foi uma belíssima festa, reunindo-se, ali, muitas famílias em alegre convívio, e proprietários de seringais.
No porto estavam ancorados os vapores Loreto, Manauense, Jacy e Correia Braga, cujos comandantes também compareceram, com a sua oficialidade, sendo todas as embarcações embandeiradas em arco. Pela manhã, a lancha da Prefeitura, que também estava embandeirada, deu as salvas do estilo, de 21 tiros, correspondendo todos os vapores surtos no porto.
Na praça Primeiro de Janeiro, em frente a avenida, foi levantada uma barraca-palanque, onde se colocou uma mesa, cadeiras e o necessário para o solene ato.
Esse palanque foi devidamente enfeitado, hasteando-se à sua frente, em um grande mastro, o pavilhão nacional.
Ao meio dia desembarcou, fardada e armada, a guarnição da lancha da Prefeitura, indo formar em linha ao lado do palanque, para prestar as continências ao chefe do Departamento.
Uma hora depois chegou a professora D. Virgina de Araújo Barros, acompanhada de seus alunos, e logo em seguida começaram a chegar as famílias e mais convidados.
Formou também a força do Exército, sob o comando do 2.º Tenente Candido Thomé Rodrigues.
Pouco depois chegava no local o Prefeito, dando o clarim o toque de sentido, e depois de general em chefe.
S. Ex., depois de receber os cumprimentos das pessoas presentes, tomou assento à cabeceira da mesa, ficando ao seu lado esquerdo o Juiz de Distrito, Exmo. Sr. Dr. Saturnino Santa Cruz Oliveira, e ao seu lado direito, o seu oficial de gabinete Raul Costa.
Lavrado o respectivo decreto da criação da vila, o Dr. Prefeito mandou ao seu oficial de gabinete lê-lo em voz alta e logo em seguida a ata da instalação e inauguração da vila.
Terminada a leitura da ata, o Sr. Juiz pediu a palavra e leu um belo discurso em que fazia apologia do estadista que deu o nome à vila e saudava o povo do lugar por ter concorrido de modo tão brilhante para o progresso do Departamento.
Em seguida o Sr. Dr. Prefeito usou da palavra e, em frases buriladas, pronunciou belíssimo discurso, recebendo ao finalizar prolongada salva de palmas.
Nessa ocasião os alunos da escola Amazônia ofereceram a S. Ex. um ramalhete de flores, erguendo calorosos vivas.
Terminada a cerimônia retiraram-se todos para a sede do Posto Fiscal onde foi servido um copo de cerveja, reinando sempre a maior cordialidade.
Querendo demonstrar também o seu contentamento pelo progresso que o Prefeito ia dando ao Departamento, o comandante do vapor Loreto, Sr. Rodolpho Pampolha, ofereceu a Sr. Ex. um jantar, convidando a sua comitiva e demais pessoas.
À hora marcada, 6 da tarde, o navio começou a se encher de senhoras, senhoritas e cavalheiros, até que chegou S. Ex. acompanhado do juiz, do seu oficial de gabinete, do encarregado do Posto, Sr. Major José Pereira, do escrivão do mesmo, Sr. Capitão Vale e Silva, e outras pessoas.
A entrada de S. Ex. no vapor, que estava ornamentado com apurado gosto, foi solto um foguetão e dada salva de 21 tiros, correspondendo todas as embarcações.
A Loreto, debaixo da salva, hasteou o pavilhão de governador, e o seu comandante, auxiliado pela sua oficialidade e pelo representante da casa proprietária do navio, Sr. Jayme Nicolau, conduziu S. Ex. e demais convidados para a mesa do banquete, cujo menu foi variadíssimo.
S. Ex. tomou lugar à cabeceira, seguindo-se-lhe as senhoras presentes, e na outra cabeceira tomou lugar o Sr. Jayme Nicolau.
Ao champagnhe, o Sr. Manoel do Vale e Silva, comissionado pelos moradores no Tarauacá, representados pelos Srs. Coronel A. Frota de Menezes, Coronel José Marques e Tenente-Coronel José Victorino de Menezes, saudou o Dr. Prefeito, em breves frases mas eloquentes.
O Dr. Prefeito agradeceu e desenvolveu a vida política do Homem que dera o nome a vila, o qual o considerava como o grande mestre.
Em seguida o Sr. Dr. Francisco de Paula Faria e Souza saudou ao Dr. Seabra como o seu mestre também, falando novamente o Dr. Prefeito.
Usou da palavra depois o Sr. Coronel José Marques, que brindou o Dr. Prefeito como seu admirador.
Este agradeceu e brindou o comandante da Loreto, agradecendo a gentileza que lhe dispensou.
Fechou a série dos brindes o Dr. Faria e Souza que saudou esposa do Dr. Prefeito.
Findo o banquete retiraram-se todos, sempre na maior alegria.
No dia seguinte, 2, o Sr. João Vinhas, comandante do vapor Manauense ofereceu um almoço ao Dr. Prefeito, ornamentando para esse fim o seu navio.
Ao meio dia foram todos para bordo, sendo S. Ex. recebido com as salvas do estilo.
Ao champagne falaram: o Dr. Faria e Souza, em nome de comandante, oferecendo o almoço ao Dr. Prefeito; o Coronel Belarmino Porto, saudando o Prefeito em nome do povo do Tarauacá; o Sr. Napoleão Ribeiro, em nome da família cearense, saudou o Prefeito; e o Prefeito agradeceu a todos.
Ao se retirarem, foram dadas novas salvas.
Rua D. Constância de Menezes (1953). Foto: Antonio José Teixeira Guerra; Tibor Jablonsky.
__________
Na vila serão construídos os edifícios seguintes:
Igreja – Pelo Sr. Coronel Antonio da Frota de Menezes.
Cadeia e Quartel – Pelos Srs. Coronel Belarmino da Silva Porto, Pereira Lima e Luiz de Melo.
Capela e cemitério – Pelos Srs. Coronel José Marques e Major José Pereira de Araújo Barros.
Edifício para o comando superior da Guarda Nacional – Pelo Coronel Juvêncio Victorino Menezes.
Escola – Pelos Srs. Frota Fortuna & C., Antonio Frota & C., e Souza Irmão & C.
Casa da câmara – Pelo Sr. João Francisco Teixeira Sobrinho e outros.
Posto Federal – Pelo Sr. Comendador Pinho, da casa Melo & C.
Coletoria da Prefeitura – Pelos Srs. Souza Nunes & Prado, Antonio Ferreira Lima e Silvino Cabral.
Enfermaria – Pelos Srs. La Roque, David Martins, José Petter, Rodolpho Pampolha, Manoel Antonio de Souza Marques e Raymuno de Oliveira.
Todos esses cidadãos farão as construções à suas expensas.
- O Sr. José Victorino encarregou-se de fazer a derrubada de toda mata, empregando para isso 25 homens.

______
ATA DA INSTALAÇÃO E INAUGURAÇÃO DA “VILA SEABRA”

Ao primeiro dia do mês de janeiro do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e sete, décimo nono da República, neste lugar Foz do Muru, Primeiro Posto Fiscal do Juruá, margem esquerda do rio Tarauacá, Departamento do Alto Juruá, Território do Acre dos Estados Unidos do Brasil, onde se achavam presentes o Prefeito do Departamento Exm. Sr. Dr. João Virgolino de Alencar, o Juiz do Distrito do Departamento Exm. Sr. Dr. Saturnino Octaviano Santa Cruz Oliveira, o oficial de Gabinete Raul Costa, o engenheiro civil Dionysio Dantas, o Chefe do Serviço Sanitário da Prefeitura Dr. João C. Ferreira de Melo, o Juiz de Paz da 2.ª Circunscrição Coronel Antonio Frota Menezes, o 1.º Delegado Auxiliar de Polícia Tenente Candido Thomé Rodrigues, o Tabelião de notas Arthur Sergio Ferreira, o Encarregado do 1.º Posto Fiscal Major José Pereira de Araújo Barros, o Escrivão do Posto Capitão Manoel do Vale e Silva, o comandante geral das embarcações da Prefeitura Francisco Amandio, a Professora da Escola Amazônia D. Virgina de Araújo Barros, os comandantes dos vapores “Manauense”, “Loreto”, “Jacy” e “Correia Braga” ancorados neste porto, Jayme Nicolao Soares da Costa, representante da casa Melo & C., Luiz Patriolino Filho, representante da casa Oliveira Andrade & C., Raymundo dos Santos Costeira, representante de Fernandes Teixeira & C., Gualter Ribeiro, representante da Andresen Succrs., Dr. Francisco P. de Faria e Souza, negociantes Angelo Ferreira da Silva, Franz Schoenemann, Coronel José Marques de Albuquerque, Salvador R. Mendes, Francisco Olympio da Frota, Manoel Elysio Frota, senhoras e mais pessoas gradas como se vê abaixo assinadas.
Compareceram o Cel. José Victorino de Menezes e sua mulher, a Exm. Sr.ª D. Constância de Albuquerque de Menezes, por si e representando o Cel. Juvencio Victorino de Menezes e sua mulher a Exm. Sr.ª D. Inocência de Albuquerque Menezes, e declaram que vinham entregar ao Exm. Sr. Prefeito Dr. Virgolino de Alencar a escritura pública de doação que faziam à Prefeitura representada em sua pessoa, como representante do Departamento.
O Exmo. Sr. Dr. Prefeito agradeceu a valiosa dádiva e aproveitava a ocasião para ler o decreto criando a “Vila Seabra”. Em seguida foi colocada a tabuleta em que se lê: “Vila Seabra. Instalada na administração do Exmo. Sr. Dr. Virgolino de Alencar, em 1 de janeiro de 1907.”
Nessa ocasião salvaram as embarcações ancoradas no porto. O Dr. Prefeito ainda mandou colocar as tabuletas: “Avenida Dona Constância e Bosque Anisio de Abreu”, e agradeceu ao ilustre engenheiro Dionysio Dantas os seus serviços profissionais feitos na abertura da praça, avenida, bosque e construção da ponte e mais trabalhos que executou no referido lote de terra onde acaba de ser instalada a Vila Seabra. Denominou a avenida da frente com os nomes: Coronel Frota e D. Inocência, e as ruas paralelas à esta Raymundo Cidade e Coronel Patriolino, à outra Coronel Juvêncio; às perpendiculares, a começar do lado de cima, denominadas Esquinauas, Catuquinas, Jaminauas, Caxinauas, Colinas e Capanauas; e a praça onde desemboca a avenida D. Constância, Primeiro de Janeiro.
Ao terminar esta declaração salvaram as embarcações e o Exm. Sr. Dr. Prefeito mandou que eu escrevesse esta ata, afim de ser assinada por todas as pessoas presentes. Eu, Raul Costa, oficial de Gabinete, servindo de secretário, a fiz e a assino.
João Virgolino de Alencar, Saturnino Santa Cruz Oliveira, Constância Albuquerque Menezes, Maria do Prado, Virgina de Araújo Barros, Emília Queiroz Cavalcante, José Victorino de Menezes, Candido Thomé Rodrigues, Alexandre Mendes de Oliveira, José Marques de Albuquerque, Arthur Sergio Ferreira, Antonio Gentil de Menezes, Henrique B. de Oliveira, Antonio Frota de Menezes, Alvaro Sobralino de Albuquerque, Sansão Gomes de Souza, Xavier Giordani, Antonio Campos Ribeiro, Franz Schoenemann, Francisco Hermenegildo, Manoel Elysio Frota, José Richelieu, M. Orcel de Araújo Filho, Raymundo Gonçalves Pinheiro, Pedro A. Chaves, Manoel do Vale e Silva, Francisco Pio Machado, Gualter Ribeiro, Jayme Nicolau, F. P. de Faria e Souza, José Sapho, Nelson de Oliveira, Antonio Mendes da Silva, Francisco Saldanha, Francisco Fortuna, Mauricio Lima, Romualdo O. Rodrigues, Sylvio Cyrilo Marques, Antonio de Serpa, Manoel Furtado Cavalcante, Francisco Olympio da Frota, Angelo Ferreira da Silva, João Vinhas, Antonio Soares dos Santos, José Albertino de Souza Pereira, Theodolino do Areal Souto, Geraldo das Mercês Pereira, Carlos Augusto Costa, José Antônio, Henrique Costa, Raymundo Costa Melo, Alberico Ribeiro Messias, José Raymundo Satyro, Trajano Altino de Almeia, Conegundes Ferreira de Oliveira, José Gualdêncio da Costa, José Angelo Cavalcante, José Pereira de Araújo Barros, Dionysio Dantas, Leonel Junior, João C. Ferreira de Melo, Raul Costa.

Jornal O Cruzeiro do Sul (orgam official), Cruzeiro do Sul, 3 de fevereiro de 1907, Ano II, N.30. p.1-2

sábado, 21 de abril de 2018

ERASMO E A BESTA

Henry Evaristo (1975-2010)

Erasmo fechou o pesado livro de capas vermelhas emboloradas às três da manhã. O tom amarelado das antigas folhas da obra obscura ainda insistia em dançar por trás de seus olhos quando ergueu a cabeça depois de ficar muito tempo refletindo sobre o saber ancestral e oculto com o qual havia acabado de ter contato.

O ar estava abafado na velha biblioteca. Era uma noite de verão, quente e estagnada, onde a umidade sufocante parecia querer estourar os pulmões dos habitantes da velha cidade e das turbas de forasteiros andarilhos que ela insistentemente atraía; e que vagavam como hordas pelas esquinas dos bairros mal iluminados, vindos de lugares ignorados; quiçá exóticos quiçá sórdidos.

Uma tênue luminosidade se filtrava pelos vitrais das janelas altas e gradeadas banhando o ambiente com um tom azul violáceo com se ali fosse o lugar de um fantástico aportar de estranhos mundos oníricos que se desprendessem do subconsciente em meio à mixórdia do universo da vigília. A pequena lâmpada fluorescente do teto não era páreo para as sombras dos cantos escuros que queriam se propagar para todos os lugares.

Erasmo, os olhos ardendo devido à leitura forçada sob tão adversas condições de iluminação, recostou-se na poltrona de veludo e passou a mão esquerda na chave da porta principal lembrando-se do que dissera, mais cedo, o segurança do estabelecimento, seu vizinho Baaurus. As advertências sobre não abrir a porta para ninguém, por mais que implorasse, e de que não ficasse andando por ai sozinho para não correr risco de se perder, faziam agora um sentido que, às seis da tarde não haviam feito. O ambiente sombrio, mas aconchegante, que encontrara ao chegar na imensa biblioteca parecia ter transmutado para algo a ser temido durante o tempo em que esteve compenetrado em sua leitura. Uma opressão no ar parecia insistir em gritar que a anormalidade pairava por ali. "Depois feche tudo com atenção!" Repetira mais cedo o vizinho vigilante. "Se não perco o emprego e você vai se ver comigo!".

Perdido em pensamentos desordenados e misturados, Erasmo viu claramente quando de uma das prateleiras de livros mais próximas, cuja parte posterior estava mergulhada nas sombras espessas da biblioteca, vários volumes foram atirados ao chão com extrema violência. O ruído, espalhando-se e reverberando pelas paredes do recinto vazio, era como uma algazarra medonha de coisas indizíveis a lutar entre si.

De um salto ele se ergueu a fitar a direção do ocorrido com olhos arregalados. No entanto ficou parado, inerte, em silêncio. O coração dava pontadas finas em seu peito e o ar começava a querer lhe faltar. A asma de repente o ameaçava de novo, depois de tantos anos de trégua.

Do escuro, por trás das prateleiras com milhares de volumes, como a responder às indagações silenciosas de Erasmo, veio uma série de terríveis ruídos semelhantes ao trote lento e circular de algum animal equino que se esforçasse para não cair na superfície do piso encerado e escorregadio. Depois, mais volumes foram atirados de prateleiras distantes como se alguma coisa grande esbarrasse nelas aos encontrões.

Parado, imóvel, Erasmo tinha os cabelos em pé. Suas mãos suadas, que antes descansavam sobre a superfície vermelha e carcomida do livro ancestral que estivera lendo, agora evitavam a todo custo ter qualquer outro contato com o volume estranho e obscuro cujo nome do autor fora extirpado de seus devidos lugares; lugares onde restavam apenas manchas escuras de um borrão feio cuja visão prolongada causava asco e torpor inexplicáveis.

Num ímpeto, o curioso voltou-se para a porta de saída apalpando de novo as chaves e certificando-se de agarrar logo a que servia especificamente para a fechadura que tão ansiosamente queria abrir. Antes, porém, superando a duras penas o terrível mal-estar que sentia, apropriou-se do estranho livro para levá-lo consigo.

Ao dar o primeiro passo, no entanto, imediatamente algo de enorme massa corporal postou-se às suas costas.

Erasmo parou no meio da biblioteca azulada decidido a não se virar por nada que ouvisse ou sentisse subsequentemente. Primeiro veio uma lufada de vento quente em seu pescoço e seus cabelos se tornaram úmidos com algum líquido espesso que brotava da escuridão. Algo de indescritível sensação pegajosa e fétida encharcou suas roupas.

Não ouviu palavras articuladas em seu idioma, mas sentiu quando o calor de uma nefanda proximidade orgânica se abateu sobre sua nuca e ouvido. Parecia sussurrar palavras em alguma língua profana e imunda que misturava fonemas com cusparadas e onomatopeias. Não queria aceitar o fato de que aquilo que achava se tratar de uma espécie sem sentido de ruído anasalado que ouvia em meio à miscelânea de sons que provinham de suas costas, fosse, na verdade, o balir de algum animal caprino.

De repente tudo parou. Os sons, o mau cheiro, o calor em seu pescoço, tudo desapareceu e a biblioteca mergulhou novamente em extrema calma e solidão. Erasmo ofegava na penumbra violácea do recinto e lagrimas lhe escorriam dos olhos. Seus músculos retesados não conseguiam se mover.

A porta principal estava a poucos metros a sua frente, mas chegar lá parecia tarefa impossível. Lentamente deu alguns passos tímidos para frente e, ao tentar agarrar a chave no bolso, deixou cair o livro que segurava com tanto pavor. O compêndio foi estatelar-se no chão onde inexplicavelmente rolou como se atirado com extrema força indo restar, de páginas abertas, perto da tão almejada porta de saída. Num último esforço, Erasmo correu em sua direção e, neste momento, ouviu de novo a movimentação sobrenatural às suas costas.

Algo avançava através do salão chocando um trotar de patas cascudas contra o soalho encerado de madeiras nobres.

"Maldito!", Pensou Erasmo agarrando a chave com toda sua força e desesperadamente inserindo-a na fechadura. A imensa porta cedeu com facilidade e o ar externo entrou levando luz ao salão escuro.

A coisa vinha das trevas correndo e relinchando como um cavalo; berrando e cabeceando como um carneiro negro gigantesco; escorregando e caindo no chão liso. Assim Erasmo a viu antes de chutar o livro para o lado de fora onde foi parar próximo ao meio fio. Depois bateu a porta com estrépito, trancou-a rapidamente, e se afastou, andando de costas, para o meio da rua deserta.

Tudo ficou quieto outra vez. Ao longe um táxi dobrou a esquina e veio em direção ao homem parado no meio do caminho. Erasmo fez sinal para que ele se aproximasse e parasse.

Ao embarcar foi interpelado pelo motorista que apontava o lado de fora. "Seu livro senhor!". "Ahn?", disse o passageiro com os olhos fitos na fechadura da porta da biblioteca. "Aquele livro é seu?", indagou novamente o pequeno homem ao volante. "Veja aquilo!", foi o que obteve como resposta.

Erasmo apontava para a imensa porta de ébano do prédio de onde acabara de sair. O motorista olhou para a mesma direção e viu a madeira cedendo sob golpes furiosos desferidos pelo lado de dentro. "Senhor?", disse atônito. "O que é isso?".

"Não sei", respondeu o jovem com franqueza; muito embora sua inocência já estivesse comprometida pelos segredos pervertidos que desvendara nas passagens que lera do terrível volume e sendo suas suspeitas meros subterfúgios para tentar obscurecer a verdade incontestável.

"Está tentando sair". Disse, em fim, depois de respirar fundo. "Quer ficar solta no mundo! Vamos embora, vamos!" Gritou.

O motorista, diante da ordem imperiosa daquele estranho passageiro exacerbado, acelerou o mais que pôde se dando por satisfeito em sair de perto daquele lugar.

***

O estranho livro ficou jogado no meio-fio até a chegada do segurança Baaurus às cinco da manhã como havia ficado acertado com seu amigo na noite anterior. O velho guarda aproveitara a presença do outro (fazendo às vezes de vigia em seu lugar) para ir visitar as casas de facilidades de um decrépito bairro próximo. Encontrou o volume aberto e umedecido pela garoa da noite e nenhum sinal de seu amigo com quem ficou decidido a ter uma conversinha de reprimenda por ter falhado tão miseravelmente na sua parte do acordo que era cuidar bem do recinto em troca de poder ficar a vontade para ler o que quisesse. Agora justamente aquele volume raríssimo se encontrava com a integridade posta em risco pelas mãos de um irresponsável.

Ele estava aberto em duas páginas com ilustrações que logo chamaram a atenção do guarda boêmio. Eram imagens de um antigo deus cultuado pelos templários em Jerusalém na idade média. Mas o guarda de nada disso entendia assim como também não sabia latim a exemplo de seu negligente e culto amigo. Se soubesse poderia ter lido o que ele não teve tempo de ler:

“Do Caos ele vem, arrastando consigo a perdição do verbo; da ação de Deus. Ele próprio é Deus e de seu reino brotam os negrumes nos corações dos homens. Seu nome é Deus-barbudo, sua vontade é imperiosa e fará sua residência a alma humana. Olhai este compêndio, ó filhos do homem, pois ele é o portal para o Nosso Senhor dos Abismos, o Pastor dos Rebanhos de Chacais da Mesopotâmia. Ó, Sagrado Behemot, que chafurda nas águas malignas no Nilo! Cadela dos grotões das matas, Diabo dos poços sem fundo!”

sexta-feira, 20 de abril de 2018

MÚSICA DE CÂMARA de James Joyce

Música de Câmara é o primeiro livro do irlandês James Joyce (1882-1941), publicado em Londres em 1907. Os versos, raras vezes irônicos, falam da arte da poesia, de amor e traição, amor e solidão. Na época em que escreveu os versos, Joyce dizia que ele “era um rapaz estranho e distante dos outros, andando sozinho à noite e pensando que algum dia uma moça me amaria”.
VI

Quem dera o doce peito eu habitasse
(Tão belo ele é, tão doce e vero!)
E o vento rude nunca me rondasse...
Por causa do árido ar severo
Quem dera o doce peito eu habitasse.

Tivesse nesse coração morada
(De leve, bato, imploro à moça!)
E nele a paz me fosse partilhada...
Esse ar severo fora doce
Tivesse nesse coração morada. p.61


VII

Amor, vestes leves, passeia
Entre as macieiras – via
Por onde o vento alegre anseia
Correr em companhia.

Lá, onde o vento alegre para
E corteja a jovem rama,
Amor vai lento, a se inclinar à
Sombra sobre a grama,

E o céu pálido e azul é a taça
Por sobre a terra gaia,
Amor vai leve, a mão com graça
A segurar a saia. p.63


IX

Ventos de maio, em dança mar afora,
Dançando lá numa giranda em glória,
De sulco em sulco, a espuma esvoaçando
Ao alto, até tornar-se uma guirlanda
De arcos prateados que atravessam o ar –
Não viram meu amor nalgum lugar?
Malandança, malandança!
Ah ventos de maio em dança!
Amor é triste se amor está a distância! p.67


XXII

Do doce cárcere a prender-me,
Disso carece, amor, meu ser –
Ternos braços que põem-me inerme
E que também me impõe deter.
Eu fira alegre por lograr
Ser encerrado nesse cárcere!

Na teia de braços que o amor,
Minha querida, deixou trêmulos,
Tal noite atrai-me, onde o temor
Não possa nunca perturbar-nos;
Só um sono-em-sonhos vá se unir a
Um sono, a alma e a alma prisioneira. p.93


XXIII

Junto ao meu peito vibra um peito
Que é todo o bem, toda a esperança;
Num beijo e noutro, satisfeito;
Insatisfeito, se a distância.
É todo o bem que me foi dado – é! –
Minha única felicidade.

Pois lá (o musgo onde a corruíra
Aninha vários bens num canto)
Guardei os meus, antes de vir a
Descobrir o que era o pranto.
Teremos tal sabedoria
Se bem o amor dure um só dia? p.95


XXIV

Em silêncio, ela penteia,
Penteia os longos cabelos,
Em silêncio, com graça
E com uns gestos tão belos.

O sol está no salgueiro
E nos matizes sobre a erva:
Ela ainda se penteia,
Diante do espelho se observa.

Peço, não penteies mais,
Não penteies o cabelo,
Pois sei de certa magia
Sob aspecto o mais belo,

Que torna indistinto ao amante
Estar vivo ou se finar
Por ela, ó tu que és tão bela
E de um descaso sem par. p.97


XXVII

Mesmo que eu fosse um Mitridates
Imune à seta com veneno,
Me envolverias sem cautela
Até o teu êxtase mais pleno
E eu me render e confessar-me
Essa malícia do teu charme.

Para uma frase bela e antiga,
Querida, a boca é bem esperta;
Não sei de amor que se bendiga
Com o flautear de nossos poetas,
Nem de um amor onde não há de
Haver alguma falsidade. p.103


XXVIII

Gentil senhora, não me cante
Canções tristes, de amor que acaba;
Deixe pra a tristeza; cante
Como esse amor tão breve basta.

Cante o longo torpor de amor
De amantes mortos, lado a lado,
E como, em sua cova, o amor
Vai repousar. Está cansado. p.105


XXXVI

Escuto um exército em carga pela terra,
E estrondo de cavalos se arrojando, a espuma nos joelhos:
Arrogantes, com armadura negra, atrás deles se erguem,
Desdenhando as rédeas, com chicotes flutuantes, os cocheiros.

Eles bradam para a noite os seus nomes de guerra:
Choro dormindo e ouvindo ao longe o vórtice da gargalhada.
Eles cindem o escuro onírico, fulgor que cega,
E martelam, martelam meu peito como a uma bigorna.

Eles vêm sacudindo em triunfo a verde e longa cabeleira:
Eles surgem do mar e aos berros correm pela praia.
Coração, não tens prudência nenhuma, com tal desespero?
Amor, amor, amor, por que me deixaste só? p.121


JOYCE, James. Música de câmara. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: Iluminuras, 1998.