sexta-feira, 24 de março de 2017

BRISA MARINHA

Stéphane Mallarmé (1842-1898) 


A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!

Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre as ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis, a vogar...
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!


Brise marine
Stéphane Mallarmé

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

Stéphane Mallarmé, Vers et Prose, 1893


MALLARMÉ. Poesias. Traduções Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. São Paulo: Perspectiva, 1974. p.45

segunda-feira, 20 de março de 2017

A ELIZETH

Rogel Samuel


Recebo um presente rico. Um extraordinário presente, de minha Amiga Lyra. É um disco, um primor de Elizeth Cardoso. Eu me lembro que tive outra amiga comum, vizinha e amiga de Elizeth. Uma dama, as três. Elizeth, dizia minha amiga, almoçava frugalmente. Uma fruta, umas folhas de alface. Lutava contra a gordura. Elizeth canta, divina. Me lembro de outras divas, como Montserrat Caballé e La Callas, que também lutaram contra a gordura. “A Sra Onassis é muito gulosa, mas não come nada. Apenas prova o molho com um pedacinho de pão, na cozinha”, conta Christian Cafarakis, biógrafo de Onassis, que foi marinheiro no Cristina. Callas e Onassis brigavam diariamente, aos gritos. Dois temperamentos explosivos. Mas se amavam. Callas nada queria da fortuna dele. Quem deu despesa foi Jackie. Segundo o biógrafo, em três anos de casamento, Onassis deu-lhe 120 pulseiras, 50 de brilhantes, 500 pares de brincos, 300 colares, e mil anéis, além de uma coleção de pedras preciosas, soltas. O mais exótico presente foi um par de sandálias de veludo azul-rei, como “babouches”, com um diamante de 16 quilates em cima, cercado de diamantes e esmeraldas em círculos e triângulos. O Sr. Onassis pagou por isso a soma de 120.000 dólares. Presente de aniversário de Jackie, em agosto de 1970. Elizeth canta, perfeita. Ela me lembra minha prima M., que a adorava, na juventude. M. era uma mulher belíssima. Meu pai a chamava de “bebecadum”, não sei por que. Morava, quando jovem, na Tijuca. Na época a Tijuca era muito elegante. Tínhamos uma vizinha que desfilava num Cadilac branco, conversível, e que morava numa mansão, um pouco acima na Rua Des. Isidro. Nosso vizinho tinha um casal de filhos, jovens e belos. Foi com muita surpresa que, anos mais tarde, eu soube que o menino, hoje, é delegado de polícia, como o pai. Meu tio era vivo e nos levava à Barra da Tijuca, aos domingos. Era uma praia deserta. Minha prima M. casou-se com o empresário J., muito rico, que era muito meu amigo. Eles se foram para os Estados Unidos. A última vez que a vi foi na década de 70, em casa da Mariza Raja Gabaglia, na época casada com um pecuarista. Em Ipanema. Eu estava ali com minha amiga R., quando minha prima M. chegou, com o marido. Década de 70. M. usava um vestido preto brilhante, os ombros à mostra, os cabelos soltos. Nenhum enfeite, nem uma joia. Ornava-se de sua beleza. O salto altíssimo dos sapatos exaltava o porte de seu perfume. Dominava o ambiente, com seu sorriso de rainha. Agradável, simples e digna. Você pensa que a namorei?  Mariza Raja Gabaglia estava no ápice de sua fama e glória, como escritora e mulher. Sim, os anos 70, em Ipanema. Saíamos de madrugada e esticávamos no Degrau. Ou em algum botequim operário, onde era possível encontrar Mário Henrique Simonsen falando de ópera. Sim, vivi os anos 70. Tudo isso me sugere a Elizeth, a Divina. “Seu mal é comentar o passado...” canta ela. Muitos foram os anos que se passaram, Elizeth morreu. Morreu a Callas, o Onassis, a Jackie. Meu tio, meu pai e o empresário J. Todos morreram. A vida está morrendo. Os anos morrem. A vida, eu a recebi, um presente rico, como este disco da Elizeth.

Visite o site do autor:
literaturarogelsamuel.blogspot.com.br 

terça-feira, 14 de março de 2017

O AZUL

Stéphane Mallarmé (1842-1898) 

De um infinito azul a serena ironia
Bela indolentemente abala como as flores
O poeta incapaz que maldiz a poesia
No estéril areal de um deserto de Dores.

Em fuga, olhos fechados, sinto-o que espreita,
Com toda a intensidade de um remorso aceso,
A minha alma vazia. Onde fugir? Que estreita
Noite, andrajos, opor a seu feroz desprezo?

Vinde, névoas! Lançai a cerração de sono
Sobre límpido céu, num farrapo noturno,
Que afogarão os lodos lívidos do outono,
E edificai um grande teto taciturno.

E tu, ó Tédio, sai dos pântanos profundos
Da desmemoria, unindo o limo aos juncos suaves,
Para tapar com dedos ágeis esses fundos
Furos de azul que vão fazendo no ar as aves.

Que sem descanso, enfim, as tristes chaminés
Façam subir de fumo uma turva corrente
E apaguem no pavor de seus torvos anéis
O sol que vai morrendo amareladamente!

– O céu é morto. – Vem e concede, ó matéria,
O olvido do Ideal cruel e do Pecado
A um mártir que adotou o leito de miséria
Ao rebanho feliz dos homens reservado,

Pois quero, desde que meu cérebro vazio,
Como um pote de creme inerme ao pé de um muro,
Já não sabe adornar a ideia-desafio,
Lúgubre bocejar até o final obscuro...

Ele rola na bruma, antigo, lentamente
Galga tua agonia e como um gládio a sul-
Ca. Onde fugir? Revolta pérfida e imponente.
O azul! O azul! O azul! O azul! O azul! O azul!


L'azur
Stéphane Mallarmé

De l'éternel Azur la sereine ironie
Accable, belle indolemment comme les fleurs,
Le poëte impuissant qui maudit son génie
A travers un désert stérile de Douleurs.

Fuyant, les yeux fermés, je le sens qui regarde
Avec l'intensité d'un remords atterrant,
Mon âme vide. Où fuir ? Et quelle nuit hagarde
Jeter, lambeaux, jeter sur ce mépris navrant ?

Brouillards, montez ! versez vos cendres monotones
Avec de longs haillons de brume dans les cieux
Que noiera le marais livide des automnes,
Et bâtissez un grand plafond silencieux !

Et toi, sors des étangs léthéens et ramasse
En t'en venant la vase et les pâles roseaux,
Cher Ennui, pour boucher d'une main jamais lasse
Les grands trous bleus que font méchamment les oiseaux.

Encor ! que sans répit les tristes cheminées
Fument, et que de suie une errante prison
Eteigne dans l'horreur de ses noires traînées
Le soleil se mourant jaunâtre à l'horizon !

- Le Ciel est mort. - Vers toi, j'accours ! Donne, ô matière,
L'oubli de l'Idéal cruel et du Péché
A ce martyr qui vient partager la litière
Où le bétail heureux des hommes est couché,

Car j'y veux, puisque enfin ma cervelle, vidée
Comme le pot de fard gisant au pied d'un mur,
N'a plus l'art d'attifer la sanglotante idée,
Lugubrement bâiller vers un trépas obscur...

En vain ! l'Azur triomphe, et je l'entends qui chante
Dans les cloches. Mon âme, il se fait voix pour plus
Nous faire peur avec sa victoire méchante,
Et du métal vivant sort en bleus angelus !

Il roule par la brume, ancien et traverse
Ta native agonie ainsi qu'un glaive sûr ;
Où fuir dans la révolte inutile et perverse ?
Je suis hanté. L'Azur ! l'Azur ! l'Azur ! l'Azur !


MALLARMÉ. Poesias. Traduções Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. São Paulo: Perspectiva, 1974. p.41-43

terça-feira, 7 de março de 2017

JOÃO VERAS: alguns poemas

DES-SEJA
João Veras

(para toda pessoa humana)

A pessoa não é o corpo.

Não é o que fala,
o que consome,
o que imagina,
o que expele,
o que padece,
o que come.

Não é o que acena,
entristece,
tem pena,
a que põe mesa.
A pessoa não é o que beija.

Não é o copo que emborca,
o crime que presencia,
o pesar que ignora,
a doença que insiste.
Não é a dor que chora,
a leitura que não faz,
a encomenda que traz,
o filme que assiste.

Nem a alma que possui,
a crença que alimenta,
o fato que comenta,
a unha que rói,
a mãe que cuida,
a vida esquecida,
o pai herói.

Não é o que veste e o que desnuda.
Macho taludo, fêmea carnuda.

A pessoa é,
não sobejo,
todo o desejo,
o que quer.

08.12.2016


LA LIBERTAD Y LA FURIA EN MI CAMINO
João Veras

pego aquele martelo
que tá ali posto
sem nada fazer sem uso
e saio destruindo tudo que é concreto duro consistente

pego tudo que é concreto duro consistente
que tá ali posto
sem nada fazer sem uso
e saio jogando contra as paredes muros e cercas

pego aquelas paredes muros e cercas
que estão ali postos
sem nada a fazer sem uso
derrubo tudo ao chão
e saio de pisos leves
- quando então - para nada fazer e sem uso.

04.12.2014


NATUREZAS (de segundas intenções)
João Veras

as unhas crescem
eu corto
crescem de novo
torno a cortar
insistem
teimo
e vamos

o caminho é longo
até não mais crescer até não mais cortar
e quando?

sem renuncia
sem abandono
nenhum de nós
até o fim?
e vamos

11.11.2014


ARTISTAS DA TERRA
João Veras

São quatro
O um, que acha que é
O dois, que dizem que não é
O três, que sonha ter nascido em marte
E o quatro

Engarrafados em frascos de si
Pratas esvaziadas de êxito fabril
Circulam na esfera do quintal
Esse universo bastante
abarrotado de tantos quês!

Cada um é um
Mas só alguns são

02.03.2017


DESCULPA, É A GUERRA DOS CULPADOS
João Veras

Acre 21: matadouro de humano
Um parente, um conhecido ou qualquer sicrano
Todo dia alguém assassina alguém
Quem foi dessa vez, quem?

Nunca se sabe o que aconteceu.
E vai restando uma certeza impura
nessa concentração de loucura:
o culpado é sempre quem morreu.

01.03.2017


REALEZA SEM IMPÉRIO NO CARNAVAL DOS COMUNS
João Veras

Eu não vi, fugi!

Na cidade
o chic lebreu dominou os conforts cercados
E ao resto sobraram as coroas postiças

Sóis rei, princesas e rainhas
No carnaval que passou

Quanto riso, oh quanta agonia!

28.02.2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

MURILO MENDES: alguns poemas

CANÇÃO DO EXÍLIO 
Murilo Mendes (1901-1975)

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam  gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil-réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade! p.17


O MENINO SEM PASSADO
Murilo Mendes (1901-1975)

Monstros complicados
não povoaram meus sonhos de criança
porque o Saci-pererê não fazia mal a ninguém
limitando-se moleque a dançar maxixes desenfreados
no mundo das garotas de madeira
que meu tio habilidoso fazia para mim.

A mãe-d’água só se preocupava
em tomar banhos asseadíssima
na piscina do sítio que não tinha chuveiro.

De noite eu ia no fundo do quintal
pra ver se aparecia um gigante com trezentos anos
que ia me levar dentro dum surrão,
mas não acreditava nada.

Fiquei sem tradição sem costumes nem lendas
estou diante do mundo
deitado na rede mole
que todos os países embalançam. p.18


MEU NOVO OLHAR
Murilo Mendes (1901-1975)

Meu novo olhar é o de quem já sabe
Que alegria e ventura não permanecem.
Meu novo olhar é o de quem desvendou os tempos futuros
E viu neles a separação entre os homens,
O filho contra o pai, a irmã contra o irmão, o esposo contra a esposa
As igrejas dinamitadas, depois reconstruídas com maior fervor;
Meu novo olhar é o de quem penetra a massa
E sabe que, depois dela ter obtido pão e cinema,
Guerreará outra vez para não se entediar.
Meu novo olhar é o de quem observa um casal belo e forte
E sabe que, sozinhos, se amam os dois com nojo.
Meu novo olhar é o de quem lúcido vê a dançarina
Que, para conseguir um movimento gracioso da perna,
Durante anos sacrificou o resto do seu ser.
Meu novo olhar é o de quem transpõe as musas de passagem
E não se detém mais nas ancas, nas nucas e nas coxas,
Mais se dilata à vista da musa bela e serena.
A que me conduzirá ao amor essencial.
Meu novo olhar é o de quem assistiu à paixão e morte do Amigo,
Poeta para toda a eternidade segundo a ordem de Jesus Cristo,
E aquele que mudou a direção do meu olhar;
É o de quem já vê se desenrolar sua própria paixão e morte,
Esperando a integração do próprio ser definitivo
Sob olhar fixo e incompreensível de Deus. p.53-54


MENDES, Murilo. Os Melhores Poemas de Murilo Mendes. Seleção Luciana Stegagno Picchio. São Paulo: Global, 1994.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

ROGEL SAMUEL: alguns poemas

CASA ABANDONADA
Rogel Samuel

Por lá não há mais ninguém
nesta casa abandonada
nem os fantasmas esguios
nem as fadas enamoradas
nem mendigos nem ninguém
mesmo o tempo por lá não encosta
mesmo as recordações se desfazem
as memórias as cansadas
naves da madrugada
cinzas do que passou
solidão das marés
esquecimento e silêncio


NOITE NEGRA
Rogel Samuel

Noite negra
Noite. Noite negra, nessa montanha.
Negra noite
Unidos pelo mesmo hálito,
o mesmo manto sem estrelas.
Nesse mundo, onde estamos nós?
Nessa noite negra. Tão negra
que deixamos acesa aquela luz.
Entre nós. Nossas luzes.
Negra noite.


JARDIM ANTIGO
Rogel Samuel

um fato aconteceu
no silêncio das flores do jardim abandonado
entre os arbustos
e folhas secas
aumentaram as cores
a vivacidade variada
libertaram
não sabem a nenhum
germinam grandes entre pedaços de
estatuária
debaixo de pedras
dentro dos tanques surdos
somente perdidos anjos
e o cão preto
aquelas aves desgarradas
aquelas murtas velhas
não a veem
à noite um lagarto verde
entre as estrelas azuis
as flores dormem
as flores há muito tempo lá estavam
elas dormem


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