sábado, 16 de junho de 2018

NIETZSCHE E AMOR FATI

Pedro Demo (2017)

Neste quarto remix da obra de Grosz (2017) (G) sobre o incorporal, vamos abordar o capítulo 3: Nietzsche e amor fati. “Estou totalmente surpreso, e encantado! Tenho precursor, e qual precursor! Mal conhecia Espinosa: que me tivesse voltado a ele agora, foi inspirado por ‘instinto’. Não só ele avassaladoramente igual a mim – nomeadamente de tornar todo conhecimento poderoso afeto – mas em cinco pontos principais de sua doutrina reconheço-me; este pensador muito inusitado e solitário é o mais perto de mim precisamente nessas questões: nega a liberdade da vontade, teleologia e a ordem moral do mundo, o não egoísta, o mal. Muito embora as divergências sejam, claro, tremendas, devem-se mais à diferença em tempo, cultura e ciência. Em suma: minha solidão, que, como em qualquer montar bem alta, muitas torna difícil para mim respirar e faz com que meu sangue corra, é agora pelo menos uma coisa a dois” (Nietzsche, Cartão postal para Franz Overberg em Sils-Maria, 30 de julho de 1881 – Yovel [1989], Spinosa and other heretics). “Estou no humor de fatalista ‘submissão ao Deus’ – chamo a isto de amor fati (amor ao destino) tanto mais que iria atirar-me na mandíbula de um leão” (Nietzsche [1921; 1996], Carta a Overbeck, Selected Letters of F. Nietzsche) (G:92). Mais que Espinosa, Nietzsche encarou a questão do poder, não como substância, mas como o que corre em tudo e aguenta juntas as coisas. Não vê mais um mundo ordenado racionalmente estruturado via ordem interna das coisas, corporais e não corporais. São campos de força das ordens da substância que dão as maiores oportunidades de autoexpansão, para a vida boa, a vida vivida em sua intensidade sem lamento, vida que humanos não conseguem suportar, mas que, talvez os melhores humanos, os últimos, podem prever, a superação do homem via criação do super-homem, quem pode aturar a recorrência eterna do universo e todos seus momentos efusivos, estranhos e vergonhosos.

A ordem exibida pelo mundo, que permite sacar princípios regulares, é em si caótica, conflituosa, excessiva, aberta, não dominada por coisas, que precisa ser entendida como efeitos corporais de forças e campos de força. O mundo não é ordenado racionalmente, sendo que as formas de razão concorrem com e são produzidas pelo mundo. Com a morte de Deus, o mundo não tem ordem imposta a não ser as várias forças que mantêm as coisas. Não havendo ordem divina, não havendo conhecimento que se possa ter da cadeia inteira das causas que condicionam as coisas, e o mar de ideias carregadas nisto, se, como seres fininhos, somos apenas pontinhos de insignificância nas ordens em conflito que compõem o mundo, a tarefa é menos conhecer este mundo, do que criar uma vida suportável intensa. Ao invés de amar a Deus, substância ou natureza como ordem divina no mundo e em nós, ele propõe que nos aprimoremos via afetos, sofrendo e se alegrando, na solidão e nas alianças, vivendo intensamente as forças que nos compõem e, acima de tudo, amar a necessidade de viver num mundo que não nos reflete, e cuja ordem e cadeias causais não entendemos. Tornamo-nos “divinos” na extensão em que humanos podem, via afeto, mais que pensamento, via sentimento e agindo mais do que pensando (Nietzsche, 1974). Força é incônscia e corporal, as próprias ideias possuem forças, energias, investidas em sua contestação. As artes, mais que as ciências, capacitam a vida a superar-se, evoluir para além de si, com novos ideais, nova moralidade, novo tipo de vida. Oferecem equilíbrio às ciências, indicando a natureza construída de toda produção.

I. NIETZSCHE, ESPINOSA E ESTOICOS

Como os pré-socráticos, os estoicos e Espinosa, Nietzsche fascinou-se por uma ética naturalmente envolvida e expressiva de uma ontologia, um modelo do real, que não propicia um código moral, mas um tipo de conhecimento que pode facultar a autotransformação num movimento mais amplo que também age e transforma o real. Ética é algo vinculado ao que o mundo é, ao invés de direcionado para como deveria ser. O mundo é único, um universo vasto que é o único habitado, não há outro mundo, nem transcendência, nem existência em outro reino, nem ordem religiosa ou divina, apenas imanência, a inerência das formas da ordem no fluxo dos objetos, processos e ideias. Comprometeu-se com a reescrita radical das normas morais dos contemporâneos através da criação de novo tipo de filosofia e, com isso, a constituição de nova moralidade, no contexto de uma ordem das causas materiais, bem como de uma força extraordinária, uma orientação ou telos interior, a vontade para o poder, que orienta e organiza forças materiais, com quantidade e qualidade, a partir de dentro, um vetor conforme o qual a direção ou modo de ação, a vontade enfim, pode se elaborar. A vontade para o poder é uma força mais poderosa do que conato, no sentido de que deseja não apenas sua perseverança e maximização, como faz o contato, mas a superar os obstáculos, a si mesma, conquistar. Como sugere Yovel, se Espinosa vê conato como poder de autopreservação e autoaprimoramento, um poder sempre em ação na vida, Nietzsche observa a vontade para o poder não como instrumento da vida, mas como o que a vida faz, o que a vida faz com as outras vontades para o poder (1989:111). Não se trata de vida religiosa ou similar. Entende filosofia, à sombra de algumas rotas antigas, como contraposição ao que se prega na sociedade, sempre questionando tudo e a todos (Nietzsche, 1868-69; 2006. Barnes, 2014), sobretudo crendices religiosas e populares (Nietzsche, 1988; 1974. Ure, 2009. Armstrong, 2013).

Em relação aos estoicos, ele entende o poder da fortaleza estoica ou indiferença, nem sempre em todo contexto, mas particularmente em tempos violentos. Esta fortaleza, porém, se equivoca em condições de paz e abundância (em tais circunstâncias prefere o epicurismo, o desfrute de tudo!), mas os estoicos são para ele profetas do futuro. Os estoicos desenvolveram uma “pelo de ouriço” contra elementos externos, que os epicuristas podem achar irritante. Isto pode ser útil em tempos de luta. Estoicos se preparam para o pior, e aí está sua força inaudita. Grande poder de renúncia que, para muitos, é a melhor fonte da felicidade (G:99). Daí aprendeu também a sabedoria de viver o próprio destino impassivelmente. Para Nietsche, a falha de Espinosa foi separar sentimento de entendimento (ou o terceiro tipo de conhecimento): “Não rir, não se lamentar, nem detestar, mas entender (Spinoza, 2007), diz Espinosa tão simples e sublime como gostava. Mas em última análise, o que mais é este intelligere do que a forma na qual chegamos a sentir os outros três de uma vez? Um resultado dos desejos diferentes e mutuamente excludentes de rir, lamentar e maldizer? ... Supomos que intelligere deve ser algo conciliatório, justo, bom – algo que fica essencialmente oposto aos instintos, enquanto é realmente nada que não seja certo comportamento dos instintos para o outro” (Nietzsche, 1974:333. G:101).

Espinosa teria intelectualizado os instintos, equivocando-se em tomar mente pelo corpo, submetendo mente ao corpo. Entende mal que as forças do corpo produzem a mente. Questiona em Espinosa também a criação de um Deus imanente. Espinosa tem ideias desincorporadas. Numa parte da The Gay Science (Why we are not idealists) (1974:372), argumenta que ideias não precisam ser alimentadas por outras ideias, mas nos corpos: “Ideias são sedutoras ruins, por toda sua aparência fria e anêmica, e sem mesmo de sua aparência: sempre viveram no ‘sangue’ do filósofo, sempre consumiram seus sentidos e mesmo, se quiser nos crer, seu ‘coração’. Esses velhos filósofos eram sem coração: filosofar sempre foi um tipo de vampirismo. Olhando para tais figuras, mesmo Espinosa, não se tem um senso de algo profundamente enigmático e estranho? Não notou o espetáculo que se desenrola ante si, como se torna sempre mais pálido – como dessensualização é interpretada mais e mais idealmente. Não sente um vampiro há muito suprimido no pano de fundo que começa com os sentidos e no fim é deixado com, e sai, apenas ossos, mero barulho? Quero dizer categorias, fórmulas, palavras (pois, perdão, o que se deixou de Espinosa, amor intellectualis dei, é mero barulho e nada mais: o que é amor, o que é deus, se não há nenhuma gota de sangue neles?)” (G:101).

Ideias não carecem de corpos. E Nietsche critica também o termo substância em Espinosa: “Para que o conceito de substância pudesse originar-se – o que é indispensável para lógica, embora no sentido mais estrito nada lhe corresponda de real – foi também necessário que por muito tempo não se vissem nem percebessem as mudanças nas coisas. Os seres que não viram tão precisamente tinham vantagem sobre aqueles que viram algo ‘em fluxo’... O curso das ideias lógicas e inferências em nosso cérebro hoje corresponde ao processo e esforço entre impulsos que são, tomados bem simplesmente, muito ilógicos e injustos. Geralmente experienciamos apenas o resultado deste esforço porque este mecanismo primevo agora toca seu curso tão rapidamente e tão bem ocultamente” (1974:111).

II. CIÊNCIA E ARTE

Precisamos de física para nos contar sobre o mundo da matéria; mas requeremos também um entendimento das origens não científicas da ciência, as condições religiosas que ciência, ou física como a “mais pura das ciências”, deve desabonar, suas origens supersticiosas, mágicas, religiosas. Numa seção “Preludes of Science”, Nietzsche se diverte considerando as precondições necessárias, mas irracionais e intuitivas de todas as ciências: “Crê realmente que as ciências teriam alguma vez se originado e crescido se não tivessem sido preparadas por mágicos, alquimistas, astrólogos e bruxas, cujas promessas e pretensões primeiro tinha que criar uma sede, uma fome, um gosto pelos poderes ocultos e proibidos? De fato, infinitamente mais tinha que ser prometido do que podia uma vez ser cumprido para que tudo pudesse ser cumprido no reino do conhecimento... O todo da religião poderia inda aparecer como prelúdio e exercício para uma era distante” (1974:300). A ciência sozinha não pode moldar uma ontologia e entender o ajuntamento e excesso que caracteriza a si mesma e suas origens bem não científicas. Quanto mais a ciência, em especial a física, explica a matéria e sua organização no universo, tanto mais tende para a arte; quanto mais a ciência ganha em “verdade”, mais perde sua “objetividade” (G:104). Arte entende, como a ciência não, que construções humanas, incluindo ciência e arte, funcionam para elevar nossos modos de viver e que este é seu “efeito verdade”, sua vontade para a verdade (Nietzsche, 1974:344). Ciência, sejam quais foram suas verdades, protocolos, treinamento, e “ficções reguladoras” (Ib.), funciona em seu melhor apenas com este encantamento, pois é conjunto de práticas que é capaz de suportar a vida. Traz consigo, contudo, o risco de suplantar a moralidade da afirmação da vida, que sua própria moralidade da objetividade, afirmando não esta vida, mas outra, não a rodem (ou caos) do mundo, mas a perfeição de outro. “Sem dúvida, os que são verídicos em seu sentido audacioso e último que é pressuposto pela fé na ciência, afirma assim outro mundo diferente do mundo da vida, natureza e história e enquanto afirmam este “outro mundo” – veja, não precisam no mesmo gesto negar sua contrapartida, este mundo, nosso mundo? – Mas terá ajuntado aquilo para o qual me dirijo, nomeadamente, que é ainda uma fé metafísica sobre a qual nossa fé em ciência repousa – que mesmo nós buscadores do conhecimento, metafísicos sem deus ainda buscamos nosso foto, também da chama acesa por uma fé de mil anos, esta fé cristã, que foi também de Platão, que Deus é a verdade, que verdade é divina” (1974:344). Ciência é uma fé na verdade que finge objetividade enquanto encobrindo os valores e crenças não discutidas que a escoltam.

Nietzsche desdiviniza a natureza. Faz da natureza, não lei ou ordem, mas só necessidade. Vê a vida, na esteira do darwinismo, como algo que sempre se supera, sem direção divina. Se houver ordem na luta pela existência, é a ordem do corpo e suas formas, suas variedades, suas forças na prática, in situ. Apesar de suas resistências a Darwin, ele coloca impulsos corporais, instintos e preservação da espécie, e os desejos excessivos dos seres vivos acima das operações da razão, sem aniquilar a razão, mas inevitavelmente orientando a questões da vida. Nietzsche inventa, ou remodela de fontes primevas e apropria-se de nova ontologia, na qual coisas, quer sejam corpos ou ideias, não são inertes. Corpos, ideias, identidades e todos os tipos são o alinhamento provisório de uma física das forças, que dá “sangue”, que é poder, energia, a todas as coisas. Seu desafio ao pensamento e conceituar um universo liberto das identidades, nomes, categorias humanas e religiosas, para entender o universo nos termos de uma ordem que subjaz e toca tudo. Aproxima-se do pneuma estoico – “vontade para o poder”, fora que não é vontade, nem poder em seu sentido usual. Vontade deve ser entendida, não como intencionalidade ou teleologia, não como viva e produto da vida. É a condição impessoal da via que faz a vida, incluindo o humano, possível e que cada vida vive por si. Em poder não pode ser concebido com uma qualidade ou condição de um ser vivo ou divino, algo que “tem”, por não poder ser possuído, apenas exercido. A vontade para o poder é rede vasta de forças impessoais que perfazem o universo que age e se esforça por vir a ser. Assegura que nada fica plenamente o que é, cada coisa, objeto, pensamento, nação, povo é sempre um vir a ser, nunca estável, nunca o mesmo. Vontade para o poder são as forças ativas e passivas que subjazem a tudo, que corre dentro das relações causais e relações entre ideias. Tais relações são, daí para frente, políticas, forças que agem, reagem, comandam e obedecem em relação a outras forças. A contestação dos corpos e forças corporais não mais feroz do que a contestação das ideias.

“Este mundo: um monstro de energia, sem começo, sem fim; uma magnitude firme, férrea de força que não se torna maior ou menor, que não se expande a i, mas apenas se transforma...; como força em tudo, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo uma e muitas, aumentando aqui e ao mesmo tempo diminuindo lá; um mar de forças, fluindo e correndo juntas, eternamente mudando, eternamente inundando para trás, com anos tremendos de recorrência, com um refluxo e inundação de suas formas... Este, meu mundo dionisíaco, se autocriando eternamente, se autodestruindo eternamente, este mundo misterioso de deleite duas vezes voluptuoso, meu ‘além do bem e do mal’, sem objetivo, a menos que o desfrute do círculo seja o objetivo do círculo; sem vontade, a não ser que um anel sinta boa vontade consigo mesmo – quer um nome para este mundo? Uma solução para seus enigmas? Uma luz para você, também, homens mais ocultos, fortes e intrépidos da meia noite? Este mundo é a vontade de poder – e nada mais! E vocês em si são esta vontade de poder – e nada mais!” (1968:1067).

A transvalorização dos valores existentes consiste em buscar as várias vontades ou interesses em jogo nos valores existentes, as várias forças de reação e inibição que ultrapassam os valores, para criar novo conjunto de valores não coibidos pelas inibições que o social requer. Propõe novo tipo de filosofia para entender o mundo e a nós mesmos, nova terapêutica que supere o regime individualista e da causa.

III. HUMANO ALÉM DO HUMANO E AMOR DO DESTINO

Vê Zaratrusta, uma de suas máscaras, como arauto, profeta e super-homem que vai superar a sensibilidade “europeia”. Tal humano pode fazer da vida uma nova moralidade, nova ordem que afirma suas próprias forças e seu mundo. Este humano além do humano é saudável, no sentido de que mesmo doença aprimora o super-humano, trazendo nova afirmação da vida; come bem, digere adequadamente, exercita-se, vive em ambiente revigorante e tem rigor em vive com “sorte” boa ou má. Via reativa é eterno retorno, um castigo; há que viver para a frente, transformando-se continuamente, porque o vir a ser comanda o ser. Ao invés de pregar um mundo melhor, há que se haver com este, que é o único. Cumpre montar entendimento diferente de nós mesmos, entre o pai morte e a mãe viva, entre o peso do passado e a leveza do futuro. Estoicamente, é fundamental curtir o destino. Não se confunda destino com causação, embora regularidades causais e a interação das causas, mesmo incalculáveis, estão ligadas ao destino e são seus agentes (Domino, 2012. Solomon, 2002). Destino não é providencial, direcionado para algo benevolente (ou malevolente), nem é o atingimento de algo que é parte do eterno. São as orientações para as quais nosso caráter, nossa história e configuração  particular de formas está direcionado. “Ecce homo” (eis o homem) tem o subtítulo “Como tornar-se o que se é” e indica o que o amor do destino pode ser – amor do que forças externas abrem de perspectiva, do que nos tornamos, onde “eu” é agente, junto com forças externas. Desenvolver-se ao máximo, aproveitando todas as potencialidades, o que indica um destino não necessariamente catastrófico ou passivo, mas algo que se pode ajudar a construir (Han-Pile, 2009).

Amor do destino não é só amor da necessidade, mas o amor mais difícil, talvez impossível, do eterno retorno do destino – o mesmo destino – sem fim reiterado. É um tipo de ética sem imposições de princípios, sem ressentimentos, mas a chance de viver bem nas constrições da ordem do universo.

CONCLUSÃO

Nietzsche foi o rebelde por excelência, aquele que se contrapôs à ordem dominante, às crenças comuns, às verdades já não discutidas, indicando que, se houver verdade, é aquela imanente, relativa (não relativista), não como referência do além (que para ele não existe), mas como construção humana. Um dos tons maiores dessa condição é o amor do destino, uma peça tipicamente estoica. A busca por soluções transcendentes apenas trai a fragilidade humana que quer soluções de fora, tuteladas, com medo de enfrentar seu destino. Aí está a morte de Deus, de uma referência que sempre definiu a vida, mas, olhando bem, foi uma invenção humana para projetar suas inaptidões. Não adianta correr. Temos que curtir o destino.


REFERÊNCIAS

ARMSTRONG, Aurelia. “The Passions, Power, and Practical Philosophy: Spinoza and Nietzsche Contra the Stoics.” Journal of Nietzsche Studies 44, no. 1 (2013): 6–24.
BARNES, Jonathan. “Nietzsche and Diogenes Laërtius.” In Anthony Jensen and Helmut Heit, eds., Nietzche as a Scholar of Antiquity, 115–38. London: Bloomsbury, 2014.
DOMINO, Brian. “Nietzsche’s Use of Amor Fati in Ecce Homo.” Journal of Nietzsche Studies 43, no. 2 (2012): 283–302.
GROSZ, E. 2017. Incorporeal: Ontology, ethics, and the limits of materialism. Columbia U. Press, N.Y.
HAN-PILE, Béatrice. “Nietzsche and Amor Fati.” European Journal of Philosophy 19, no. 2 (2009): 224–61.
NIETZSCHE, F. 1968-60. “De Laertii Diogenis fontibus. I–IV” was published in Rheinisches Museaum für Phililogie, vols. 33–34 (1868–69).
NIETZSCHE, F. The Will to Power. Trans. Walter Kauffman and R. J. Hollingdale. New York: Vintage, 1968.
NIETZSCHE, Friedrich. Human, All Too Human: A Book for Free Spirits. Trans. R. J. Hollingdale. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.
NIETZSCHE, Friedrich. Selected Letters of Friedrich Nietzsche. Ed. and trans. Oscar Levy. New York: Doubleday, 1921.
NIETZSCHE, Friedrich. Selected Letters of Friedrich Nietzsche. Trans. C. Middleton. Indianapolis: Hackett, 1996.
NIETZSCHE, Friedrich. The Gay Science. Trans. Walter Kaufmann. New York: Vintage, 1974.
NIETZSCHE, N. The Pre-Platonic Philosophers. Ed. and trans. Greg Whitlock. Chicago: University of Illinois Press, 2006.
SOLOMON, Robert. “Nietzsche on Fatalism and ‘Free Will.’” Journal of Nietzsche Studies 23 (2002): 63–87.
SPINOZA, Benedict de. Theological-Political Treatise. Trans. Michael Silverhorn and Jonathon Israel, Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
URE, Michael. “Nietzsche’s Free Spirit Trilogy and Stoic Therapy.” Journal of Nietzsche Studies 38 (2009): 60–84.
YOVEL, Yirmiyahu. Spinoza and Other Heretics: The Adventures of Immanence. Princeton: Princeton University Press, 1989.
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Mais artigos em:

quinta-feira, 14 de junho de 2018

POEMAS DE MÁRCIA WAYNA KAMBEBA

“Márcia Wayna Kambeba, da etnia Omágua Kambeba, do Amazonas. Geógrafa por formação, poeta, cantora e compositora. Em sua luta na literatura e na música, aborda, sobretudo, a identidade dos povos indígenas, territorialidade e a questão da mulher nas aldeias. Em 2013, lançou o livro Ay Kakyri Tama, que reúne textos poéticos e fotografias da vivência do seu povo dentro das cidades.” 


AY KAKUYRI TAMA
(Eu Moro na Cidade)

Ay kakuyri tama.
Ynua tama verano y tana rytama.
Ruaia manuta tana cultura ymimiua,
Sany may-tini, iapã iapuraxi tanu ritual.

Tradução:
Eu moro na cidade
Esta cidade também é nossa aldeia,
Não apagamos nossa cultura ancestral,
Vem homem branco, vamos dançar nosso ritual.

Nasci na Uka sagrada,
Na mata por tempos vivi,
Na terra dos povos indígenas,
Sou Wayna, filha da mãe Aracy.

Minha casa era feita de palha,
Simples, na aldeia cresci
Na lembrança que trago agora,
De um lugar que eu nunca esqueci.

Meu canto era bem diferente,
Cantava na língua Tupi,
Hoje, meu canto guerreiro,
Se une aos Kambeba, aos Tembé, aos Guarani.

Hoje, no mundo em que vivo,
Minha selva, em pedra se tornou,
Não tenho a calma de outrora,
Minha rotina também já mudou.

Em convívio com a sociedade,
Minha cara de “índia” não se transformou,
Posso ser quem tu és,
Sem perder a essência que sou,

Mantenho meu ser indígena,
Na minha Identidade,
Falando da importância do meu povo,
Mesmo vivendo na cidade.


SER INDÍGENA – SER OMÁGUA

Sou filha da selva, minha fala é Tupi.
Trago em meu peito,
as dores e as alegrias do povo Kambeba
e na alma, a força de reafirmar a
nossa identidade
que há tempo fico esquecida,
diluída na história
Mas hoje, revivo e resgato a chama
ancestral de nossa memória.

Sou Kambeba e existo sim:
No toque de todos os tambores,
na força de todos os arcos,
no sangue derramado que ainda colore
essa terra que é nossa.
Nossa dança guerreira tem começo,
mas não tem fim!
Foi a partir de uma gota d’água
que o sopro da vida
gerou o povo Omágua.
E na dança dos tempos
pajés e curacas
mantêm a palavra
dos espíritos da mata,
refúgio e morada
do povo cabeça-chata.

Que o nosso canto ecoe pelos ares
como um grito de clamor a Tupã,
em ritos sagrados,
em templos erguidos,
em todas as manhãs!


SILÊNCIO GUERREIRO

No território indígena,
O silêncio é sabedoria milenar,
Aprendemos com os mais velhos
A ouvir, mais que falar.

No silêncio da minha flecha,
Resisti, não fui vencido,
Fiz do silêncio a minha arma
Pra lutar contra o inimigo.

Silenciar é preciso,
Para ouvir com o coração,
A voz da natureza,
O choro do nosso chão,

O canto da mãe d’água
Que na dança com o vento,
Pede que a respeite,
Pois é fonte de sustento.

É preciso silenciar,
Para pensar na solução,
De frear o homem branco,
Defendendo nosso lar,
Fonte de vida e beleza,
Para nós, para a nação!


TERRTÓRIO ANCESTRAL

Maá munhã ira apigá upé rikué
Waá perewa, waá yuká
Waá munhã maá putari.

Tradução:

O que fazer com o homem na vida,
Que fere, que mata,
Que faz o que quer.

Do encontro entre o “índio” e o “branco”,
Uma coisa não se pode esquecer,
Das lutas e grandes batalhas,
Para terra o direito defender.

A arma de fogo superou minha flecha,
Minha nudez se tornou escandalização,
Minha língua foi mantida no anonimato,
Mudaram minha vida, destruíram o meu chão.

Antes todos viviam unidos,
Hoje, se vive separado.
Antes se fazia o Ajuri,
Hoje, é cada um para o seu lado.

Antes a terra era nossa casa,
Hoje, se vive oprimido.
Antes era só chegar e morar,
Hoje, nosso território está dividido.

Antes para celebrar uma graça,
Fazia um grande ritual.
Hoje, expulso da minha aldeia,
Não consigo entender tanto mal.

Como estratégia de sobrevivência,
Em silêncio decidimos ficar.
Hoje nos vem a força,
De nosso direito reclamar.
Assegurando aos tanu tyura,
A herança do conhecimento milenar

Mesmo vivendo na cidade,
Nos unimos por um único ideal,
Na busca pelo direito,
De ter o nosso território ancestral.

O que fazer com homem na vida
Que fere, que mata,
Que faz o que quer.


UNIÃO DOS POVOS

Nós, povos indígenas,
Habitantes do solo sagrado,
Mesmo sem nossa aldeia,
Somos herdeiros de um passado.

Buscamos manter a cultura,
Vivendo com dignidade,
Exigimos nosso respeito,
Mesmo vivendo na cidade.

Somos parte de uma história,
Temos uma missão a cumprir,
De garantir aos tanu muariry,
Sua memória, seu porvir.

Vivendo na rytama do branco,
Minha uka se modificou,
Mas, a nossa luta pelo respeito,
Essa ainda não terminou.

Pela defesa do que é nosso,
Todos os povos devem se unir,
Relembrando a bravura,
Dos Kambeba, dos Macuxi,
Dos Tembé e dos Kocama,
Dos valentes Tupi Guarani

Assim, os povos da Amazônia,
Em uma grande celebração,
Dançam o orgulho de serem,
Representantes de uma nação,
Com seu canto vem dizer:
Formamos uma aldeia de irmãos.


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Sites consultados:

quarta-feira, 13 de junho de 2018

POEMAS DE ANÍBAL BEÇA

Aníbal Beça (1946-2009)

XXXIX
Foto: Oceano de Letras
Giga para curta viagem e ir na paixão

Ir na boleia sem teu coração
                        Não quero não
Ir na viagem verde de olhos verdim
                        Eu quero sim
Ir de carona sem levar paixão
                        Eu não quero não
Ir na tua asa feito passarim
                        Eu quero sim
Ir na clara nuvem sem tesão
                        Não quero não
Ir na tua boca doce alfenim
                        Eu quero sim
Ir na esperança sem tua canção
                        Não quero não
Ir na tua gruta e plantar um jasmim
                        Eu quero sim
Ir na voz do gozo com meu flautim
                        Eu quero sim
Ir na tua loucura até o fim
Eu quero sim  eu quero sim  eu quero sim p.98


A poesia sai dos livros de velhos poetas e dos novos também inventando e reciclando formas & fôrmas do feio do bonito da palavra e da transpalavra porque é coluna mutável no seu fuso no seu dínamo Que ela seja clássica moderna contemporânea de vanguarda comportada marginal lírica épica que ela seja nada e tudo e nada: varal chuva casa alicerce arcabouço não importa e nem defini-la comporta se o que reporta é a fatura do e para o homem assim como a porta da rua é a serventia do poema p.105


E assim como é que pode
                        se a poesia não vende
                                               e a música não toca?
                                                  Resta ao poeta lombrar-se
                                                  se defender como pode
                                                  se não ele escorrega
                                                  e cai do primeiro mundo
                                                  na rima dessa ode
                                                  em cima da free-zone
                                                  no meio desse shopping
                                                  no coração da floresta
                                                  sem ter
                                                           onde
                                                                  amarrar seu bode. p.159 (excerto de Rastafa)


À SOMBRA DO AGENDÁRRIO DE JORGE TUFIC

Desde a Varanda onde albergaste pássaros.
Já te sabias plumas para os ventos
curtidos na salmoura, céu sem mácula.
Subjugando sombras pelas têmporas;
descerebrando ocaso da memória;
viva celebração da manhã frágil
em que, na duração, o instante voa
nas penas, mais antigas, que consagras.
A tua agenda abriga coisas simples;
desse canteiro que o teu verso rega
brota a sintaxe fácil tão difícil.
Essa, que humildemente chamas “brega”;
mas, bem no fundo, sabes que inauguras
o travo doce da fruta madura. p.374


(PA)LAVRA
Para Clodomir Monteiro

A palavra é o adereço
com que o poeta se enfeita
para o res-
caldo.

(A ferrugem e a alimária)

A escama que
                        re-descobre
                        re-veste
                        re-pensa
ferraduras de pangaré
chão de muito pisar
xerém de muito pilar.

Aí está a oficina inoxidável:
                                               retalho e rebotalho
                                               zuarte e seda
                                               ferrão de lacraia.

Como as osgas são o giz
descorando as paredes
e as pedras aborto de águas;
como o camaleão se despe
de franjas aveludadas
das asas de mil borboletas
paridas de um decamerão:
                                               musgoso
                                               verdoso
                                               limoso
Lápide de orgias
o muro se inscreve
no aprendizado supletivo
do crivo da luz:
                                   avena de caramujos
                                   centopéias alinhavadas
                                   pelas agulhas do sol
                                                              ária amarela
                                                           solitária partitura
                                                                de clave
                                                           clara e escura.

PALAVRA-PALAVRA

Mais difícil sentir-te
do que decifrar-te:

                                   Palavra de Honra
                                (pacto de escorpiões)
                                   Palavra de Amigo
        (assovio de sereias)
                                   Palavra de Ordem
                                (diálogo de surdos)
                                   Palavra de fé
                                (gosma de lesmas)
PA
     LAVRA
lavoura de muito adubo
esterco quarto-minguante
pá de re-mover mica
e re-lavrar o brilhi
do
ab-surdo! p.267-268


POSSO LER SUA MÃO?


Por acaso estou ao acaso
à espreita do ocaso de casos
que fogem ao casulo de cada um
cada caso é um caso:
coletivo casual
&
a esperança
é a primeira que corre
na pista da revelação
de que Deus é brasileiro
de papo amarelo
de olhos azuis
de longa cabeleira verde
&
sua túnica branca
se envergonha
diante
do
sutil
insulto/inconsúltil

Consulte a quiromante
diria o poeta ao acaso
Torne-se amante
da jogadora de búzios

Abra sua alma
à geografia astral
&
do mapa
solte sua tara
engastada no gogó
de enforcado do Gólgota
e encarte-se no tarot

Diria ainda o poeta
aos de alma ecológica
aos de paz celestial
– entre um Saddam & um Clinton –
            sirvam-se
            de um drink de Santo Daime
            alistem-se nas forças armadas
            do exército da salvação
            da Irmandade da Cruz:
                                                  remember Jim Jones
                                                  bispo Macedo?

                                                           XÔ SATANÁS!
O salário do pecado é a morte!
Disse um pastor aos paaca-novas
enquanto 77 kaiwás & guaranis
– inclusive meninas de 15 anos –
seguiam o exemplo de Judas
pelo nó da culpa

Os pajés aposentaram Jurupari
não espanam mais os males
nem as curas
nem o uso de plantas medicinais
Os chocalhos  os trocanos  gambás
se calaram
estão vazios os sons de Uakti
nem se sabe mais
o gosto gostoso
do tarubá  yagé  caxiri

&
a língua pentecostal
(juntamente com os fuzis
da senhora Calha Norte)
é quem defuma
o que era rito
do seu tauari

Quando chegar o natal &
depois o carnaval
a tradição manda
 na santa semana
que se coma novamente
o cólera
nos peixes que vêm
do Peru
de páscoa &
choquemos
os ovos de magos coelhos
alquimistas férteis
da terra de Brida de Nosso Senhor
promissora & prometida
aos olhos de espiar a fé
num teto qualquer
nem que seja nos viadutos
da paulicéia da garoa
embaixo das 1a 2a 3a pontes
dos elevados da Manaus moderna
ou
no aterro do Flamengo

tudo sob às vistas
do redentor   que lindo!
& os expulsos
                        dos campos
                                               posseiros sem posses
                                                           sem terras
                                                                       sem tetos
querendo um cantinho & um violão
                                               Que bossa a nossa
                                               Nova?
                                               Nem tanto
Que bosta
a nossa de cada mangue
alagada entre as nossas pernas
Ah  chuvas de março!
                                               Mocambos
bodós-na-lama
                                   palafitas
                                                           igarapés
nos dai hoje
as fezes de ontem
que engordam
os jaraquis de domingo
                        &
os caranguejos de cada dia do ano
na comunhã do nosso cotidiano
                                                                       mínimo
Ó salário minguante
                                   como a lua dos vira-latas
                                               uivando para
a seguridade
magra
social  socialites
carajás de caras sujas
na rima dos marajás
do mar de Búzios
                                   Margarita & Aruba
É
Deus é brasileiro
&
cada um
herdará um lote de azul
livre de IPTUs
quando estiver sentado
de cócoras com ele
à sua direita ou à sua esquerda
Por acaso
o poeta está à espera
dessa aliança?
Mesmo em preto & branco
Sem technicolor by de luxe?

                                   A ilusão
                                               fica por conta
dos olhos do mundo:
                                   porque por aqui vai tudo bem
como no ano que vem
                           por que Deus é brasileiro
                           gosta de carnaval & e agora anda
amarrado
ao boi-bumbá
(quem não gosta é intelectual e pentecostal)

&
gosta ainda de levar
um céu de vantagens
                                   Certo?
                                               E assim prosseguimos
a reboque do fusquinha
numa paz ecológica
juntamente com os galos-da-serra
os micos-leões
& os jacarés de Nhamundá
Sempre abençoados
pelo santo descamisado
São-Francisco-de-Assis-é-dando-que-se-recebe

Quando o carnaval passar
o traficante estará nas salas de aula
fazendo campanha
pela privatização do ensino
                                   Privado de tod o mundo uni-vos!
Os homens de branco
hipócritas/Hipócrates
penduram troféus
estropiados ex-votos
nos imundos corredores
dos estaleiros de plantão
                                                           &
                                                           nós comendo casca de ferida
                                                                                                  querida
                                                           porque tumor
                                                                                  amor
                                                           não os seduz
                                               assim como o cancro  a AIDS  o pus
exsudato de votos

amealhados em consultas
datapreviamente & pagas assepticamente
                                                                       Lazarentos de
                                                     todo o mundo   uni-vos!
Sabemos todos
ser um caso de polícia
mas as virgens
os parentes dos chacinados
os sequestrados
os estuprados
                                   &
                                      principalmente os de boa fé
                                      preferem relaxar & gozar
                                                                       Estuprados de
                                                      todo o mundo   uni-vos!
Ave mesa
das nossas refeições
onde comemos os ossos do ofício
&
as espinhas
do desemprego e da inflação
Santificada seja a nossa poupança
venha a nós o vosso over
assim como nas DBs
como no Fundão
&
não nos deixai cair
na sarjeta
sem
que tenhamos
as notas verdes
da aposentadoria
de cavalo-do-cão
a
m
é
m p.353-360


BEÇA, Aníbal. Banda da asa: poemas reunidos. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998.