domingo, 17 de outubro de 2021

BANZEIRO MANSO: POEMAS DE MARTA CORTEZÃO

Marta Cortezão é natural de Tefé-AM, radicada na Espanha, Segóvia, desde 2012. Poeta, escritora, tradutora, ativista cultural, interessada em promover a Literatura feita por mulheres mundo afora. Desenvolve o projeto “Tertúlias Virtuais” que divulga a Poesia de escritoras que publicam sua produção literária nas redes sociais. Foi professora da Secretaria de Educação do Estado do Amazonas (SEDUC) de 1994 a 2012 e do Centro de Estudos Superiores de Tefé (CEST/UEA), de 2002 a 2010. Em 2017, lançou seu primeiro livro de poesia, “Banzeiro Manso”, pela Editora Porto de Lenha. O mais recente trabalho poético da autora encontra-se, no prelo, e deverá sair brevemente sob o provável título de “Amazonidades: gesta das águas”.




MANIAS

 

Era tão cheia de desinências

que não conseguia encontrar-se

plena em nenhuma declinação...

Talvez tivesse que repensar

essa mania de flexionar-se,

de fragmentar-se pelo mundo

sem ponto de inflexão!

 

Conjugava-se em largos pretéritos

com sede de particípios presentes

que colorissem futuros ausentes...

Quebrou o verbo em tantos pedaços

que o tema ardente da vida,

abandonado por seus morfemas,

sangrou em carne viva!

 

Despencou-se em doentias diacronias;

perdeu-se em afixos peregrinos

e expirou em versos alexandrinos...

Perdeu o ritmo dos pés da poesia;

louca, vociferou em trágicos jâmbicos, 

até cair em cômicos ditirâmbicos,

asfixiando supérfluas manias

e respirando doces sílabas de harmonia! p. 23

 

MISSIVA

 

Se queres o céu

dê-me estrelas;

se estradas,

permita-me caminhos;

se rios,

revele-me nascentes;

se jardim,

floresça-me;

se relva fresca,

orvalhe-me;

se louca enxurrada,

chova-me;

se rima,

versifique-me;

se porto,

atraque-me;

se fogo,

acenda-me;

se libido,

deseje-me...

Não andes na contramão

da via de meus sentimentos.

O tempo que se vai

dar-se por perdido;

o amor que se perde

é tempo ido. p. 26

 

DEBILIDADES

 

Sempre haverá

um sorriso guardado

no rosto sofrido.

Um beijo idealizado

na boca que ultraja.

Um abraço esquecido

nos lânguidos braços.

Um grito contido

no peito que escarra.

Um prazeroso gemido

na profunda garganta.

Um doce toque

nas mãos calejadas.

E nos ríspidos passos,

sutis pegadas. p. 30

 

VALSA PARA EROS

 

Teus passos cegos

me vigiam.

Teus olhos passeiam

minha alma.

Teus sentidos

me ensandecem.

Tua boca ensurdece

meu mundo.

Teu silêncio

grita desatinos,

em gestos eróticos,

quando Eros travesso

se burla de mim.

Tuas mãos invadem

meu jardim.

Anjo querubim!

Faz arruaça,

na doce relva

molhada!

Cupido curumim,

flecha de carmim

na aljava.

Suspiros,

em movimentos

caleidoscópicos...

A mente serpenteia

embalada num

cadenciado

compasso.

Tua respiração

explode afônica

de regozijo

intempestivo...

Seios, pernas

mãos e braços

esgotam-se...

Teu coração

guarda fresco

hálito de flores.

A cura de tantas

tristes dores...

Feneço de gozo. p. 36

 

 

HÁ UM VERSO

 

Há um verso mudo em mim

atormentando meu silêncio

e tentando devorar-me o sim

do não que luzes me acende.

 

Há um verso retorcendo palavras

na água que abrolha recordações

e verte rios no peito que deságua

em doces rebojos de emoções.

 

Há um verso sentido na vida

que ensina o caminho a seguir

derramando dores na fera lida

e no tempo que para a carpir.

 

Há um verso que a rima adensa

e deve ser trabalhado a cada dia.

É arte laboriosa que compensa

e dá ritmo e compasso à maresia.

 

Há um verso rondando o abismo

no intento de atirar-se no sem-fim

e romper-se em cacos e rabiscos

e nas brasas pintadas de carmim.

 

Há um verso preso em labirintos

construídos pelo artífice desamor

onde o retraído desejo que sinto

é minotauro que mata-me de dor.

 

Mas há sempre um verso perfeito

nas andanças métricas de pés aflitos.

É aquele que deambula insatisfeito

nos corredores dos ébrios matizes. p. 61

 

METAMORFOSE

 

Ser casulo

para entender-se

no silêncio do Ser

ser lagarta

para saber-se

rastejante,

no Mundo.

Ser borboleta

para libertar-se,

aladamente,

no centro de

uma curta e

maravilhosa

existência. p. 80

 

ODISSEU ERRANTE

 

Quando a escuridão em mim se faz,

ainda que o sol desponte radiante

perco o sono, perco o tino e a paz.

Sinto-me o Odisseu mais errante

dentre todos os mortais.

 

Cansado de astúcias e guerras,

de tantas naus e saqueios perdidos,

de tantos sonhos caídos por terra,

Odisseu de sentimentos oprimidos,

dessa grande vida procela.

 

Sem Destino, sem timão,

exilado em um submundo,

desprovido de toda ilusão,

Odisseu do Hades profundo

decrépito, de amargo coração.

 

Levianas juras e vãos amores

esvaíram-se tal água pelos dedos

carrego do mundo as dores

Odisseu dos tormentosos segredos,

isolado em belicosas torres.

 

Castigado pela ira netúnia

atormentado pelo abandono do lar

largado à própria sorte, à penúria.

Odisseu sem porto aonde chegar

e de grandes glórias estapafúrdias.

 

Onde perdi o poder da imortalidade?

Quando os triunfos viraram fardos?

Por que me abandonaram as divindades?

Odisseu de trêmulos e vagos passos,

por que tudo em ti é fatalidade?

 

O peso da idade me consome,

tal como ao leal amigo Argos.

Quiçá as forças não me abandonem,

quero voltar a retesar o arco,

ser Odisseu caído, mas Homem,

e reerguer-me sublime e cauto. p. 82

 

ESTRANHOS DIAS

 

Estes estranhos dias

de inexplicável desassossego

em que tantas incertezas

insistem aninhar-se no peito,

revirando antigas chagas

e plantando raros medos

eivados de mistérios,

tingidos de segredos

em telas frescas

de insanos impropérios

que o pensamento grita

à alma devassa e aflita?!

 

Estes raros dias

são rios de tormentos,

são furos densos,

onde meu olhar náufrago

por temores debilitado

se agarra aos fios de esperança

que flutuam em água turva

da enxurrada que avança;

enquanto travo intensa luta

para não afogar-me

neste revoltoso submundo,

que por ora me sucumbe,

nestes tristes estranhos dias... p. 92

 

SÚPLICA A IARA

 

Iara, leva-me contigo!

Não sou feliz aqui.

Encanta-me com teu canto

pois sei que lá não há pranto...

Não, não sou daqui.

 

Leva- me contigo, Iara!

Cansei deste mundo raso.

Prefiro teu mundo de águas,

rio profundo, sem as mágoas

que desafinam, amiúde, meu trovar.

 

Escuta, Mãe-d’água, meu lamento

e manda a resposta pelo vento

onde me possa alcançar teu canto.

Vem, não te demores a chegar

porque posso enlouquecer, definhar.

 

Sei de tuas oníricas artimanhas,

sereia da tribo guerreira Amazonas!

Só a ti narrarei as patranhas

que esta vida de cá me faz contar!

Iara, cuida, não te entretenhas!

 

O sol já se põe, aproveita a hora

que corre no remanso da boca do rio

e enche meus olhos de pororoca.

Não tardes, Iara, tenho vazios

carentes de tua suave e rouca voz...

 

Espero-te, doce Iara, loucamente!

Necessito beber de tua fonte,

lançar-me num salto demente,

tocar-te e beijar-te meiga fronte

no afã de fugir deste mundo doente. p. 117

 

RITO

 

Eu que já viajei tantas águas,

que conheço os segredos

do rio profundo, o canto da Iara,

os mistérios e encantamentos

do Boto sedutor e da Boitatá,

a cordialidade do Tucuxi,

o arrepio do canto da mata...

Sou incapaz de conhecer

teu dissimulado riso

de louca Mona Lisa!

 

Eu que miguei tabaco

meloso e melado pro Matinta,

tomei cachaça e proseei,

no toco do pau, com o Curupira,

descobri o enigma do Acauã,

pássaro agourento,

a boca da noite escondida

no caroço de tucumã,

o gosto do café oferecido

pelas mãos da simpática

Anciã da cacimba...

Ignoro teus desejos!

Perco-me na superficialidade

do teu dissimulado olhar!

 

Por que te escondes

e te camuflas em meus beijos?

Ainda invadirei teus anseios

e visitarei teu limbo,

matarei teu cão de guarda,

e com sangue pactuarei

com tua alma de cunhã

e descobrirei teus mais

íntimos segredos muiraquitãs... p. 121

 

POROROCA

 

Minhas águas são rios

que fluem loucamente

em tua direção, com ânsia

de, na tua praia, quebrar-me.

 

Sou maré alta e quero banzeirar-me,

violentamente, em teus braços.

Sou o estrondo abrupto

das impetuosas ondas

aniquilando silêncios de outrora.

 

Desejo sitiar teus castelos de areia

e adonar-me de todo teu reino...

Lançar-me em cavalgada ligeira

como se fosse vez derradeira.

 

Porque o céu é o limite de amar

e o amor tanto nos importa...

Quando o meu rio encontrar

com tua delirante preamar

vai ser linda a nossa pororoca! p. 123

 

RIMAS DE REMANSO

 

Se teu olhar me abraça,

entrego-me com graça

a este rebojo de paixão. 

Teu verso, chispa roubada,

acende-me de tesão!

 

O remanso de teu beijo

é correnteza de prazeres

derrubando barrancas

em ritmo piracema

de poesia ou de poema!

 

Teu banzeiro remansoso

desata desejo viçoso

na água doce de riso-mar.

Teu toque passeia manso

em rimas de meu remanso!

 

Tuas mãos são malhadeiras

que me pescam sem cessar 

nas correntes fagueiras

do rio profundo de teu olhar

e no verso doce a fervilhar!

 

E se eu perdesse a rima,

esta brisa que me inebria,

meu rio triste secaria...

Mas teu verso líquido

enche-me de rio-mar!

 

E se eu perdesse a rima

o amanhã choraria...

Mas o teu sorriso

deságua poesia

em meu ermo rio! p. 124

 

BÊNÇÃOS

                                       A Nelci Cortezão.

 

Por que aquele vento de outrora?

e essa chuva lá fora?

 

Filha, o vento leva embora

a tristeza que se chora.

Leva todo o sofrimento

para além do firmamento!

 

Essa chuva que cai agora

traz a paz como quem ora.

Empapa o coração de esperança.

É amor, é bonança!

 

Mãe, e aquele rio, para onde corre?

Não descansa? Nunca morre?

 

Aquele rio corre para o mundo...

Com a força de um moribundo

sem pressa de chegar

mas com muitos caminhos a alcançar!

 

Seu corpo caudaloso

leva o sonho duvidoso,

rega a vida entristecida

de amores e poesia!

 

Filha, se eu fosse aquele vento

levaria, longe de ti, todo lamento.

te cercaria de bênçãos,

te guiaria até o firmamento

sempre com divinas mãos!

 

Se eu fosse essa chuva,

regaria tua vida de doçura,

sazonaria teu caminho de doce Ventura

para teu jardim sempre florir!

 

Se eu fosse aquele rio,

te banharia a vida de leve frescor

tal qual matinal rocio

e te guardaria na Paz de Nosso Senhor!

 

Filha, quando minha ausência se fizer,

clama ao Vento, à Chuva, àquele Rio!...

Ainda quando eu não mais estiver,

serei a benigna sombra no teu caminho! p. 131

 

JEITO TUPEBA DE SER

 

Sabe esse ar lisonjeiro,

esse sorriso faceiro,

essa mirada impactante

que marcam meu semblante?

É o puro jeito Tubeba de ser!

 

Trejeitos de curumim-cunhatã,

Detêm segredos do Muiraquitã

das belas guerreiras Amazonas

e que de doçura a alma cabocla sazona.

É assim o jeito Tupeba de ser!

 

Essa tez de um moreno cobreado,

esses olhos negros e puxados,

esse sotaque particular e ligeiro

de aspectos enigmáticos e corriqueiros,

É apenas meu jeito Tupeba de ser!

 

Delicioso açaí com tapioca na cuia,

banho de rio pra ficar só de bubuia.

O que preciso tiro da minha cumbuca.

Pra vida, estou sempre de butuca.

Do rocha, ach’é fraco o jeito Tupeba de ser!

 

Pelas ruas e calçadas da cidade,

bodó assado na brasa, às seis da tarde,

regado ao molho de pimenta murupi,

com muita farinha-ova do Uarini.

Égua, maninho! Que jeito Tupeba de ser!

 

Na rede, aquele cochilo porreta,

depois de comer um tambaqui maceta.

Outro melhor El dourado não há

mas se houver é só mesmo de agá!

Porque genuíno que só e pra valer

é só esse jeito Tupeba de ser! p. 145

 

CORTEZÃO, Marta. Banzeiro Manso. Gramado: Porto de Lenha, 2017.

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