domingo, 22 de setembro de 2019

LIMIARES de Gerson Albuquerque

O primeiro trabalho que li do professor Gerson Albuquerque foi o “Trabalhadores do Muru, o rio das cigarras” (EDUFAC, 2005). Esse trabalho foi muito importante para que eu pudesse ir amadurecendo o meu olhar sobre a Amazônia, pois, na contramão da “historiografia barroca”, que eu estava acostumado a ler, me deparei com outra abordagem, despretensiosa, ao passo que, perspicaz e profunda, que se insurgia pr’além das abordagens deterministas e maniqueístas: “O Rio Muru não é o mais importante afluente do Juruá, não determina a economia de lugarejo algum, não é o mais longo, muito menos o mais navegável. Não creio, também, que comande a vida de quem quer que seja, indispondo-me aqui, com os determinismos geográficos tão insistentemente cunhados por um certo tipo de historiografia que se pressupõe a interpretar a vida amazônica. Mas, às suas margens, igarapés e centros distantes, centenas de famílias vivem um cotidiano e constroem, a partir de inúmeros e complexos laços de identidade, uma cultura que, sem querer cair na vala comum do unitarismo, criando uma homogeneidade artificial, pode ser qualificada de “cultura seringueira”.” (2005, p.36).
           Em 2017, Gerson publica o seu primeiro livro de poemas, a saber, “Palavras perdidas em meios silêncios” (Nepan, 2017). Apesar de estarmos habituados ao Gerson dos textos acadêmicos, a poesia, todavia, não é algo estranho ao seu trabalho, como sintetizou a grande Ana Pizarro: “Conocíamos al Gerson analista severo de los conflictos amazónicos, conocíamos su palabra sobre el trabajo en los seringales del rio Muru en ese texto bellísimo en donde ya percebíamos al poeta. Conocíamos al Gerson cotidiano que con ojos dolidos nos enseñaba los castañales em su tránsito trágico hacia la extinción, los territorios vaciados de florestas por el avance de la ganadería. Pero también la belleza de los “buriti” que sólo conocíamos en la palabra de Guimarães Rosa. Por todo esto no nos sorprendió la existencia de este perfil paralelo, el de su poesia. Era evidente que afloraba en todos sus gestos. Entonces llegamos a estas Palabras perdidas...” 
            Aliás, “Palavras perdidas em meios silêncios”, juntamente com “O berro”, de Quilrio Farias, a meu ver, constituem os dois grandes e originais trabalhos poéticos surgidos em 2017, no Acre, marcado por tantos poetas sem poesia, que se empanturram de palavras na construção de uma literatura esvaziada de e da vida, “entupidas de farofa de nada”. O livro reúne poemas escritos ao longo dos últimos 25 anos do poeta: “Tecidas no orvalho de muitas madrugadas não dormidas, umas e outras foram faladas. (...) São palavras pós-escritas porque brotadas feito o voo da coruja, após toda uma multiplicidade de vivências vividas na instável condição humana, entranhadas em comprometimentos de seus espaços/tempos próprios”. 
           Agora, dois anos depois de “Palavras perdidas em meios silêncios”, Gerson Albuquerque apresenta ao público o seu “Limiares: manuscrito para um não-livro – nem uma coisa, nem outra” (Nepan, 2019), um livro híbrido que reúne poemas, resenhas, crônicas e contos. Um “não-livro” de um “não-poeta em alucinantes cotidianos magros”. 
            “Limiares” é um livro com gosto e cheiro de gente, das Amazônias, tecido com as dores e as utopias, “inundado de vontades ávidas”, apesar desse tempo do “amor desempregado”. 
            Em seus poemas, por exemplo, perpassa um silêncio. Que silêncio é esse? É, talvez, um silêncio destituído de significados, signos, todavia, grávido de sentidos. 
            O olhar de Gerson é original porque tem aquela agudeza capaz de perscrutar o mais íntimo da gente e da realidade social. Seus escritos revelam sua preocupação e seu compromisso político-sócio-cultural, ao mesmo tempo em que aprofunda/interroga/alarga o próprio sentido da existência. Sua poesia descortina esse “vazio que sangra no interior da gente”, esse “protocolo carente de sentido” em que temos nos transformado. É, antes de tudo, uma escrita de resistência. 
          Esse livro nos permite adentrar ainda mais aos limiares da morada de Gerson Albuquerque, partilhar da agudeza e da generosidade do olhar do poeta, do contista, do cronista e do resenhista, amalgamados na multiplicidade de um mesmo ser humano que, tecendo palavras, é capaz de renovar as utopias.
            I.M.
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“A poesia ainda é mais combate, porque é uma postura ética. Isso incomoda. Aposto que o Gerson Albuquerque não é muito querido por suas palavras perdidas em meios silêncios. Com certeza prefeririam que não houvesse nem palavras nem silêncios. Mas que fazer? Tem gente (sim, tem gente) que ainda sente dor e, se der tempo, consegue sorrir e amar. Cada palavra perdida salva uma vida do silêncio.”
Aldisio Filgueiras
da Apresentação de Palavras perdidas em meios silêncios
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“O universo poético gersoniano alça voos intangíveis, pois os planos de uma concretude incontestável tornam-se imagens singulares e plurais, que cindem as fronteiras da compreensão limitada e rotineira dos cotidianos para pôr em reflexão enlevada as fendas possíveis, incrustadas nos homens e mulheres – transeuntes que, nas tranças e transas poéticas, erotizam formas e amargam solidões. Assim, não há estrelas mortais ou Nêmesis a incendiar as sobras de uma indigência, que clama por justiça, que, angustiadamente, reclama das injustiças, e que, final e poeticamente, ascendem para os planaltos dos seres, que grafam e grifam na eternidade a dor, a saudade, a lágrima e o esquecimento do Outro. E o que é a poesia senão esta corda que, esgarçada para o Alto, arrebenta, espetacularmente, abrindo leitos de sangue, feridas dolorosas e cicatrizes sempre abertas?”
João Carlos de Souza Ribeiro
do Prefácio de Palavras perdidas em meios silêncios


Do livro PALAVRAS PERDIDAS EM MEIOS SILÊNCIOS (Nepan, 2017) 


Minha fratria

Carrego comigo um rosto insepulto de mulher
um gosto amargo de casca de amarelão
Uma cidade que finge cintilando mentiras coloridas
luzes artificiais
praças
monumentos a ladrões de terras
e assassinos de índios

Nasci em Manaus
e nem sei o gosto das águas sujas do rio Negro
Sei que o mar passa longe
e que essa Paris de puta sem dentes
é minha fratria

Carrego comigo um par de pernas finas
um bucho de lombriga e farofa de nada
A eterna tristeza de um olhar cindido
entre o campo de pelada do Baré
o Bairro de Flores
o tabaco mascado de minha avó
e as ladeiras descarnadas da Volta Seca p.19


Não dormidas

Um corpo estático
silêncio de tuas longas noites
Pés descalços meus olhos em chamas p.49


Ode a um prefeito

Todo dia é assim
Prefeito
feche os portões
o portal do céu
a boca do inferno

Chame os seguranças mortos
faça a autópsia
recolha suas armas enferrujadas
suas balas de borracha
espoletas

Oculte suas mentiras
as sobras de seus pratos feitos

Acione a polícia
chegaram os bêbados
os maconheiros
as crias do demônio

Essas crianças mal paridas
cagadas de medo
de tuas bíblias gratuitas
tuas infâmias
teus doutores orando ciência p.77


Retóricas

Meu manifesto é uma dor
oposto ao desamor p.95


Corpo de baile

Desejei naquele vão de teatro
teus olhos ocultos
entre pernas e saias do corpo do baile

Vermelhos
teu batom
tua boca
teu vestido

Pervertidas
minha alma
meus delírios
minha inquieta solidão

Versos brotando aos teus ouvidos
mãos despertando sentidos

Sonhei teu corpo se abrindo
tuas entranhas
tuas pupilas
tuas pernas intranquilas

Verbos penetrando tua alma
encravando-se
na profundidade de tua pele p.129


Do livro LIMIARES: MANUSCRITO PARA UM NÃO-LIVRO – NEM UMA COISA, NEM OUTRA (Nepan, 2019). Agradecemos ao autor por nos ceder gentilmente, e em primeira mão, excertos do livro para, aqui, serem publicados.


Recusa

Ando enojado de agentes públicos,
assembleias servis,
verdades técnicas,
simulacros instituídos.
Ando manco,
o corpo moído,
mas armado pra estupidez cínica de meus ímpares.
Ando engasgado com tudo isso
e mais aquilo das nuvens
e vaidades espalhadas em grupos e redes sociais.
E como não tenho alma,
digo não com o corpo em riste,
sangue nos olhos e as mãos em chamas.
(17/6/17)


Violências cotidianas

Todas as vezes que como carne de gado
sinto o amargor do sangue
a escorrer pelos cantos de minha boca:
sangue de Valdizas,
Odílias,
Wilsons,
Josés,
Chicos.
E me acompanha o espectro da cumplicidade.
(15/9/17)


Pedaços da madrugada passada

Sentei no sol da noite
e um quarto de lua soluçou
restos de prata em meus olhos.

O sol da manhã dormiu no profundo da noite,
incendiando as margens insólitas de minha cama.

Sem lugar pra aportar,
meus amores são partidos.

No amanhecer de hoje,
a noite dançou em mim.

Na claridade da noite,
dança um beija-flor.
Grudado na beira da madrugada,
criei raiz de solidão.

No desencontro da noite,
uma coruja instalou sono de grilo
sussurrando meu desabandono.
(11/8/18)


Sonhos e escritas

Sonhei ser poeta,
inventor de metáforas suaves pras moças de minha rua,
entupidas de farofa de nada,
e para seus irmãos, deserdados pretos, apodrecendo em abarrotadas cadeias públicas.

Sonhei andando pelos bares,
beijando soleiras, mijando postes, mordendo assoalhos no fecundo momento em que subempregados passavam espremidos em paus-de-arara,
para a construção servil.

Sonhei tecendo insípidas escritas
aos amores de cada esquina,
desfalecidos por minhas promessas torpes
inscritas em seus corpos,
enquanto minhas irmãs, engravidadas de fantasias e fantasmas, atravessavam a cidade em entupidos coletivos sujos, roubadas no troco e na borboleta.

Sonhei palavras doces
pra uma imagem herdada da infância,
entre febres de sarampo e frieiras,
imaginando viagens
nos banzeiros dos batelões no Porto de Dona Odete
e nas asas dos aviões no Aeroporto Salgado Filho.

Morri ali,
não-poeta em alucinantes cotidianos magros,
inundado de vontades ávidas,
escritas de palavras silenciosas e outras coisas inúteis.
(3/2/18)


JOANA
Gerson Albuquerque

“Eu mato minha filha e me mato”, pensou Joana Maria e Paiva olhando para o vai-e-vem de hóspedes que entravam e saíam do Hotel Chuí, em meio à umidade e ao calor do inverno amazônico.
Engravidara de um fantasma e, revelada por uma aparição na noite anterior, sabia que se tratava de uma menina.
“Fantasma de três pernas”. Comentou zombeteira, uma amiga de escola. Mas, Joana não lhe deu nenhuma atenção. Sempre ouvira que gente como ela somente tinha direito a não ter direitos e, em contendas com sua índole, passara a assumir essa sentença envolta em um tom de indignada ironia.
Nem bem completara dezesseis anos e não poderia voltar pra casa dos pais: jamais acreditariam na fantástica história de uma virgem engravidada.
No limiar de seu ocaso, permaneceu na rua durante toda a noite e, nas proximidades do quartel da polícia, ouviu vozes acompanhando as sombras que movimentavam a Praça Rodrigues Alves na alta madrugada. Às cinco horas, resoluta e despindo-se de todo o pudor, desceu a Avenida Getúlio Vargas em direção ao Segundo Distrito. No cruzamento com a Epaminondas Jácome, evitou olhar para o mercado municipal, na Praça da Bandeira, e se dirigiu à Juscelino Kubitschek, que unia os dois distritos da cidade, subindo e equilibrando-se no passeio do lado esquerdo da ponte metálica.
Com a intenção de aproveitar a correnteza de um rio que se alimenta de suas margens, deixou-se cair com os olhos firmes nas águas inquietas, o corpo inerte no intransitivo daqueles segundos feitos de espaço. Um corpo rasgado de lembranças, cicatrizes da vida inteira.
Nem bem os raios da luz solar alcançavam as cumeeiras das velhas casas da Rua África, flutuou em suave performance, desaparecendo entre as espumas, balseiros e terras caídas.


Referências
ALBUQUERQUE, Gerson. Trabalhadores do Muru, o rio das cigarras. Rio Branco: EDUFAC, 2005.
ALBUQUERQUE, Gerson. Palavras perdidas em meios silêncios. Rio Branco: Nepan, 2017.
ALBUQUERQUE, Gerson. Limiares: manuscrito para um não-livro – nem uma coisa, nem outra. Rio Branco: Nepan, 2019. (no prelo)

terça-feira, 10 de setembro de 2019

TARAUACÁ: PRIMEIROS PREFEITOS E INTENDENTES

Isaac Melo 


Após a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 17 de novembro de 1903, que incorporou o Acre definitivamente ao Brasil, a Lei nº. 1.181, de 25 de fevereiro de 1904, instituiu o Território Federal do Acre, que ficou provisoriamente sob a administração do Presidente Rodrigues Alves, que, em 7 de abril de 1904, pelo Decreto Nº. 5.188, dividiu o Território em três departamentos: Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá. A região que compreendia todo o vale do Tarauacá estava incorporada, dessa forma, ao Departamento do Alto Juruá. Antes disso, estava circunscrita à comarca de São Felipe, atual Eirunepé, no estado do Amazonas.
Se se pode apontar uma data para o início da vida pública de Tarauacá, esta deve ser o dia 1º. de janeiro de 1905, quando, em Foz do Muru, foi instalado o Posto Fiscal Federal, sob  a responsabilidade de Horácio José Teixeira, na gestão de Marechal Thaumaturgo de Azevedo, então prefeito do Departamento do Alto Juruá.
O seringal Foz do Muru foi explorado por um senhor de nome Zacarias, por volta de 1889/1890, e vendido, em seguida, a Severiano Ramos. Por estar localizado num lugar estratégico, tornou-se o ponto de partida para as explorações dos rios Muru e Tarauacá, àquela época ainda poucos conhecidos pelos invasores/exploradores brancos. Foz do Muru, depois chamado bairro Leoncio de Andrade, localizava-se, como se evidencia pelo próprio nome, na foz do Muru, à margem direita, onde hoje é a fazenda de Rames Eleamen.
A mudança de um lado do rio para o outro, ocorreu em 1907, mais precisamente em 1º. de janeiro de 1907, quando, o prefeito do Departamento do Alto Juruá, Virgolino de Alencar, elevou o seringal a condição de vila, mudando, não só de lugar, como o nome, que passou de Foz do Muru para Vila Seabra, em homenagem a J. J. Seabra (1855-1942), jurista e político baiano, que havia sido Ministro do Interior e Justiça do Brasil de 1902 a 1906, e, na ocasião, era, novamente, deputado federal pela Bahia. A vila foi edificada em uma área de terra doada pela firma J. V. de Menezes & Filho, sendo ofertante o sócio José Victorino de Menezes.
O evento marcante, todavia, para a vida política de Tarauacá, ocorre em 1912, quando uma nova reforma administrativa do Acre, pelo Decreto n.º 9.831, de 23 de outubro de 1912, cria o 4º. Departamento, o do Tarauacá. O referido Decreto em seu Capítulo I, Art. 2º. dizia: “O Território do Acre divide-se em quatro Departamentos Administrativos: Alto Acre, Alto Purus, Alto Juruá e Tarauacá. (...) Os quatro Departamentos (Art. 3º.) terão suas sedes respectivamente em Rio Branco, Sena Madureira, Cruzeiro do Sul e Vila Seabra. (...) Os Departamentos (Cap. II, Art. 4º.) serão administrados por Prefeitos nomeados pelo Presidente da República e demissionáveis ad nutum (...)”.
Por esse mesmo Decreto (9.831, de 23 de outubro de 1912), foram, também, criados cinco municípios, com suas sedes respectivamente nas cidades de Xapuri e Rio Branco, no Alto Acre, na cidade de Cruzeiro do Sul, no Alto Juruá, na cidade de Sena Madureira, no Alto Purus e em Vila Seabra, em Tarauacá. “Os municípios (Cap. III, Art. 20) de Cruzeiro do Sul, Vila Seabra e Sena Madureira terão o território dos respectivos Departamentos... Os municípios serão administrados por um Conselho (de sete Vogais) e um Intendente.” A Reforma Administrativa do Território do Acre foi posta em execução no primeiro dia de 1913, quando Francisco Siqueira do Rego Barros viu publicado o Decreto que assinara em 31 de dezembro de 1912.
Então, esses eventos, podem ser sintetizados da seguinte forma: o Departamento do Tarauacá, formado pelo vale do Tarauacá, foi criado pelo Decreto Federal n.º 9.831 de 23 de outubro de 1912, por desmembramento do Departamento do Alto Juruá, e instalado em 19 de abril de 1913, por Antonio Antunes de Alencar, nomeado primeiro Prefeito do Departamento. Já o município de Tarauacá também foi criado pelo decreto nº. 9.831, de 23 de outubro de 1912, e instalado no dia 24 de abril de 1913 pelo primeiro intendente, bacharel em Direito, Sansão Gomes de Souza, que foi nomeado por decreto de 7 de dezembro de 1912, assinado pelo então presidente da República Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca e referendado pelo ministro do Interior Rivadavia da Cunha Corrêa. Nesse sentido, Departamento e Município são entidades jurídicas diferentes. O que acaba por levar as pessoas ao equívoco de confundir o prefeito do Departamento com o Intendente do Município.
Ocorre que, a partir de 5 de janeiro de 1921 foi posta a nova organização administrativa do Território Federal do Acre, criada pelo decreto nº. 14.383, de 1 de outubro de 1920. Essa nova organização administrativa centralizou o poder instituindo a figura de um governador geral, e extinguindo as Prefeituras Departamentais. Dessa forma, o Acre passou a ter um governo central para todo o Território, no caso, Epaminondas Jácome, nomeado primeiro governador. O Território foi dividido em 5 Municípios e extinguiu-se, assim, a denominação de Departamento que se dava até então às circunscrições superintendidas pelas antigas Prefeituras. Os Municípios continuaram a ter suas sedes na cidade de Rio Branco, Xapuri, Sena Madureira, Seabra e Cruzeiro do Sul. Daí pra frente, a nomeação de intendente no Território do Acre passou à competência do governador, e não mais do presidente da República, debaixo da mesma cláusula demissível “ad nutum”.
Esse mesmo Decreto nº. 14.383, de 1 de outubro de 1920, que reorganizou o Território do Acre, em seu artigo 14, elevou Vila Seabra à categoria de cidade. Na vigência desse novo sistema administrativo, o primeiro intendente municipal foi Francisco Pereira da Silva.
Portanto, afirmar que Antonio Antunes de Alencar foi o primeiro prefeito de Tarauacá é um equívoco, porque ele foi do Departamento, instalado em 19 de abril de 1913, e extinto em 31 de dezembro de 1920. No entanto, permaneceu o Município, cuja sede era Vila Seabra, instalado em 24 de abril de 1913 por Sansão Gomes, seu primeiro intendente e que o governou durante todo o período em que existiu o Departamento do Tarauacá. Uma vez extinto a Prefeitura do Departamento, ficou a intendência do Município. Portanto, a prefeitura atual de Tarauacá é continuação das chamadas intendências municipais, e não do Departamento. Durante o período Departamental, a intendência estava submetida ao prefeito do Departamento; a partir de 1921, o intendente responde diretamente ao governador do Território. Vale ressaltar, ainda, que as nomenclaturas “intendência” e “intendente”, no Brasil, foram usadas até 1930, quando Vargas chega ao poder. A partir daí o termo “Intendente Municipal” é substituído pelo de “Prefeito Municipal”.
O nome “Seabra” permaneceu até 1943 quando, em virtude do Decreto-lei Federal nº. 6.163, a cidade mudou a sua designação para “Tarauacá”.

Segue a lista de prefeitos do Departamento e dos intendentes, do ano de 1913 a 1937. Foram 4 prefeitos efetivos do Departamento do Tarauacá, o resto estiveram na condição de interinos. O primeiro a receber o nome de Intendente foi Sansão Gomes, seguido por Francisco Pereira da Silva, primeiro intendente municipal, depois da reforma territorial de 1920. José Florêncio da Cunha, avô de Djalma Batista, foi o primeiro a usar a nomenclatura de “prefeito municipal”, a partir de 1930.


1º. Prefeito do Departamento
Antônio Antunes de Alencar (efetivo)
19 de abril de 1913 a julho de 1914

2º. Prefeito do Departamento
Bento Aníbal do Bomfim (interino, assumiu na qualidade de 1º. Substituto)
27 de julho de 1914 a 29 de outubro de 1914

3º. Prefeito do Departamento
José Victorino de Menezes (assumiu na qualidade de 2º. substituto)
29 de outubro de 1914 a janeiro de 1915

4º. Prefeito do Departamento
José Vicente de Assumpção (assumiu na qualidade de 1º. substituto)
1 de fevereiro de 1915

5º. Prefeito do Departamento
José Thomaz da Cunha Vasconcellos (efetivo)
4 de abril de 1916 a fevereiro de 1918

6º. Prefeito do Departamento
Julio Pereira Rocque (assumiu na qualidade de 1º. substituto)
26 de fevereiro de 1918 a 7 março de 1919

7º. Prefeito do Departamento
Agnello de Souza (interino, assumiu na qualidade de 1º. substituto)
7 de Março de 1919 a 11 de junho de 1919

8º. Prefeito do Departamento
Augusto Leal Coelho da Rosa (efetivo)
11 de junho de 1919 (posse) até 19 de novembro de 1919

9º. Prefeito do Departamento
Antonio Carlos Viriato de Saboia (interino, assumiu na qualidade de 1º. substituto)
19 de novembro de 1919 (posse) a 1 de abril de 1920

10º. Prefeito do Departamento
Agnello de Souza (efetivo)
1 abril de 1920 a 1 janeiro de 1921

1º. Intendente Municipal
Sansão Gomes de Souza
De 24 de abril de 1913 a 31 de dezembro de 1920

2º Intendente municipal
Francisco Pereira da Silva (1890-1973)
5 de Janeiro a 25 de Janeiro de 1921
Nomeado por Epaminondas Jácome. O primeiro intendente depois da reorganização do Território. Sucedeu a Sansão Gomes. Renunciou poucos dias depois. Autor de “Poemas Amazônicos”(1927).

3º. Intendente municipal
João Galvão de Oliveira
25 de janeiro de 1921 a 8 de abril de 1921

4º. Intendente municipal
Raimundo Vidal Pessoa
8 de abril de 1921 a 21 de janeiro de 1922

5º. Intendente Municipal
Hipólito de Albuquerque e Silva
21 de Janeiro de 1922 até 10 de Março de 1923

6º Intendente Municipal
Joaquim Pinheiro Cavalcante
10 de março de1923 a 26 de dezembro de 1923

7 º Intendente Municipal
Hipólito de Albuquerque e Silva
26 de Dezembro de 1923 até 23 de dezembro de 1930

1º. Prefeito Municipal
José Florêncio da Cunha
23 de dezembro de 1930 a 24 de setembro de 1934

2º. Prefeito Municipal
Hipólito de Albuquerque e Silva
24 de setembro de 1934 até 29 de Junho de 1935.

3º. Prefeito Municipal
Urbano Mendes da Silva
26 de junho de 1935 (nomeação), por Manoel Martiniano Prado
Professor, veio na comitiva do Interventor Martiniano Prado. Foi Inspetor Geral do Ensino do Território antes de ser nomeado (provisoriamente) prefeito, em substituição a Hipólito de Albuquerque e Silva.

4º. Prefeito Municipal
Marcolino Duarte de Oliveira
18 de fevereiro de 1936 (nomeação) ato assinado por Manoel Fontenelle de Castro, Comandante da Força Policial do Território do Acre, respondendo pelo expediente da Interventoria Federal (Manoel Martiniano Padro, Interventor).

5º. Prefeito Municipal
Hipólito de Albuquerque e Silva
15 de Junho de 1936 a dezembro de 1937


REFERÊNCIAS
BARROS, Glimedes Rego. Nos Confins do Extremo Oeste (volume I). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1993. p.101-108
LIMA, Raimundo Carlos de Lima. Na Amazônia Ocidental: a cidade-sede do Alto Juruá revelada. Cuiabá: Carlini & Caniato Editorial, 2015. p.69-71
FARIAS, Anastácio Rodrigues de. Diversos dados sobre o Município de Seabra 1905-1943. S/E, 1993.

JORNAIS PESQUISADOS
O Município, de Tarauacá, a partir de 1910;
A Reforma, de Tarauacá, a partir de 1918;
O Acre, de Rio Branco, a partir de 1935.

OUTRAS FONTES
Almanak Laemmert, ano de 1924;
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Volume XIV, 1957.