sábado, 22 de junho de 2019

DADOS PARA A HISTÓRIA DE VILA SEABRA

PREFEITURA
DADOS PARA A HISTÓRIA DE VILA SEABRA 
Anastácio Rodrigues de Farias 

Há muito que se tornava de grande necessidade, a criação desta Prefeitura, porque esta rica zona só pode caminhar para o progresso tendo a autonomia Prefeitural e Municipal.
Graças aos altos poderes da República e ao Marechal Hermes da Fonseca, esta ambição do povo do Tarauacá, Muru e Embira tornou-se realidade, sendo breve o começo desta nova fase, que entregue a sua primeira administração a homens honestos e trabalhadores, a rica zona da nova Prefeitura, em pouco tempo poderá ser apontada como modelo aos outros departamentos.
O Departamento do Alto Juruá, com sede no Cruzeiro do Sul, pouco nos adiantou enquanto estivemos debaixo de seu domínio, pois foi para nós sempre padrasto, pelo que passamos a analisar os seus enviados, começando pelos delegados de polícia, que sendo em crescido número, pouco adiantou-nos.
Chegados aqui, sem recursos, passavam meses esperando que a Prefeitura mandasse e desenganados, começavam a calotear o comercio, em nome da Prefeitura, sendo muitas dezenas de contos de réis que os comerciantes ainda estão no desembolso, aguardando melhores dias, para recebê-los.
A 11 de Março de 1905, chegou na lancha Tauaré, o nosso 1º. Delegado, tenente Luiz Sombra, que representando o Prefeito General Thaumaturgo de Azevedo, organizou de alguma forma o policiamento, criando em cada seringal um inspetor de quarteirão e pacificou questões que existiam entre os proprietários de seringais, ficando moralizadas as contínuas queixas com os confinantes destes seringais, sobre estradas de seringueiras. Autorizou a celebração de casamentos, sem estarem competente despacho do Juiz de Distrito nos autos, levando estes para o arquivo do Juizado de Paz. Levou de diversas pessoas procuração para requerer terras devolutas quando fosse criada a repartição de terras, não se sabendo o resultado de tais procurações que foram acompanhados de quinze mil réis, a título de selos e reconhecimentos de firmas.
Vindo, em Maio na lancha Saracura, deste mesmo ano, chegou o capitão Guapindaia, que vinha em comissão abrir inquérito na questão Teixeira e Menezes.
Em sucessão ao segundo chegou aqui em Junho do mesmo ano, o delegado Pinheiro, acompanhado de Marcolino Duarte de Oliveira; chegando esta autoridade intimou a vir à sua presença o comerciante José Augusto Fernandes Teixeira, que não comparecendo, motivou o tiroteio, em que foram vítimas o Delegado, Fernandes Teixeira, o escrivão do Posto, e um seringueiro do Estirão. Foi este o efeito do terceiro enviado da Prefeitura, que sem ter tempo de armar a rede, dormiu o sono eterno, em companhia de três vítimas.
Para substituir o delegado morto, chegou o tenente Thomé que pacificou os ânimos que se achavam exaltados em consequência do tiroteio Teixeira, deixando de sua passagem muitos amigos; um dos delegados modelos.
Sucedeu o tenente Thomé, o enfatuado moço Carneiro Monteiro, que por ser filho de alta personagem pouca importância ligou ao cargo a que vinha investido, retirando-se para o Rio de Janeiro.
Depois de Carneiro Monteiro, substituiu-o o tenente Correa Lima, com seu povo heroico de minha terra, nada fazendo, prometendo muito.
Correa Lima foi substituído pelo sr. Arraes, que muito se ocupava no jogo, deixando a polícia em pleno abandono; homem viciado na jogatina, uma ocasião escondeu no bico da chinela uma nota de quinhentos mil réis, culpando depois um velho honrado de haver roubado o dito dinheiro, verificando-se ele próprio tinha ocultado para não pagar o que devia a Antonio Alves de Andrade.
Ao delegado jogador veio-nos Manoel do Valle Silva, homem violento e irrefletido, tendo como resultado de sua violência o espaldeiramento de Alexandre, que morreu horas depois em consequência de muitos ferimentos. Foi na gestão desta autoridade que em Cocamera foi assassinado o seu proprietário Angelo da Silva, resultando do inquérito feito por esta autoridade a soltura dos criminosos. Este foi um dos delegados que mais prejudicou o comércio em nome da Prefeitura. Com a retirada de Valle Silva para o Cruzeiro do Sul, foi nomeado Thiago de Figueiredo, que passou nesta localidade, como um cometa. Foi delegado da Prefeitura e da Junta Governativa do Juruá.
Com a queda da revolução, e normalizado o Departamento, chegou como delegado regional o dr. Agripino Nazareth, que organizou os comissários de polícia, e fez uma excursão nos rios Muru e Tarauacá, sendo de útil proveito se não fosse este competente moço, substituído por Antonio Pereira da Silva, nada adiantando por exercer o cargo pouco tempo.
Em penúltimo lugar esteve no cargo o sr. capitão Góes, que fez publicar um boletim pelo qual o exm.º Prefeito o demitiu.
Por último chegou para assumir o cargo o sr. major Honorio de Pontes, quando tivemos a notícia do desmembramento deste rio do do Juruá, continuando o mesmo em exercício, até que venha a nova organização, podendo o sr. major Delegado fechar a polícia desta vila, com chave de ouro, pois é o último, assim cremos, se bem que não seja muito lisonjeiro o número que completam pois é o 13 delegado que tivemos enquanto fomos governado pelo Juruá.

POSTO FISCAL

O Posto Fiscal foi uma repartição anarquizada no começo de sua fundação, em parte motivada pelos chefes interinos nomeados pela Prefeitura. Provamos com os fatos:
Chegando a esta vila, em 1.º de Janeiro de 1905, o sr. Honorio José Teixeira, escrivão, em exercício de encarregado, procurou desarmonizar-se com o comerciante José Augusto Fernandes Teixeira, não consentindo a construção de uma barraca no lado Itamaraty, em frente com o lado de Oliveira, Andrade & Ca., motivando esta recusa terem alguns engenheiros dito, que derrubada a mata o rio sacava e desapareceria o lado acima causando imenso prejuízo a mesma (parte ilegível) inimiga de Fernandes Teixeira. Para ser executada esta ordem do encarregado houve aparato bélico, sendo requisitado força do seringal vizinho. Foi este o primeiro ato de Honorio.
Sem ter o tino administrativo este chefe depositou todo o seu prestígio no patrão Gerado que tudo fazia tendo o apoio de seu chefe, muito lucrando, pois dispondo de seis remadores tinha criados e trabalhadores à vontade.
Com o auxílio destes homens construiu a casa onde hoje reside o comerciante Sapha.
O Posto sendo uma repartição fiscal era hospedaria, hotel, botequim e casa de jogo, e muitas vezes, transformado em cadeia, porque naquele tempo o Posto Fiscal acumulava tudo.
Muitos cunhetes de balas gastou-se em tiroteio, pois este chefe tinha uma mania dos tiroteios festivos.
Estava nessa fase complicado quando chegou do Rio de Janeiro, o coronel Bemvindo Meira, nomeado efetivo, acabando com a hospedaria, hotel e cadeia existente, ficando em pouco tempo normalizada. Foi rápida a sua passagem neste Posto, não tendo tempo de aprender o nome do rio em que andou, conforme diz em seu Relatório de 1906.
Saindo Meira, foi nomeado pelo Sombra o coronel Marcos Oliveira, ficando pouco tempo, por ter de passar o exercício a Mario Azambuja, nomeado pela Prefeitura. Este chefe era honesto, cobrando em duas vias de um documento dois selos, ficando com parte em seu bolso. Foi no tempo deste encarregado que se deu o tiroteio em Itamaraty: morrendo Afonso Alves, Escrivão do Posto, Teixeira, um seringueiro e o Delegado. Nessa noite Azambuja atravessou a nado duas vezes os rios Muru e Tarauacá, saindo ilesos, e a muito custo convenceu-se que não estava ferido.
Com a visita do Dr. Virgolino a esta vila, acompanhou-o José Pereira de Araujo Barros que foi nomeado interino ficando o Posto, pela segunda vez, anarquizado, demitidos os seus remadores, e transformado em cadeia e hotel. Em substituição aos remadores Pereira arranjou uma preta que era sua amasia e cozinheira, figurando nas folhas de pagamento como remador.
Nesta época chegou com nomeação efetiva, Marcos Oliveira que assumindo teve que pedir exoneração, por ter o Dr. Virgolino de Alencar removido-o para o Posto do Jurupary, continuando em exercício, o mesmo Pereira, que mais tarde retirou-se levando o rendimento do Posto, da Capatazia e Prefeitura, para prestação de contas em Cruzeiro do Sul, indo embora de S. Felipe para Manaus, ficando a Fazenda livre do encarregado e do cobre.
Não se conformando o Ministro com o pedido de demissão de Marcos Oliveira ordenou que o Prefeito o reconduzisse ao cargo, assumindo a muito custo, normalizou de novo a ordem perturbada por Pereira, sendo porém pouco tempo que esteve em exercício, porque sem ser esperado chega Frederico Barbosa, nomeado interino, por ter o Prefeito lido em um jornal a demissão a pedido de Oliveira.
Passado o exercício, Barbosa tornou-se outra vez a anarquizar a repartição, por querer o Delegado Correa Lima, ter ação no Posto, mania dos primeiros delegados em confundir as atribuições policiais com o fisco.  Resultou dessa discórdia de Barbosa e Correa Lima, a retirada de Barbosa para o Cruzeiro do Sul, queixar-se ao Prefeito, q’ atendendo mandou que o mesmo viesse assumir novamente o cargo. Ficou em exercício o escrivão Anibal, que mudou o Posto desta vila para a Leoncio de Andrade. Chegando em Manaus o coronel Marcos de Oliveira verificou o engano de sua demissão, voltou a reassumir, continuando até a presente data.
E hoje o Posto Fiscal uma repartição moralizada, muito custando o que é, graças aos seus encarregados efetivos. O coronel Oliveira muito custou a assumir o cargo, parecendo haver no começo mal entendidos a sua pessoa, fazendo com que ele lutasse para chegar a chefiar esta repartição, o que faz com zelo e dedicação. (O MUNICIPIO, Tarauacá-AC, 24 de novembro de 1912, Ano III, N.113, p.3)

Os Juízes de Paz estiveram em desordem, apesar de sempre estarem em organização. Em todos estes rios pertencentes a esta região, foram poucos os atos praticados por estas autoridades, que não sejam nulos. Os casamentos que deviam ser escrupulosamente praticados, era exatamente onde muito pouco escrúpulo havia. Contando-se mais de uma centena de casamentos, são quase todos anuláveis, pela falta de compromisso do Juiz, que nomeado sem ter autorização alguma começava a casa a torto e a direito. Autoridades sem remuneração, pouco ligavam a investidura do cargo.
O Juizado de Paz desta vila, sendo fundado pelo general Thaumaturgo e empossado pelo seu representante Luiz Sombra, foi seu primeiro juiz, o coronel José Victorino de Menezes, que presidiu o ato de diversos casamentos, faltando o processado do Juiz de Distrito; não teve culpa porque foi autorizado pelo tenente Sombra. Com a organização dos Termos Judiciários, passando esta de circunscrição a distrito sendo o nono, vindo como Juiz o sr. Vicente Alves de Oliveira, que fez uma viagem ao Tarauacá.
Com a retirada deste Juiz, foi nomeado, estando em exercício até que veio a revolução do Cruzeiro do Sul, o sr. coronel José Vicente de Assumpção. Depois da queda da revolução foi nomeado a atual, que muito custou a ter uma ação decisiva, pela situação, criada aqui, pelo suplente de Juiz Preparador, não o reconhecendo como autoridade legal. Com a administração do capitão Rego Barros foram modificados os juízes de Paz, ficando sendo este o primeiro Distrito.
Nunca foi possível organizar-se este Juízo, pois sem recursos, os livros existentes acham em condições de irem diretos para a vala comum. A estatística pedida pela repartição de estatística do Rio de Janeiro nunca foi possível mandar pela falta de ordem que existe. Só existe neste Termo um só juiz legal: o neste Distrito.
Com a organização dos Termos, em nunca entender ocasião de ver em exercício dois suplentes sem se saber deles o legal, a ponto de um dia quererem que o segundo suplente, José Richelieu de Andrade assumisse o exercício para decidir uma questão, em que era advogado, Pompilio Borges, estando em exercício Ulisses Castelo Branco e Amarante. Outro fato igual a este deu-se com o primeiro suplente, na fundação deste Juizo, um senhor Carvalho  que estando em exercício, o Prefeito nomeou Frederico Torres Neto, dizendo que tinha havido engano na nomeação de Carvalho. Torres Neto fez confusão no fórum, e no inventário de Porfirio, dando soltura por “habeas-corpus” em uma prisão feita pelo Delegado Raymundo Arraes. Em Dezembro de 1908, chegou o primeiro juiz formado, dr. Carlos de Rezende, que julgou-se acima das leis e mandou espancar um guarda da Delegacia, por ter este pilheriado, com uma mulher que estava por conta do Juiz. O dr. Rezende pouco demorou se passando o cargo ao suplente Ulisses, passando este mais tarde ao major Lebre. Quando triunfou a revolução do Juruá, estava no cargo o dr. Belford, que muito fez organizado os autos crimes que existiam arquivados, remetendo ao Juiz competente. Moço distinto, de fino trato, conquistou muitas simpatias, porém devido a revolução retirou-se para o Rio de Janeiro, só voltando depois que fracassou a mesma, assumindo novamente, demorando-se pouco, voltando novamente ao Rio.
Passou ao cargo de 1.º suplente, major Lebre, que provocou a questão, com o Juizado de Paz, não querendo reconhecer o Juiz nomeado, pelo Prefeito Pedro Avelino. (O MUNICIPIO, Tarauacá-AC, 1 de dezembro de 1912, Ano III, N.114, p.3-4)

Resultou dessa recusa a intervenção do Prefeito e do Juiz de Direito, tendo concorrido para um fim lisonjeiro, o dr. Agripino Nazareth. Baixando em Novembro do ano passado, o major Lebre, passa o exercício a Antonio Alves de Andrade, 2.ºa suplente, sendo que este deixou por o ter de assumir o dr. Araújo Jorge, que pouco demorou-se, saindo em Maio indo para o Rio de Janeiro, deixando entregue o cargo a Antonio Andrade, que poucos dias esteve, para ceder ao capitão Bacellar. Com a baixada deste novamente foi elevado ao cargo permanecendo até a presente data. Pelo que exponho vê-se que só houve discórdia na justiça, quando estiveram em exercício os suplentes, que são nomeados, pela Prefeitura. (O MUNICIPIO, Tarauacá-AC, 8 de dezembro de 1912, Ano III, N.115, p.4)

Difícil é historiar a sede escolar d’esta vila, sempre complicada devido a falta de professores e recursos, nunca preenchendo as exigências da população d’esta vila. Criada a escola mista “Alcindo Guanabara”, pelo Prefeito dr. Virgolino, funcionou no lado da vila Leoncio de Andrade sob a regência de d. Virginia que, não tendo casa nem recursos, andava com os meninos, procurando onde devia dar aula.
Demitida d. Virginia, foi nomeado o competente estudante de direito, Sansão Gomes de Souza, eu continuando sem casa para dar aula, foi-lhe oferecida a casa de Anastácio Farias, funcionando pouco tempo, sendo substituído por Luiz Felipe, ébrio habitual; viveu em constante capoeiragem, com as árvores do extinto bosque “Aluízio de Abreu”; felizmente zarpou se dando o lugar ao sr. Raymundo Arraes, delegado e professor, que, contrário a Guerra Junqueiro, dizia: “feche-se a escola e abra-se o jogo”, ficando a escola em abandono e ele à  banca do jogo. Demitido Arraes, substituiu-o o professor Abreu, retirando-se sem nada ensinar aos pequenos.
Como elemento competente tivemos o professor Amarante, que em curto espaço de tempo, deu alguma luz aos seus alunos, fazendo exame, notando-se adiantamento durante o seu tirocínio escolar. Sendo também bastante habilitado, não podia sujeitar-se  a mesquinho ordenado e aliada ter de esperar que a Prefeitura um dia mandasse ou não os seus ordenados. Saindo, deixou a escola entregue a Joaquim Nogueira Bezerra, que sem ter nomeação, permaneceu pouco tempo, sendo substituído pelo atual, José Julio Nogueira, que aqui continua a lutar com a falta de elementos, não tendo expediente e funcionado em uma casa quase em ruínas.
Julgo, com a história que fiz, ter cumprido com o dever de mostrar ao público, o que foi a administração pública d’este rio e d’esta Vila Seabra durante o tempo que estivemos sob o domínio da Prefeitura do Alto Juruá.


Anastacio R. de Farias
O MUNICIPIO, Tarauacá-AC, 15 de dezembro de 1912, Ano III, N.116, p.4

quinta-feira, 20 de junho de 2019

BANDA SARAMAGO'S

Banda Saramago's: Eanes Henrique (vocal e guitarra), Eduardo Santos (bateria) e Kelvin Illitch (baixo e backing vocals).

quarta-feira, 19 de junho de 2019

IRMÃO JOSÉ DA CRUZ: esboços históricos

O fundador e sua obra 

São um tanto controvertidos os dados biográficos do sr. José Fernandes Nogueira depois chamado José Francisco da Cruz por ele mesmo, e colecionando, através de suas andanças, muitos títulos e apelidos: Missionário do Sagrado Coração de Jesus, Apóstolo dos Últimos Tempos, Missionero, Hermanito e outros.
Nasceu no município de Cristina, a 3 de setembro de 19133 (ou 1914). Segundo depoimento dele mesmo, foi batizado pelo Cônego José Augusto Leite, e crismado pelo bispo de Campanha, D. Inocêncio Engelke, no sul de Minas (Oro, 1977: 102).
Em sua infância deve ter tido alguns problemas, pois duas vezes tentou seguir a carreira sacerdotal, não conseguindo seu intento. A primeira vez, segundo ele, quis ir à França formar-se, quando tinha ainda 9 anos, através do Pe. João Paulo Dejargenet. Mas isso não se concretizou, não se sabe por quê. Aos 13 anos, ele estava “contratado” para ingressar no seminário Santo Afonso, em Aparecida, junto aos Padres Redentoristas. Mas não foi possível, principalmente por motivos econômicos, revela ele. No entanto, pode-se presumir que, desde aqueles tempos, os padres e professores já vislumbrassem em sua personalidade algum pequeno problema.
Sabe-se que casou e que teve sete filhos, sendo o mais velho Benedito Irineu Nogueira. Uma filha, que morreu em Céu Azul, chama-se Maria do Carmo Fernandes. Outro filho, Raimundo, foi seminarista em Jacarezinho, no Paraná.
Em alguns de seus depoimentos, afirma que, em 1934, recebeu uma visão celestial divina para seguir pelo mundo, com a Cruz e o Santo Evangelho.  Em outros, fala que essa visão foi em 1944. Nessa época, certamente, ele já estaria casado.
Por depoimentos de conhecidos, sabemos que o casamento do sr. Nogueira foi bastante tumultuado. Dum lado a mulher e os filhos e, de outro lado, as visões que ocupavam grande parte de sua vida.
O que é certo de tudo isso, por declarações de Nogueira, é que a maior parte de seu tempo ele o passava organizando atividades religiosas, principalmente romarias a Aparecida do Norte. Em suas longas conversas no Lago Cruzador, Rio Içá, em 1981, ele narrou, pormenorizadamente, suas peripécias. Disse ter organizado, só ele, 160 romarias a Aparecida. Algumas de caminhão e outras de trem. Datas em que esteve envolvido nisso, com certeza, são de 1953 a 1957. Uma cidade, onde organizou romarias, foi a de Noronha, Minas Gerais. As romarias chegavam a ser de cinco ou mais caminhões. E, com isso, destacando que o povo preferia fazer a romaria com ele, pois cobrava 55 cruzeiros, ao passo que o Pe. João cobrava 70 ou 75.
Quem mandou parar com a romarias foi um tal de Pe. Hélio. Isso parece ter sido uma das maiores frustrações do sr. Nogueira, e parece ter sido a ocasião para tentar outras coisas, inclusive sua peregrinação pelo mundo.
De suas romarias a Aparecida, ele possui fatos pormenorizados, com o nome de pessoas que inclusive ainda vivem. Fala, por eexemplo, de diversos padres redentoristas de Aparecida, como o Pe. Valentim Moser (encarregado das Oficinas Gráficas); do Pe. Vitor Coelho de Almeida, que o livrou duma enrascada, de certa feita, dizendo para um grupo de pessoas, que o queria agredir, que ele não tinha culpa, que era inocente, etc. Segundo Nogueira, o Pe. Vitor o mandou até Roseira, e de lá, ele pegou o treme e desapareceu do lugar. Fala também de outros sacerdotes, como Pe. Antônio Diana (Bibiano) Siqueira, que pregou diversas missões (em Pouso Alto, por exemplo).
Pelo que se pode deduzir, ele deixou a família duas vezes. A primeira em 1957 ou 58, chegando até o Paraná. Há diversos depoimentos de que, por essa data, ele estava peregrinando. Mas teve de regressar, e parece ter sido por pressão da família, que ficou sem amparo, inclusive com dívidas. Foi assim obrigado a voltar para Minas. Deve ter ficado uns 2 ou 3 anos, ainda, em Minas, encaminhando a mudança para o Paraná.
Segundo seus depoimentos, em 1951, recebeu os primeiros pontos de conhecimento; em 1958, deu início à sua missão (Oro, 1977: 102). Em outro lugar afirma que começou a pregar em 1957. Inicia a usar batina, declara ele, em 1960, e nunca mais a tira do corpo, e passa a rezar missa.
Pode-se presumir que sua segunda saída, agora definitiva, foi em 1962, quando deixa a família. Nessas alturas, a família até não fazia muita questão de que permanecesse em casa, pois ele pouco colaborava com a manutenção da mulher e filhos; ao contrário, até prejudicava. Ele comenta que, duma feita, emprestou 12 contos de réis a alguém, escondido da mulher, e que, depois, não lhe pagaram mais, daí, diversas dificuldades.
Na sua peregrinação, ele levava uma enorme cruz que diz ter trocado por duas vezes: numa igreja, em Curitiba, e numa fazenda, no Paraná.
Em suas andanças, pregava e rezava, onde era convidado, ou mesmo que não fosse. Suas pregações eram baseadas em sua formação religiosa básica: pregações dos padres, participação nas irmandades, cânticos e orações de romarias e, principalmente, as influências que sobre ele exerceram as missões, notadamente, as dos missionários redentoristas. A inspiração que as missões populares exerceram sobre ele é decisiva. Os cânticos são, em sua maioria, das missões. A cruz é o sinal deixado pelos missionários ao terminarem uma missão, e ele repete exatamente o rito: planta a cruz no último dia, às 3 horas da tarde, e manda a todos rezarem ao pé da cruz, lembrando as pregações das missões. Nas missões, faziam-se batizados e legitimações de casamentos: pois é exatamente o que o Ir. José realiza também.
É claro que tudo isso é feito por alguém que mal sabe ler e escrever, e que guarda ou guardou tudo de cor. Ele introduz, com o passar do tempo, coisas pessoais, de inspiração do momento.
O sr. José Fernandes Nogueira percorreu, em sua peregrinação, diversos estados e países. Saindo de Minas Gerais, passou em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Pará, Amazonas e Acre. fala do Rio Grande do Sul, das amizades que fez próximo a Porto Alegre, com um militar que o recebeu, pois o bispo estava um tanto desconfiado. Fala também dos trigais e da soja que cobria vastas regiões do Estado e, inclusive, da cidade de Canoas, situada perto de Porto Alegre.
Tem viajado, além do Brasil, pelos países do Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia e Peru. Ao querer entrar no Brasil, tentou entrar pela Colômbia, mas foi impedido pelas autoridades militares, por solicitação das autoridades eclesiásticas.
Em um documento inédito que descobrimos em Benjamin Constant, escrito em forma de verso (55 versos de 7 linhas cada um), intitulado A mi Misión Apostólica y Evangélica en vuelta del mundo corriente Actas y Generales por países extrangeros. Brasil, Argentina, Uruguay, Paraguay y Peru, escrito em espanhol, pode-se ter uma ideia de por onde tem andado. Entre algumas cidades ou locais mencionados estão: Minas Gerais, “tierra en que nací”, São Paulo, Paraná, Mato Grosso, São Borja (RS), Paraguay (Província de Concepción), Serra do Cachimbo, Uruguay, Uruguaiana, Montividéu, Rosário (RS), Colonia (Uruguay), Santana do Livramento (RS), Santa Maria da Boca do Monte (RS), Encarnación, Acaraí, Argentina, Asunción, uma parada no Paraná. Depois: Bebedouro, Barretos, em direção à Brasília.
“Em Goyás visité Brasília capital federal de mi nación cumplí 51 años debajo de un árbol en la puerta de un mercado onde hice oración meditando l agracia de Dios y poder sus santas manos...” (A mi misión, s/d, verso XIII).
De Brasília: Belém-Brasília, “duro estradón”, Ceres, Apurungatu, Imperatriz, Porto Franco, Pará, Rio Cabeludo, Rio Tinga, Marabá, Gurupí, Paraguamina, Belém, Manaus, Rio Prieto, Rio Urubín, Iporangá, navio Augusto Montenegro, Villa Abonán orilla del rio Madero, Porto Viejo, “fui seguiendo Ferrovía”. “Dia 6 de setiembre de 1967, adiós ciudad de Madureira”. A seguir, Rio Cayeté, Tacuari, Pedro Mesías, Rio Canamari. “En la margen del río Canamarí hice casar dos jóvenes por tener gran precisión” (A mi misión, s/d, verso 30).
Depois: Rio Purús, Puerto Romeo, San Blas, rio Yurparí, Puerto Brasil, rio Invira, rio Taracuá. De Taracuá a Urumepéen, ciudad de Purumepé, 3 días de retiro em Rumepé, rio Yuruá. En San Juan fui a Garape Preto y San Miguel hasta el Arazá, subindo o rio Yuruá. A seguir, Buen Jardín, Monte Lisio, Tushí, Coronel Edmundo, San Luis, San Sebastián, San José, Santa Teresita, Miné Esteban, Cruzeiro Du Sul, San Cristóbal e Santa Lucía. Ainda, Rio Yapiné, Pucalpa, Santa Ana, Callán, Orilla del Yuruá, río Amoña, Río Caiany y Putuya, Peru...
Através desse documento, descobre-se seu roteiro e, inclusive, o tempo que se tem demorado em sua peregrinação. Sendo que deixou Minas em 1962, estando em 1963 no Paraná, e dizendo que fez 51 anos em Brasília, conclui-se que esteve em Brasília em 1964. Daí seguiu para o Maranhão, Pará, Amazonas, descendo provavelmente para o Acre. Diz estar em 67 na cidade ou lugarejo de Madureira, certamente ainda no Brasil. Adentrou-se daí Peru afora, pelo Rio Juruá, demorando-se sempre pelas diversas localidades. Se deixou o Peru em 1972 tentando entrar na Colômbia, e não conseguindo, conclui-se que o nosso personagem vivia realmente peregrinando e dificilmente se demorava por muito tempo num lugar só. Pode-se supor que em Iquitos mesmo tenha-se demorado um ano ou dois. Mesmo depois que tinha subido ao Içá, ele tentou ainda penetrar na Colômbia, mas foi recambiado ao Brasil, através de Benjamin Constant. Sua missão era mesmo peregrinar.
Mas o que fazia o nosso peregrino em suas andanças?
Fazia, na realidade, muitas tarefas específicas dum peregrino. Entre outras, podemos ver: fazer retiro, orar, receber a comunhão, cantar com os irmãos, fazer pregação (em quase todos os lugares), ensinar a Bíblia, consolar os irmãos, rezar pelos doentes, abençoar as pessoas, fazer casamentos, jejuar e fazer ainda outras obras devotas.
Na maioria das vezes, ele se hospedava em casa de pessoas importantes do lugar (comandante, prefeito, senhores de terras, donos de castanhais ou seringais) e, em seus versos, lembra nomes e agradece aos que lhe deram ocasião de pregar o Evangelho. São inúmeros os nomes de “benfeitores” que cita em seus versos, alguns com muito carinho.
Se o irmão diz ter fundado a Irmandade Cruzada Católica Apostólica e Evangélica no dia 23 de maio de 1963, certamente ela foi consolidada e firmada apenas no Peru, onde se formaram comunidades e se construíram capelinhas com cruzes. Num documento da IV Assembleia Episcopal Regional da Selva do Peru, realizada em Yurimaguas, em abril de 78, foi apresentado um relatório do Fdo. Florencio Pascual Alegre González sobre a Irmandade da Cruz. Não se pode saber, pelo documento, quando o Ir. José teria começado a sua pregação no Peru. Mas pode-se saber que entrou no Peru pelo rio Bru, descendo pelo rio Tamaya, Masisca e Pucallpo. Passou o Huánuco y San Martin, regressando a Ucayali, navegando por ele até o Amazonas. Quando esteve em Pucallpo já tinha seguidores, que iam adiante dele espalhando os seus poderes, entre eles, os de curar os enfermos, alimentar multidões, distribuir muita comida, fazer milagres, pregar de modo maravilhoso, distribuir esmolas, etc. Assim, as multidões esperavam horas e horas na barranca do rio a chegada do milagroso irmão.
Das correspondências que possuímos, temos cartas datadas de Iquitos, Peru (25-8-71), Caserío Nueva America (27-4-71), Caserío San Regis (22-5-71). Com data anterior não se encontrou nenhuma correspondência; a mais antiga era de 27-4-71. Quanto ao Brasil, há um atestado de batismo de 7-6-72, feito em Benjamin Constant.
Pois é esse o personagem que nos primeiros meses de 1972 faz sua entrada no Brasil, deixando o Peru na divisa com a Colômbia (cidade de Letícia) e fazendo a sua primeira parada no Marco (Tabatinga), Brasil.


GUARESCHI, Pedrinho A.. A Cruz e o Poder: a Irmandade da Santa Cruz no Alto Solimões. Petrópolis: Vozes, 1985. p.49-54