terça-feira, 20 de novembro de 2018

NO BOSQUE

Rogel Samuel


no bosque
neste regato do bosque
busco você entre árvores
quero
quero teu banho
tua luz

não te encontro
estás com as imagens misturada
lembranças nadas
nadas

debaixo da ponte
onde
te conheci
fonte

eras tão jovem
o teu amor
pulsante
mas éramos
já não somos
não estamos

neste regato do bosque
entre árvores
te procuro


muro

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

TARAUACÁ: múltiplos olhares





































Fotos: Isaac Melo

SOBRE OS FESTIVAIS DAS NOVAS ESPERANÇAS

João Veras


O que mais queres tu de mim, colonizador?

Além desse acre de terras com fartas madeiras sem lei?

Que eu rogue por seus empréstimos, essa tua riqueza que me roubas?

Que eu continue seguindo as tuas bulas, fórmulas e mapas-armadilhas?

Que eu viva a sorri pra ti? A abrir pernas, estradas e mentes?

Queres ainda mais meus pobres conhecimentos que valem outro?

Minhas ignorâncias sobre tuas estratégias de saber?

Que eu faça mais poses para tuas fotografias de viagens?

Que eu consuma mais as tuas artes, as que eu não entendo e as que são feitas justamente para eu entender?

Que eu continue acreditando em teus deuses?

Que eu viva a te receber como um dos meus melhores?

Queres ainda que eu morra desejando ser como você?

Que eu viva sonhando ser um dia você?

Que eu seja você?

E que me mantenha sem vestes a seios nus matando a sede dos teus baratos com minhas bebidas? Ofertando-te o que me resta de sagrado?

O que mais queres, além de meu corpo, da minha história, dos meus sonhos?

Pois agora eu não te dou mais! (...assim pensou alguém lá nos fundos da aldeia, no mais respeitoso silêncio).

terça-feira, 13 de novembro de 2018

MÃE NHÁ EUGÊNIA

Leila Jalul

Os negros que conheci na minha infância, invariavelmente, eram empregados domésticos ou seringueiros. Assim foram o velho Bahia, (da Bahia, só o nome), o seu Teodorico Francisco do Sacramento, o João Mulato, Benedito e Deolinda, tios de minha mãe, Antonio Lopes, Nhá Eugênia e Irineu Serra. Destes, apenas Antonio Lopes era cearense, de Quixeramobim. Os demais vieram diretamente do Maranhão. Alguns eram quilombolas nas terras de Sarney.
         Como os antigos sabem, nas casas dos grandes comerciantes e seringalistas, havia empregado para tudo. Sem salário, de preferência. Eles ganhavam um teto, uns molambos para vestir, uma rede para embalar o corpo e as saudades e o apelido de “agregado”. Empregados remunerados só os de balcão e os que sabiam ler e escrever, ainda que um tiquim de nada. Não errando no troco e nas anotações de borrador, já tava de bom tamanho.
Mãe Nhá Eugênia, por economia, era lavadeira e torradeira de café na casa do meu avô. Em dias marcados, acendia o fogo de lenha a céu aberto, pegava o tisnado torrador feito de metade da lata de querosene de vinte litros, a pá, os grãos e lá se ia para a tórrida função. O café, já catado e esquentado ao sol, era medido numa lata de banha, misturado ao açúcar gramixó, na proporção correta e, pá pra lá, pá pra cá, mexia os grãos, ao som dos estalidos da lenha. A fumaça invadia seu rosto. Algumas fagulhas iam parar em seus braços e mãos, sem direito a reclamação.
– Nhá, deixa eu ajudar um pouquinho?
– Sai daqui, traste, cê qué ficá preta como a Nhá?
– Nhá, deixa eu bater no pilão? Só um pouquinho, deixa?
– Sai daqui, diacho! Minina impertinente qui tu é! Sai daqui ou tu qué ficar feia como a Nhá?
Nhá mostrava sempre os braços musculosos para mostrar que tinha forças, apesar dos não sei quantos anos. Com ela aprendi a dar um beliscão no músculo até subir aquela bolotinha: o mosquito, dizia ela. Dizia, ainda, que precisava ser forte, até achar os filhos que se haviam embrenhado nos seringais e não davam notícias.
De todos ela lembrava. No entanto, era pela filha Florinda o choro que derramava.
– Fia, desde que a danada ajuntou-se com aquele desgramado, fie duma égua, que num se alembra mais da mãe. Num sei se tem minino, minina, num sei. Nhá, com a força do Pai do céu, ainda vai saber. Desalmada...
O tempo passando e Nhá já não era mais a negra forte. Vovó foi notando que ela não estava bem. Sempre acordava antes do sol, mas foi ficando devagar, levantando com dificuldade, dizendo coisa sem coisa. Foi ficando biló, peidadinha da cabeça. Passou a tremelicar que nem vara verde.
Uma noite, lembro como se hoje fosse, já com meus 9 anos, acordei com Nhá Eugênia andando e falando sozinha. As palavras eu não compreendia, porém, lá no seu resmungo, ouvi o nome de Florinda, ou Flô, como chamava sua “minina”.
O café já não torrava. A roupa não mais lavava. As tarefas foram passadas para Iracy, a arrumadeira. E Nhá Eugênia dizia, quando o juízo voltava:
– Ô minina Iracy, prestenção, a roupa do seu Ibrahim tá ficando uma mundiça! Esferga a folha do mamoeiro, minina! Tu é braba dimais! Tescunjuro! A gente insina, insina e o diacho num aprende! Vôte!
Num dia qualquer de 1957, Nhá procurou a desalmada Florinda. Passou a noite procurando. Deve de ter achado. Não acordou. Só pode ter achado...

DIÁRIO DE BERNARDO SOARES

Há sensações que são sono, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.
Olha-se, mas não se vê. A longa rua movimentada de bichos humanos é uma espécie de tabuleta deitada onde as letras fossem móveis e não formassem sentidos. As casas são somente casas. Perde-se a possibilidade de dar um sentido ao que se vê, mas vê-se bem o que é, sim.
As pancadas de martelo à porta do caixoteiro soam com uma estranheza próxima. Soam grandemente separadas, cada uma com eco e sem proveito. Os ruídos das carroças parecem de dia em que vem trovoada. As vozes saem do ar, e não de gargantas. Ao fundo, o rio está cansado.
Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. E uma vontade de dormir com outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça.
Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada. Passa-se conscientemente, a dormir só com a impossibilidade de dar ao corpo outra direção, a porta onde se deve entrar. Passa-se tudo.
Que é o pandeiro, ó uso parado?


PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Barueri: Cirando Cultural, 2018. p.80-81

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

CLUBE DA MADRUGADA

Pe. Nonato Pinheiro
(Da Academia Amazonense de Letras)

Há mais de um decênio que o Clube da Madrugada vem se firmando como expressão de tenacidade e pujança no campo das artes e das letras, movimento de vitalidade e renovação, dirigido por uma plêiade de talentosos moços, que encaram o problema da cultura com dignificante espírito de seriedade.

Quando surgiu o movimento inspirado em manifestações similares noutras áreas literárias e artísticas do país, no espírito que animou a “Semana de Arte Moderna”, promovida em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com palestras, conferências, declamações e exibição de artes plásticas, já era eu acadêmico, e senti, no dealbar ou na floração daqueles primeiros impulsos renovadores, certa descrença da parte de alguns vultos de nossas letras planiciárias. Desde o início, entretanto, observei nos rapazes acentuada posição para levarem a coisa a sério. Liam, estudavam, trocavam ideias e comentavam os últimos lançamentos do país, no mundo livresco. Acompanhavam o momento artístico e literário, aqui e alhures, com vivo interesse. Não dispunham de uma sala, sequer, para seus encontros. Que importava? Qualquer porão ou nesga de jardim bastavam aos seus intercâmbios culturais. A praça de Heliodoro Balbi foi palco das primeiras tertúlias e continua a ser teatro dos encontros dos clubistas, aos lampejos do sol, se é dia; sob o pálio das estrelas quando é noite.

Crescia o movimento. Novos sócios vinham unir-se aos primeiros. Alguns transferiram-se para a metrópole tentacular, sonhando com melhores vantagens e posições. Outros permaneceram, mantendo crepitante a chama do ideal. Outros ainda retornaram, renovando-se no espírito primitivo que animou o Clube. Vieram os primeiros lançamentos. E ao editar-se a primeira seleta, a “pequena antologia madrugada”, já o movimento estava consolidado. Cada nova manifestação dos clubistas era uma explosão e afirmação de pujança, de rigor, de vitalidade. Da fase sonhadora, mesclada talvez de certa indisciplina, compreensível nas instituições nascentes, passou-se às fases das definições, no encalço de uma disciplina e de um roteiro. As equipes movimentaram-se conscientemente, e a cidade tomou conhecimento de que os rapazes se decidiram a tomar posição, a despertar vocações nascentes, a incrementar o movimento artístico e literário, servindo com devotamento à cultura. O Clube da Madrugada era uma realidade seivosa.

Tenho consciência nítida da que sempre estimulei esses moços, que surgiam diante de minhas pupilas tocados pela centelha eletrizante de um ideal superior. É só consultarem minhas colaborações na imprensa amazonense, que já se avoluma de vinte anos, e terão a prova convincente. Cheguei a sugerir ao escritor Péricles Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras, ao tempo da fundação do Clube da Madrugada, de quem fui colaborador imediato e cotidiano nos movimentos culturais que entendiam com a Casa de Adriano Jorge, que observasse os rapazes, que lhes acompanhasse os passos na seara das letras. Avancei a ideia do aproveitamento de alguns para a Academia, no intuito de uma revitalização do sodalício. Os clubistas têm consciência dessa posição. Outros confrades, como Aristóphano Antony, também assim pensavam.

Como quer que seja, entendo que a linha do Clube da Madrugada não deve de incremento literário e artístico, tendo em mira o progresso cultural do Amazonas. Não devem ser forças antagônicas, mas forças vivas, formando uma mesma dinâmica pelo soerguimento pensamental, pelo esplendor das letras e das artes, pelo culto do idioma e da literatura nacional.

O Clube da Madrugada possui nomes expressivos em seus quadros: Aluísio Sampaio, Alencar e Silva, Edson Farias, João Bosco Evangelista, Álvaro Páscoa, Carlos Gomes, Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Arthur Engrácio, Pedro Amorim, Ivens Lima, Jefferson Peres, Afrânio Castro, Evandro Carreira, Miguel Barrela, João Bosco Araújo, Saul Benchimol, Antonio Augusto Gurgel do Amaral, J. Maciel, Hahnemann Bacelar, Luiz Bezerra, Pe. L. Ruas, Sebastião Norões, Getúlio Alho, Ernesto Pinho, Ernesto Penafort, Antísthenes Pinto, Óscar Ramos Filho, Pedro Santos, Cosme Alves Neto, Guimarães de Paula, Nauro Machado, Nazareno Tourinho, Assis Brasil, Astrid Cabral, Nivaldo Santiago, Teodoro Botinelly de Assunção, Leopoldo Peres Sobrinho, Djalma Passos, Moacir Couto de Andrade. Servi-me de uma relação que me foi oferecida pelo clubista Jorge Tufic, cuja ordem nominal mantive.

Já é volumosa a coleção dos livros lançados pelos clubistas. Farias de Carvalho brindou-nos com “Pássaro de Cinza”, bem festejado pela crítica. É sem favor um dos mais belos talentos poéticos da nova geração, refulgindo ainda como excelente declamador. Jorge Tufic, outro poeta de raça e intelectual de elevadas preferências mentais, deu à estampa “Varanda de Pássaros”, na qual, em verdade, só gorjeia uma ave: o pássaro de sua maviosa inspiração. Alencar e Silva, que já nos havia dado “Painéis”, voltou com melhor garbo e amadurecimento em “Lunamarga”, sua última conquista, saudada com desbordante entusiasmo. Padre Luiz Ruas, um dos brasões mais refulgentes do Clube, é autor de “Aparição do Clown”, que revelou um poeta de impressivos e expressivos surtos e uma inteligência de radiosa claridade. “Poesia Frequentemente” é de Sebastião Norões, discípulo fervoroso de Dario e Guillén, livro que patenteia um intelectual e poeta de muita sensibilidade e intuição. Antísthenes Pinto, que estreara como inspirado poeta em “Sombra e Asfalto”, em que há claridades de plenilúnios e olhares serenos de pupilas de sonhador, surge agora como novelista, sobraçando o seu “Chavascal”, núperlançado. Na crítica literária acompanho com interesse e aplauso a desenvoltura de Aluísio Sampaio e Arthur Engrácio, cujas recensões refletem a agudeza e o faro de conspícuos analistas. Engrácio ainda brilha no conto e na novelística, e suas “Histórias de Submundo” dão-nos o fôlego e as dimensões do contista.

Na pintura, na escultura, na xilogravura, no campo fascinante das artes plásticas, o Clube da Madrugada apresenta uma plêiade de admiráveis artistas, alguns de renome nacional; Moacir Andrade, Hahnneman Bacelar, Getúlio Alho, Afrânio de Castro, Álvaro Páscoa e outros que honrariam os melhores e mais exigentes salões de arte.

Na eloquência e oratória há um nome que se impõe vitorioso: Evandro Carreira, já consagrado num concurso nacional de oratória. No campo das ciências sociais e econômicas Jefferson Peres e Saul Benchimol são figuras de alto relevo, que dignificam qualquer instituição de cultura. No mundo empolgante do canto e da música esplendem Nivaldo Santiago, Pedro Amorim e outros.

O Clube da Madrugada possui uma flor escarlate em seu jardim, que lhe dá realce e encanto: Astrid Cabral, a mais talentosa de quantas alunas tive no Instituto de Educação. É a única mulher, a florir com o seu formoso talento no sodalício presidido pelo meu amigo Aluísio Sampaio. Embora ausente, sei que Astrid não perde o contato com o seu Clube, e sempre envia suas produções.
Muitos são os que me perguntaram e perguntam acerca de minha posição em face do movimento do Clube da Madrugada. É de plena fraternidade e simpatia. Embora minha formação intelectual tenha sido eminentemente clássica e acadêmica, a verdade verdadeira é que nunca me prendi a escolas, pelos menos de um modo exclusivo. Sou como a abelha industriosa, que vai de flor em flor, à cata do néctar para o fabrico do mel delicioso. Sempre me atraiu o princípio da variedade: “varietas delectat”. Tenho poetas de minha mais alta estima e preferência em todas as escolas e correntes literárias. Afinal, o que monta não é a escola, mas o talento do intelectual e do poeta. Só há uma realidade: é a POESIA. Como quer que seja, dou em letra o meu abraço aos sócios do Clube da Madrugada, exortando-os à continuação da peleja em prol do progresso cultural de nossa terra. Ergamos bem alto o nome do Amazonas na comunhão nacional pela afirmação da nossa inteligência, no cultivo fascinante das boas letras e das belas artes!

(Publicado no Jornal do Comércio de 03 de abril de 1966. Mantido ipsis litteris o texto original, com adaptação à nova ortografia).

MINIBIOGRAFIA. Raimundo Nonato Pinheiro nasceu em Manaus, em 1922, e morreu em 1994. Era conhecido como Pe. Nonato Pinheiro, como geralmente assinava seus artigos jornalísticos. Foi sacerdote, jornalista, filólogo, latinólogo, professor, poeta, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Grande orador e articulista brilhante de cultura polimorfa. Publicou as seguintes obras: “Dom José Pereira Alves, fulgores do Episcopado” (Editora Vozes, 1954); “Dom João da Matta” (biografia, 1956; e uma 2ª edição, Editora Valer, Manaus: 2008). Publicou na imprensa local artigos, crônicas, poesias e ensaios.