segunda-feira, 10 de maio de 2021

CONQUISTADORES DO DESERTO VERDE

 Fernandes Távora (1877-1973)

Artigo escrito em 11 de agosto de 1911, a bordo do antigo vapor “Bahia” – pelo autor – no seu regresso do Acre, onde havia clinicado durante 12 anos; e publicado no “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro, depois do seu desembarque.


Vai para quarenta anos.

Uns homens tristes, maltrapilhos e esquálidos, de olhar embaciado e passo tardo, as feições contraídas pelo surdo pungir de sensações inauditas, o pensamento desvairado por alucinações dolorosas, arrastavam-se ao sabor de desventuras imensas, através de campos combustos e desolados, fulminados por um sol candente, num desfilar macabro que mais se assemelhava a uma procissão de sombras.

A fome, a sede, a dor e a morte formavam o fundo desse quadro dantesco, onde um perene crepúsculo de desesperança enlutava as almas combalidas pelo maior infortúnio que já pesou sobre terras da América.

Pela retina alucinada passavam céleres os belos quadros da passada ventura, contrastando com a visão apavorante de um presente cheio de negrores, repleto de misérias e incomportáveis desventuras.

Quem eram esses homens?

Para onde iam nesse caminhar doloroso e lento?

Que buscavam, rumando o Norte numa tenacidade de quem cumpre um destino?

Escutai-me oh! Vós que me quiserdes acompanhar nessa tremenda via-sacra, que representa, sem dúvida, a mais alevantada epopeia da constância e resignação humanas. Eram uns desditosos filhos do nordeste brasileiro, aos quais o destino cego dera em partilha um solo ubérrimo e cheio de encantos, a par de um clima invejável, mas de estações inconstantes.

Ali viveram felizes algumas décadas, deslembrados do futuro, que não podiam sonhar calamitoso, presos à terra que lhes dera venturoso abrigo. Um dia, com o cérebro ainda povoado de visões risonhas da passada primavera, vêem irromper o flagelo tredo e feroz, calcinando os campos, crestando as pastagens, secando as fontes, destruindo os rebanhos e exaurindo a vida, como se fora a vingança tremenda de uma divindade irritada contra a humanidade revolta.

O êxodo começa; e nos poeirentos caminhos alastra-se a miséria que foge ao terrível açoite da calamidade implacável, iniciando-se a grandiosa caminhada que se epilogará em região remota, que a natureza preparava ainda, para complemento da terra flagelada.

Providência ou acaso, ela lá estava no extremo norte, grande como um continente, ubertosa como nenhuma outra, coberta das mais belas florestas, sulcada pelos maiores rios, povoada pela mais rica fauna, formosa Canaan desses novos hebreus que fugiam ao cativeiro do fado.

Por uma dessas profundas intuições, só peculiares às raças predestinadas, aqueles homens rumaram ao Norte, numa estranha pertinácia, como se os atraíssem forças desconhecidas ao cumprimento do altíssimo destino. O Norte era então o desconhecido país remoto que as amazonas cruzaram nas correrias lendárias, sombria morada da morte, cujo símbolo, a mancenilha, lá desdobrava a sedutora copa num eterno convite ao aniquilamento.

Era a terra de onde se não voltava; onde a vida era mágoa contínua e a morte libertação desejada; país de lendas apavorantes que as distâncias ensombravam ainda mais, envolvidas na ignorância e no mistério.

Mas seguiam sempre sob o mesmo influxo da desgraça que os arrancara da pátria, suportando as inclemências de outros climas, arrostando os elementos sempre hostis, sujeitos a todas as vicissitudes e maus tratos, desde o infecto porão dos navios sem ar e sem luz, até as praias desertas onde o sol equatorial os siderava; desde o ressequido torrão da pátria que lhes negava a gota dágua, até as diluviais torrentes amazônicas, que os encharcavam até a medula dos ossos.

Ei-los chegados, após inerráveis sofrimentos, às margens soberbas do grande rio, espraiando melancolicamente a vista amortecida pela vastidão tristonha das águas sem fim. Sobem mais e o cenário muda.

Quadros inéditos se desdobram a perder de vista como se foram mágicos oásis encantadores, onde descansassem a vista os míseros proscritos, mal despertos ainda de um sonho doloroso.

Tudo ali os convidara a radicarem-se ao solo e descansarem da longa caminhada, ao rumor constante de cascatas, ao brando murmúrio dos regatos, na contemplação de eterna primavera.

O solo era úbere, as sementeiras desabrochavam em fartas messes que produziam abastança, a caça abundantíssima, o peixe inumerável, a floresta frutífera, a natureza pródiga.

Que mais queriam os estranhos viajores? Por que se não detiveram nesse trecho de terra admirável que primeiro lhes feriu agradavelmente a retina acostumada aos quadros dolorosos?

E que força oculta e misteriosa os impelia para os confins da terra imensa que então pisavam pela primeira vez? É que traziam no sangue o germe de espantosos heroísmos, que precisavam de um cenário condigno para sua manifestação.

Eles haviam acumulado, em séculos de atrozes sofrimentos, através de calamidades sem conta, essa reserva imensa de energia que havia de manifestar-se um dia na mais assombrosa epopeia da expansão pacífica dos povos. Foi por isso que a caudal humana não parou um só instante nas regiões vizinhas à foz do rio-mar, e continuou, precipite, na marcha encetada, galgando a embocadura dos grandes afluentes para a verdadeira obra da conquista.

Julgar-se-ia que ali deveriam abrandar seus sofrimentos ante a visão edênica dessa terra de seiva incomparável, na magnitude desses panoramas onde a natureza na máxima virgindade parecia elevar um solene protesto contra a miséria e contra a dor. Puro engano!

Aí começa o seu verdadeiro martirológio. Novos Tântalos, eles sofrem as mais profundas misérias, as mais intoleráveis dores que já foi dado sofrer a seres humanos, em meio da mais rica e pujante natureza do globo.

A marcha continua; os navios abarrotados vão dispersando pelos barrancos desertos dos grandes rios os prisioneiros da dor e os ecos do labor humano cantaram pela primeira vez, naquelas selvas, o hino triunfal da civilização.

Subiram os igarapés, vararam os furos, cruzaram os lagos, rasgaram a floresta, galgaram cambirotos, atravessaram os chavascais, vadearam os rios... Estava encetada a conquista e lançado o primeiro desafio à natureza inimiga. De então em diante a luta foi tremenda: as levas humanas não mais pararam nessa escalada épica e, através de obstáculos sem conta, num frêmito de incontidas energias, sobranceiros à dor e à morte, que sempre desprezaram, domaram afinal a natureza áspera, e, sobrepondo-se à ação do tempo, numa sublime violência, obrigaram-na a cumprir em pouco mais de trinta anos o que não faria, talvez, em trinta séculos, estreme daquela estupenda ação humana.

Euclides da Cunha disse alhures, numa das suas admiráveis concepções sintéticas, que “a natureza amazônica ainda não estava preparada para receber o homem”.

A terra, na verdade, formava-se, os aluviões se superpunham numa cadência fastidiosa de séculos; os rios, num titubear de infantes, iam sacando as voltas, quebrando os barrancos, mudando as praias, nessa função geológica intensa dos talwegs que se definem; e a natureza toda, na rudeza das coisas inacabadas, eriçada de arestas, esperava o deslizar dos milênios para mostrar-se em perfeição.

Parou, por acaso, algum momento ante a intimação formal da natureza o rude conquistador do deserto?

Parou, sim, apenas um instante, para encarar resoluto a morte e seguir avante, no arrojo supremo dos abnegados! Dezenas, centenas, milhares de irmãos foram ficando na via dolorosa, tristes marcos da cruenta jornada de um povo inflexível que, apesar de todos e de tudo, havia de vencer. Ei-los afinal, alguns anos depois aflorando as nascentes remotas dos pequenos tributários do grande rio.

Onde estavas eles? Em que latitude, em que país se achavam?

Sabiam lá!...

Diante deles era o deserto, para os lados ainda o deserto e para trás, bordando a fita interminável dos rios, um vago pontilhado de núcleos humanos na vastidão incalculável das terras percorridas, frágeis elos que a morte ia quebrando, como que empenhada em dissolver a débil cadeia humana, que apenas o pensamento unia, na imensidade daquelas selvas! Passaram-se anos em que a luta continuou com suma violência. Domada a natureza, restava ainda subjugar o selvícola, seu irmão gêmeo na hostilidade e na rudeza, que defendeu sempre com galhardia as suas terras até cair vencido ou recuar ante a energia incontrastável da raça conquistadora, para continuar mais adiante a luta interrompida.

Afinal o índio foi domado ou fugiu para o planalto, e os recém-chegados puderam internar-se nas matas, fazendo brotar a flux o ouro vegetal que, numa secular virtualidade, só esperava pela mão do homem audaz, que o havia de levar aos quatro mundos.

Estava feita a conquista da Amazônia e firmada para todo o sempre a grandeza de uma raça! Quem seria capaz de medir a funda nostalgia, a mortal saudade dos desventurados proscritos que, através das distâncias imensuráveis, sonhavam com a pátria estremecida, arrancando, do suave escrínio de sua alma dolorida, os cânticos singelos dos sertões de sua terra e no dedilhar da viola gemente, iam suavizando as mágoas, quase em soluços, numa ânsia infinita de voar!...

E acaso poderiam esquecer, nos momentos de tréguas, tudo que haviam deixado longe, debaixo do adorado céu da pátria, nesses incomparáveis recantos da terra do berço, gravados indelevelmente na alma como parte integrante de todos os seres e patrimônio inalienável de todos os proscritos? Eles viam, num sonho pungente, de amaríssimas saudades, a casinha solitária a ermida, o campo, o arvoredo, o rio... e por sobre tudo isso, o sol, o abençoado e fecundante sol de sua terra, a cujos raios benéficos esperavam aquecer-se ainda um dia, haurindo, num imenso raio de luz, a saúde, a seiva perdida, a mocidade gasta nas regiões da morte. Pobres sonhadores! Num desfiar contínuo de suspiros, vão soltando a vida, como se a quisessem transmitir em fluidos às regiões amadas; e, no diluir-se em saudades, iam morrendo esses novos argonautas do ouro negro, num itinerário inverso, bem mais triste que o primeiro, em demanda da pátria que raramente chegavam a rever.

Quando subiam, devorados de sonhos, sentiam menos o acicate da miséria que os tangia, deslumbrados que estavam, pela visão longínqua da independência que entreviam além, sempre além dos horizontes atingidos.

Agora o caminhar é outro, como outro é o pensamento que os consome. Já não são os mesmos homens de rijo querer e robusta organização que venceram a dor e conquistaram o deserto, são restolhos humanos, uns semi-mortos que, no arquejar de uns restos de vida, vêm rolado ao sabor das correntezas, descrentes do futuro que lhes fugiu com a saúde, desiludidos, numa tortura sem par de quem se sente morrer sem ter vivido e que, muito longe ainda da pátria, perde a esperança de nela dormir o último.

E os barrancos se vão novamente cobrindo de cruzes, e a natureza, vingada, assiste solene e implacável do castigo de seus dominadores, abrindo sorridente o seio para receber essas heroicas sementeiras humanas, lastro sangrento mas inevitável do progresso, que há de germinar mais tarde numa frutificação bendita, num desabrochar de eternas aleluias!

Era já tempo de pararem na sua vertigem os sublimes bandeirantes do norte que, ao galgarem os primeiros contrafortes das regiões andinas, entestaram com povos de outra raça. Um dia, ofegantes ainda da luta com a natureza, surge-lhes no horizonte o fantasma da guerra, desta vez não mais com o gentio, senão com outra raça, também forte, que pleiteava, em nome de outra nacionalidade, o domínio do deserto. Nem por um momento recuaram os denodados campeões da nossa raça. Perdidos no meio da selva infinita, segregados dos homens, abandonados da sua nacionalidade que, num eclipse do bom-senso e com soberana injustiça, os renega, deixando-os à mercê do contendor estrangeiro, eles, os denodados voluntários da morte, aceitaram a luta. Tudo lhes prenunciava a derrota, e eles venceram ainda uma vez, para suprema afirmação de sua heroicidade!

A nação contestante abateu armas ante esse pugilo de bravos que, mercê do gesto nobre e altamente patriótico do mais glorioso dos brasileiros, viram de uma vez para sempre confirmados os seus direitos à terra conquistada.

O historiador do futuro, relendo um dia o feito estranho, julgará certamente que muito ouro nos terá custado a conquista da Amazônia e que séculos tenham sido precisos para levar a termo a obra colossal.

Pouco mais de três décadas, alguns milhares de homens fortes, aquinhoados pela supina indiferença dos seus compatriotas, eis tudo quanto bastou para levar a término a obra singular!

O país, coisa notável e sem par nos anais da expansão humana, não gastou um ceitil na realização do magno empreendimento, para cuja execução outras nações não trepidaram em mobilizar exércitos e gastar bilhões.

Sabia, vagamente, que uns perseguidos filhos do Nordeste se encaminhavam para aquelas bandas, carentes de todo conforto, desajudados de todos os amparos, a marcarem o doloroso itinerário com a modesta cruz de covas rasas e as ossadas dos insepultos. Não teve um gesto sequer de piedade para os bravos que, nos longínquos pântanos da morte, iam alargando, num contínuo morrer, os domínios do pavilhão auriverde! Deixou correr a esmo a grande obra que deveria ter sido guiada pela assistência moral de governos conscientes; permitiu que morresse no mais impiedoso abandono a flor daquela mocidade forte; cerrou ouvidos aos justíssimos reclamos daquela sociedade nascente que, composta de homens rudes, suspirava por um bafejo de civilização.

E não desanimaram esses incompreendidos super-homens; e não morreram essas nascentes agremiações na sua tenacíssima vontade de viver!

Cresceram malgrado o desamparo, senão hostilidade dos governos, medraram apesar do vento de morte que nunca cessou de soprar sobre elas; e sobranceiras a todos os auxílios, constituíram-se no mundo o supra sumum das energias humanas! Hipérboles, dirão! Justiça é que é, que para definir a grandeza da Amazônia um vocábulo ainda não existe e muito menos para a glorificação de seus conquistadores. Estes, no estreito âmbito de seus destinos simples, e na adorável candura de suas almas desambiciosas, irão passando, inconscientes de sua grandeza e indiferentes à tremenda injustiça que lhes irroga à memória uma nação de deslembrados!

Nulle souffrance ne se perd, toute douleur fructifie” supremo consolo dos deserdados, fórmula soberana que vincula insofismavelmente o mundo moral ao mundo físico e sintetiza o eterno evoluir do sentimento, a sublime frutificação da dor humana!

Não poderiam realmente esses filhos prediletos da dor e do sofrimento augurar para a sua obra imorredoura o destino inglório dos atos infrutíferos.

Erguendo pelo sofrimento e cimentando com o suor de supremas angústias o edifício grandioso da conquista do deserto verde, o acreano, esse símbolo vivo da constância humana, ao calcar o terra onde inumeráveis irmãos dormem o sono derradeiro e onde abrem os olhos pela primeira vez os filhos da sua mágoa e da sua saudade, encastelado nos extremos lindes da pátria, pode, relanceando o olhar pela mais vasta e pujante região do globo, nobremente exclamar como o grego de Byron!

“Standing on the persian grave,

I should not dream myself slave”

(De pé sobre o túmulo dos persas

Eu não podia reputar-me escravo).

 

TÁVORA, Fernandes. Algo de minha vida. 2.ª edição. Fortaleza: Departamento de Imprensa Nacional, 1963. p. 147-155

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Manuel do Nascimento Fernandes Távora (Jaguaribe, 1877 – Fortaleza 1973), médico, farmacêutico, jornalista, professor e político. Deputado Estadual, Constituinte e Federal, além de Interventor e Senador, todos pelo estado do Ceará. “Entre 1904 e 1916 radicou-se na Amazônia, empregando seus serviços de médico no rio Juruá e afluentes. [...] Como jornalista, escreveu em jornais no Amazonas, no Acre e no Pará. No Ceará, em 1921, fundou A Tribuna, que fazia oposição ferrenha ao governo de Artur Bernardes.” Escreveu, entre outros, Considerações sobre o Estado Mental do Padre Cícero (1943); Joaquim Távora: A Alma da Revolução (1944); Algo de Minha Vida (1961) e Idéias e Perfis (1967).

quarta-feira, 5 de maio de 2021

GETÚLIO VARGAS: Discurso do Rio Amazonas

(Discurso pronunciado no “Ideal Club” de Manáos, agradecendo o banquete oferecido pelo interventor [Álvaro Maia] e pelas classes conservadoras do estado, a 9 de outubro de 1940)


SUMÁRIO

O Vale do Amazonas nas visões do espírito jovem — A conquista da terra, o domínio da água, a sujeição da floresta — O rio-mar, para os brasileiros, medida da grandeza do país; os problemas amazônicos, em síntese, os de todo o Brasil — O que, até agora, se tem feito empíricamente deve transformar-se em exploração racional — O grande inimigo do povo amazonense, o espaço imenso despovoado, requer nova cruzada desbravadora — Concentração técnica e disciplinada para tornar útil, socialmente, o esforço humano — Terra do futuro, vale da promissão, na vida do Brasil de amanhã — Plácido de Castro e Rio Branco — Far-se-á o ingresso definitivo do Amazonas no corpo econômico da Nação — A reunião das nações irmãs vizinhas para assentar as bases de convênio em que se ajustem os interesses comuns — Contemplação e realidade — Ao homem moderno está interdito o esforço sem finalidade — Responsabilidade a que não é possível fugir.

 

Senhores:

Ver a Amazônia é um desejo de coração na mocidade de todos os brasileiros.

Com os primeiros conhecimentos da Pátria maior, êste vale maravilhoso aparece ao espírito jovem, simbolizando a grandeza territorial, a feracidade inegualável, os fenômenos peculiares à vida primitiva e à luta pela existência em tôda a sua pitoresca e perigosa extensão. É natural que uma imagem tão forte e dramática da natureza brasileira seduza e povoe as imaginações moças, prolongando-se em duradouras ressonâncias pela existência em fora, através dos estudos dos sábios, das impressões dos viajantes e dos artistas, igualmente presos aos seus múltiplos e indizíveis encantamentos.

As lendas da Amazônia mergulham raízes profundas na alma da raça, e a sua história, feita de heroismo e viril audácia, reflete a majestade trágica dos prélios travados contra o destino. Conquistar a terra, dominar a água, sujeitar a floresta, foram as nossas tarefas. E, nessa luta, que já se estende por séculos, vamos obtendo vitória sobre vitória. A cidade de Manaus não é a menor delas. Outras muitas nos reserva a constância do esforço e a persistente coragem de realizar.

Do mesmo modo que a imagem do rio-mar é para os brasileiros a medida da grandeza do Brasil, os vossos problemas são, em síntese, os de todo o país. Necessitais adensar o povoamento, acrescer o rendimento das culturas, aparelhar os transportes.

Até agora o clima caluniado impediu que de outras regiões com excesso demográfico viessem os contingentes humanos de que carece a Amazônia. Vulgarizou-se a noção, hoje desautorizada, de que as terras equatoriais são impróprias à civilização. Os fatos e as conquistas da técnica provam o contrário e mostram, com o nosso próprio exemplo, como é possível, às margens do grande rio, implantar uma civilização única e peculiar, rica de elementos vitais e apta a crescer e prosperar.

Apenas – é necessário dizê-lo corajosamente – tudo quanto se tem feito, seja agricultura ou indústria extrativa, constitue realização empírica e precisa transformar-se em exploração racional. O que a Natureza oferece é uma dádiva magnífica a exigir o trato e o cultivo da mão do homem.

Da colonização esparsa, ao sabor de interêsses eventuais, consumidora de energias com escasso aproveitamento, devemos passar à concentração e fixação do potencial humano. A coragem empreendedora e a resistência do homem brasileiro já se revelaram admiravelmente, nas “entradas e bandeiras do ouro negro e da castanha”, que consumiram tantas vidas preciosas. Com elementos de tamanha valia, não mais perdidos na floresta, mas concentrados e metodicamente localizados, será possível, por certo, retomar a cruzada desbravadora e vencer, pouco a pouco, o grande inimigo do progresso amazonense, que é o espaço imenso e despovoado.

É tempo de cuidarmos, com sentido permanente, do povoamento amazônico. Nos aspectos atuais o seu quadro ainda é o da dispersão. O nordestino, com o seu instinto de pioneiro, embrenhou-se pela floresta, abrindo trilhas de penetração e talhando a seringueira silvestre para deslocar-se logo, segundo as exigências da própria atividade nômade. E ao seu lado, em contacto apenas superficial com êsse gênero de vida, permaneceram os naturais à margem dos rios, com a sua atividade limitada à caça, à pesca e à lavoura de vazante para consumo doméstico. Já não podem constituir por si sós êsses homens de resistência indobrável e de indomável coragem, como nos tempos heróicos da nossa integração territorial, sob o comando de PLÁCIDO DE CASTRO e a proteção diplomática de RIO BRANCO; os elementos capitais do progresso da terra, numa hora em que o esfôrço humano, para ser socialmente útil, precisa concentrar-se técnica e disciplinadamente. O nomadismo do seringueiro e a instabilidade econômica dos povoadores ribeirinhos devem dar lugar a núcleos de cultura agrária, onde o colono nacional, recebendo gratuitamente a terra, desbravada, saneada e loteada, se fixe e estabeleça a família com saúde e confôrto.

O empolgante movimento de reconstrução nacional consubstanciado no advento do regime de 10 de Novembro não podia esquecer-vos, porque sois a terra do futuro, o vale da promissão na vida do Brasil de amanhã. O vosso ingresso definitivo no corpo econômico da Nação, como fator de prosperidade e de energia criadora, vai ser feito sem demora.

Vim para ver e observar, de perto, as condições de realização do plano de reerguimento da Amazônia. Todo o Brasil tem os olhos voltados para o Norte, com o desejo patriótico de auxiliar o surto do seu desenvolvimento. E não somente os brasileiros; também estrangeiros, técnicos e homens de negócio, virão colaborar nessa obra, aplicando-lhe a sua experiência e os seus capitais, com o objetivo de aumentar o comércio e as indústrias e não, como acontecia antes, visando formar latifúndios e absorver a posse da terra, que legitimamente pertence ao caboclo brrasileiro.

O vosso govêrno, tendo à frente o interventor ALVARO MAIA, homem de lúcida inteligência e devotado amor à terra natal, há de aproveitar a oportunidade para reerguer o Estado e preparar os alicerces da sua prosperidade.

O período conturbado que o mundo atravessa exige de todos os brasileiros grandes sacrifícios. Sei que estais prontos a concorrer com o vosso quinhão de esfôrço, com a vossa admirável audácia de desbravadores, para a obra de reconstrução iniciada. Não vos faltará o apoio do Govêrno Central para qualquer empreendimento que beneficie a coletividade.

Nada nos deterá nesta arrancada que é, no século XX, a mais alta tarefa do homem civilizado: conquistar e dominar os vales das grandes torrentes equatoriais, transformando a sua fôrça cega e a sua fertilidade extraordinária em energia disciplinada. O Amazonas, sob o impulso fecundo da nossa vontade e do nosso trabalho, deixará de ser, afinal, um simples capítulo da história da terra e, equiparado aos outros grandes rios, tornar-se-á um capítulo da história da civilização.

As águas do Amazonas são continentais. Antes de chegarem ao oceano, arrastam no seu leito degelos dos Andes, águas quentes da planície central e correntes encachoeiradas das serranias do Norte. É, portanto, um rio tipicamente americano, pela extensão da sua bacia hidrográfica e pela origem das suas nascentes e caudatários, provindos de várias nações vizinhas. E, assim, obedecendo ao seu próprio signo de confraternização, aqui poderemos reunir essas nações irmãs para deliberar e assentar as bases de um convênio em que se ajustem os interêsses comuns e se mostre, mais uma vez como dignificante exemplo, o espírito de solidariedade que preside as relações dos povos americanos, sempre prontos à cooperação e ao entendimento pacífico.

Senhores:

O acolhimento afetuoso que tenho encontrado entre vós não só me toca o  coração, porque já vos sabia leais e  hospitaleiros, como fortalece, ainda mais, o meu sentimento de brasilidade.

Passou a época em que substituíamos pelo fácil deslumbramento, repleto de imagens ricas e metáforas preciosas, o estudo objetivo da realidade. Ao homem moderno, está interdita a contemplação, o esfôrço sem finalidade. E a nós, povo jovem, impõe-se a enorme responsabilidade de civilizar e povoar milhões de quilômetros quadrados. Aqui, na extremidade setentrional do território pátrio, sentindo essa riqueza potencial imensa, que atrai cobiças e desperta apetites de absorvição, cresce a impressão dessa responsabilidade a que não é possível fugir nem iludir.

Sois brasileiros e aos brasileiros cumpre ter conciência dos seus deveres nesta hora que vai definir os nossos destinos de Nação. E, por isso, concito-vos a ter fé e a trabalhar confiantes e resolutos pelo engrandecimento da Pátria.

 

VARGAS, Getúlio. Discurso do rio Amazonas. Revista Brasileira de Geografia. Abril-Junho de 1942. Vol. 4, Nº 2. p. 259-262

*Foto: Getúlio Vargas nas escadas do Palácio Rio Negro em Manaus no dia 09 de outubro de 1940 (Foto: Acervo CPDOC/FGV) in https://amazoniareal.com.br/amazonia-80-anos-antes/

terça-feira, 27 de abril de 2021

ALBERTO DINIZ: Vida que passa (memórias)

Alberto Diniz (1868-1956)

 

Já agora, tornara-se a vida para mim insuportável em Juiz de Fora e meu único desejo era o de dali me afastar, partindo para bem longe, onde, não sendo conhecido, não fosse a minha dor oferecida em espetáculo. Sabia que o presidente Afonso Pena ia por em execução a reforma judiciária do Território do Acre e escrevi a meu primo Álvaro, pedindo-lhe que expusesse a seu pai a minha situação e dele solicitasse o meu aproveitamento em uma das comarcas a serem ali criadas. A resposta não se fez esperar e veio mais favorável do que eu poderia esperar. Seu pai, que bem conhecia a minha idoneidade intelectual e moral, me nomearia, não juiz de direito, mas desembargador do Tribunal de Apelação. Preparei-me para a viagem, pondo a minha vida em ordem e confiando minha família aos cuidados de meu irmão, com quem sabia poder incondicionalmente contar. E parti para o desconhecido.

Comigo e com idêntico destino seguiram alguns outros colegas, Manoel Adriano de Araújo Jorge, como eu desembargador, João Rodrigues do Lago, juiz de direito da comarca de Rio Branco, Clovis de Barros, procurador seccional e Carlos Horta, adjunto de promotor de um dos termos da comarca de Juruá. Quinze dias depois chegava a Manaus, onde passei para o gaiola que me levaria a Sena Madureira, sede do Tribunal. Ia o navio superlotado, mal encontrando-se um lugar onde pudesse estar à vontade. Em baixo, na classe segunda, viajavam, de mistura, homens e alimárias, numa horrível promiscuidade. Monótona viagem pelo sinuoso rio Purus, em que a paisagem era sempre e invariavelmente a mesma, a praia de um lado, do outro o barranco, num horizonte fechado pela densidade das matas intermináveis. Descia às vezes à classe inferior, onde me sentia nauseando com aquele espetáculo de sordidez e miséria. Entretinha-me ali a ouvir alguns rapazes, que, supondo o Acre um novo Eldorado onde corre fácil a vida e o dinheiro abunda, para lá se dirigiam com o coração a transbordar de esperanças, na certeza de poderem, decorrido curto espaço de tempo, regressar com vastos capitais aos lares familiares. Coitados! Não faltava a bordo quem, com diabólico prazer e sem a mínima piedade, lhes fosse arrancando da alma as alentadoras esperanças. Velhos presidiários do inferno verde lhes diziam de suas passadas ilusões, bem depressa extintas em amargas decepções. Contavam-lhes que também partiram de suas terras embalados por esses mesmos áureos sonhos de fortuna e que, longos anos decorridos, apenas enfermidades tinham adquirido e dissabores experimentado. E quantos outros, vindos com eles na mesma caravana, tombaram logo ao chegar e nem ao menos o triste consolo tiveram de ver de novo os parentes e de lhes narrar as misérias de toda a ordem, físicas e morais, que longe deles sofreram. À medida que nos aproximávamos do termo da viagem os pobres rapazes, sob a nociva influência de tão lúgubres narrativas, iam perdendo o entusiasmo dos primeiros dias e se deixando vencer pelo desânimo. Ouvi um deles francamente se lastimar de irremediável loucura que cometera sem deixar sua terra, onde lhe era o trabalho escassamente remunerado, mas lhe sobravam carinhos e afeições.

Chegamos, finalmente, após longos e monótonos quarenta e cinco dias de viagem, a partir do embarque no Rio. No alto do barranco encontravam-se já à nossa espera o prefeito do departamento, Cândido Mariano, o desembargador Farnése, vindo de Juruá, de que fora na anterior organização judiciária juiz distrital, e o engenheiro Bueno de Andrada, que acumulava as funções de prefeito de Juruá e de encarregado das obras que, de ordem do governo, se estavam realizando no Território, no propósito de se facilitarem as comunicações entre os seus diversos departamentos, obras em que muito se despendeu sem apreciável resultado.

Sena Madureira, recentemente fundada pelo general Siqueira de Menezes em terreno alto às margens do Iaco, nas proximidades de sua confluência com o Purus, não passava de uma pequena povoação encravada na mata virgem. Suas casas, em ruas aliás bem alinhadas, eram de modesta aparência, construídas de madeira e em sua quase totalidade cobertas de palha de paxeúba. Higiene era cousa ali desconhecida. A água potável era extraída de cacimbas abertas ao lado de fossas, sujeita portanto a fácil contaminação. Não passava a cadeia pública de miserável cubículo, coberto de zinco, onde os presos morreriam asfixiados, se ali passassem o dia, mas a ela só se recolhiam à noite. Durante o dia andavam soltos e sem vigilância, servindo as autoridades no fornecimento de lenha e de água para o banho. Criminosos de morte eram vistos a perambular pela cidade sem estranheza por parte da população. Não me consta ter havido qualquer evasão. O comércio estava, com raríssimas exceções, entregue aos sírios, criaturas ordeiras e que pouco incomodavam as autoridades. Distração nenhuma, e, se algum de nós queria fugir à monotonia, tinha que tomar uma canoa e ir ao vizinho seringal do Caeté, onde era pelas famílias ali residentes gentilmente acolhido. Vivia-se em quase completo isolamento, não havendo telégrafo e só por via fluvial, em demorada e custosa viagem, se podendo entrar em comunicação com o mundo exterior. Era, pois, um dia de festa para a população quando um navio apitava na curva, anunciando a sua chegada. Corrida geral para o barranco, no bem explicável interesse de saber-se o que pelo mundo ia ocorrendo. Se malas de correspondências trazia o gaiola, afluíam todos ao correio, na ânsia de receberem as cartas que lhes trariam notícias dos entes queridos além deixados, notícias atrasadíssimas, mas em todo o caso notícias. Alguns, nada tendo recebido, afastavam-se cabisbaixos, com as saudades a roerem-lhes os corações. Liam-se os jornais a começar pelos de mais recente data, às pressas primeiramente e depois na íntegra, notícia por notícia. E, nesse dia, a tristeza era maior e maior a desolação, o pensamento voltado para regiões distantes, na imensa saudade dos que por lá ficaram.

Pela recente reorganização administrativa e judiciária, ficara o Território constituído de três departamentos, entre si independentes e diretamente subordinados ao Ministro da Justiça, de um Tribunal de Apelação com jurisdição em todo ele e de três comarcas subdivididas em termos. Ocupava o cargo de prefeito do departamento do Alto Purus, cuja sede era Sena Madureira, o dr. Cândido Mariano, engenheiro militar e ex-discípulo de Benjamin Constant, a quem com entusiasmo acompanhara na propaganda republicana. No combate aos cangaceiros de Antônio Conselheiro tivera, como comandante da polícia amazonense, atuação muito destacada. Ótima criatura, inteligente e de boa cultura. Não soubera, entretanto, resistir à influência algo boêmia do ambiente amazonense. A população do departamento, como a de todo o Território, era em sua quase totalidade composta de brasileiros nordestinos, acrescida nos últimos tempos de outros vindos das mais diversas regiões do país e ainda de estrangeiros de várias nacionalidades, da Síria principalmente. Alcançara a borracha elevados preços e de toda a parte vinha gente atraída pelo fascínio do ouro negro. Morriam muitos, vítimas das endemias ali reinantes, regressavam outros alquebrados por moléstias e de toda a sorte de provações. Mas a corrente imigratória crescia sempre, chegando os gaiolas atestados de gente e de mercadorias e regressando superlotados de borracha. As casas aviadoras de Belém e Manaus, contando com fabulosos lucros, facilitavam fornecimentos aos proprietários de seringais. Estava o Acre em seu período áureo e o dinheiro ali corria a rodo, gasto, aliás, com a mesma facilidade com que era adquirido. O foro era movimentadíssimo, nele se pleiteavam causas de alto valor resultantes das fáceis transações de Belém e Manaus. Não faltaria, pois, trabalho ao Tribunal. Tal o panorama de Sena Madureira, quando ali aportamos em maio de 1908.

 

DINIZ, Alberto. Vida que passa (memórias). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. p. 41-45