quinta-feira, 21 de novembro de 2013

COMO A NOITE APARECEU (cosmogonia Tupi)

Couto de Magalhães
in O Selvagem (1876)


No princípio não havia noite – dia somente havia em todo tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animais; todas as coisas falavam.

A filha da Cobra Grande – contam – casara-se com um moço.

Esse moço tinha três fâmulos fiéis. Um dia, ele chamou os três fâmulos e disse-lhes: – Ide passear, porque minha mulher não quer dormir comigo.

Os fâmulos foram-se, e então ele chamou sua mulher para dormir com ele. A filha da Cobra Grande respondeu-lhe:

– Ainda não é noite.

O moço disse-lhe:

– Não há noite; somente há dia.

A moça falou:

– Meu pai tem noite. Se queres dormir comigo, manda buscá-la lá, pelo grande rio.

O moço chamou os três fâmulos; a moça mandou-os à casa de seu pai, para trazerem um caroço de tucumã.

Os fâmulos foram, chegaram à casa da Cobra Grande, esta lhes entregou um caroço de tucumã muito bem fechado e disse-lhes:

– Aqui está; levai-o. Eia! Não o abrais, senão todas as coisas se perderão.

Os fâmulos foram-se, e estavam ouvindo o barulho dentro do coco de tucumã, assim: tem, ten, ten... xi... Era o barulho dos grilhos e dos sapinhos que cantam de noite.

Quando já estavam longe, um dos fâmulos disse a seus companheiros: – Vamos ver que barulho será este?

O piloto disse: – Não; do contrário nos perderemos. Vamos embora, eia, ramai!

Eles foram-se e continuaram a ouvir aquele barulho dentro do coco de tucumã, e não sabia que barulho era.

Quando já estavam muito longe, ajuntaram-se no meio da canoa, acenderam o fogo, derreteram o breu que fechava o coco de tucumã e abriram-no. De repente tudo escureceu.

O piloto então disse: – Nós estamos perdidos; e a moça, em sua casa, já sabe que nós abrimos o coco de tucumã!

Eles seguiram viagem.

A moça, em sua casa, disse então a seu marido:

– Eles soltaram a noite; vamos esperar a manhã.

Então todas as coisas que estavam espalhadas pelo bosque se transformaram em animais e pássaros.

As coisas que estavam espalhadas pelo rio se transformaram em patos e em peixes. Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e sua canoa se transformaram em pato; de sua cabeça nasceram a cabeça e o bico do pato; da canoa, o corpo do pato; dos remos, as pernas do pato.

A filha da Cobra Grande, quando viu a estrela d’alva, disse a seu marido:

– A madrugada vem rompendo. Vou dividir o dia da noite.

Então ela enrolou um fio, e disse-lhe: – Tu serás cujubim. Assim ela fez o cujubim; pintou a cabeça do cujubim de branco, com tabatinga; pintou-lhe as pernas de vermelho com urucu, e, então, disse-lhe: – Cantarás para todo sempre quando a manhã vier raiando.

Ela enrolou o fio, sacudiu cinza em riba dele, e disse: tu serás inambu, para cantar nos diversos tempos da noite e de madrugada.

De então para cá todos os pássaros cantaram em seus tempos, e de madrugada, para alegrar o princípio do dia.

Quando os três fâmulos chegaram, o moço disse-lhes: – Não fostes fiéis – abristes o caroço de tucumã, soltastes a noite e todas as coisas se perderam, e vós também, que vos metamorfoseastes em macacos, andareis para todo sempre pelos galhos dos paus.

(A boca preta e a risca amarela que eles têm no braço dizem que são ainda o sinal do breu que fechava o caroço de tucumã e que escorreu sobre eles quando o derreteram).


MAGALHÃES, Couto de. O selvagem. São Paulo: Livraria Magalhães, 1913. p.215-217

NOTA: a primeira edição de O SELVAGEM, de autoria do general Couto de Magalhães, é de 1876. Tem-se que se compreender que é um livro feito dentro da mentalidade de sua época, a de que era preciso amansar e civilizar os índios. O livro é loquaz para assinalar como era a posição do governo oficial em relação aos povos indígenas, uma visão utilitarista, quando não, exterminadora. No entanto, o melhor do livro são as inúmeras lendas que o autor reuniu a partir de seus contatos com os diversos povos indígenas do Brasil, que se encontra na VIII parte da obra. Entre outras, a que publicamos acima. Sobre “Como a noite apareceu”, o autor tece o seguinte comentário: “Esta lenda é provavelmente um fragmento do Gênesis dos antigos selvagens sul-americanos. (...) Aqui, como nos Vedas, como no Gênesis, a questão é no fundo resolvida pela mesma forma, isto é: no princípio todos eram felizes; uma desobediência, num episódio de amor, uma fruta proibida, trouxe a degradação. A lenda é, em resumo, a seguinte: no princípio, não havia distinção entre animais, o homem e as plantas: tudo falava. Também não havia trevas. Tendo a filha da Cobra Grande se casado, não quis coabitar com o seu marido enquanto não houvesse noite sobre o mundo, assim como havia água no fundo das águas. O marido mandou buscar a noite, que lhe foi remetida encerrada dentro de um caroço de tucumã, bem fechado, com proibição expressa aos condutores de o abrirem, pena de perderem a si e a seus descendentes e a todas as coisas. A princípio, resistem à tentação; mas depois a curiosidade de saber o que havia dentro da fruta os fez violar a proibição, e assim se perderam.”
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