quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A LENDA DA VITÓRIA-RÉGIA

Alfredo Ladislau (1882-1934)
excerto de Terra Imatura
Foto de Rui Pará

Ainda no começo do mundo, no seio da primeira tribo, contavam os velhos adivinhos, senhores dos segredos da natureza, que, meado o ano em diante, no período masculino da lua, quando esta se escondia no horizonte, ilusionando descer a encosta posterior das serras, coabitava com as venturosas virgens da sua predileção.

O encanto desses conúbios, mandavam os velhos que o imaginassem, porque a linguagem humana não o podia descrever.

Ora aconteceu que a moça Nayá, filha do venerável chefe, princesa da tribo, – de epiderme clara e cabeleira mais ruiva que uma estriga de milho verde, se impressionara com a sugestiva fantasia daqueles deíficos amores. E por isso, noites avançadas, quando o sono fechava a vida da taba, e a erótica divindade simulava tocar nos longínquos cabeços, a tresloucada cunhã galgava as montanhas, sôfrega de mergulhar a alma na envolvência daqueles luminosos afagos, tão exalçados pelos convincentes anciãos.

Afirmavam eles que a deusa hermafrodita, com a radiosa insuflação dos seus beijos, transmudava em luz o corpo das virgens predestinadas, apagando-lhes a tinta vermelha do sangue, vaporizando-lhes a carne rosada.

E fugia depois, conduzindo as afortunadas amantes, em abraços voluptuosos, sugando-lhes a vida, para deixá-las, assim desmaterializadas, nos leitos nupciais das nuvens elevadas.

E por essa forma, iam nascendo as estrelas do céu...

Nayá ansiava pela maravilhosa mudança do seu grosseiro viver terreno naquela divina e sempiterna existência eterizada.

Mas a realidade desengana-a constantemente: ao vencer cada grimpa, já o perseguido e deluso noivo se debruçava noutra colina, mais fascinador e cada vez mais fugiente à sua doentia paixão.

Esse mal, lânguido e sutil, definhava a suspirosa e sofredora moça. Não houve filtros, destilados por mãos miraculosas de sábios pajés, nem sobrenaturais sortilégios de elevada magia, capazes de curá-la daqueles mórbidos anseios, aliás tolerados, pela superstição de que o astro filógeno acederia aos loucos arroubos daquela demência amorosa.

E assim vivia essa jovem enferma, a montivagar nas noites enluaradas, dilacerando-se pelas escarpas, uma Psicose viva, corporificada, aos boléus pelos declives, em gargalhadas, aos soluços, cantando delírios.
Imagem in Portal Obidense

Certa vez, quando a sombra da insânia mais lhe anuviava o toldado entendimento, viu no espelho de um lago, feliz e tranquilo, a imagem branca do pálido bem amada, faiscando luz.

Atirou-se ao pélago iluminado, bracejando agônicos paroxismos.

Semanas inteiras, a gente da tribo bateu, inutilmente, os negros arcanos das selvas, circunjacentes à grande taba.

Os deuses selvagens, entretanto, eram bons também e agradecidos. A lua, que gerara as águas, os peixes e as plantas aquáticas, quis recompensar o sacrifício daquela vida virgem. Recusando-se colocá-la no firmamento, fê-la “estrela das águas”, – transformando o lírio daquela alma nessa soberana ninfeia, – poema triunfal de cor e perfume, que cantará, eternamente, nas classificações da nossa flora.

Assim o realizará.

E quando fez nascer, do branco e macerado corpo da infeliz cunhã. A misteriosa planta, desabrochou-lhe a imensa candura do espírito na grande flor perfumada, abrolhando em espinhos toda a mágoa que tiranizara a dementada donzela. Depois, dilatando tão justo prêmio, estirou-lhe, quando pôde, a palma das folhas, para maior receptáculo dos afagos de sua luz, amorosamente reconhecida.

À noite, Nayá desnuda-se, desatando a roupagem esvoaçante das longas pétalas, para receber, no tálamo das águas mansas, os beijos opalizados do luar.

Esta é a lenda da Vitória-régia de Lindley.


LADISLAU, Alfredo. Terra Immatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933. p.210-211
Postar um comentário