quarta-feira, 27 de novembro de 2013

SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS

Matias Aires (1705-1763)


Sendo o termo da vida limitado, não tem limite a nossa vaidade; porque dura mais do que nós mesmos, e se introduz nos aparatos últimos da morte. Que maior prova do que a fábrica de um elevado mausoléu? No silêncio de uma urna depositam os homens as suas memórias, para a com a fé dos mármores, fazerem seus nomes imortais: querem que a suntuosidade do túmulo sirva de inspirar veneração, como se fossem relíquias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continuação do respeito. Que frívolo cuidado! Esse triste resto daquilo que foi homem já parece um ídolo colocado em breve mas soberbo domicílio, que a vaidade edificou para a habitação de uma cinza fria, e desta declara a inscrição o nome e a grandeza. A vaidade até se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura. 


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.23

> Matias Aires Ramos da Silva de Eça nasceu em São Paulo e faleceu em Lisboa. É o mais importante filósofo brasileiro do século XVIII, e um dos únicos. De grande erudição, estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, depois em Madri, Baiona e na Sorbonne, em Paris. É considerado o primeiro moralista de nossa história literária.
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