quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A FORÇA DE UMA CATRAIA

Isaac Melo

“Amo as palavras representantes das minhas saudades. Elas estão em mim sem cerimônias. Imorais. Amorais. Depravadamente intensas. É com elas que atravesso o mundo de labirintos mágicos e fantásticos da imaginação e me lanço inteira nos textos que escrevo”  Olivia Maria Maia


O vírus do amor ao livro é incurável. É o que costumava afirmar José Mindlin, o homem que fez de sua fortuna um monumento eterno à sabedoria. Cedo despertei para o universo dos livros, da literatura. Ainda menino de seringal, o meu primeiro e fascinante livro foi a floresta com seus encantos e desencantos. As águas de repiquetes eram páginas pujantes como as de Guimarães Rosa. O sol que, tardinha namorava as copas da samaúma e depois contente ia se deitar detrás da terra firme, era um poema de Drummond. A noite, com o mãe-da-lua cantando e que me fazia arrepiar, era um texto de Clarice Lispector. O cumaru, vigoroso e altaneiro, era a prosa de um Machado de Assis. O livro da selva e o livro de papel: um único fascínio. Mas por que esse meu culto ao livro? Porque o livro tem cheiro de gente, e nos faz ir além da gente. O livro, que é fruto de uma subjetividade, só se completa na intersubjetividade. Com as lentes da literatura eu vejo com mais nitidez a realidade do mundo e a minha própria realidade. Vendo-a, posso compreendê-la; compreendendo-a, posso vivê-la melhor. Por isso sou do mesmo parecer de Tzvetan Todorov: “Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente”.

Deixemos, no entanto, de proêmios. Em vez de crítico literário, tem-se aqui um crítico leitorário, cuja função assemelha-se a da peneira. A peneira filtra as impurezas. Deixa apenas o que é essencial. É a nossa pretensão. A viagem é a bordo da escrita de Olivia Maria Maia em Se a catraia não virar (Brasília, 2013). Este livro é uma catraia feita de sonhos e memórias. Tem remo talhado com elegantes palavras que parecem garças faceiras em final de tarde. E navega num rio largo feito a própria imaginação, o próprio mar. Não faz muito que me deparei com a escrita de Olivia Maia. Mas o tempo não conta quando a beleza desponta. Olivia escreve numa linguagem que todo coração entende, o da beleza. E a beleza, na minha reinterpretação de Frost, está no modo de se dizer uma coisa. Ela sabe dizer. E diz do seu jeito. Suas palavras saem com quentura, como quem escreve com a vida e o coração na mão. Sente-se o pulsar. O latejar da vida. E os seus textos são ela não poder estourar de viver (aqui reinvento Álvaro de Campos).

Olivia Maia principiou nos rios literários com Em rio que menino nada raia não ferra (Brasília, 2010). Geralmente um autor não alcança excelência na primeira obra. Pois, nas palavras de Vladimir Maiakovski, “um principiante, seja qual for seu talento, não conseguirá escrever logo de início algo que permaneça; mas por outro lado, o primeiro trabalho é sempre mais “vivo”, porque inclui todas as reservas de uma vida”. A meu ver, Olivia Maia, em sua primeira obra, já alcança grau de excelência. É tanto que esse seu segundo trabalho não opera uma cisão significativa quanto à obra anterior, diria, até, que se complementa, pois embora o viver seja múltiplo a vida é única. Vida que pode ser tanto real quanto fictícia. No papel, tornam-se literárias.

Ancoremos por ora nas terras acreanas. O berço de Olivia Maia. O mesmo que inspirou seu tio Mário Maia, médico, político e poeta, a escrever Rios e Barrancos do Acre (1968) e Sombras siderais e outras sombras (1990). A autora retornou àquele Acre das catraias. O Acre sem ponte, onde só a confiança era o que ligava as pessoas umas às outras. É o Acre da infância que ela recorda. E como é bonito o verbo recordar. Re-cord-ar, do latim, cor, cordis, o coração. Recordar é voltar-se para o que se centra e, assim, centrado, conserva e se conserva no coração. É voltar a ver a partir do coração. E Thiago de Mello sabiamente poetava que “a palavra da boca é sempre inútil se o sopro não lhe vem do coração”. Mas, afirmo de antemão, Se a catraia não virar não é uma obra regionalista, como alguns podem supor a partir do título. A verdade é que não simpatizo com o termo regionalista para literatura. Dá impressão que o sul e sudeste fazem literatura, e os demais, literatura regionalista. De fato, o livro de Olivia embebeda-se de alguns elementos próprios da cultura acreana. Mas as coisas de que trata são universais.

A memória, em Olivia Maia, não é tão só o ato de retornar ou recompor os fatos históricos. Não se trata de uma dispensa para a qual se volta no intuito de suprir ou preencher as necessidades do presente. Já entre os gregos havia Mnemosyne, a deusa da memória e mãe das Musas. Mnemosyne preservava do esquecimento as vivências do passado. Lethes, na cosmogonia grega, era o rio do esquecimento, ao cruzar a morada dos mortos as almas banhavam-se nele para esquecer a sua vida anterior. Portanto, não esquecer, para os gregos, relacionava-se à aspiração de infinitude. A memória é, assim, o museu onde encontra-se aquilo que é essencial. Nisso é que o efêmero tresmuda-se em perenidade. Por isso a autora afirma: “minhas memórias dizem muito sobre mim. Me revelo. Me perco e me acho. Estou em cada texto, em cada palavra, em cada ideia. Sou a somatória de minhas memórias”. Ao tornar presente o que está ausente, o passado se presentifica, agora não mais sob as amarras do tempo. Na atemporalidade da memória temos o nosso naco de infinitude.

Assim podemos identificar três fontes que alimentam as águas pelas quais navega a catraia de Olivia Maia: as reminiscências da infância, as histórias dos povos amazônicos dos rios e barrancos acreanos e as experiências de mulher vivida e amadurecida nas terras do planalto central e d’além mar. Foi aprendendo a gostar de ouvir que aprendeu a gostar de contar. Contando, encanta-se. Pois sem encantamento, sem pathos, sem paixão, sem tesão não há obra de arte, não há beleza. Daí a sua afirmação: “E me encanto no canto de um papel em branco, a ser preenchido por pedaços de mim; curvas de rio; rios de lembranças”. Aí pouco importa se o que ela conta é real, “ou se as recordações estão temperadas com a imaginação”. A autora ao dar-se a si mesma, revela-se a seus leitores. E ficamos como aqueles meninos bem espremidinhos para ouvir as suas histórias como eles ficavam para ouvir as histórias da seringueira Da Rosa. Ou corremos pela Avenida Brasil, em Rio Branco, em brincadeiras como a de boca de forno, onde o simples jardim do vizinho, aos olhos da menina, assume a magnificência do Jardim do Éden, a exprimir beleza e temor.

Nesta catraia há janela, a janela da casa de seu Armando. Janela que representava vida, esperança, abertura para o mundo, de onde a vida, como num poema de Drummond, “passava lenta, rua acima, rua abaixo”. Mas um dia a janela se fecha. É Mercedes que se foi, e junto foi o coração de Armando. A autora então impregna suas palavras com uma descrição de alta força e expressão poética: “A janela agora está morta. Não tem luz. Não tem brisa, nem perfume. (...) A janela perdeu a alma”. Algo semelhante ocorre quando a autora transforma a artista plástica Nice em mulher flor. A própria narrativa nos leva a caminhar com as duas pelo sítio de Nice, entre árvores, perfumes e flores. Se Bilac entendia as estrelas, a Nice de Olivia entendia a alma das plantas. Na alquimia do verbo de Olivia o resultado é sempre poético, de quem, com seu olhar, transforma a matéria bruta da vida em motivo de beleza. É ela quem afirma que olhamos e captamos os eventos do mundo com o que temos e somos. Nosso olhar não é passivo diante daquilo que contemplamos. Ele toca, e é tocado. Muda, e é modificado. Ficamos naquilo que olhamos. E o que olhamos permanece em nós. A prosa de Olivia são olhares múltiplos sobre a vida vivida, lembrada, sonhada, amada.

A catraia de Olivia não é um distanciar do mundo, senão um caminhar com o mundo. Não é uma observação passiva da realidade. O próprio ato de escrever já é em si ação, transformação, um agir sobre o mundo. É assim que a autora lança o seu olhar sobre os desafios que envolvem a sociedade a qual estamos imersos. Milton Santos já nos alertava que vivíamos a era da informação, mas não da comunicação. Por maior que seja o número de informações que temos hoje, a comunicação interpessoal se apresenta cada vez mais fragmentada e virtual. Por isso constata a autora: “Sim, ninguém existe. O que existe são muitas vozes nos telefones”. As novas tecnologias da informação e da comunicação acabaram tendo um efeito inverso, em vez de aproximar as pessoas acabou por distanciá-las ainda mais. Embora tenhamos a sensação de proximidade, a proximidade virtual, estamos cada vez mais isolados: “A sensação que me deu é que ninguém mais quer olhar para o outro. Os outros não contam. Não existem”. Até mesmo as celebrações e festas em família deterioram-se. As casas, que eram lugares centrais, de encontro das famílias e amigos, cedem lugar aos clubes e espaços sociais próprios: “E por fim, onde andam as reuniões com mesas fartas de pão, vinho e comunhão, família, amigos?”. A simplicidade da vida é preenchida por espetáculos e encenações vazias. Endividamo-nos para comprar presentes caros, como se no preço estivesse a garantia do amor, do afeto. E nos esquecemos daquele avô que, na noite de natal, deu a seus filhos uma pamonha. Não era, todavia, só uma pamonha. Era o sentido da própria união que fortalecia e mantinha aquela família. Tudo isso se revela na prosa de Olivia Maia.

Um verso de Alberto Caeiro diz: “Porque eu sou do tamanho do que vejo”. Quando se fala de Brasília, por exemplo, Olivia Maia vai além. Onde muitos veem apenas o centro do poder, carcomido e mal-cheiroso, ela vê música, poesia, flores. A sua percepção de mundo opõe-se aos estereótipos, aos pré-conceitos, às verdades pré-fabricadas. Ela é aquela que se ajoelha “agradecida àqueles que não deixam nossa alma se tornar árida e ressequida, como as que só conseguem ver o concreto, seja na arquitetura, seja no ser humano”. É esse olhar mágico que faz com que ela, deitada na rede da varanda, faça surgir no gramado solitário meninos em algazarras, a correr, a gritar, a cantar. A mesma magia que envolve as lembranças do irmão, que “soltou os pés do chão e elevou as asas ao Céu”. Ou da Clara, que entendia de anjos, “mas de saudade, apenas silêncio”.

Quero, porém, me deter em dois textos específicos de Se a catraia não virar, onde a autora, a meu ver, alcança a excelência de sua prosa, tanto pela força de expressão quanto pelas imagens que evoca. Trata-se de Se a catraia não virar e Portas abertas para a morte. No primeiro, a autora nos leva ao Acre das catraias. A cidade de Rio Branco, capital do Acre, desenvolveu-se às margens do Rio Acre. De um lado ficava o primeiro distrito, à margem esquerda, onde localizava-se o centro do poder governamental; mas era no segundo que ficava a parte comercial e mais badalada da cidade, à margem direita. Até 1971, quando inaugurou-se a primeira ponte sobre o rio, o único meio de ir de uma margem à outra era por meio das catraias, pequenas embarcações, a remo, conduzida por um catraieiro. Tendo presente este contexto, podemos embarcar na catraia junto com a Menina e sua Mãe num sábado qualquer de janeiro de 1960.
CATRAIAS NO RIO ACRE - Catraias no antigo porto do Jabuti, no 2º Distrito de Rio Branco.
Foto in Tarauacá Notícias.

A história dá-se em torno da Menina que acompanha sua mãe às compras no outro lado do rio. Tem-se de primeiro momento a menina que desperta envolta num cheiro forte de perfume. O cheiro lhe remete à mãe, portanto: “mãe cheirosa, passeios na certa”. Daí surge a estupefação da filha ante a mãe que arruma-se. A mãe, aos olhos da filha, reveste-se de uma beleza encantadora, uma diva glamurosa. Então, como numa sequência cinematográfica, segue a mãe com a filha para o segundo distrito. Aliás, um dia hei de ver, quem sabe, esse texto transposto às telas, sem muitas palavras, cada imagem fala por si: a mãe a arrumar-se, a estupefação da filha, o rio, a catraia, a travessia, a apreensão, o medo, a sequência das lojas... Enfim, tudo nos lembra uma sequência de cinema, num estilo profundo talvez de um Ingmar Bergman.

Entre a Mãe e a Menina percebe-se, no entanto, dois mundos diferentes. A Mãe tem o olhar consciente sobre a realidade, enquanto a Menina olha o mundo com os olhos da magia: “sim, para a Menina a travessia do rio era uma aventura”. Onde a mãe vê chuva, perigo, a menina vislumbra um mundo mágico, onde só se vê bem com os olhos da fantasia. Frente à iminência da chuva, portanto, da cheia do rio, a mãe apressa o passo, mas “para os olhos da Menina nada era tão veloz a ponto de não lhe deixar perceber o mundo ao seu redor”. A menina de mãos dadas com a mãe a acompanha enquanto um mundo encantador se vai lhe desvelando. É assim que a menina quer que se apague a luz do sol para ver o colorido da fonte luminosa: “de seus olhos saíam sorrisos coloridos e ondulados como o bailado das águas que ali jorravam nas noites de domingo”. É assim com as lojas, a livraria, a barbearia, a sorveteria... um percurso mágico até chegar à catraia.

Na catraia, apesar do medo, a filha sente-se segura sentido a firmeza da mão da mãe. Se a mãe segue temerosa, a travessia para a Menina é momento de sonhar. À pergunta da filha para onde vai toda aquela água, a mãe responde que vai para o mar. Mas a menina não sabe o que é o mar. Então, mirando as águas do rio e depois a saia azul da mãe, a menina dá forma a seu próprio mar. O mar azul de que sua mãe falara agora é real. E aquela catraia é capaz de conduzi-la até ele, se ela não virar. Ao receber o livro de Olivia Maia fiquei meio ressabiado em relação à capa. A fotografia de uma catraia cruzando o rio Acre viria a calhar melhor, pensava. No entanto, no decorrer da leitura da obra, percebi que a catraia da Olivia era muito diferente da catraia da Menina. Uma levava para a outra margem do rio Acre, a outra, para o mar.

Passemos então à catraia de Portas abertas para a morte, o nosso segundo texto escolhido. A narrativa é breve: Ana assassinada por Roberto, depois que prometera seu último perdão. É poema-conto. Um conto-poema. Um texto, a meu ver, digno de figurar em qualquer importante antologia. É ímpar na força de expressão, no ritmo, nas imagens que evoca. Quando li o texto a primeira vez sentir um arrepio. Digo, arrepio mesmo. O meu corpo sempre reage frente a algo que me impacta. É como se ele dissesse: isso não sinto todo dia, não é comum. As palavras encarnavam-se, saíam do papel, e percorriam o meu corpo. No conto, a meu ver, o que está em jogo é a paradoxal condição humana. Digo paradoxal, e não contraditória, porque o ser humano é isto, mas é aquilo também: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”, constata um verso de Augusto dos Anjos.

A catraia de Olivia é feita com a madeira da prosa, mas o feitio é todo poético. Em Portas abertas para a morte, em específico, isso fica evidente. Temos aí o que o poeta Ezra Pound definia como literatura: “linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”. Aí as palavras revestem-se de uma força poética e dramática de um modo impressionante. Nada está fora do tom. As palavras têm a força de um tiro, mas nos envolvem de modo suave e leve como o perfume das rosas. No meu parco entender, temos assim o ponto alto dessa catraia de Olivia, uma Olivia para além até mesmo de Em rio que menino nada raia não ferra.

A catraia de Olivia, porém, é muito vasta. Vai... Vai para o mar. Cada um que nela embarcar descobrirá que o melhor da travessia é o atravessar, onde o remo da imaginação é o que faz a catraia mover-se. Ela bem diz: para os que plantam palavras há de florescer emoções. Com ela também sonhamos com aquele lugar onde possa reinar “a poesia, a justiça, a beleza, a esperança...”, porque cada um de nós pode fazer surgir uma praça Saramago em seu coração ou pegar sua mochila e “sair pelo mundo em busca de sossego”, ou mesmo ler poesia pela manhã, afinal, não há idade para o amor, pois lobo ou vovozinha, a vida é mesmo para quem sabe amar. Se a colcha da vida vai se tecendo com os retalhos dos afetos e perdas, o fio que os atam há de ser as lembranças e a saudade. Em Se a catraia não virar Olivia Maia agigantou-se. Suas palavras criaram asas. Alçaram voos mais altos. E do alto, com a visão alargada, alargou-se a si mesma. Então a sua beleza pode enfim ser nos dada. Só quem viveu e amou sabe a medida das palavras.


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