terça-feira, 29 de dezembro de 2009

SINTONIA


Nas cordas dos navios estacionados em pleno oceano pacífico, no litoral peruano, os pássaros se posicionam em sintonia, formando uma poesia em imagem. (Foto: Onofre Brito/Secom)

Na contra-luz do entardecer o pássaro alça voo. No detalhe, as delicadas luzes natalinas dos prédios históricos da rua Eduardo Assmar no Calçadão da Gameleira. O momento foi registrado pela fotógrafa Val Fernandes.
Brincadeiras de criança sempre ficam mais doces perto da água. No Acre, os açudes fazem a alegria da garotada. (Foto: Val Fernandes/FEM)

Rios pouco caudalosos durante o verão amazônico formam praias de areia branca e fina formando um cenário típico da paisagem acreana. Ao fundo o ipê colore o dia no alto do barranco (Foto: Val Fernandes/FEM)


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sábado, 26 de dezembro de 2009

VOCÊ ENCARARIA?

Viajar pela maior bacia hidrográfica do mundo ainda é um desafio. Muitas BR's na Amazônia cruzam os rios, a maioria ainda sem pontes. A travessia geralmente se dá por meio de balsas ou catraias. É preciso coragem para se aventurar na travessia dos caudalosos e imponentes rios amazônicos que comandam tantas vidas.

As imagens abaixo foram registradas na BR 364, trecho entre Feijó e Tarauacá (AC).

Subindo na catraia: o motorista tem que ter habilidade!

Olha o nosso timoneiro!

Destino: a outra margem!

!!!

A catraia faz o papel das pontes nessa parte do Brasil!

Balsas levam os veículos maiores!

Nosso belo Rio Tarauacá!

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Nota: Parabéns ao prefeito de Tarauacá pela palhaçada que está fazendo com todos os que dependem do aeroporto de nossa cidade. Que legal ter que ir para a cidade vizinha para poder chegar em casa. Vergonha e responsabilidade: muitos na terrinha não a conhecem. Ou a ignoram?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O QUE É NIILISMO?

Inês Lacerda Araújo


Um aluno me perguntou há algumas semanas atrás o que é niilismo. O termo vem no latim "nihil", que significa "nada". O niilista não é um pessimista.

O pessimista é um derrotista, nada presta, tudo é cinza, o futuro é negro, ele próprio é um impotente.

Já o niilista, pelo contrário, sabe reconhecer que há limite, que há sofrimento, morte; para ele não faz sentido procurar uma ordem universal que justifique a existência de todas as coisas.

Mas isso não o torna fraco, isso o fortalece e o encoraja, o torna senhor de si, pois ele não precisa se curvar para nada, ele é um espírito livre, não precisa de mitos, de fantasias, de ideologias. Como tudo é invenção humana, como em tudo há a marca do homem, em tudo há essa limitação intransponível, a de que podemos muito pouco.

Assim, o niilista não é impotente justamente porque vê a partir de uma perspectiva, a do alto, a da montanha, a nossa insignificância.

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Do blog de minha mestra, por excelência, Professora Inês Lacerda, FILOSOFIA DE TODO DIA.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

FILOSOFIA DE TODO DIA

O QUE É CETICISMO?

Inês Lacerda Araújo
Profa. PUCPR


Diante de tanta violência, corrupção, defesa de seus próprios interesses, egoísmo, é natural certo ceticismo. Ceticismo em filosofia significa descrer, duvidar, considerar que a verdade é uma moeda gasta.

Assim, a atitude do cético é a de se prevenir contra todo tipo de intolerância, todo tipo de dogmatismo (= considerar que apenas há uma verdade, a sua, a da sua religião, a da sua política, a de seu partido, e de seu modo de ser e de pensar).

Filósofos céticos não duvidam de questões e situações banais, das quais duvidar seria completo sem sentido, por exemplo, não é preciso duvidar de que temos um corpo, de que estamos nos comunicando, de que existe um planeta Terra, de que isso que vc acabou de ler não é uma ilusão.

O cético duvida, e com razão, de que o homem pode conhecer tudo, resolver tudo, saber com absoluta certeza o que acontecerá no minuto seguinte. Mesmo no campo da ciência. É que a ciência evolui, muda, o que hoje é confiável, amanhã pode não ser mais.

Hume (1711-1776), filósofo escocês, defendia o cetismo em questão relativas a nossa experiência. "Tudo o que é pode não ser", dizia ele.

Pensar assim é um bom remédio contra o preconceito e a intolerância, que geram violência.

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NOTA: A professora Dra. Inês Lacerda Araújo, do curso de filosofia da PUC-PR, também criou um blog para divulgar pensamentos, reflexões, questões do dia a dia relacionados à filosofia, chama-se FILOSOFIA DE TODO DIA. Estendo o convite a todos a conhecê-lo. A meu ver, a professora Inês é uma das filósofas de pensamento mais lúcido e profundo do Paraná, com uma visão sobre as coisas que poucas vezes vi.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

NO TEMPO DOS VAPORES

Houve um tempo em que, no Acre, os meios de transportes se limitaram basicamente às vias fluviais. Era o tempo em que a fumaça das caldeiras dos imponentes vapores se mesclavam ao céu anil amazônico, e o apito ressoava mata adentro despertando esperanças a patrões e subalternos. Era também o tempo das chatas, dos vaticanos, das lanchas, dos batelões. Levavam levas de gente, brabos, e retornavam abarrotadas do ouro negro, abundante nestas paragens. Foi o tempo em que o Acre sustentou o “mundo” com uma riqueza que até hoje nunca desfrutou.

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VAPOR CEARENSE

Propriedade do Sr. Guilherme Augusto de Miranda, Filho, comerciante na praça do Pará. É seu comandante, o piloto Sr. Agostinho Alves da Cunha Guedes Mourão. Mede 44, 8 m de comprimento, com 8,7 m de boca. Tem capacidade para 224 toneladas.
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VAPOR TAPAUÁ

Vapor Tapauá, construído na Inglaterra em 1900, é propriedade do Sr. Armindo R. da Fonseca, comerciante na praça de Manaus. É comandado pelo piloto Sr. Carlos C. Fernando de Sá. Mede 14 metros, com um calado de 1,5 m e capacidade para 150 toneladas.
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VAPOR ARIPUANÃ

Primeiro vapor que chegou a Xapuri, sob o comando do Sr. Antônio Marques. Era propriedade da Companhia Pará e Amazonas. Naufragou no dia 10 de junho de 1905, às nove horas e meia da manhã, próximo ao seringal “Entre Rios”. Comandado pelo piloto Antônio Miranda, era atualmente propriedade do Sr. B. F. da Silva.
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VAPOR PROMPTO

Vapor comandado pelo piloto Vicente Adelino Pinto, propriedade da firma Alves Braga & Ca., da praça do Pará. Mede 95 pés de comprimento, 18 de largura, 8 de pontal, com capacidade para 120 toneladas.
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VAPOR RIO TAPAJÓS

Faz parte da flotilha da Companhia do Amazonas. Têm de comprimento 150 pés, 33 de largura, com capacidade para 8.000 volumes. Era seu comandante, o distinto e inteligente piloto Sr. Antônio Gonçalves Bandeira.
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VAPOR MANAUS

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VAPOR TAMANDUÁ


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NOTA: As imagens foram retiradas do livro de Napoleão Ribeiro "O Acre e os seus Heróis". A legenda das imagens, do livro "Álbum do Rio Acre: 1906-1907" de Emílio Falcão. Provavelmente Nopoleão Ribeiro usou muito das imagens já presentes na obra de Emílio Falcão.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

UM SHOW DE CORES, LUZES, SONS E EMOÇÕES!!!


Um dos espetáculos natalinos mais belos do Brasil que acontece anualmente no Palácio Avenida, na famosa Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba-PR. Em 2009, o espetáculo intitulado "Diferentes natais pelo mundo" contou com a apresentação da atriz Ângela Vieira. Um show de luzes, cores e sons!!!

Veja mais de Alma Acreana!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

ÉTICA DA RESPONSABILIDADE de Hans Jonas

Isaac Melo


Hans Jonas (1903-1993), na proposta da ética da responsabilidade, começa, em O Princípio Responsabilidade (1979), apresentando as características das éticas tradicionais e o cenário em que estas se formaram. O homem na sua relação com a natureza consegue irromper dela e mesmo dominá-la e, assim, construir uma casa para sua própria existência humana, isto é, a cidade. Esta está destinada a cercar-se e não a expandir-se, e ao mesmo tempo se distingue de todo o resto das coisas por necessitar de cuidados, de cujo domínio completo e única responsabilidade é humana. A natureza não era objeto da responsabilidade humana, por isso, diante dela eram úteis a inteligência e a inventividade, não a ética. Mas na “cidade”, isto é, no artefato social onde homens lidam com homens, a inteligência deve casar-se com a moralidade, pois essa é a alma de sua existência, acentua Jonas.

Na análise das características das éticas tradicionais, Jonas apresenta cinco delas, a saber: 1) o lugar da ética era a polis, isto é, relação do homem com a cidade, a techne não era considerada, por isso, a atuação sobre objetos não humanos não formavam um domínio eticamente significativo, sendo que a verdadeira vocação do homem encontrava-se alhures; 2) antropocentrismo: a ética se detém somente na relação intra-humana, inclusive o de cada homem consigo mesmo; 3) o homem era considerado constante quanto à sua essência, não sendo a techne objeto dessa essência; 4) os efeitos das ações eram consideradas somente nas coordenadas espaciais da comunidade. A ética tinha a ver com o aqui e agora, como as ocasiões se apresentavam aos homens, sendo o homem bom o que se defrontava virtuosa e sabiamente com essas ocasiões; 5) reciprocidade, expresso sobretudo em máximas como a que diz: “ama o teu próximo como a ti mesmo”. Nessas máximas, aquele que age e o “outro” de seu agir são partícipes de um presente comum.

A partir dessas características, Jonas vislumbra novas dimensões da responsabilidade. Segundo ele, a técnica moderna introduziu ações de uma tal ordem inédita de grandeza, com tais objetivos e conseqüências que a moldura da ética antiga não consegue mais enquadrá-las. Por isso, a obscuridade da ética, devido o crescente domínio do fazer coletivo, impõe-se à ética, pela enormidade de suas forças, uma nova dimensão, nunca antes sonhada, de responsabilidade. A crítica vulnerabilidade da natureza provocada pela intervenção da técnica do homem modifica inteiramente a representação que temos de nós mesmos como fator causal no complexo sistema das coisas. Agora, a natureza como uma responsabilidade humana é seguramente um novum sobre o qual uma nova teoria ética deve ser pensada.

Segundo Jonas, nenhuma ética anterior vira-se obrigada a considerar a condição global da vida humana e o futuro distante, inclusive a existência da espécie. Para ele, a natureza tem um direito próprio e uma significação ética autônoma, independente da satisfação humana. Isso significaria procurar não só o bem humano, mas também o bem das coisas extra-humanas, isto é, ampliar o reconhecimento de “fins em si” para além da esfera do humano e incluir o cuidado com estes no conceito de bem humano.

Diante dos velhos e novos imperativos, Jonas ressalta dois específicos. Age de tal maneira que a máxima de teu agir se torne lei universal, essa máxima de cunho kantiano é o pano de fundo dessa perspectiva. A partir da suposição da existência de uma sociedade de atores humanos (seres racionais em ação), a ação deve existir de modo que possa ser concebida, sem contradição, com o exercício geral da comunidade. Por isso, a máxima aqui é: aja de tal maneira que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de autêntica vida humana sobre a terra.

Um outro imperativo adequado ao novo agir humano, para Jonas, é: aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida. As gerações presentes não têm o direito de não escolher pela não existência das gerações futuras. Não se deve querer bem o presente ao preço do sacrifício do bem do futuro. Esse imperativo diz que podemos arriscar a nossa própria vida, mas não a da humanidade. O princípio não é aquele da responsabilidade objetiva, e sim o da constituição subjetiva de minha autodeterminação. O novo imperativo clama por outra coerência: não a do ato consigo mesmo, mas a dos seus efeitos finais para a continuidade da atividade humana no futuro.

A crítica de Jonas é que toda ética anterior se orientava pelo presente, como uma ética do simultâneo, usando diferentes formas éticas no passado, a saber: 1) ética da consumação do mais-além, que postulava o futuro como o lugar do valor absoluto, acima do presente, reduzindo este último a uma mera preparação para aquele. É uma ética da imediaticidade e da simultaneidade; 2) a responsabilidade do estadista com o futuro, isto é, a preocupação previdente do legislador e do estadista com o bem futuro da comunidade. O melhor Estado, assim se imaginava, é também o melhor para o futuro, pois o seu equilíbrio interno atual garante o futuro; evidentemente, ele será também o melhor Estado no futuro, pois os critérios de uma boa ordem não se modificam, já que a natureza humana não se modifica. Por isso, o legislador não propõe o Estado perfeito em termos idéias, mas o melhor em termos reais, isto é, o melhor Estado possível, tão possível e tão ameaçado hoje quanto o será no futuro. A sua ética não é nada mais do que uma ética do presente, embora aplicada a uma forma de vida de duração mais longa; 3) a utopia moderna, cujo fenômeno é inteiramente moderno e pressupõe uma escatologia dinâmica da história, desconhecida no passado. Para estes estava por ser dado o último passo em direção a uma ética da história que fosse imanente ao mundo e utópica. Jonas ressalta que, somente com o progresso moderno, como fato e idéia, surge a possibilidade de se considerar que todo o passado é uma etapa preparatória para o presente e de que todo presente é uma etapa preparatória para o futuro. Todas essas “éticas” tem a ver com as possibilidades utópicas dessa tecnologia.

A tese de Jonas é que os novos tipos e limites do agir humano exigem uma ética de previsão e responsabilidade compatível com esses limites, que seja tão nova quanto as situações que emergem das obras do homo faber na era da técnica. Com a culminação de seus poderes, por meio do domínio da técnica, o homem agora busca aquilo que antes não lhe era possível, como o desejo de imortalidade, por exemplo. E é aqui que entra o esforço do pensamento ético. Devidos os grandes avanços na tecnologia, que retardam o envelhecimento e ampliam a duração da vida, a morte não parece ser mais uma necessidade pertinente à natureza do vivente, mas uma falha orgânica evitável; suscetível pelo menos, de ser em princípio tratável e adiável por longo tempo. Porém, para Jonas, nenhum princípio ético passado, que tomava as constantes humanas como dadas, está à altura de respondê-las.

Segundo o filósofo, o mesmo ocorre com todas as outras possibilidades quase utópicas que o progresso das ciências biomédicas em parte já disponibiliza e em parte acena como possibilidade. Entra elas estar o controle de comportamento. Aqui a nova espécie de intervenção ultrapassa as antigas categorias éticas. Libertar doentes mentais de sintomas dolorosos e perturbadores parece ser algo benfazejo. Porém, ressalta Jonas, uma discreta transição leva do alívio do paciente a aliviar a sociedade da inconveniência de comportamentos individuais difíceis entre seus membros. Isso significa a transição da aplicação médica para o social e abre um campo indefinível, que contém potencialidades inquietantes.

O último objeto da tecnologia aplicada que necessita de atenção ética diz respeito ao controle genético dos homens futuros. Para Jonas a questão é saber se temos o direito de fazê-lo, se somos qualificados para esse papel de criador. Todas essas questões, segundo Jonas, nos remetem para além dos conceitos de toda ética anterior.

Para Jonas, o poder tecnológico transformou aquilo que costumava ser exercícios hipotéticos da razão especulativa em esboços concorrentes para projetos executáveis. Assim, quando, pois, a natureza nova do nosso agir exige uma nova ética de responsabilidade de longo alcance, proporcional à amplitude do nosso poder, ela então também exige, em nome daquela responsabilidade, uma nova espécie de humildade, uma humildade não com o passado, em decorrência da pequenez, mas em decorrência da excessiva grandeza do nosso poder, pois há um excesso do nosso poder de fazer sobre o nosso poder de prever e sobre o nosso poder de conceder valor e julgar.

Outro aspecto da ética da responsabilidade requerida pelo futuro distante é: a dúvida quanto à capacidade do governo representativo em dar conta das novas exigências, segundo os seus princípios e procedimentos normais. Isso recoloca em toda a sua agudeza a velha questão do poder dos sábios ou da força das idéias no corpo político, quando estas não se ligam a interesses egoístas. Segundo Jonas, antes de se perguntar sobre que poderes representariam ou influenciariam o futuro, devemos nos perguntar sobre qual perspectiva ou qual conhecimento valorativo deve representar o futuro no presente.

Por fim, Jonas ressalta que todo esse saber “neutralizou” a natureza sob o aspecto do valor e, assim, se deu com o homem também. E pergunta, se é possível ter uma ética que possa controlar os poderes extremos que hoje possuímos e que nos vemos obrigados a seguir conquistando e exercendo. Todavia, ele afirma veementemente que a ética tem de existir, porque os homens agem, e a ética existe para ordenar suas ações e regular seu poder de agir. Sua existência é tanto mais necessária quanto maiores forem os poderes do agir que ela tem de regular. Por isso, capacidades de ação de um novo tipo exigem novas regras éticas, e talvez mesmo uma ética de novo tipo.


REFERÊNCIA
JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. (tradução do original alemão, Marijane Lisboa, Luiz Barros Montez). Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
* Texto elaborado a partir do primeiro capítulo de O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

MAJESTOSA

SAMAÚMA

O sol lança os primeiros raios da manhã e no fundo da imagem, envolvida no orvalho que ainda cai, está ela majestosa: a samaúma com sua farta ramagem (Foto: Sérgio Vale/Secom)


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sopranista ou um Castrato?


O russo Vitas Bumac criou um indiscutível recorde ao ter organizado a estreia de seu show solo no Estado Kremlin Palace em 29 de Março de 2002, tornando-se o mais jovem artista para realizar um concerto solo no Kremlin. Suas canções mesclam desde o pop e techno à ópera clássica.

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Obs:
Um sopranista é um cantor que alcança o registro vocal do soprano;
Um Castrato (plural castrati) é um cantor masculino cuja extensão vocal corresponde em pleno à das vozes femininas, seja de (soprano, mezzo-soprano, ou contralto).

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Uma coisa é inegável: que voz!


P. S. Não sei o que minha mãe diria!!!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ARARAS DE CORES

O conto, no Acre, ganhou força a partir de 1942 com o lançamento de Sapupema: contos amazônicos, de José Potyguara. Num primeiro momento, a temática do conto acreano é de cunho documental, ou seja, procura-se registrar a relação da terra e do homem com a natureza; num segundo, dá-se o rompimento com essa forma documental abrindo-se para novas possibilidades e maneiras, com temáticas de abrangência além da região.

Em vinte contos e dois sonetos, o contista Odin Lima registra ‘realisticamente’ a vivência do homem amazônico num período em que a borracha entra em decadência. Trata-se do livro Araras de Cores: contos acreanos, lançado em 1989, pela então Editora CEJUP de Belém-PA. Odin Lima nasceu em 1928 na cidade de Cruzeiro do Sul, autodidata, leitor exímio, bancário. Residiu no Pará, Minas Gerais, Paraná, além do Acre, sua terra natal.

Odin Lima, conforme ressalta Luiz Lima Barreiros, escolheu, para seu livro de estreia, entre algumas dezenas de estórias curtas de sua autoria, as vinte que melhor representassem épocas, costumes e labores da inóspita região do médio Juruá. É o próprio autor quem acentua que as estórias que compõem o livro são estórias de trabalho e miséria, de miséria e escravidão, de escravidão e violência, de violência e morte. Todavia, são, principalmente, estórias de coragem, de estoicismo e de amor.

As narrativas de Araras de Cores possuem temas variados que vão do seringal à cidade e da cidade ao seringal e retratam ora um narrador menino ora um narrador adulto encharcado de recordações. O conto “Vida de Seringueiro” é, a meu ver, um dos mais dramáticos, mais expressivos e que, por sua vez, revela o cerne da maioria dos problemas da “era da borracha”, isto é, a exploração do homem pelo homem, sendo a morte (do patrão ou do seringueiro) uma das únicas formas de o seringueiro protestar contra o sistema de injustiça advindo do desejo insaciável de riqueza dos seringalistas.

Araras de Cores é mais que um livro de contos, ali encontram-se memórias não só de seu autor, mas de um passado não muito distante a todos nós acreanos, cujas dores ainda se sentem hoje.



REFERÊNCIA

ODIN, Lima. Araras de Cores: contos acreanos. Belém: Edições CEJUP, 1989.
COSTA, Maria José da Silva Morais. Trajetória de uma expressão amazônica: o encanto do desencanto de Florentina Esteves. Brasília: 2006 (Dissertação de mestrado do Instituto de Letras da Universidade de Brasília).

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

LA CUECA

La cueca es un baile de pareja suelta, en el que se representa el asedio amoroso de una mujer por un hombre. Los bailarines, que llevan un pañuelo en la mano derecha, trazan figuras circulares, con vueltas y medias vueltas, interrumpidas por diversos floreos. Es la danza nacional oficial de Chile y bailada en el oeste de América del Sur, desde Bolivia, como danza típica, hasta Argentina y Colombia, teniendo distintas variedades según las regiones y las épocas. (Mais aqui)
CHILE

BOLÍVIA

ARGENTINA

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

A segunda posição acerca da fundamentação dos direitos humanos é a de Jürgen Habermas (1929). Para ele, se os direitos humanos têm conteúdo moral, então devem ser justificados a partir do ponto de vista moral em que se aplica o princípio da universalização. Deve-se ponderar que o fato de os direitos humanos originarem-se fora do âmbito propriamente moral não implica que não se lhes possa atribuir um teor moral.

Habermas filia-se a uma certa perspectiva do pensamento kantiano, segundo a qual todo homem dispõe de direitos inalienáveis, aos quais não pode renunciar ainda que assim deseje. Essa fundamentação leva em conta as noções de forma jurídica, que circunscreve um domínio de liberdade de escolha e é constituída pela liberdade subjetiva de ação e pela coação, e de princípio do discurso, que advém do conceito de racionalidade comunicativa e pode ser esclarecido por meio de um conjunto de pressuposições. A interligação do princípio do discurso e da forma jurídica dará a gênese lógica de um sistema de direitos, constituídos por um conjunto de cinco direitos fundamentais, a saber: 1) direitos fundamentais que resultam da configuração politicamente autônoma do direito à maior medida possível de igualdade subjetiva de ação; 2) direitos fundamentais que resultam da configuração politicamente autônoma do status de um membro numa associação voluntária de parceiros de direito; 3) direitos fundamentais que resultam imediatamente da possibilidade de postulação judicial de direitos e da configuração politicamente autônoma da proteção jurídica individual; 4) direitos fundamentais à participação, em igualdade de chances, em processos de formação da opinião e da vontade, nos quais os civis exerciam sua autonomia política e através dos quais eles criam direito legítimo; 5) direitos fundamentais à condição de vida garantidas social, técnica e ecologicamente, na medida em que isso for necessário para um aproveitamento, em igualdade de chances, dos demais direitos.

O conjunto desses direitos deveria ser decidido em uma comunidade de comunicação, em que não está definido, de forma absoluta, se todos têm direito a trabalho ou salário-desemprego; também não está determinada a aceitação da regra de que igual trabalho implica igual remuneração. Os direitos ecológicos são ainda mais relativos, segundo Habermas, pois sequer comportam razões morais, mas tão-somente éticas.



Livro-referência:
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Jeneiro: Elsevier, 2004.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

MENINO DA RUA DO BAGAÇO

LANÇAMENTO DO "MENINO DA RUA DO BAGAÇO"
DO POETA JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA

Local: Livraria do Paim - Rua Rio Grande do Sul, nº 311
Dia: 02/12/2009 (quarta-feira) - 8h30 (manhã)
em Rio Branco-Ac

MENINO DA RUA DO BAGAÇO é um enfoque dos momentos de nosso cotidiano. Os poemas são verdadeiras crônicas em que o autor, de forma irreverente, descreve sua maneira de ver a vida ao derredor. O estilo é simples e fiel à origem nordestina, já que José de Anchieta Batista descende da família dos Batistas do município paraibano de Teixeira, importante e histórico berço de muitos violeiros.

As poesias retratam os lamentos da desdita amorosa, fazem apelos à preservação ambiental, condenam a prática política nos nossos dias, abominam nossa triste realidade social e externam uma profunda crítica às religiões e aos seus “deuses”. Em todo o livro a comédia e a tragédia cruzam-se repetidas vezes e, dessa forma, a dor e o sorriso vão se revezando. O poema “Os mesmos”, por exemplo, é a descrição jocosa de toda uma realidade cruel que nos atinge:


Diante dessa gente desonesta,
O sujeito que tenta ser honrado,
À miséria se torna condenado
E por justo que seja, nunca presta!
O dinheiro do povo faz a festa,
Com uísque escocês e caviar,
Na Suíça uma conta p`ra guardar
O produto de tanta corrução...
No Brasil, bem melhor é ser ladrão,
Que a Justiça não vai se incomodar!

Mas você que vagueia maltrapilho,
Suplicando uma ajuda caridosa,
Nunca tente afanar uma penosa
Para encher a barriga de seu filho!
Neste caso a polícia mostra brilho
E você vai gemer de tanta peia!
Mas se é crime mexer em coisa alheia,
Como é que uma corja de corrutos
Passa a mão no dinheiro dos tributos
E eu não vejo um safado na cadeia!

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José de Anchieta Batista
Nascido em Teixeira, Paraíba, radicou-se no Acre desde o início da década de 80. É bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB e possui Complementação Pedagógica pela Universidade Federal do Estado do Acre- UFAC. Lecionou por vários anos na Escola Técnica de Comércio Acreana – ETCA, o que lhe outorgou o imenso orgulho de continuar a ser chamado de “Professor Anchieta”, mesmo após deixar de lecionar. Por esse tempo foi co-autor do livro “Contabilidade para Principiantes”. Em 1994, aposentou-se como Auditor-Fiscal do Instituto Nacional do Seguro Social, quando instalou escritório de consultoria e assessoria contábeis. A partir de 1999, exerceu diversos cargos no Governo do Estado do Acre, como Presidente de diversas estatais e Secretário de Estado da Administração. Desempenha atualmente a função de Diretor-Presidente do Instituto de Previdência do Estado do Acre. Alguns poemas e outras matérias contidas neste livro já foram publicadas anteriormente.


Mais informações Editora Publit.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ÉTICA DOS DIREITOS HUMANOS

Isaac Melo


"Norberto Bobbio ver como ilusória a busca de um fundamento absoluto para os direitos humanos, pois essa busca funcionou como um empecilho para geração de novos direitos ou modificação dos já existentes"


A discussão acerca dos direitos humanos tem como uma de suas fontes primordiais o estoicismo, sobretudo, o representado por Zenão de Cício, este estabelecia que a lei natural é uma lei divina e tem como tal o poder de regular o que é justo e injusto. Esse pensamento tem continuidade com Tomás de Aquino, na Idade Média. Porém, é com Hugo Grotius, já na modernidade, que essa formulação alcança seu esplendor. Um fator importante, também, foi a incorporação dos direitos humanos aos ordenamentos jurídicos, como foi o caso da Magna Carta do rei da Inglaterra, João Sem Terra, que garantia uma série de direitos processuais, como o direito de ir e vir e o direito de propriedade. Esta por sua vez possibilitou o surgimento do movimento constitucionalista, cujos principais marcos são a Constituição americana de 1776 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789.

Sobre o problema da fundamentação dos direitos humanos há duas posições: uma que defende a possibilidade da fundamentação, cujo expoente é Habermas, e a que apregoa ser impossível, cujo principal defensor é Norberto Bobbio (1909-2004). Bobbio qualifica de ilusória a busca de um fundamento absoluto para os direitos humanos, pois essa busca funcionou como um empecilho para geração de novos direitos ou modificação dos já existentes. Para apregoar essa impossibilidade de uma fundamentação absoluta, ele apresenta quatro dificuldades básicas: 1) da natureza humana são deduzidos os direitos humanos; 2) esses direitos são verdades evidentes em si mesmas; 3 e 4) aplicam-se à segunda estratégia, pois os direitos que eram considerados evidentes por si mesmos, em um dado período da história, deixaram de o ser em outros.

Em relação às dificuldades que impedem as duas primeiras estratégias, Bobbio lista quatro principais: I) diz respeito à vagueza da expressão direitos humanos, porque tal expressão só pode ser considerada tendo presente já algum elemento valorativo; II) variabilidade dos direitos humanos, conseqüência da imprecisão de seu significado, permitindo os mais diversos tipos de direito; III) heterogeneidade dos graus de eficácia das normas, pois para algumas espera-se que sua validade seja absoluta, e para outras não há o interesse de se atribuir o grau máximo de sua eficácia; e IV) caráter antinômico dos direitos humanos. Segundo Bobbio a grande dificuldade nesse debate acerca dos direitos humanos é definir o que é a natureza humana.

Para Bobbio, os direitos humanos são historicamente gerados, conforme atendam as necessidades que a humanidade enfrente. Eles passam por um processo de nascimento e de morte, pois alguns podem desaparecer ou serem fortemente limitados, como é o caso do direito de propriedade ou do direito de remuneração igual por trabalho igual. Bobbio acentua ainda, que é possível falar em gerações de direitos humanos, que ele enumera em quatro: a primeira constituída pelos direitos liberais, que defenderia os interesses individuais; a segunda constituída pelos direitos sociais, que defenderia os direitos coletivos; a terceira abrangeria os direitos ecológicos, como o direito a viver em um ambiente não poluído, que defenderiam o direito das gerações futuras sobre o meio ambiente; por fim, a quarta diria respeito aos direitos biológicos, como o da integridade do patrimônio genético.

Bobbio sugere, como caminho alternativo às incertezas e inexatidões que rondam a qualificação dos direitos humanos, o consenso geral, isto é, um valor é tanto mais fundado quanto mais é aceito. Dessa forma, a prova da intersubjetividade substitui a prova da objetividade, pois sendo um fundamento histórico é, como tal, não absoluto. O exemplo de Bobbio, nesse sentido, é a aceitação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por fim, a tese defendida por Bobbio é que o maior problema em relação aos direitos humanos não é a questão filosófica da justificação, mas a questão política, da sua proteção jurídica e real.

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"É possível uma ética dos direitos humanos depois de Auschwitz?"

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Livro-referência:
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Jeneiro: Elsevier, 2004.

P. S. Logo mais postarei a posição de Jürgen Habermas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

UM PEDACINHO DO CÉU

"Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca."
- Jorge Luis Borges -


A Biblioteca da Floresta é especializada em assuntos e autores da Amazônia e do Acre. Entre seus objetivos consta: (1) organizar a informação histórica e atual sobre desenvolvimento sustentável; (2) tornar acessíveis ao público os trabalhos de pesquisas acadêmicas e técnicas; (3) divulgar os resultados de estudos, pesquisas e projetos em execução na região; e (4) promover o diálogo entre os saberes dos povos da floresta e o saber científico.

Visite! Vale a pena!

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É um trabalho honroso do Governo do Acre e de toda a equipe da Biblioteca, sobretudo Prof. Marcos Afonso, e demais responsáveis que, por sua vez, desenvolvem um trabalho impar de competência e responsabilidade. Isso é muito bom a todos nós!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ASSIM... despretensiosamente!


O rio Juruá mantém uma rotina que traduz a vida do caboclo ribeirinho da Amazônia. Do transporte de produtos agrícolas à pescaria, o homem da região faz dessas águas, ruas para a sua sobrevivência. (Foto SérgioVale/Secom)
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No horizonte, do outro lado da linha, uma rotina. Vidas em um ritmo amazônico, embaladas por sonhos que saem e nunca aportam. Sem grandes pretensões, no ramal Icuriam viver é o objetivo que rege todos os desafios. (Foto: Sérgio Vale)
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Alex, jovem agricultor da BR 317, sobrevive de vender frutas na beira da estrada: imagem do acreano trabalhador. (Foto: Sérgio Vale/Secom)
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Da janela, a moradora do Juruá admira a vida do lado de fora da casa. Enquanto isso, quem passa na rua admira a moradora na janela, como num quadro, pintado pelo acaso. (Foto: Sérgio Vale/Secom)
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Fabrício é ainda uma criança, mas entende que seu povo, Puyanawa, perdeu muito de sua cultura devido a ação do homem branco, que por pouco não dizimou toda essa etnia a partir de 1913. Hoje seu povo luta pelo resgate cultural e valorização de sua história. Ele está fazendo sua parte, exercendo o direito de ser criança e aprendendo a língua Puyanawa, os cantos e costumes ainda recordados pelos mais velhos. (Foto: Gleilson Miranda/Secom)
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À primeira vista parece que eles estão brincando com os bezerros mas, na verdade, os índios Manchineri da Terra Indígena Mamoadate aprendem desde cedo a amansar os animais. (Foto: Angela Peres/Secom)

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Estas e outras belíssimas imagens você pode conferir no flickr da Agência de Notícias do Acre.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

LA MARINERA PERUANA




La marinera es un baile de pareja suelto, el más conocido de la costa del Perú. Proveniente de la Region de Lambayeque. Es un baile muestra del mestizaje hispano-amerindio-africano, entre otros.
 
Su origen se remontaría a un baile colonial llamado zamacueca, que era muy popular en el siglo XIX. De todos modos, existen diversas teorías o corrientes sobre su origen y evolución.
 
Mais aqui!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O HOMEM ABSURDO de Albert Camus

Isaac Melo

"Para Camus, o único problema fundamental da filosofia e, verdadeiramente, sério é: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida".


Albert Camus (1913-1960) foi um homem de muitas faces: foi jornalista, romancista, dedicou-se ao teatro, foi militante político e polemista. Sua vida e sua obra entrelaçam-se de uma maneira fecunda e criativa. São seus sentimentos que impulsionam sua obra, seu sentir frente a um mundo que lhe era estranho, absurdo, mas também fraternal e cheio de sol. É um mundo do absurdo, num primeiro momento, e da revolta num segundo. Ele não é um filósofo preocupado com definições nem com o rigor conceitual, mas com o simples, cotidianos e profundos problemas da existência.

É em O Mito de Sísifo que o tema do absurdo aparece em toda a sua plenitude no pensamento filosófico de Camus. Agora ele problematizará filosoficamente a vida e refletirá sobre ela. O livro começa colocando o único problema fundamental e, verdadeiramente, sério: o suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida. Não tem importância maior saber se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias. Tudo é secundário. O homem se sente estranho porque vê-se privado de repente das ilusões e das luzes. É o encontro do exílio, fuga sem conforto e solução, pois, não se tem esperança de se encontrar a tão querida e desejada terra prometida. O sentimento de absurdo consiste, pois, na afirmação do divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e sua decoração. Camus considera que todos os homens sadios pensam no suicídio. Conclui, daí, que há uma ligação direta, lógica entre esse sentimento e a aspiração ao vácuo, isto é, ao nada.

A revelação da morte tem algo de violento e nos transforma. Chega um dia em que nos damos conta de que o homem morre e de que morremos. Uma vez atingida esta verdade, seremos para sempre sua presa. É pela morte que nossa sensibilidade chega ao absurdo. Só depois de termos sidos atingidos de perto, a grande verdade terá significação e não mais se deixará levar ao desprezo. Ela é o nosso acesso à sensibilidade. A verdadeira expressão camusiana é que os homens não são felizes porque morrem. O fato da morte é repugnante à sensibilidade. Por mais que façamos, a morte não pode ser enfeitada. Será sempre “uma aventura horrível e imunda”. A imagem da “aventura imunda” é uma barreira para que sonhemos uma eternidade. O absurdo sensível não é esta constatação da brutalidade de um termo. Mas é a constatação violando o meu desejo de vida.

A atitude essencial do homem absurdo será a lucidez, isto é, uma consciência que não se quer negar. Por isso, o homem absurdo não foge à luta, não despreza a razão. Acha que reúne todos os elementos, os dados da experiência. Contudo, não está disposto a saltar antes de saber. É resultante de sua lucidez, daí não haver lugar para esperanças. Os homens que acreditam na esperança, para Camus, vivem mal neste mundo.

Na última parte do livro Camus fala do antigo mito grego de Sísifo que tinha sido condenado a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha, de onde ela caía de novo, em conseqüência de seu peso. Para Camus, Sísifo é o herói absurdo, pelas suas paixões bem como pelo seu tormento. O tormento dele é o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Camus nos diz que seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que seu ser se emprega em nada terminar.

Sísifo sobe e desce infinitamente, sem nenhuma esperança que isso termine. Camus faz da situação de Sísifo uma analogia com a situação de milhares de operários que devem recomeçar seu trabalho cada dia. Mas Sísifo é lúcido e, embora imponente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição. É essa condição que Sísifo pensa durante a sua descida, pois, para Camus, a clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo também a sua vitória. Camus nos diz que não há destino que não se transcenda pelo desprezo. Ele conclui afirmando que há só um mundo e que a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra, são inseparáveis.

Sísifo faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens, e ali é que Sísifo encontra sua silenciosa alegria. Seu destino pertence-lhe e é um destino único e pessoal, pois não há destinos superiores. Isto faz com que Sísifo sinta-se senhor de seus dias.

De acordo com Guimarães, o Mito de Sísifo é de fato uma análise da sensibilidade absurda, uma análise racional, que procurar tirar as conseqüências. O absurdo é um ponto de partida e não um estado. Transformar um sentimento em estado é negar qualquer saída e concordar com o que oprime. Fazer do absurdo uma regra é viver no desespero. Camus anota em O Mito de Sísifo várias possibilidades do surgimento do absurdo, sempre em situações corriqueiras, onde é apenas decisivo o exame da inteligência. A consciência da rotina, seguida da indagação do sentido, leva-nos para a sensibilidade absurda. A inteligência dá-se conta de que a existência faz-se no tempo. Compreende a tragédia de jogarmo-nos, constantemente, no futuro. A cada momento aproxima-nos mais do termo e, não querendo o fim, queremos o futuro. O absurdo é a constatação de que o mundo se nos escapa. O absurdo não é nem o mundo nem a Inteligência, mas a relação entre a inteligência e o mundo.

A fidelidade do raciocínio à evidência que o despertou exige a manutenção do absurdo. O salto filosófico é uma empresa condenada. Esta é a lógica que reina no absurdo. A fidelidade ao absurdo é aqui uma fidelidade ao homem. O que obtemos com o salto, aquela certeza de ordem religiosa, ultrapassa a dimensão humana. O homem absurdo quer viver lucidamente. E a lucidez mostra uma realidade que nos rejeita. Rejeitados, talvez seja nossa tarefa rejeitar. Num mundo sem sentido, permanece a exigência humana de sentido. Nada pode ser feito para satisfazê-la. Sou obrigado a manter o caos reinante, mas este caos, este inferno, é meu lugar. Assim me imponho frente a uma realidade que me contraria e frente a qual sou impotente. O confronto do homem com a realidade é favorável ao homem. Ele é o grande inocente.

O homem absurdo tem que viver. Viverá sem apelo, sem esperança. Outra vez não anulará o problema. A tentação seria a negação da consciência: o suicídio. Porém, um absurdo que nasceu da consciência tem que viver como verdade, logo, viver na consciência. A resposta absurda é viver. Viver é então convertido em revolta. A revolta é a manutenção dos dois elementos da questão: considera o real e mantém a consciência. Viver mantendo os dois elementos da oposição é viver a própria oposição. Negando-lhe o que lhe nega, ele se afirma e se faz superior, pois a consciência dá grandeza à revolta.

Sísifo é fiel à sua tarefa absurda. Mas sua fidelidade é consciente e, consciente, faz-se superior aos deuses que o condenaram. Sem esperanças, sem verdades absolutas, sem Deus, o homem é livre. Porém, o homem absurdo se sabe condenado ao que não dura. Aceitando o relativo, aceita a possibilidade. Sua liberdade é disponibilidade, é abertura. A liberdade absoluta será sua criação. Nada se impõe, pois ser livre é criar e examinar todas as soluções.

Por fim, desligado de valores absolutos não será possível procurar viver melhor, mas, unicamente, viver mais. Só o finito da condição pode nos levar a esta paixão. Só a morte justifica o amor intenso pela vida. Viver mais é viver conscientemente. A lucidez faz-nos sentir a vida. Só a consciência conta. Retirados todos os valores, a lucidez é o único valor. Se o absurdo acentua a experiência quantitativa, tal experiência terá que ser qualitativa, consciente, para ser válida. Estão aí as três conseqüências do absurdo: revolta, liberdade e paixão. Três afirmações da vida.



REFERÊNCIAS

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.

GUIMARÃES, Carlos Eduardo. As dimensões do homem: mundo, absurdo, revolta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.

GUTIÉRREZ, Jorge Luis. A revolta do homem absurdo. Revista Ciência & Vida (Filosofia). São Paulo, no. 21, ano II, p. 22-33, 2008.

LEITE, Roberto de Paula. Albert Camus: notas e estudo crítico. São Paulo: Editora Edaglit, 1963.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

LINGUAGEM E CULTURA

Estendo o convite a todo/as a conhecerem o espaço da Profa. Luísa Galvão Lessa, uma das mais competentes estudiosas, na área de linguagem, do Acre. Ela ocupa a cadeira de número 34 da Academia Acreana de Letras. Acreana de Tarauacá, tem Pós-doutorado em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal (Canadá). Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É, ainda,  Membro da Academia Brasileira de Filologia.

Acesse:



Eu ainda sou aquela menina sentada na nuvem, que com flores nas mãos escreve num jardim seus pequenos sonhos. Por tantas vezes se pega sonhando acordada, acreditando que um dia cada sonho se tornará realidade, porque não tem um sonho egoísta, mas um sonho de amor pelo próximo.

Se alguém me perguntasse: “Luísa, como você se define?” Minha pronta resposta seria imediatamente: uma pessoa simples, que sonha e corre atrás dos sonhos. Os meus sonhos começaram quando eu era criança, queria ser professora, conhecer o mundo, andar às margens do rio Danúbio, ter títulos, viajar, ter uma família sólida, unida, feliz. Sonhava em ser independente.Não sonhava somente coisas pessoais para mim, mas sonhava, também, para o mundo! Sei que sonhar não é ficar ali “apenas pensando”, sem fazer nada, esperando que o céu se abra e tudo venha pronto. Sonhar é começar a pensar no que é possível fazer para tornar um sonho, realidade.Isso tenho feito durante a vida. Continuo a sonhar, a procurar realizar sonhos. Afinal, viver é maravilhoso e sonhar é a melhor arma para se obter a felicidade!