terça-feira, 13 de outubro de 2009

FREI PAULINO, O PADRE SERINGUEIRO

RELATO DE UM DOS MAIORES TEÓLOGOS DO BRASIL, CLODOVIS BOFF, ACERCA DE FREI PAULINO, O SACERDOTE MAIS ATUANTE NA DEFESA DOS POVOS DA FLORESTA E MAIS QUERIDO DO ACRE. O RELATO É DE 1980, MAS CONTINUA ATUAL.


Ele é o responsável da missão dentro da imensa paróquia (50.000 quilômetros quadrados) de Sena Madureira. Anda sempre com uma batininha surrada, por razões de pobreza e comodidade, segundo ele. Baixo e magro, tem um olhar de touro e uma voz cavernosa. Pode ficar falando de 2 a 3 horas aos homens da floresta em tom elevado, como nos discursos, e não se cansa.
As viagens missionárias que faz pelos rios e pela mata, chamadas “desobrigas”, podem durar meses. Come e bebe o que comem e bebem os seringueiros. E dorme em rede, como eles. É um homem profundamente integrado no mundo dos filhos da mata. É um autêntico “padre seringueiro”. Quando volta para casa vai direto para o hospital, para se recuperar do desgaste da desobriga.

Foi dos primeiros missionários do Acre a defender no passado a tese do respeito à cultura dos índios e do aproveitamento pastoral de sua religião. Num curso de antropologia em Manaus, Darcy Ribeiro, grande estudioso e amigo dos índios, não deu nada por esse homenzinho rústico, com sua batina surrada e tradicional. Mas, depois que o ouviu falar, ficou impressionado e lhe ofereceu alguns livros seus como homenagem.

Até pelos anos 70, Frei Paulino fazia uma pastoral ainda baseada na assistência e sacramentalização. Era a época. Depois começou a ler alguns livros que lhe passava o bispo. Lia-os enquanto fazia as viagens de barco pelas voltas infinitas dos rios da Amazônia. Leu, por exemplo, o livro de José Comblin, Sinais dos Tempos e Evangelização, que fala da religião do povo brasileiro e do como a Igreja brasileira deve evangelizar. Era o vento do Vaticano II que passava sobre a floresta. Aí o Frei Paulino mudou. Passou para uma pastoral de evangelização, de conscientização, de libertação, de comunidades. E, com essa virada, viraram também os seringais. Já não pousava na casa grande e confortável do patrão. Ia dormir nas choças dos seringueiros. Começou a abrir os olhos do povo para seus direitos. Denunciava as injustiças que ia vendo. Virou profeta, ao modo de Amós, o lavrador.

Os seringalistas e fazendeiros, os políticos e marreteiros exploradores passaram a ter raiva dele. Sentiram-se traídos por quem julgavam um aliado seguro. Mas ai de quem fala mal de Frei Paulino diante de um seringueiro! Quem não o conhece nestas matas do Acre? Hoje ele casa gente que batizou. Nem sei quantos anos faz que anda pelas matas e rios, buscando e reunindo o rebanho de Cristo disperso.
Ainda hoje ele lê bastante nas viagens. Leva consigo apenas uma sacola com objetos de culto e um algum livro. Já andou virando tudo aquilo no meio do rio. Durante o treinamento no Icuriã estava lendo o meu livro Teologia e Prática. Admirei a coragem dele de ler um livro tão duro – mais duro que tronco de cumaru-ferro. Tirou-o de sua sacola de borracha (que é para não molhar). Estava todo manchado de óleo. É claro, misturado com tanta coisa dentro do saco.

No treinamento, o pessoal se apresentava a dois. Tocou-me apresentar Frei Paulininho. Para indicar ao mesmo tempo seu espírito missionário, sua pobreza e sua popularidade, disse apenas isso, com a mão no seu ombro: “Aqui está o Frei Paulino, uma mistura de São Paulo, de São Francisco e do Padim Ciço!” Ele sorria com aquele seu rosto limpo, como anjo feito a terçado...


Referência e sugestão:
BOFF, Clodovis. Deus e o homem no inferno verde: quatro meses de convivência com as CEBs do Acre. Petrópolis: Vozes, 1980.
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