Isaac Melo
O espetáculo teatral
Kanarô, em sua primeira temporada, ocorreu em quatro apresentações no mês de
novembro de 2017, no Teatro de Arena do SESC, em Rio Branco, Acre. As impressões
que aqui vão não são de um crítico teatral, mas de um espectador. A peça é um
mergulho no universo cultural e místico indígena, mais especificamente,
Yawanawá (o povo da queixada), tendo como referência o mito Kanarô. É Mirini
quem nos conduz nesse universo de encanto, magia, luta e transformação.
Já todos descalços, uma cuia de garapa (caldo de cana) passa de mão em mão para ser degustada, assim como, em certas aldeias, os indígenas bebem a caiçuma, enquanto dançam o Mariri. É o respeito, é o diálogo, é a união de todos que partilham a mesma cuia, o mesmo espírito. Aliás, é isso que nos remete o nome Yawa. A queixada é forte porque anda sempre em bando. Em bando são indomáveis. A força é a unidade do grupo.
O percurso que se faz da antessala até as cadeiras do teatro nos remete ao sentido de caminhar por um varadouro ou caminhar pela mata. E sentimos o chiado das folhas a beijar nossos pés, o perfume das matas, das plantas, que emana do incenso, tudo embalado pela música dos barrancos de seringal de Antônio Pedro e pela voz Yawanawá a narrar a própria história. Cores, cheiros, sons, sensações e lembranças nos percorrem. E o rio Acre emblemático e interpelador ao fundo.
Mirini vem do alto, porque a jornada é antes de tudo espiritual. É de encontro e reencontro. Na sua caminhada, caminha também o seu povo. Vem do rio e pelo rio renasce. Aliás, o rio é muito representativo na peça inteira. Não só porque o rio nos lembra da fluidez da vida, da existência, ao mesmo tempo que se transforma, sem deixar de ser o que é, transforma também tudo às suas margens. Mas porque é também um grande elemento agregador dos povos amazônicos. Grande parte nasce nos altiplanos andinos e corta todo o vale até alcançar o oceano atlântico. Quantas vidas, quantas culturas, quantos povos vivem dele e às margens dele há séculos. O espírito do rio no espírito de Mirini.

O canto, a dança, o cocar, a pintura, assinalam que a menina é agora a Yawa Mirini, em sintonia com as forças naturais e espirituais. Mergulha na sua ancestralidade e compreende todo o processo de afirmação e de identidade dos Yawanawás. E com o fogo, a lamparina, quer dizer, iluminada, pode então clarear o caminho do seu povo. Mirini é muito mais que Mirini. Mirini é o povo Yawanawá em sua secular caminhada pelas matas amazônicas, desde o tempo em que todas as coisas eram gente, em que o céu e a terra era uma coisa só até os tempos conturbados de hoje, do ronco das motosserras e dos empréstimos dos bancos internacionais.


Kanarô é essa possibilidade de adentrar no universo e na cultura indígena sem agredi-la, buscando o máximo se distanciar dos estereótipos e clichês. É o respeito pelo outro, que não se quer apenas encenar, mas compartilhar experiências e olhares, criar laços de afinidade, romper barreiras. Na beleza das nossas diferenças, fazemos todos parte da mesma aldeia. A ameaça aos povos indígenas é uma ameaça a todos nós. E mais do que nunca se faz preciso nos indigenizar, isto é, voltar a unidade com a natureza e o cosmo, sentir-nos terra, água, fogo, estrelas, árvores, rios... sentir-nos integrados com tudo e com todos.
Kanarô, com patrocínio do Banco da Amazônia, teve a direção e a música sob a responsabilidade de João Veras, um dos nomes mais importantes da/para a arte nesses últimos tempos no Acre, por sua sensibilidade e capacidade intelectual, demonstrado por inúmeros trabalhos musicais, literários e acadêmicos, como a obra magistral “Seringalidade” (2017). Mirini foi interpretada pela atriz Dani Mirini. Além da beleza física que lhe é peculiar, com seus traços marcantes, seus cabelos longos e negros, seus olhos penetrantes, ela carregou sobre si toda a força da mulher Yawa. Não só interpretou, mas viveu cada passo de sua personagem. Era preciso fôlego, força e domínio para executar a performance no tecido, por exemplo. E assim foi, como também teve competência na voz, ao executar os cantos e falas Yawanawá. Mais uma vez, entre tantas outras, demonstrou a sua competência, domínio e presença de palco. A produção ficou a cargo de Maria Rita, que há anos dedica-se ao teatro, e merece toda a nossa reverência. Demonstrou que o teatro pulsa cada vez mais forte nela. Luiz Rabicó cuidou da iluminação, permitindo que o espetáculo fosse contemplado em todo o seu esplendor. Tudo isso fez com a peça tivesse beleza, leveza, magia e argúcia.
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Casa Vivarte - Rio Branco-AC |
A peça é uma produção do Grupo Experimental de Teatro Vivarte, que foi criado em 1998, a partir da experiência da professora e também atriz Maria Rita com alunos do ensino fundamental. “A partir daí, Maria Rita deu início a sua trajetória no teatro, através da qual conheceu e se uniu aos demais integrantes. Iniciou assim a trajetória artística do grupo, que hoje acumula 19 anos de experiência, entre o palco e a rua”. E é um dos grupos mais importantes no cenário atual do teatro acreano e o único que conta com um espaço próprio, a Casa Vivarte, inaugurada em 2009, onde ocorrem ensaios, oficinas abertas à comunidade, estudos, laboratórios e pesquisas.
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Uma apresentação do Circo Sirin Sirin. |
Ao longo desses anos, o Vivarte já acumula mais de 13 espetáculos, muitos dos quais, premiados, como os projetos “Circo Sirin Sirin”, de 2014; “Encantoria”, de 2011, “O Casamento da Filha de Mapinguari”, de 2009, que receberam o Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua. Ainda receberam o Prêmio Matias de Culturas Populares, também com o projeto “O Casamento da Filha de Mapinguari” (2010); o Prêmio Caravana Funarte / Petrobras de Circulação Nacional 2006, com a circulação dos espetáculos “Manoela e o Boto” e “Brincando com Cordel” em municípios dos estados do Acre e Rondônia (2006); e o Prêmio Funarte de Incentivo à Produção Artística, pelo projeto “Montagem da Peça Contatos Amazônicos em Terceiro Grau” (2000).
Apesar de todos os percalços de fazer teatro na periferia da periferia do Brasil e da Amazônia, com ínfimos apoios e recursos financeiros, o Vivarte tem sido a resistência e a utopia possível que alimenta a chama da arte e da humanidade. E a cada espetáculo, os sonhos se renovam e o Acre torna-se menos acre, um pouco doce, uma doçura de infância. Viva a arte viva. Vivarte!
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