segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CESAR GARCIA LIMA: alguns poemas

O poeta, jornalista e professor Cesar Garcia Lima é natural de Rio Branco-AC, mas vive no Rio de Janeiro desde 1995. É doutor em Literatura Comparada (UERJ) e mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Atuou em importantes editoras, jornais e revistas do país. Além de trabalhos publicados em antologias, é autor dos livros “Águas desnecessárias” (1997) e “Este livro não é um objeto” (2006), ambos de poesia. Também dirigiu os documentários “Soldados da borracha” e “Onde minh’alma quer estar”. Além de desenvolver oficinas literárias, roteiros para TV e documentários digitais, Cesar desenvolve pesquisa sobre crítica na Literatura Brasileira Contemporânea (UFF), com bolsa de pós-doutorado da FAPERJ.
Visite o site oficial do autor e conheça mais sobre a sua obra:

***


TEMPO DE MANGA

naquela época
as mães dos amigos ainda ficavam grávidas
as crianças menores eram um segredo
as do mesmo tamanho, inimigos em potencial
quando a preocupação era ganhar ou ganhar
e o demônio podia ser qualquer barulho
depois da janta p.15


A PRIMEIRA MORTE

Mãe me chama pra escolher
qual galinha vira almoço.
Choro desapareço.
Protesto em vão contra o holocausto.
Domingo não como. p.17


CALOS DA FÉ

Durmo em pé
minha mãe dá aulas de resistência
eu desconfio de promessas
peço mais evidências aos mártires
faço acordos com a Virgem Maria

Beijar os pés de gesso
do menino Jesus
no entanto
foi demais pro meu asseio
a gota d’água
pra eu desconfiar do catecismo p.20 


ESCAMBO

encontrei sangue na nuca perfeita da deusa
  e chorei meses por constatar a mortalidade de sua paixão.
      ela fez maçãs com seus coágulos
embrulhadas na luz quebradiça de seus cabelos loiros.
  mas não tive escolha senão vendê-las
     e tirar delas o meu sustento. p.31


A SERPENTE DE PEDRA

Impossível roubar as curvas da muralha da China.
É um conforto saber que o rasgo fino dos olhos
aprecia a textura impiedosa da caça.
Na verdade, eles pouco sabem sobre a cor.

Construída em horas tristes
   dias incandescentes
a muralha agrega sementes
trazidas pelos pássaros
em tempos que o calendário não registra.

Há o consolo azul do anis
lembrando estrelas
e uma estrada sempre reta
que endireita a muralha.

Mas a muralha não é assim.
Segue os contornos imprecisos da garganta indócil
dos habitantes cegos de suas redondezas.

Nem isso consegue fazer esquecer o sabor
das especiarias tiradas das dispensas dos deuses. p.34


ÁGUAS DESNECESSÁRIAS

o que nos é dado por acréscimo
o que nos é tirado sem explicação p.59


TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA

Os mares, Critilo, jamais descansam
Nem um grama de ouro da derrama
Esclarece ao futuro
Os dotes do teu desterro.

Os mares, Critilo, jamais descansam
E não recitam a intenção dos teus gestos
Ouvidor rebelado
Perdido entre a lira e o poder.

Os mares, Critilo, jamais descansam
Nem tuas artimanhas de Galileu conjurado
No espectro em que se confundem
O medo, a moral e o amor-próprio.

Os mares, Critilo, jamais descansam
E quem sabe revolvam
Onde ficaram teus escrúpulos
Após o excesso de sol em Moçambique.


VESPERAL

Te conheci ontem
e já comemorava
bodas de prata com
poemas impressos.
Hoje me premias com tua ausência
e volto ao deserto.
Te poupo explicações:
mortos não comparecem a encontros.


BONANÇA
Encosto a cabeça
No teu peito
E ouço o mar



LIMA, Cesar Garcia. Águas desnecessárias. São Paulo: Nankin Editorial, 1997.
p.s. alguns poemas foram retirados do site do autor. E a foto, da página Caderno Lírico, também do autor.
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