quarta-feira, 29 de abril de 2009

Seringal Capela - a fé que vêm das matas



Todos os anos, no dia 20 de Janeiro, ocorre no Seringal Capela, rio Muru, em Tarauacá-Ac, o famoso novenário de São Sebastião. Essa tradição Católica com mais de meio século de existência é uma das mais belas demonstrações de fé do povo dessa região, em plena floresta amazônica.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

ESPECIAL

Tarauacá,

Ontem, hoje e amanhã

 

 

Olhar para o passado não é saudosismo. Povo nenhum nasce do "arroto de Buda". Há em tudo um princípio. As origens de Tarauacá vão muito além dos seus 96 anos. O século XIX é um século de grandes explorações na Amazônia, surgem as famosas expedições de Francisco de Orellana, W. Chandless, e tantas outras; sem falar nos inúmeros exploradores que subiam os rios amazônicos em busca das chamadas "drogas do sertão" e posteriormente atraídos pela borracha.

É difícil precisar quando a região de Tarauacá começou a ser povoada. Sabe-se que em 1850, o Padre Constantino Tavestin, no seu livro Le Fleuve Juruá, refere-se a um amigo crioulo português que subiu freqüentes vezes o Juruá até Marari, e até mesmo Tarauacá, para troca de produtos europeus com os índios, que em troca lhe davam produtos nativos da região. Mas um dos primeiros exploradores e desbravadores dessa região foi João da Cunha Correia, que já em 1854 conhecia as águas do "rio das tronqueiras".                                  

Foz do Muru, (cujo um dos proprietários o chamava de Bairro Leôncio de Andrade) era um importante Seringal localizado na confluência do Rio Tarauacá com o Muru, cujo nome emprestou à cidadezinha que se erguia à sua frente, elevada à categoria de vila 1907. Este seringal, onde posteriormente o grande escritor Leandro Tocantins passou a sua infância juntamente com seus pais – proprietários de diversos seringais dentre este; erguia-se à margem direita do Rio Muru e era formado por um conjunto de casas de madeiras, algumas com telhas francesas, que davam à construção as insígnias patriarcais de uma casa-grande.

 

                                    - Seringal Foz do Muru -

 

Em 24 de Abril de 1913 Tarauacá é elevada a categoria de município, que então se chamava Vila Seabra, em homenagem ao então Ministro da Justiça J. J. Seabra. É considerado seu primeiro prefeito o Coronel Antônio Antunes de Alencar. Este era um seringalista, que lutou juntamente com Plácido de Castro na Revolução Acreana; ele era chefe do batalhão chamado Acreano composto por aproximadamente 360 homens. Antônio Antunes de Alencar foi também membro do Conselho Municipal de Xapuri (desfeito logo após Plácido tomar frente à revolução), criado pelo Intendente boliviano Juan de Dios Bulientes com o intuito de pacificar e assim ter o domínio sobre o território acreano. Além disso, Antônio Antunes de Alencar foi aclamado governador provisório do Estado do Acre pelo Partido Autonomista do Juruá que havia instituído uma Junta Governativa por volta do ano de 1910. Sabe-se que até 1938 ele trabalhava e vivia no sertão baiano.

 

                             - Antônio Antunes de Alencar -

 

Numa nota sobre Tarauacá que data de 1942, um ano antes de Seabra receber o atual nome – Tarauacá, assim o grande escritor José Potyguara resumia a cidade: "Seabra – uma das mais florescentes cidades acreanas. Sede da comarca e do município de mesmo nome. Situada na confluência dos rios Muru e Tarauacá, tem um comércio bastante desenvolvido. Está situada em terreno plano, e sua privilegiada topografia apresenta ruas retas, algumas calçadas e cimentadas. Os prédios, embora pequenos, são bem construídos e alguns de alvenaria e bastante elegantes: a Prefeitura, o Fórum, o Grupo Escolar, o Mercado Municipal, o Quartel da Força Pública, a Loja Maçônica, o Teatro e a Igreja, esta recém-construída pelos missionários da Ordem do Espírito Santo. Possui um campo de aterrissagem e uma excelente estação radiotelegráfica que se comunica, diariamente, com Manaus e as demais cidades do Território Federal. A população é cerca de 3.000 habitantes, gente boa, alegre e hospitaleira".  Esse relato nos dá uma dimensão, embora pequena, de como era a vida nos idos da década de 1940, momento em que Tarauacá vivia sobre a belle époque proporcionado pela borracha.

 

                                     - Prefeitura e Teatro -

                           - Igreja Matriz de São José -

                             - Grupo Escolar João Ribeiro -

                       - Rua D. Constância de Menezes -

                           - Uma das ruas principais de TK -

                            - Rua Inôcêncio de Menezes -

                                  - Uma antiga casa -

 

Mas história não é só passado, é também presente. Hoje olhamos para nossa história e nos perguntamos se progredimos alguma coisa. É claro que temos significativas mudanças. Porém, às vezes tenho a impressão de que chegamos ao século XXI, mas ainda continuamos no atraso social do XX. Tempos áureos, mas um tempo também de grandes explorações e injustiças, impostas principalmente pelos coronéis de barranco, hoje, sobretudo por um modelo político que governa para si próprio.

Nossas ruas assemelham-se a ramais; nossos patrimônios históricos são derrubados pelo homem ou pela ação do tempo; não temos arquivo municipal muito menos museu; nossas tradições e festivais tornam-se cada vez menos freqüentes. Por quê? Com a certeza o motivo não é financeiro.

 

 

Todavia há o movimento inverso. Há aqueles que sacrificam vida e bens por uma cidade menos injusta. Quantas Irmãs Neldas, quantos Palazzos, quantos Maurícios e quantos Acciolys existem trabalhando por um chão onde todos tenham ao menos as mesmas oportunidades. São por estes que ainda espero e luto pelo futuro.

Neste chão tão generoso que pariu figuras ilustres como a do poeta J. G. de Araújo Jorge e Djalma Batista, e que acolheu grandes homens de letra e cultura como Leandro Tocantins, José Potyguara, Miguel Ferrante e tantos outros; não há de ser uma terra de esquecidos e sem memória. Fomos e seremos a terra da mulher bonita e do abacaxi grande. Em nosso sangue corre a força do índio, do caboclo e do nordestino na mesma força como as águas irrompem e correm pelos rios e igarapés, levando as impurezas e fecundando as suas margens. E aos que podem fazer algo e não fazem, dirijo os meus pobres versos:

 

Chega de espoliação

estamos fartos de discursos

e do jugo do injusto patrão...

E tu bendito político

quando deixarás de dar

ao teu povo pão e circo?

 

 

                                         * * *

 

 

Referência

 

Costa, Craveiro. A Conquista do Deserto Ocidental. Brasília: Ed. Brasiliana, 1973.

Tocantins, Leandro. Formação Histórica do Acre I e II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

Potyguara, José. Sapupema: contos amazônicos. Rio de Janeiro, 1942.

Meira, Sílvio de Bastos. A Epopéia do Acre. Rio de Janeiro: Record: 1964.

 

Imagens: IBGE e Site Tarauaca.com



segunda-feira, 20 de abril de 2009

A voz que vem da floresta

Dym Gomes,

Um cantor da floresta

 

 

O Acre é um recanto de talentos. Tudo aqui é tão Acre mesmo, como nos diria o saudoso Zé Leite. Ainda não temos um ritmo musical que nos identifique como tais, assim como o Amazonas tem o Boi-bumbá, o Pará o ritmo quente do carimbó, etc. Os espaços para a música regionalista são poucos, como pouco também são os artistas com temática local.  Muitos esbarram na falta de apoio, por questões financeiras ou mesmo por não conseguir espaço nas mídias, sobretudo nas rádios e TVs, que absorvem toda sua programação na propagação dos artistas da massa e do momento. Raras são as rádios que tem na sua programação um programa dedicado exclusivamente à música regionalista.

Na contramão desse movimento, surgem artistas como Alberan Morais, voz firme da Terra da Farinha, Cruzeiro do Sul, Auricélio Guedes, Magno Valença, na capital, ou mesmo Dym Gomes na Terra do Abacaxi Grande. Artistas que voltam-se para sua gente, sua terra, sua cultura.

Dym Gomes é um artista genuinamente de alma acreana. Nascido em Tarauacá, suas músicas estão entre um ritmo de brega pop e um ritmo regional próprio. O seu primeiro trabalho foi produzido em Manaus, onde morou por alguns anos. Com o título de "Cabeça de Abacaxi", nome de uma das músicas do Cd, Dym chegou ao topo das paradas na região de Tarauacá. Há uns três anos atrás lançou um novo Cd intitulado "A Dança do Mariri", com músicas inéditas e outras do primeiro trabalho. Destaque para as músicas que se voltam para a região, com ênfase na cultura dos povos indígenas e da floresta.

Dym ao longo destes anos tem lutado para conseguir patrocínio e apoio para a manutenção e divulgação de seu trabalho. Mas não tem sido nada fácil, vez por outra encontra alguém que lhe patrocina a tiragem de determinadas quantidades de seus Cds, que ele mesmo divulga e vende.

Ao reencontrá-lo no início deste ano, ele me falava de seu plano de retornar a Manaus para fazer um tratamento nas cordas vocais, prejudicadas devido a um assalto onde foi vítima de agressão, fato que o tem prejudicado nas suas apresentações. Todavia, as adversidades não tiraram seu sonho de continuar cantando e produzir novos trabalhos. Ele é um artista simples, daqueles que tem o talento, mas não como custeá-lo. É um artista de resistência ao modelo dominante, como tantos outros ocultos e desconhecidos por esse brasilzão maravilhoso, mas imprescindíveis.

Da mesma forma como admiro Vivaldi na música Clássica, Raulzito no Rock ou Mercury no axé, também admiro com a mesma presteza os artistas de minha terra, não pelo simples fato de serem da terra, mas porque eles ajudam a manter nossa identidade e a preservar aquilo que chamamos de memória.

É por isso que apresento o Dym a vocês! Divulgue nosso pop da floresta.



A Dança do Mariri - Dym Gomes