sábado, 14 de março de 2009

SEJA HOMEM E NÃO ME SIGA



J. Wolfgang Goethe é um dos maiores nomes da literatura mundial. Em 1774 Goethe lançava “Os sofrimentos do jovem Werther”, a obra mais emblemática de uma época de transição entre valores aristocráticos, nas artes e na sociedade, e o nascente poder da burguesia, que buscava afirmar sua visão de mundo e consolidar uma nova estética.

“Seja homem e não me siga.” O sucesso junto ao público e o efeito do romance “Os sofrimentos do jovem Werther”, relançado numa versão revista e definitiva em 1787, foram tão estrondosos que o autor se viu levado a introduzir em edições posteriores essa advertência de não confundir a vida com a ficção. É que vários de seus leitores mais empolgados tinham resolvido imitar a ação do herói de pôr fim aos tormentos de sua paixão amorosa através do ato de meter-se uma bala na cabeça – não antes sem cuidar da devida auto-encenação, que consistia em se vestir, como o modelo, de paletó azul e colete amarelo, conforme ressalta o crítico literário Willi Bolle.

Os Sofrimentos do jovem Werther narra o desenrolar de um drama íntimo, de uma paixão irrefreável cujo limite é a morte. Nas cartas que o protagonista envia ao seu melhor amigo, confidenciando-lhe o seu amor pela bela Charlotte, encontra-se também a descrição de uma nova sensibilidade, a da burguesia, que se contrapunha ao mundo de regras pedantes e artificiais da sociedade aristocrata. O tom intimista que caracteriza o romance, além da poeticidade raramente alcançada em obras de ficção, também garantem seu lugar como precursor do moderno romance psicológico, assim como fez Hermann Hesse na obra “O Lobo da Estepe”. Abaixo transcrevo um excerto do romance:


10 de maio

Uma serenidade maravilhosa apoderou-se de todo o meu ser, semelhante às doces manhãs de primavera que venho saboreando intensamente. Estou sozinho, e felicito-me por viver neste lugar, feito para as almas como a minha. Sinto-me tão feliz, meu caro amigo, ando tão inteiramente absorto no sentimento de uma existência tranqüila, que minha arte sofre com isso. Seria incapaz de desenhar agora um simples traço a lápis e, apesar disso, nunca fui tão excelente pintor. Quando o vale gracioso exala em torno de mim uma névoa repleta de fragrâncias, o sol do meio-dia repousa no obscuro inviolável da floresta, e somente alguns raios esparsos penetram o interior do santuário; quando, estendido sobre a relva espessa, perto do rio que flui, descubro rente à terra mil variedades de plantinhas; quando sinto, mais próximo de meu coração, o fervilhar desse pequeno mundo entre os arbustos, as figuras inúmeras, infinitas, dos vermes e dos insetos; quando sinto, enfim, a presença de Deus Todo-Poderoso, que nos criou à Sua imagem e semelhança, e o sopro do Seu amor infinito, que nos dirige e nos sustenta, embalados numa alegria eterna. Meu amigo, se o dia começa a raiar à minha volta, se o mundo que me cerca e o céu inteiro descansam no meu peito como a imagem de uma bem-amada, então suspiro e digo para mim mesmo: “Ah! Caso pudesse se exprimir, caso pudesse passar para o papel o que em você sente viver com tanto ardor e tamanha abundância, de forma que ali estivesse o espelho de sua alma, como sua alma é o espelho de Deus infinito!...” Ah, meu amigo... Mas me sufoco, esmoreço diante da magnitude dessas visões.

Referência e sugestão:
Os sofrimentos do jovem Werther de J. Wolfgang Goethe. São Paulo: Nova Alexandria, 1999.
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