quarta-feira, 10 de junho de 2009

Richard Rorty: filósofo da cultura

"Mas é revoltante pensar que nossa única

esperança de uma sociedade decente consiste

em amolecer os corações auto-satisfeitos de

uma classe que se dedica ao lazer."

Richard Rorty

 

Pensar filosoficamente não é atributo exclusivo do filósofo nem tampouco de quem estuda filosofia. Por longos séculos, a filosofia foi vista como a mãe de todos os saberes e nessa condição, inúmeras tradições filosóficas, encerraram-na numa espécie de redoma de cristal, sendo alcançada apenas por nobres espíritos que por meio de pensamentos altamente elaborados atingiam a Verdade.

O pensamento filosófico de Richard Rorty (1931-2007) caminha na contramão da tradição que busca uma verdade redentora, uma essência real das coisas, um meta-vocabulário ou um vocabulário ideal que contenha todas as opções discursivas genuínas. O trabalho rortyano de crítica estende-se para incluir ainda a filosofia analítica contemporânea, e quer conduzir ao abandono, tanto do modo antigo (metafísico), quanto moderno (epistemológico), de fazer filosofia. Isto é, na proposta "não-fundacionista" de uma filosofia trazida inteiramente para dentro do mundo (de nossas práticas), como interpretação e como formação (ou edificação), e não mais como uma espécie de "dona da razão".

Rorty pertencia à tradição neo-pragmatista norte-americana e foi um dos mais importantes filósofos contemporâneos. Uma das características mais marcantes de sua reflexão intelectual é a capacidade de construir diálogos entre tradições filosóficas que costumam ser tomadas de modo independente, e sugerir leituras tão inovadoras de outros autores que a história das idéias e o mapa dos problemas filosoficamente relevantes se vê redesenhado.

Para Rorty, é necessário redescrever a filosofia e sua tarefa, na qual ela aponte para um horizonte de utopia e esperança liberal, de cultura aberta, onde a imaginação seja valorizada como caminho poético para a construção de um futuro diferente, aceitando radicalmente a contingência e a finitude. Sua proposta de filosofia é de uma filosofia da cultura, para a qual o filósofo deve estar disposto a dialogar com as várias áreas das chamadas ciências humanas, principalmente com a literatura e a história.

Segundo Rorty, devemos evitar encapsular a filosofia como muitos pensadores têm feito, por isso, se faz necessário mudar a concepção a respeito da utilidade da filosofia. Isso será alcançado, se algum dia o for, por um longo e lento processo de mudança cultural, ou seja, de mudança no senso comum, mudança nas percepções disponíveis para ser impulsionadas por argumentos filosóficos. Nesse sentido, é que Rorty sugere abandonarmos a terminologia absoleta da filosofia, pois ela progride ao se tornar não mais rigorosa, mas mais criativa. Abandonar essa terminologia absoleta, segundo Rorty, torna-nos mais sensíveis à vida ao nosso redor, pois nos ajuda a parar de tentar cortar materiais novos, recalcitrantes para atender a antigos padrões.

Como pragmatista, Rorty bebe bastante do pragmatismo de John Dewey que ressaltava que a filosofia não pode oferecer nada mais que hipóteses, e essas hipóteses têm valor apenas à medida que tornam as mentes humanas mais sensíveis à vida ao seu redor. Isso leva Rorty a dizer que o progresso filosófico ocorre à medida que encontramos uma maneira de integrar as visões de mundo e as percepções morais herdadas de nossos ancestrais às novas teorias científicas ou às novas teorias e instituições sociopolíticas ou a outras inovações.

Nossa relação com a tradição, ressalta Rorty, precisa ser uma nova escuta do que já não pode mais ser ouvido, ao invés de um discurso sobre o que ainda não foi dito. Para ele, a glória do pensamento de um filósofo não é a de que ele inicialmente torna todas as coisas mais difíceis, o que não deixar de ser verdade, mas a de que no fim o filósofo torna as coisas mais fáceis para todo mundo. Rorty pensa na superação da tradição da metafísica Ocidental que faz alusão a Uma Descrição Verdadeira e que exibe o padrão subjacente à aparente diversidade.

Rorty pretende, de certa forma, uma literalização da filosofia, pois ele a ver apenas como mais um gênero literário. A proposta de Rorty é que possamos escrever sobre filosofia de modo não-filosófico, chegar a ela a partir do exterior, ser um pensador pós-filosófico. A grande crítica de Rorty a filosofia é que ela muitas vezes tornou o filósofo insensível para perceber o mundo a sua própria volta. O que é cômico em nós, ressalta Rorty, é que estamos nos tornando incapazes de ver coisas que qualquer outra pessoa pode ver – coisas como o aumento ou a diminuição do sofrimento – à medida que nos convencemos de que essas coisas são "meras aparências". É como se a reflexão filosófica tivesse tornado o homem inapto para o mundo. 

Por sua vez, a literatura tem desempenhado um papel imprescindível para a reflexão moral. Para Rorty, a literatura, e não a filosofia é a única capaz de promover a verdadeira noção de solidariedade humana, pois as palavras de romancistas como George Orwell e Vladimir Nabokov foram mais eficazes na tentativa de nos sensibilizar diante da crueldade que as indagações de inúmeros filósofos. Ele afirma que narrativas dramáticas podem muito bem ser essenciais para a escrita da história intelectual. Em vez do filósofo, Rorty pensa no romancista como aquele capaz de nos sensibilizar para os casos de crueldade e humilhação que muitas vezes não percebemos.

A reflexão filosófica elaborada por Richard Rorty é imprescindível a todas as pessoas interessadas em filosofia contemporânea e no que ela pode fazer pelo mundo moderno. Rorty transita muito bem entre as diversas tradições filosóficas, com leituras totalmente originais acerca dos mais diferentes pensadores, fato que torna o seu pensamento um dos mais combatidos e apreciados na atualidade.

 

Referências e sugestões:

RORTY, Richard. Contingência, ironia e solidariedade. (Tradução Vera Ribeiro). São Paulo: Martins, 2007.

RORTY, Richard. Verdade e progresso. (Tradução de Denise R. Sales). Barueri, SP: Manole, 2005.

RORTY, Richard. Ensaio sobre Heidegger e outros: escritos filosóficos (2). (Tradução de Marco Antônio Casanova). Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.

ARAÚJO, Inês Lacerda. Castro, Susana de (orgs). Richard Rorty: filósofo da cultura. Curitiba: Champagnat, 2008.

SOUZA, José Crisóstomo de (org.). Filosofia, racionalidade, democracia: os debates Rorty & Habermas. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
 

 

Isaac Melo



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