quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O SOL DE CADA UM

O sol é o mesmo em todo lugar. O que o torna diferente é a maneira como cada um o enxerga. Não há poesia mais bela que um pôr-do-sol, escrita por Deus por sobre as copas das árvores ou por sobre as curvas das montanhas, e declamada no canto suave dos pássaros que vão repousar ao abrigo do horizonte.
Oferto aos amigo/as esta poesia em imagens do pôr-do-sol da pacata e bela cidade de Palmas de Monte Alto (Bahia), meu novo lar. São imagens captadas por lentes de fotográfica simples, por mim feitas, na qual luz e emoção são apreendidas!









"É morno o pôr-do-sol no cerne dos queixumes,
Qual jato de água curvo ao vento, é todo ocioso,
Em mim, o entardecer, fingido e vagaroso,
Brota, descendo sobre os reflexos negrumes."
                                                                   
                                                               Fernando Pessoa

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

AI! QUE PREGUIÇA!...

"Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
- Ai! Que preguiça!..."
Macunaíma é sem dúvida uma das criações mais extravagantes de nossa literatura, digo, mais bem construída e que ainda hoje desafia a crítica literária quanto à sua classificação e linguagem.

Obra-prima de Mário de Andrade(1893-1945), o gênio do Modernismo brasileiro, Macunaíma o herói sem nenhum caráter (1928) continua a intrigar, a abrir caminhos, a ser discutido.

Telê Porto Ancona Lopez é uma das maiores autoridades em Mário de Andrade. É de sua autoria o texto seguinte.

Macunaíma, considerado dentro de um tipo de realismo que lida com o maravilhoso e com o mágico, é uma narrativa linear na medida em que o desenvolvimento de sua ação dramática. As peripécias do herói, vividas num tempo e num espaço mágicos, que absorvem o mito do índio e os mitos do povo como contraponto à mitologia da sociedade tecnizada e de uma cultura colonizada, revelam na construção da narrativa a consciência da exploração do maravilhoso e do mágico, que está, aliás, já na própria criação popular, fonte de Mário de Andrade, autor erudito. Ela é ali a meditação sobre soluções, interrogações sobre o desenvolvimento possível para a ação dramática, sobre a trama ficcional. Ao narrador culto que se faz de rapsodo, interessa “cantar” os “casos”, isto é, os acontecimentos; está preso aos “feitos” e às ações, não ambicionando o esmiuçar de complexidades psicológicas, mas fazendo com que uma psicologia que julga tipicamente brasileira possa ser deduzida a partir da trama.”

Macunaíma  é leitura imprescindível.
O Blog recomenda!


Referência e sugestão:
ANDRADE, Mário de. Macunaíma o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1989.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

DISTINÇÃO DE UTOPIA, IDEAL E QUIMERA

Isaac Melo***
Utopia não é um desses países idílicos onde mulheres nascem em árvores, onde existem cisnes com cabeça de mulher, formigas-cavalos...

Definir utopia é tarefa que requer muito cuidado. Dessa forma, cabe-nos indagar o que seria utopia e mais propriamente a utopia de Morus. Segundo Lopes (2004), toda utopia representa uma contradição com as condições objetivas da existência, vinculando-se também ao mundo moral, transcendendo o seu momento histórico, tendo caráter de transformação e, por isso, propõe uma ordenação das estruturas sociais e das condições materiais de sua existência. Sendo assim, a utopia nasce de uma sociedade da qual ela é uma resposta. No entanto, faz-se necessário distinguir utopia de ideal, pois, o ideal reenvia sempre, de um modo ou de outro, para certas tendências do vigente, enquanto, que a utopia é completamente outra e repetição de uma base a partir da qual constrói a sua identidade.

Segundo Lacroix, a Utopia tem vocação de ser ideal, apenas quando a realização projetada de um conceito pensado como imagem estimula a ação real, ou seja, torna-se paradigma da ação, ou aquilo que pode desencadear uma ação. Lacroix afirma: “Se a Utopia é um ‘Ideal’, é então como ideia da razão, que só tem ser individual numa existência sensível possível” (LACROIX, 1996, p.99), o que para ele, é imaginariamente formulada na Utopia. Todavia, segundo Lacroix, ideal não num sentido kantiano, pois, o modelo como ideia da razão, não tem existência empírica possível para Kant, o que tornaria inviável como ideal, mesmo pela via do imaginário. Seria apenas, fora do sentindo kantiano que, portanto, é ao mesmo tempo “modelo” (ideia) e “exemplo” que utopia é um “Ideal” que pode motivar e regular a ação. Mas, ideal utópico como existência suposta, que só pode ser pensado imaginariamente.

A Utopia de Morus, que é contemporânea de O Príncipe de Maquiavel, por longo tempo, não foi lida como orientação pragmática e não teve o status de texto teórico, devido, inclusive, a seu caráter especulativo. O que é curioso notar, é que, o Contrato Social de Rousseau é uma concepção que projeta no passado a origem da sociedade, enquanto, a narrativa utópica projeta no futuro a possibilidade de sua realização ideal. Mas se ambas as explicações são míticas e provocadas pelo presente, porque, é então, que o Contrato Social é habitualmente tido como parte integrante da teoria social, ao passo, que a Utopia é menosprezada como ficção? Fica o registro apenas, pois não é mérito deste trabalho adentrar nesta questão.

Outro aspecto que é necessário ressaltar, é que Utopia não pode ser encarada como uma quimera, pois não é possível nenhuma fantasmagoria em Utopia, pois não se trata de imaginar monstros ou outros prodígios no delírio de uma produção sem regra nem verossimilhança, expressiva, transbordante, expansiva, de uma proliferação indeterminada. Para Lacroix, a quimera, figura de alhures, é de fato utopista pelo fato de que, por meio dela, se percebe o processo de destruição / reconstrução que leva de um mundo real a um outro mundo real (suposto). Mas Utopia não é uma quimera: ela é (imaginariamente) o tempo do processo, ou seja, uma nova realidade cuja essência aparece diretamente na existência. Segundo ele, a Utopia se dá pela via do imaginário, e é com ela que Morus faz Filosofia. Ressalta Lacroix: “Há, pois aqui uma ruptura com as representações fantásticas das Terras Desconhecidas propostas na Idade Média e que, à sua maneira, estimularam o espírito de descobrimento das grandes navegações” (LACROIX, 1996, p.65). O que para Lacroix confirma, então, que a Utopia não é um desses países idílicos onde mulheres nascem em árvores, onde existem cisnes com cabeça de mulher, formigas-cavalos, legumes alados, como era comum nos conteúdos da História verdadeira.


REFERÊNCIAS

MORE, Thomas / Utopia. Org. George M. Logan, Robert M. Adams; tradução Jefferson Luiz Camargo, Marcelo Brandão Cipolla. – 2 ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999;
LACROIX, Jean-Yves. A Utopia. Tradução Marcus Penchel; revisão técnica Geraldo Frutuoso. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996;
POLESI, Reginaldo. A Razão como Base para a Formação Moral em Tomas Morus na obra a Utopia (Monografia); Curitiba-PR: 1995;
OLIVEIRA, Renato José de. Utopia e Razão: pensando a formação ético-política do homem contemporâneo. – Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.
LOPES, Marcos Antônio. Uma história da idéia de utopia: o real e o imaginário no pensamento político de Thomas Morus (artigo). – Londrina: Ed. UFPR, 2004.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

ENTENDA MELHOR UTOPIA

Isaac Melo***

Utopia é a cidade perfeita criada por Thomas Morus (1478-1535). Para fundamentar e estruturar a sociedade perfeita de Utopia, Morus se utiliza da reta razão, que é a faculdade que habilita os homens a distinguirem entre o bem e o mal com clareza intuitiva, isto é, a apreenderem a lei natural. Desta forma, defende a tese da primazia da razão, da lei natural, comum a todos os homens, que pode ser descoberta pela razão. Como todas as leis estão escritas na natureza, basta, com o uso da razão, lê-las para saber quais são os princípios morais e políticos que regem a natureza humana.
Mapa do que seria a ilha de Utopia imaginada por Morus.

A Utopia está inserida no contexto do Renascimento: desenvolvimento de novos conhecimentos e técnicas; período dos descobrimentos, das descobertas das novas rotas para o Oriente e da expansão europeia que alteraram a percepção dos homens do século XVI; e um campo fértil para o desenvolvimento de sonhos e mundos imaginários. Com o Renascimento adveio uma nova cosmovisão, fazendo a cultura política europeia tomar várias direções, inclusive a Inglaterra que apresentava um quadro sombrio da situação econômica e social, desgastada pelos impostos, pela miséria e pelos ladrões. A grande crítica de Morus era à esta sociedade que criava os seus próprios ladrões para depois executá-los. Morus, desta forma, parte da análise da sociedade e do momento em que vive, para compor sua obra.

As utopias, e de forma especial as do século XVI desejaram fazer o que era exagerado e o que contrariava frontalmente as duras regras da vida real, refletindo um forte pessimismo em relação ao presente e uma grande esperança no futuro. Lopes (2004) afirma, que a literatura criou uma infinidade de paraísos terrestres em que a vida era cor-de-rosa, onde só havia lugar para a diversão, a música e o amor. Refletindo, assim, a dimensão que as utopias tinham ganhado naquele momento da história renascentista, expressado tanto pelas artes quanto pela literatura. Neste sentido, pode-se dizer que as utopias representaram os anseios dos homens pobres do Renascimento e uma recusa, por meio da imaginação, da precariedade da vida. Ou até mesmo como uma compensação que opõe à fome e à pobreza, o luxo e a abundância de alimentos.

No entanto, na outra margem daqueles que pensaram utopias como fuga e compensação da realidade, encontram-se aqueles, que preferiram conceber sociedades perfeitas, utilizando-se da imaginação sem dúvida, mas tendo como base boa dose de pragmatismo e razão na construção da república ideal para o gênero humano, onde o trabalho assumia um papel relevante nessa nova concepção de utopia, contrária às anteriores. É neste gênero de utopia, que se inscreve a Utopia de Morus, uma mordaz crítica das questões sociais de sua época. Nela, Morus pretende eliminar a distância social entre as classes abastadas e os numerosos pobres de seu tempo. Na Utopia moreana, o problema da exclusão social seria resolvido definitivamente pela quebra da existência de privilégio e pela atuação de todos no trabalho, sendo todos os bens produzidos socialmente repartidos em igual proporção entre todos os habitantes. Com isso, sobraria mais tempo para o homem cultivar as virtudes do espírito por meio da leitura e reflexão.


REFERÊNCIAS

MORE, Thomas / Utopia. org. George M. Logan, Robert M. Adams; tradução Jefferson Luiz Camargo, Marcelo Brandão Cipolla. – 2 ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999;
LACROIX, Jean-Yves / A Utopia. Tradução Marcus Penchel; revisão técnica Geraldo Frutuoso. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996;
LOPES, Marcos Antônio. Uma história da idéia de utopia: o real e o imaginário no pensamento político de Thomas Morus (artigo). – Londrina: Ed. UFPR, 2004.

P.S. Este texto faz parte do artigo intitulado "A RAZÃO COMO BASE FORMADORA DO IDEAL POLÍTICO DE UTOPIA DE THOMAS MORUS", apresentado em 2007 na PUC-PR. Por ser longo, será postado em partes.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

SOBRE O SENTIDO DA EXISTÊNCIA SEGUNDO NIETZSCHE

Dra. Inês Lacerda Araújo***


Trágico, esse é o conceito que melhor explica o modo como Nietzsche (1844-1900) entende o sentido da existência. Os seres humanos ao longo de sua história inventaram valores que oscilam entre a aceitação, a abnegação, a renúncia, o conformismo e a fraqueza de um lado, e de outro lado a não aceitação, deplorar e renunciar a todos os valores de obediência, a todas as regras herdadas e não avaliadas, à humildade hipócrita, ao "eu sou bonzinho". E por que?

É que a primeira atitude, a do conformismo, é a daquele que encontra desculpa para tudo, ele se justifica apelando para sua "natureza" boa, ele é o cordeiro que o lobo irá engolir.

O animal que representa a outra atitude, a de reavaliação permanente dos valores, sem precisar de nada superior, ou natural, ou inconsciente para justificar sua existência, é a da águia. Ela contempla do alto, não rasteja. Em seu ciclo vital a águia se refugia para se renovar, arranca as penas, as garras e, por último cai o bico. Ela espera que penas, garras e bico renasçam para alçar voo novamente.

O trágico está nessa reavalição dos valores pela "Vontade de Poder". Se eles foram inventados por circunstâncias simplesmente humanas, então devem e podem ser rediscutidos. Se é tudo obra humana, então tudo pode ser reinventado. Trata-se da "genealogia" (um tipo de historicidade) de todos os valores, eles se constituem enraízados nas mais diversas práticas, como, por exemplo, nas trocas, nos mitos, nos hábitos. Não são eternos e nem universais.

O homem novo, o super homem, é forte, ele ama a vida, comemora-a, vive e se alegra com isso. O crepúsculo dos deuses significa a vida do novo homem. Assim, há que comemorar o estar aí, com a vontade como fortaleza, sem curvar sua espinha, altivo.

"Um novo orgulho ensinou-me o meu Eu e eu o ensino aos homens: não deveis mais esconder a cabeça na areia das coisas celestes, mas mantê-la livremente: cabeça terrena, que cria ela mesma o sentido da terra" (Assim falou Zaratustra)

*

*** INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, doutora em Estudos Linguísticos (UFPR), professora aposentada do departamento de filosofia da UFPR e do programa de Mestrado da PUC-PR. Autora dos livros: Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem; Foucault e a crítica do sujeito; Introdução à Filosofia da Ciência, dentre outros. Em 2009, lançou seu blog FILOSOFIA DE TODO DIA.


P.S. Aos caros amigo/as leitore/as de Alma Acreana peço desculpas, pois não está sendo possível atualizar o blog diariamente, motivos é internet fora do ar ou muito lenta e para completar, meu computador está no conserto e o pen-drive com meus principais documentos e fotos, esqueci no Acre.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

SABER VIVER

Cora Coralina***

Não sei... se a vida é curta
ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos
tem sentido, se não tocamos
o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira, pura...
enquanto durar.




***CORA CORALINA (Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas) nasceu na cidade de Goiás, GO, em 20 de Agosto de 1889. Mesmo sendo uma mulher simples, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular, dos becos  e ruas históricas de Goiás.