quarta-feira, 31 de março de 2010

DOROTHY STANG

Narrativa da morte de Ir. Dorothy Stang, por Binka Le Brenton.
Dorothy se voltou para ir, e Eduardo acenou. Rayfran puxou a arma. “Irmã!”, ele gritou.

Dorothy se virou e viu a arma. Ficou ali parada um instante, paralisada. “Meu Deus!”, disse a si mesma. “Ele realmente quer me matar.”

“Bem, senhora, ela o ouviu dizer, se não resolvermos este assunto hoje, não resolveremos mais.”

[...]

“Não faça isso”, ela dizia para Rayfran. “Não atire em mim.”

Rayfran ficou tenso. “Tira a mão da sacola!”, ele gritou. “É uma arma o que você tem aí ou o quê?”

“Eu não tenho arma”, ela respondeu em sua voz suave. “Minha única arma é esta.” E ela tirou sua Bíblia e a abriu calmamente.

Rayfran e Eduardo a observavam, hipnotizados. Detrás da árvore, Cícero fechou os olhos e rezou uma breve oração. Aproveitando-se de reservas que ela nem sabia que tinha, Dorothy leu com uma voz equilibrada: “Abençoados são os puros de coração, pois eles verão a Deus. Abençoados sãos os dóceis, pois eles herdarão a terra. Abençoados são os que têm fome e sede de justiça...”

Ela fechou a Bíblia e olhou nos olhos de Rayfran. Eles estavam duros como uma rocha. “Bem, senhora”, ele lhe cuspiu, “chega disso.”

O silêncio da floresta foi rompido por um tiro e Dorothy caiu por terra. A última coisa que viu foram as botas de Rayfran, de pé, esvaziando o tambor de seu revólver. Tudo ficou preto.

Os dois matadores se viraram sem uma palavra e correram para dentro da floresta. Cícero segurou a respiração e os observou enquanto partiam, e então, soluçando, correu na direção oposta o mais depressa que seus pés podiam levá-lo.

Houve um silêncio absoluto e então começou a chover sobre o corpo de Dorothy deitado na estrada, misturando seu sangue com o barro vermelho do chão da floresta.


BRETON, Binka Le. A Dádiva Maior. São Paulo: Globo, 2008.
Fotos: CNBB

terça-feira, 30 de março de 2010

FESTA NO SÃO FRANCISCO

Não é Páscoa ainda, mas já pode dizer Aleluia!, pois depois de longas e longas décadas a Ponte de Malhada foi finalmente inaugurada nesse último domingo (28) pelo governador da Bahia. A ponte recebeu o nome do autor de Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa, e cruza o Rio São Francisco interligando a cidade de Malhada a Carinhanha, e tem 1.098 m de extensão.
Cidade de Malhada às margens do Rio São Francisco
A ponte recebeu o nome do grande escritor Guimarães Rosa
A ponte a estirar-se por sobre o Rio São Francisco
Dizem as más línguas que a ponte liga lugar nenhum ao nada.
Uma placa para não passar despercebido por Malhada, terra do Xaxá.
Que belo!
A obra é, de fato, gigantesca!
O presidente não pode está, fisicamente, presente, mandou seu sósia!
Xô, coisa ruim!
Era tanta gente que até parecia a subida da rampa de Aparecida.
Pensa num sol quente!!!...
E o povo lá!
Olha aí os primeiros carros a cruzar a ponte!

segunda-feira, 29 de março de 2010

CONCEITO DE JUSTIÇA

Profª. Inês Lacerda Araújo


A cada crime, a cada ato de violência, ouve-se "Queremos justiça!". Trata-se da justiça obtida pelo direito, que é muitas vezes precária, lenta, cheia de percalços. Condenar o culpado é tudo o que se requer para que a justiça se estabeleça. Isso basta?

Justiça pode ser entendida como um valor, aliás, para Platão, ela é a virtude mais preciosa para a realização política na polis. A cidade ideal é aquela em que as pessoas têm um papel, uma função, cada um ocupa seu lugar no todo segundo sua capacidade. Artesãos, guerreiros, governantes têm suas funções específicas e realizam um tipo de valor: os primeiros realizam a virtude da temperança, da moderação, sua alma é sensitiva; os guerreiros defendem a cidade, sua virtude é a da coragem; os governantes devem ser sábios, sua virtude é a da sabedoria. Justiça é uma decorrência dessa distribuição.

O conceito de justiça que mais usamos na modernidade não é o distributivo e sim o equitativo. Ela é para todos, e todos ganham o mesmo quinhão.

Evidentemente isso não funciona, há diversidade enorme de gostos, de educação, de projetos pessoais. Governo algum consegue distribuir tudo a todos da mesma forma. E se por acaso o fizesse, teria que ser impositivo, totalitário, ter mão de ferro para que uns não quisessem também o que caberia ao outro.

Um conceito mais interessante e viável é o de um filósofo norte-americano, Richard Rorty (1931-2007), de justiça como lealdade ou solidariedade alargada. Para ele não há uma moral universal, não há regras morais que devam ser seguidas por todas as culturas. Ele sugere que em algum lugar, de alguma forma, entre as crenças e desejos compartilhados deveria haver recursos que permitissem a convivência, a convivência sem violência.

Como aplicar isso a palestinos e israelenses, por exemplo? A aproximação deveria permitir que cada um desempenhasse seu papel, seu destino político sem que nenhuma das partes pretendesse impor-se ou arvorar-se em ter razão, ser superior ou alegar direito inconteste.

Alargar a lealdade que se tem com seu amigo, seu familiar, ao outro, ao outro lado da fronteira, ao diferente de nós. Isso seria praticar justiça.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora e organizadora, entre outros, de Temas de Ética (Editora Champagnat - PUCPR, 2005)

UM ACREANO PARA SER LEMBRADO

ARMANDO NOGUEIRA
(14.01.1927 - 29.03.2010)
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Reproduzo a seguir uma das crônicas de Armando Nogueira publicada neste blog alguns meses atrás.
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O NOME NA PEDRA...

Armando Nogueira *


Eram dois bons amigos. Jogavam futebol todo dia. Ambos atacantes, ambos igualmente bons de bola. Viviam numa fraternal tabelinha, dentro e fora de campo. Tão amigos eram que chegaram a selar um pacto: quem morresse primeiro teria que dar ao outro, com freqüência, notícias lá de cima. Um dia, lá se foi o Amaro, surpreendido no contra-pé por um infarto fulminante, mal saíra de uma pelada.

Passam-se os anos. Amaro não dá o menor sinal de vida – melhor, de morte. Lúcio, cá na terra, já tinha até esquecido um pouco o amigo. Tanto tempo. Cinco anos depois, uma noite, voltando de uma pelada, cai-lhe do céu a voz amiga do Amaro. Batem um papo. Lúcio vai logo contando as boas novas: está namorando uma loura, um avião. A pelada está cada vez melhor e a saúde nem se fala. Saúde de ferro. Lúcio confessa-se em lua-de-mel com a vida.

– Por falar em pelada – disse Amaro – tenho duas notícias pra te dar: a primeira é que vamos inaugurar um campinho aqui no céu. É uma beleza. Grama celestial. Um brinco. Dá gosto de jogar num campo assim.

– E a outra notícia? – pergunta, ansioso, o Lúcio.

– A outra, amigo velho, é que vamos voltar a jogar juntos. Eu vi lá teu nome lá na pedra. Tás escalado na ponta-esquerda do meu time. E o jogo vai ser semana que vem...


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REFERÊNCIA E SUGESTÃO
NOGUEIRA, Armando. O canto dos meus amores. Rio de Janeiro: Dunya Ed., 1998.


* Obs.: ARMANDO NOGUEIRA é acreano de Xapuri. Jornalista, escritor, apresentador, considerado um dos maiores cronistas do esporte brasileiro. No Acre, como reconhecimento pelo seu trabalho, seu nome foi dado a uma das escolas modelos do Estado. Aos amantes do esporte, sua leitura é imprescindível. Acesse aqui o site de Armando Nogueira.

quinta-feira, 25 de março de 2010

O CAPÍTULO ACREANO NA VIDA DE EUCLIDES DA CUNHA


Isaac Melo**


“Alimento, há dias, o sonho de uma viagem ao Acre”

Euclides da Cunha
em carta a Luiz Cruls, em 1903.

 
Em dezembro de 1904, em plena selva amazônica, iniciava-se uma expedição não menos digna de uma epopeia. A frente dela estava o prosador de Os Sertões, a comandar a Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, numa viagem que se estendeu até novembro de 1905. O olhar aguçado, a pena pertinaz e a visão plenamente humana de Euclides da Cunha resultariam numa das páginas mais abrilhantadas das letras amazônicas, que até hoje impressiona pela sagacidade e força telúrica.

A assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903, põe fim, em parte, o conflito que se estendera desde 1898 pela posse das terras então ocupadas por brasileiros, o Acre, restabelecendo assim a paz entre os seringueiros acreanos e os bolivianos. Todavia, um outro impasse surgia. O governo do Peru reivindicava grandes áreas no Alto Purus e Alto Juruá, inclusive estimulava a ocupação do território, mesmo que tardiamente.

Depois de discussões diplomáticas entre esses países resolveu-se criar uma comissão mista que iria percorrer todo o Purus para reconhecimento da região e a partir daí delimitar as respectivas fronteiras. O governo brasileiro, por meio do Barão de Rio Branco, nomeou Euclides da Cunha para integrar e chefiar a comissão; por sua vez, o governo peruano nomeou Pedro Buenaño, um sujeito não muito cortês com os brasileiros e que passou toda a viagem a provocar Euclides. Ao todo integravam a Comissão 14 brasileiros (ao término 9 apenas) e aproximadamente 21 peruanos.

Os ardis do caminho fizeram da expedição uma espécie de epopeia moderna. Além de suportar as provocações de Buenaño que se faziam constantes, Euclides e sua equipe enfrentaram um naufrágio, fez grande parte da viagem doente, tiveram que arrastar dias por dias as ubás com as quais tiveram que transpor mais de 74 cachoeiras, e por fim, dias de caminhada mata adentro. Soma-se a isso, o iminente perigo de a qualquer momento ser atacados por índios que habitavam aquela região.

A expedição se saíra perfeitamente bem. Sobretudo, graças aos esforços e inteligência de seu chefe. Como resultado, o Departamento do Alto Acre não sofreu diminuição alguma, os do Alto Purus e Alto Juruá perderam apenas as zonas meridionais, sem prejuízo nenhum para o Acre, uma vez que nunca, de fato, ocupou essas áreas.

Pode-se dizer que o mais interessante em uma viagem não é a partida nem a chegada, mas o seu ínterim. Durante a expedição Euclides absorveu-se à paisagem, para produzir as páginas talvez mais sugestivas e originais que se tenha escrito sobre a Amazônia, como assinala Leandro Tocantins. Seus olhos arregalados contemplam e entendem melhor a paisagem que se vai desenrolando como se fosse uma gigantesca tela de cinema operado em câmera lenta.

Tantos exploradores e cientistas já haviam galgado aquelas paragens, mas só ele, nas palavras de Tocantins, podia ver e interpretar aqueles furos, aquela flora, aqueles rios, aquelas ilhas, aquelas águas, aqueles lagos, de forma até então desconhecida na Literatura. Ele via e pressentia coisas fora da órbita do homem comum.

Ao olhar para o homem que ali se instalou, Euclides diz que este “é ainda um intruso impertinente” numa selva em que desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana. Todavia, esse inferno verde que parecia para sempre impenetrável, ver insurgir em seu seio uma sociedade de caboclos titânicos no desejo “civilizador” de constância e continuidade da cultura. As gentes que a povoam, assinala Euclides, talham-se-lhe pela braveza. Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na.

E, numa visão de homem que está além do seu tempo e de sua cultura, afirma que os sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores empresas destes tempos. Estão amansando o deserto. Ali, diz ele, se cria uma nova sorte de exilados (o exilado que pede exílio). E denuncia o sistema de escravidão que se implantara: o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se. E verifica-se que não é o clima que é mau, é o homem, pois ali ele criou a mais imperfeita organização do trabalho que foi capaz o egoísmo humano.

Para Euclides, o povoamento do Acre foi um caso histórico inteiramente fortuito, fora da diretriz do nosso progresso, em que faltou desde o princípio acompanhar não só a marcha lenta e progressiva das migrações seguras, como os mais ordinários resguardos administrativos. E responsabiliza o Governo Federal, cuja única preocupação dos poderes públicos consistia em libertá-las quanto antes daquelas invasões de bárbaros moribundos que infestavam o Brasil, isto é, livrar dos grandes e importantes centros urbanos os flagelados das secas. E para isso, abarrotavam-se, às carreiras, os vapores, com aqueles fardos agitantes consignados à morte para a Amazônia.

Todavia, aqueles que haviam sido expatriados dentro da própria pátria com a missão dolorossíma e única de desaparecerem, não desapareceram. Ao contrário, acentua Euclides, em menos de trinta anos, o Estado que era uma vaga expressão geográfica, um deserto empantanado, a estirar-se, sem lindes, para o sudoeste, definiu-se de chofre, avantajando-se aos primeiros pontos do nosso desenvolvimento econômico.

Segundo Euclides, realizou-se no Acre a chamada “seleção telúrica”, isto é, a selva só concedeu o direito da existência aos que lhe afeiçoaram. Isso cheira a darwinismo e com razão. Em todas as latitudes, acentua ele, foi sempre gravíssima nos seus primórdios, a afinidade eletiva entre terra e o homem. Por isso, a cada deslize fisiológico ou moral antepõe-se o corretivo da reação física: a eliminação generalizada dos incompetentes.

Por fim, Euclides se volta para o ser humano que para ali se trasladou: os homens são admiráveis. Vimo-los de perto, conversamo-los. Guardamos-lhes os nomes e apelidos bizarros. O clima aí exerceu uma função superior na formação desse homem, pois exercitou uma fiscalização incorrutível, libertando o território de calamidades e desmandos, que seriam muito maiores e piores do que aqueles que por lá ainda se fizeram sentir por muitos anos. Esse clima, diz Euclides, eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte. E arremata, e é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons.



REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAR:

CUNHA, Euclides da. À Margem da História. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
TOCANTINS, Leandro. Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

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Euclides num grupo a caminho do Alto Purus com dedicatória aos familiares, [1905].
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Euclides num grupo a caminho do Purus, Comissão do Alto Juruá, 1905.
Reprod. da Revista do Livro, n. 15, set. 1959. Coleção Juan Carlos.
Publicada originalmente em Fon-Fon! RJ, ano 5, n. 18, 6 maio 1911.
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Euclides saltando de uma canoa, com a cabeça protegida dos piuns por um capuz improvisado, 1905.
Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido, Rio de Janeiro, Record, 1968.
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Euclides em banquete com os peruanos, oferecido na casa comercial de C. Sharf. Curanja, [03 jul. 1905].
Euclides está sentado ao lado do chefe da comissão peruana, Pedro Alejandro Buenaño, que está na cabeceira da mesa.
[A data, 03. jul. 1905, foi extraída de um trecho não oficial do relatório, escrito pelo próprio Euclides. Entretanto, no “Diário da Marcha”, escrito sob a sua supervisão, está registrada a data de 30 de junho de 1905, tendo o almoço sido servido às 11 horas. O escrevente do “Diário” tinha liberdade de expressão, mas Euclides corrigia alguns deslizes à margem].
Reprod. de Leandro Tocantins, Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido. Rio de Janeiro: Record, 1968. Acervo da Mapoteca do Itamaraty.
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barracão Liberdade, no Alto Purus (nota de Euclides da Cunha).
Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
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batelão Manoel Urbano antes de afundar (com nota de Euclides da Cunha).
Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
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flotilha da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus (com nota de Euclides da Cunha).
Reprod. de Euclides da Cunha, O Rio Purus, RJ, SPVEA, 1960. Arquivo Histórico do Itamaraty.
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P.S. Imagens retiradas do site dedicado exclusivamente a Euclides da Cunha. Acesse: www.euclides.site.br.com. O site é excelente, completo!

quarta-feira, 24 de março de 2010

SIGNOS E CORES

ISMAEL MARTINS, artista plástico. Natural de Tarauacá, Ismael já expôs sua obra em diversos lugares, tendo participado da exposição Artistas Brasileiros - Novos talentos, em 2008 na capital federal. Possui um talento raro, como todo autodidata, genial.

Atualmente está com a exposição "Misturas e Cores" no Palácio da Justiça, em Rio Branco, de 03 a 31 de março.

Saiba mais aqui.

Signo Leão
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Signo Virgem
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Signo Câncer
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Signo Áries
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Signo Libra
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Signo Escorpião
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Signo Sargitário
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Signo Gêmeos
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Signo Capricórnio
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Signo Aquário
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Signo Peixe
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Signo Touro


Imagens: Ismael Matins Artes (Blog Índios e Cores)

terça-feira, 23 de março de 2010

SEI LÁ SE ISSO É FILOSOFIA...


Pensar é um ato eminentemente doador de sentido. E uma das coisas mais fascinantes e intrigantes do ser humano. O mundo tem sentido porque nós damos um sentido a ele (!?). Qual é o sentido das coisas? Uma pedra é preciosa porque atribuímos a ela um valor, um significado, um sentido. Senão, seria aquilo que ela é, pedra. Sem juízo de valor.

Porém, as coisas não possuem sentido por si mesmas?

Se nós deixássemos de existir, decerto, as coisas persistiriam. Mas, que sentido teriam? Elas nos dão sentido ou nós a elas?

Pensar é uma coisa que não compreendo. Não compreendo porque, paradoxalmente, penso. E se não pensássemos? Haveria a noção de tempo? O mundo seria uma pedra preciosa sem ninguém para apreciá-la (!?). Pensar continuar a ser a coisa mais natural. E tudo que é natural trás em si algo de misterioso. Sei lá se isso é filosofia...

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P.S. Dr. Cleverson taí o resultado de ter me deixado em Lógica. Bem feito! Rsrsrs

segunda-feira, 22 de março de 2010

SOBRE ACASO, DESTINO, SORTE E AZAR

Profª. Inês Lacerda Araújo


É frequente ouvirmos "estava escrito", "era o destino". Ou "hoje é meu dia de sorte" e também o inverso "hoje tive azar".

Como entender o tempo? O futuro? Se algo está escrito nas estrelas, então pode ser que tudo esteja escrito e pré-determinado.

Mas não é bem assim, temos liberdade para agir, para decidir, podemos planejar. Quando o planejado não dá certo costumamos atribuir a "culpa" ao misterioso, ao desconhecido, ao azar, ao acaso. Quando o planejado dá certo, consideramos que nós somos os responsáveis!

Não é estranho pensar dessa maneira?

Há diversas séries de acontecimentos, e elas se entrelaçam e deságuam no acontecimento x ou y. Se isso nos favorece, achamos que foi sorte. Se não favorece chamamos de azar.

Acontecimentos que se entrelaçam por causas diversas, em momentos diversos e que culminam em certo momento, podem ser o que chamamos de acidentes, uns felizes outros não...

Se houvesse destino, algo marcado para acontecer, não poderíamos mudar nossos percursos, e mudamos, ainda bem. O que não podemos mudar, aquilo em que não podemos interferir são as séries de acontecimentos aleatórios, ocasionais, fortuitos. Um terremoto, um galho que cai, a existência do universo, a evolução da vida na Terra. Podemos nos defender com prédios mais seguros, ficando abrigados numa tempestade, fazendo modificações genéticas.

Mas isso não elimina a incerteza, mesmo com todos os dispositivos de prevenção e de segurança, o futuro nos inquieta e amedronta. Vêm daí os mitos, os deuses, as promessas, as tentativas do dominar o acaso. Esses recursos podem até nos consolar, nos distrair por um momento, criar a ilusão de que somos eternos e incólumes.

Em vão.

Enfim, há três tipos de fenômenos: os que estão fora de nosso alcance, insondáveis; os fenômenos causados direta ou indiretamente pela nossa ação; e aqueles em que podemos influir, um enorme espaço de criação e liberdade, que só encontra limite na nossa humana forma de ser e de agir.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora, entre outros, de Do Signo ao Discurso: introdução à filosofia da linguagem  (Editora Parábola, 2008)

sexta-feira, 19 de março de 2010

A TEMPESTADE

Gibran Kahlil Gibran

O pássaro e o homem têm essências diferentes. O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas; o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.

Acreditar é uma coisa; viver conforme aquilo que se acredita é outra coisa. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes; mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.

A civilização é uma árvore idosa e carcomida, cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas são a infelicidade e o desassossego.

Deus criou os corpos para serem os templos das almas. Devemos cuidar desses templos para que sejam dignos da divindade que neles mora.

Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis, de suas tradições e de seu barulho.

Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.

Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira dourada e seus ouvidos com falsas promessas. Os sacerdotes aconselham os outros, mas não se aconselham a si mesmos, e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.

Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vã. As descobertas e invenções nada são senão brinquedos com que a mente se diverte no seu tédio. Cortar as distâncias, nivelar as montanhas, vencer os mares, tudo isto não passa de aparências enganadoras, que não alimentam o coração nem elevam a alma.

Quanto a esses quebra cabeças, chamados ciências e artes, nada são senão cadeias douradas com as quais o homem se acorrenta, deslumbrando com seu brilho e seu tilintar. São os fios da tela que o homem tece desde o início do tempo sem saber que, quando terminar sua obra, terá construído uma prisão dentro da qual ficará preso.

Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...

É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma. Quem o sente, não o pode expressar em palavras. E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.

Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.


GIBRAN, Kahlil Gibran. Todo Gibran. Seleção e tradução Mansour Challita. Rio De Janeiro: Associação Cultural Internacional Gibran.

terça-feira, 16 de março de 2010

A SAUDADE...

Profª. Luísa Galvão Lessa


Tanta gente indaga se é verdade que saudade é uma palavra que só existe em Língua Portuguesa?! A verdade é que ela aflige o coração de tantas pessoas, pelo que carrega de significação. Mas possui etimologia incerta. Suas formas arcaicas são "suidade, soedade e soidade", na fase do galego-português. Teria vindo, talvez, de "soledade", solidão. Também foi levantada a hipótese de vir de "salutate", uma saudação bastante usada nas despedidas das cartas romanas. Até a influência de "saúde" já foi aventada. A dificuldade de explicar a mudança fonética fez João Ribeiro (grande estudioso da Língua Portuguesa) opinar que saudade tem origem no árabe "saudá", significando profunda tristeza. Outra possível hipótese, presumidamente fantasiosa, é ter derivado de "Ceudda", forma berbere de dizer Ceuta, fortaleza distante onde os soldados passavam longos tempos ausentes da terra natal.

De fato, essa palavra carrega mistérios, encantos, nostalgia. Talvez por essa multiplicidade significativa, essa indefinição que envolve o sentido que transposta, sobre ela há tantas definições: Sentimento mais ou menos melancólico de ausência, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo; nostalgia ou afastamento de um lugar ou de uma coisa; ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados, por alguns, como bens desejáveis; lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta; pesar pela ausência de alguém que nos é querida. Como sinônimos ela tem duas palavras: Lembrança e Nostalgia.

Para os gramáticos consultados, saudade é substantivo abstrato, tão abstrato que só existe na língua portuguesa. Os outros idiomas têm dificuldade em traduzi-la ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J'ai regret (francês) e Ich vermisse dish (alemão). No inglês há variadas tentativas para dizê-la:: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país); longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância). Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o sentimento das pessoas que falam o português. São, apenas, tentativas de determinar um sentimento que nós mesmos não sabemos, com exatidão, como defini-lo. Não é apenas um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem. É, principalmente, uma característica cultural daqueles que falam o idioma de Camões.

Independente de origem etimológica, o fato é que essa palavra mora na alma brasileira. Saudade não tem cor, mas pode ter cheiro. Não podemos ver nem tocar, mas sabemos o quanto é grande. Pode ser o sentimento que alimenta um relacionamento amoroso ou apenas o que sobra dele. Pode ser uma ausência suave ou um tipo de solidão. Pode ser uma recordação daquele momento e daquela pessoa, que um dia, mesmo sabendo ser impossível, ousamos querer reviver e rever. É a dor de quem encontrou e nunca mais voltará a encontrar, de quem sentiu e nunca mais voltará a sentir. Assim, a saudade se combina com outros sentimentos e procria-se. A soma da saudade com a solidão é igual à Dor. O resultado da saudade com a Esperança é a Motivação.

Leia o artigo na íntegra, A saudade que habita a alma luso-brasileira, aqui.


**LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 na Academia Acreana de Letras. É acreana de Tarauacá.

segunda-feira, 15 de março de 2010

FOGO MORTO


"Mestre José Amaro, Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, Major César de Holanda Chacon. Três brasileiros: o amargo artesão, de quem se dizia ser lobisomem, o quixotesco cavaleiro andante, primo pobre de latifundiários, e o física e moralmente decadente senhor de engenho. Juntos constituem o retrato do declínio de uma época. Mais do que três heróis fracassados, esta obra-prima do romancista paraibano José Lins do Rego trata da não modernização de alguns engenhos, no ciclo da cana-de-açucar. Quando isso acontece, é fogo morto."

Flora Christina Bender Garcia
Doutora em Teoria Literária

sexta-feira, 12 de março de 2010

SOBRE AS COISAS SIMPLES DA VIDA

Profª. Inês Lacerda Araújo


Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático (cerca de 540-470 a. C.), ficou famoso pela afirmação de que tudo muda, a cada vez que alguém se banha em um rio, as águas não são mais as mesmas, a pessoa já não é mais a mesma. O elemento primordial, aquele de que tudo é feito, a causa de tudo é o movimento, tal como o do fogo, incessante. Ele era famoso como pensador, admirado pela sua sabedoria. Era até mesmo arrogante, preferindo viver isolado. Morreu com hidropisia, como os médicos não conseguiam retirar a água de seu ventre, ele mesmo se fechou em um estábulo, cobriu-se com esterco imaginado que pudesse secar a água (!), mas acabou morrendo ...

Perguntado por que muitas vezes ele se calava, respondia "Para que vocês possam tagarelar". Dizia que a felicidade não residia nos prazeres do corpo, se residisse, "diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer". O equilíbrio de todas as coisas se acha na luta dos contrários, no ser e não ser de todas as coisas.

Conta-se que certa vez foi procurado por estrangeiros, que foram visitá-lo em busca de respostas para as questões mais nobres da filosofia. Encontraram-no junto ao fogão, se aquecendo, e se espantaram por ver um sábio em uma situação comum. Ao que ele respondeu: "Junto à lareira também habitam deuses".

Nas mais simples e cotidianas tarefas, "se manifesta algo de natural e de belo", completa Heráclito.

É possível encontrar harmonia, satisfação e plenitude nos atos mais banais. Muitas vezes a filosofia serve para isso, para ver o que está diante de nossos olhos e não buscar o inalcançável quando o sentido e a completude estão à nossa mão.
 
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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora, entre outros, de Foucault e a crítica do sujeito (Editora UFPR, 2008)

terça-feira, 9 de março de 2010

NADA MELHOR



Para fazer pessoas ninguém ainda não
inventou nada melhor que o amor:
Deus ajeitou isso pra nós de presente.
De forma que não é
aconselhável trocar
o amor por vidro.



Manoel de Barros
in O Fazedor de Amanhecer

BANDEIRA DO ACRE



É verde
É Amarela
Tem uma estrela vermelha
Tem a cor da vida
Tem a cor da floresta
Tem a cor do sangue derramado
Os acreanos se orgulham de te
Gostam de te ver
lá no alto
balançando ao toque do vento
Tu és a esperança
de um povo lutador
de um povo que é herói


*Luciane Morais, estudante universitária do curso de Geografia. Escreve em OLHAR ACREANO* PERCEPÇÕES LITERÁRIAS E GEOGRÁFICAS.

sábado, 6 de março de 2010

[quase] DO JEITINHO QUE DEUS CRIOU!


– Conte-nos como é o Acre, meu rapaz.

– Oh, senhora. Quando o Senhor Deus criou o mundo, fez um pedacinho bem caprichado. Colocou ali a melhor terra, as árvores mais altas, os rios mais lindos, as frutas mais saborosas, o clima mais gostoso, os pássaros e animais mais variados. E pensou: vou colocar esse lugar bem longe, para amostra, quando daqui milhões de anos os homens tiverem transformado o resto do mundo em deserto. É o Acre. Está lá, do jeitinho que Deus criou.

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Trecho do romance “O Talismã das Amazonas” (Iluminuras: 1988), do paulista Dirceu Borges. Um romance muito interessante (não por causa do trecho acima), que revela muitos aspectos da cultura e custumes do Acre. Quase todos os romances sobre o Acre exploram a questão da revolução acreana ou relacionados ao ciclo borracha. Esse é excessão. Estou a preparar uma resenha do livro. Não é que acreano seja convencido, mas o trecho acima está bem a nossa cara! (risos...)

P.S. Foto tirada a partir da janela da casa de minha mãe, no rio Tarauacá-Ac.

sexta-feira, 5 de março de 2010

HISTÓRIA ACREANA: O HOMEM QUE DESAFIOU RUI BARBOSA

Isaac Melo**


Se se diz que a história acreana é um poço de bravura e teimosia, não duvide. A verdade é que grande parte da história do Acre ainda está por vir à tona. Há muitos personagens e fatos que ainda estão a dormir o sono do esquecimento.

Rui Barbosa, um dos maiores gênios intelectuais que este país já produziu, é de todos conhecido. Orador brilhante, jurista impecável, advogado completo, escritor exímio. Gumersindo Bessa, jurista sergipano, nem tanto. O que cruzou o caminho desses dois homens, um já consagrado, outro ignoto? A questão acreana.

Logo após a anexação das terras acreanas ao Brasil, iniciou-se uma intensa discussão em torno de questões jurídicas. Ora, o Acre naquele período era um grande produtor da hevea brasiliensis, ou seja, grande gerador de riquezas advindas da borracha. Os governos cobravam altas taxas alfandegárias sobre o produto. Para se ter uma ideia a renda acreana era uma das maiores do Brasil. Em síntese, quem tivesse o domínio do Território acreano estaria com seus cofres bem nutridos.

O Estado do Amazonas, que não era besta, vendo ali uma galinha de ovos de ouro entrou com uma ação no Supremo Tribunal contra a própria União Federal que também reivindicava a posse do Território. Naquele momento o Acre juridicamente, não pertencia nem à União nem ao Amazonas. Por sua vez, o Amazonas se julgava com pleno direito às terras acreanas setentrionais, uma vez que sempre ambicionara incorporar o Acre ao seu território, e estava disposto a defender com unhas e dentes aquelas terras que sendo já brasileira antes do Tratado de Petrópolis “necessariamente se havia de achar no Estado do Amazonas”.

Ora, para tal empreitada o Estado do Amazonas tomou nada menos que Rui Barbosa, então Conselheiro do Tribunal, para advogar a seu favor no litígio levantado contra a União. O exaustivo levantamento de leis, conforme assevera Sílvio Meira, documentos, dados históricos, geográficos, cartográficos, transforma as Razões Finais de Rui Barbosa num monumento de sabedoria, de erudição, de clarividência, um exemplo extraordinário de peça jurídica da lavra de um advogado completo, sem igual.

Note que, diante desse amplo embate jurídico, não se discute os direitos dos acreanos, mas quem de direito o devia possuir, isto é, a quem pertenceria o domínio de suas terras. Esse debate já havia se tornado nacional, levado a público pela imprensa brasileira a todos os Estados. É aqui que Gumersindo Bessa cruza o caminho de Rui. Surge então, o espontâneo “defensor dos acreanos”. A 31 de janeiro de 1906, em Aracaju, Gumersindo Bessa leva a público o seu “Memorial em Prol dos Acreanos Ameaçados de Confisco pelo Estado do Amazonas na Ação de Reivindicação do Território do Acre”, documento composto de 20 páginas. “Quem era aquele defensor gratuito dos bravos acreanos, filho do nordeste, que, como cavaleiro medieval, se armava para entrar na luta contra um homem da estatura intelectual de Rui Barbosa?”. Gumersindo Bessa, nas palavras de Sílvio Meira, era um homem de província, de alto merecimento. Não se tratava de um aventureiro, nem de algum audacioso escriba do pequenino Estado, mas de um jurista de real merecimento, tocado do sentimento natural de defesa de uma causa que lhe parecia nobre.

Rui Barbosa, até então, havia se recusado a tomar parte nas inúmeras polêmicas levantadas pelos jornais acerca do tema, como foi o caso do Jornal do Comércio, que tinha publicado uma série de artigos acrimoniosos de autoria do Dr. Orlando Correia Lopes, outro personagem principal do pós-revolução acreana. Todavia, ao Memorial de Bessa Rui considerou-o digno de receber uma resposta. A partir daí, sucederam-se oito artigos de Gumersindo, com oito respostas de Rui Barbosa. Apesar da grande competência de Bessa, seus argumentos não foram fortes o bastante no embate contra Rui. Nada, porém, como assevera Sílvio Meira, garantirá tanta a lembrança ao nome de Gumersindo Bessa, que a honra de haver debatido a causa do Amazonas com o imortal brasileiro e haver merecido de Rui uma resposta, que é uma lição permanente de direito e de estilo.

Por fim, dessa lição todos nós tomamos parte. Embora saibamos que, para o Acre, o sergipano Gumersindo Bessa meio que incorporava os interesses da consciência acreana, a reivindicar sua autonomia e seus direitos, até então, ignorados pelo Estado Brasileiro. Por um momento, os acreanos era aquele homem, um espinho a cravar na carne daqueles que reivindicavam para si o destino de um povo, à semelhança de quem reivindica a posse de um brinquedo qualquer...




REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAR:

BESSA, Gumersindo. Memorial em Prol dos Acreanos Ameaçados de Confisco pelo Estado do Amazonas na Ação de Reivindicação do Território do Acre. Rio de Janeiro: Typ. Do Jornal do Commercio: 1906.
BARBOSA, Rui. O Direito do Amazonas ao Acre Setentrional. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1984. (Vol. XXXVII, tomo V; Vol. XXXVII, tomo VI)

quinta-feira, 4 de março de 2010

NÃO! EU NÃO QUERO ESSE JESUS!

José de Anchieta Batista**


"Recebestes de graça, dai de graça." (Mateus: 10,8);
"... o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça." (Mateus: 8,20)


Não! Eu não quero esse Jesus!
Esse aí nunca foi o Nazareno...
Seu sermão da montanha é pelo avesso...
Esse aí jamais viveu na Galiléia,
nem sequer visitou Jerusalém...
Esse aí não conheceu Pôncio Pilatos,
nem ao Gólgota jamais ele subiu.

Não! Eu não quero esse Jesus!
Não quero ser mais hipócrita do que sou!
E se me fiz um "sepulcro caiado",
eu não quero crescer em podridão!
Livra-me, ó Cristo, dessa "raça de víboras",
desses "lobos em pele de cordeiro",
desses vis salteadores,
desses autênticíssimos fariseus!
- Não quero ser mais mau do que já sou!

Não! Eu não quero esse Jesus,
ó malditas aves de rapina,
ó malditos estelionatários!
Numa suntuosidade anticristã,
sois vós os próprios "vendilhões do templo"!
Por que tanto abusais da ignorância
daqueles a quem Cristo mais amou?
Ah! Bem sabeis em vossa vilania,
que esse "cristo" que vendeis,
aos incautos,
aos inocentes,
aos desesperados,
é uma mercadoria
tão falsa quanto vós!

Não! Eu não quero esse Jesus!

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** JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA é poeta, autor de "Menino da Rua do Bagaço". Nascido em Teixeira na Paraíba, reside desde a década de 80 no Acre. Possui uma extensa ficha de trabalhos prestados ao Estado do Acre. Atualmente é Diretor-Presidente do Instituto de Previdência do Estado do Acre.