segunda-feira, 31 de maio de 2010

PEDAÇOS DE VIDA E DE MUNDO

Comentário a “Menino da Rua do Bagaço”

Isaac Melo**

O crítico, nas palavras de Oscar Wilde, é aquele que traduz de uma nova maneira ou em um novo material a sua impressão de beleza. É o que se pretende neste texto. A crítica, no cânone tradicional, se volta para explicar o verdadeiro sentido dos livros (linguagem, estilo, estrutura...) ou em avaliar algo que se costuma designar por “mérito literário”. Não é essa a pretensão aqui, até porque nos falta competência para tal. Se apreendermos o desdito, aquilo que é dito aparecerá por si só. Antes da obra interessa-nos o poeta, antes do poeta, o seu ato criador.

O Acre esconde um passado literário expressivo com cronistas, contistas, poetas, romancistas... que extrapolaram as fronteiras amazônicas e por força de seus escritos irromperam no cenário nacional. Mas, quando muito se fala do passado tende-se a negligenciar o presente. Hoje é necessário que se diga que a produção literária, no Acre, se acentua cada vez mais. Que dizer de um Sílvio Martinello com seu “Corações de Borracha”, de um Clodomir Monteiro com seu “Derroteiro de Rotinas”, uma Florentina Esteves com “O Empate”, um Moisés Diniz com seu “O Santo de Deus”... para citar os primeiros que me acorrem a memória. São obras, sobretudo, que ampliam as perpectivas para a formação de uma literatura que extrapole as fronteiras do regionalismo, embora, sem deixar, necessariamente, de absorver elementos regionais. Novos tempos pedem novas formas de se escrever.

Ainda recente veio a lume “Menino da Rua do Bagaço” (Rio de Janeiro: Publit, 2009) sem grandes alardes e modestamente, tal qual seu autor, José de Anchieta Batista. E, nesse sentido, recordo Milan Kundera que dizia que os romancistas que são mais inteligentes que suas obras deveriam mudar de profissão. É o que penso em relação aos poetas. O chão que pariu Anchieta Batista já pariu outros José’s ilustres como José Lins do Rego e José Américo de Almeida. Filho de Teixeira, o menino serelepava pelo chão árido do sertão até um dia resolver buscar os verdes mares. Entre idas e vindas, outro sertão, agora d’água, lhe cruza o caminho, é o Acre onde resolve aportar e no qual permanece até hoje. Foi professor durante anos, presidente de diversas estatais e secretário de estado de administração. O atual Diretor-Presidente do Instituto de Previdência do Acre é na verdade um exímio poeta, que ao juntar pedaços de vida e de mundo fez com eles uma singular poesia.

Menino da Rua do Bagaço não é fruto do ardor literário juvenil, já é obra amadurecida, embora sabendo que esta obra madura seja expressão do menino que nunca morreu no poeta. Não é preocupação do poeta fazer um mergulho às profundezas existenciais nem escalar os altos píncaros em busca da verdade. Antes vai à vida, à infância, ao amor, aos causos. Escreve o que sente, sente o que vive.

O livro apresenta, sobretudo, os seguintes esquemas de rimas: 1-2/3-4; 1-3/2-4; 1-4/2-3... Grosso modo, se poderia enfeixar Menino da Rua do Bagaço em três temáticas principais. O primeiro com poemas que faz um movimento memorialístico às reminiscências: “Mas que bom que voltasse o tempo antigo / E eu voltasse de novo a ser menino”. O poeta revisita o cenário em que nasceu e cresceu, faz referências a lugares, como o Rio do Peixe, e a fatos que lhe ocorreram na tenra idade. Não se trata de saudosismo, é antes, a saudade tal como ela é: “É um rio que nunca seca nas saudades que há em mim”.

No segundo momento, aparecem os poemas de cunho social, com mordaz crítica às injustiças sociais, à classe política e aos usurpadores da religião. O grito é de alerta, de revolta e não de desespero: “Que tempo nos sobrará, / para nos nossos anseios / ainda ouvir os gorjeios / de um último sabiá?”. Longe de professar o ateísmo o poeta lança seu grito contra aqueles que se utilizam da religião a seu bel-prazer e acabam deturpando as diversas práticas religiosas e a própria imagem de Deus. Por isso, o poeta confessa: “Já não tenho mais medo de Deus” e o Deus ameaçador e castigador da infância cede lugar a um Deus mais humano, à luz de um homem maduro: “O Cristo só me serve de exemplo enquanto homem. Eu não posso imitar um Deus”.

Poemas que retratam o Acre encerram o conjunto dos temas principais. Aqui o poeta narra fatos da política acreana, situações cômicas, etc. muitos dos quais registrados em certo jornal da época. Destacam-se, nesse sentido, os textos em prosa, permeados de humor e ironia, como é o caso de “Doutor Honoris Causa”.

Não há verdadeiro poeta sem sua amada. Se Dante imortalizou Beatriz em suas páginas, Anchieta Batista o faz em relação à Glads, esposa amada. Pois em seus versos, o amor é praticamente sinônimo de vida: “Eu sinto que amo! / Eu sinto que vivo!”. É esse amor-matriz que o move a outros amores, que lhe dá a sensibilidade de poeta e o olhar crítico sobre o mundo.

O poema “O adeus do gari”, um dos poemas mais profundos que já li, justamente por desnudar de forma tão humana, verdadeira e sem enfeites o destino de um homem, pode ser entendido como uma metáfora da própria condição humana. Não é um apelo social, é uma indagação pela nossa própria humanidade, se é que ainda a temos: “E em busca do lixo, / Morreu na avenida... / Levando os seus sonhos, / Partiu desta lida, / Num trágico adeus / Aos lixos da vida”.

Drummond tem um verso em que diz que certos papéis são sensíveis, certos livros nos possuem, tal é o que me ocorre em relação a “Menino da Rua do Bagaço”. Desde quando ele chegou às minhas mãos percebi que não era uma obra qualquer, porque o seu autor confirma por meio de seus versos que somente o amor torna o homem necessário neste mundo. É um livro que não serve apenas ao deleite humano, mas nos restitui um pouco de nossa humanidade perdida. E, parafraseando o crítico espanhol Juan Dolent, àqueles que me disserem: “É estranho como você elogia sempre os livros de seus amigos!” O que, prontamente, respondo: “Entede-se, pois sujeitos que escrevem livros ruins não se encontram entre os meus amigos”.

domingo, 30 de maio de 2010

ATÉ QUANDO?

José de Anchieta Batista


Por quanto tempo estes sóis
Estas nuvens, estes mares,
Estes rios, estes ares,
Hão de existir para nós?

Que tempo ainda resta
Para que o último vivente
Respire avidamente
A última porção de ar?

Quanto tempo ainda resta
Para que esteja caída
A última folha sem vida
Da derradeira floresta?

Que tempo nos sobrará
Para nos nossos anseios
Ainda ouvir os gorjeios
De um último sabiá?

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- BATISTA, José de Anchieta. Menino da Rua do Bagaço. Rio de Janeiro: Publit, 2009.

- Foto: Celi Aurora

sábado, 29 de maio de 2010

DIA BREGA

Rapaz! hoje me deu uma vontade de ouvir um brega. E brega é com esse cara chamado Wanderley Andrade. Baby, baby, baby pode chorar...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

IMPORTÂNCIA DA LÍNGUA NO CONTEXTO SÓCIO-CULTURAL DO MUNDO

Profª. Luísa Lessa**


A vida das pessoas está intimamente associada ao processo de comunicação e aprimoramento da capacidade comunicativa que acompanha a própria evolução humana. À medida que amplia seu relacionamento com o mundo, o ser humano aperfeiçoa e multiplica a sua capacidade de comunicação, envolvendo palavras, sons e imagens. Textos verbais e não-verbais interagem e contribuem para a representação oral e escrita das sociedades.

A língua é um código desenvolvido para a transmissão de pensamentos, idéias e interação entre os indivíduos. Dessa forma, a língua pertence a todos os membros de uma comunidade e a nenhum deles isoladamente. Assim, como a língua é um código aceito, convencionalmente, por toda uma comunidade, um único indivíduo não é capaz de criá-la ou modificá-la. Em razão dos costumes, das gerações, de processos políticos, dos avanços sociais e tecnológicos, uma língua evolui, transformando-se historicamente. Por exemplo, algumas palavras perdem ou ganham fonemas, outras deixam de ser utilizadas, novas palavras surgem, de acordo com as necessidades, sem contar os “empréstimos” de outras línguas com as quais uma dada comunidade mantém contato.

Então, a língua constitui, pois, um código mutável que integra as relações humanas e que, ao mesmo tempo em que sofre modificações, participa das mudanças nas sociedades. Esse patrimônio social é responsável pela possibilidade de se preservar o conhecimento e de transmiti-lo a outras gerações no correr do tempo. É por meio da linguagem que as sociedades perpetuam suas histórias escritas. Sem a linguagem o mundo seria um imenso vazio.

Observa-se, também, uma estreita relação entre linguagem e cultura. Uma é expressão da outra. Essas duas entidades possuem uma relação tão ampla e complexa, que abrange desde a consideração de que as estruturas lingüísticas possam se edificar, a partir de uma situação cultural, até a afirmação, em sentido contrário, de que os costumes lingüísticos, de determinados grupos, tenham moldado, fundamentalmente, a cultura desses povos. Ou seja, a linguagem modifica a cultura e esta modifica aquela.

No entanto, sendo o ser humano portador da linguagem, ele não é dela possuidor, apenas usuário. E, no uso, modifica a língua, mas não a detém para si como algo seu. Isso acontece porque a língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste às pessoas. Não se pode, em qualquer sentido simples, ser autor. Falar uma língua não significa apenas expressar os pensamentos mais interiores e originais, significa, também, ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos no sistema cultural de dada comunidade, sociedade.

Essa relação intrínseca entre língua, cultura, sociedade, constitui arranjo fundamental nas atividades cotidianas de nossas vidas. Dessa forma, as mudanças ocorrem, tanto na cultura quanto na língua, seja por eliminação, acréscimo ou modificação de elementos. Não é uma coisa voluntária, acontece sem que se perceba, de forma ininterrupta. Assim, as pessoas reestruturam aspectos lingüísticos e valores morais, por exemplo, muitas vezes, sem perceber. Mas, para tristeza de muitos, ninguém, isoladamente, modifica uma língua. Ela pertence ao conjunto de falantes e responde por seus comportamentos sociais, culturais, morais, éticos.

Compreende-se, então, que a linguagem é constituída de três formas: a) representação, “espelho” do mundo e do pensamento; b)instrumento “ferramenta” de comunicação; c) forma “lugar” de ação ou interação entre falantes. Ou seja, a principal concepção do ser humano (ser falante) representa para si o mundo através da linguagem e, assim sendo, a função da língua é representar/refletir seu pensamento e seu conhecimento de mundo.

Finalmente, naquilo que diz respeito à sua essência, línguas são fenômenos inerentes ao ser humano e semelhantes a ele próprio: sistemáticos, porém complexos, arbitrários, irregulares, mostrando um acentuado grau de tolerância a variações, repletos de ambigüidades, em constante evolução aleatória e incontrolável. Por isso a linguagem é espelho fidedigno das pessoas. É como diz Fernão de Oliveira (1536), “cada um fala como quem é”.

***
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**LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 na Academia Acreana de Letras. É acreana de Tarauacá.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

FREUD EXPLICA!?

Profª. Inês Lacerda Araújo**


Não, acho que Freud não explica, na medida em que não há o que explicar sobre o comportamento, os desejos, angústias, temores, valores nossos, dos seres humanos. Toda teoria científica com pretensão de explicar, converter, elucidar e pôr um ponto final em nossas interrogações e conflitos, é falha.

Freud contribui com algumas análises interessantes, como a de que o inconsciente move nossas intenções, que ele é inacessível, que não podemos apreendê-lo. Se conseguíssemos atingir os mecanismos psíquicos do inconsciente, é claro que tais mecanismos passariam a ser conscientes. Então temos apenas pistas do que acontece no mais fundo do nosso psiquismo.

Porém, não foi apenas Freud que supôs que algo desconhecido nos move. Hobbes, no século 17 já falava em forças impossíveis de controlar, como o instinto de conservação. Naturalmente egoísta, o homem luta por mais e mais poder, os fracos sucumbem e os fortes sobrevivem.

O que Freud apresentou como novidade foi a teoria da sexualidade. Somos movidos pela pulsão sexual, a repressão da sexualidade explica, inclusive, haver civilização. O inconsciente é movido pela pulsão sexual , esse impulso é inelutável, está presente em todos nós, da mesma forma e desde sempre, tanto na espécie humana, como em cada indivíduo. Mas o tempo todo ele é reprimido pelo nosso eu e pela sociedade.

Há quem conteste. Wittgenstein não aceitou essas ideias. Freud afirma que sonhos são realizações de nossos desejos. Sonhos, diz Wittgenstein, tanto podem proteger nosso sono, como perturbar, podem tanto preencher um desejo, quanto impedir um desejo. Quantos sonhos são terríveis ou prazerosos! Não há uma teoria dinâmica dos sonhos, a psicanálise não é uma ciência: uma teoria científica precisa ser verdadeira ou falsa. As explicações de Freud para as doenças mentais, para a loucura, em nada ajudaram. Pelo contrário. A busca da causa do sofrimento psíquico na vida sexual da criança, além de não se justificar (todas as crianças teriam um mesmo complexo, todas odiariam ou amariam seu pai ou sua mãe - mas isso é estranho, não?), nada explica sobre doença mental, o sofrimento psicológico. Além disso, diz Wittgenstein, qualquer idiota apela para essas pseudo-explicações, e eu acrescentaria, com o ar de quem entende, decifra e aposta que anos no divã podem reconciliar a pessoa com seus problemas!

Foucault também critica Freud, não por afirmar que desejos nunca são supridos, nem pela teoria do inconsciente, mas pela teoria da repressão sexual. Para Foucault a sexualidade é um dispositivo histórico, cultural e não biológico, instintivo. Foi inventado! Experimente dizer a um budista ou a um muçulmano ou a um cristão que sua vida se reduz à pulsão sexual. Não faz sentido para nenhum deles, e todos vivem muito bem, obrigado. Ou não, mas isso não tem nada a ver com a sexualidade.

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** INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, doutora em Estudos Linguísticos (UFPR), professora aposentada do departamento de filosofia da UFPR e do programa de Mestrado da PUC-PR. Autora dos livros: Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem; Foucault e a crítica do sujeito; Introdução à Filosofia da Ciência, dentre outros.

terça-feira, 25 de maio de 2010

ACREANIDADE E NAZISMO II

Abaixo transcrevo o texto do jornalista e sociólogo Josafá Batista em resposta a meu texto "Acreanidade e nazismo" feito a partir de uma intervenção sua.

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A expressão alemã "nazismo" é na verdade uma abreviação de outra, nacional-socialismo. Este era o nome da filosofia política que dirigia a prática da política alemã durante o 3º Reich. A expressão nacional-socialismo tinha uma dupla função: restringir à Alemanha (à Nação Alemã), como herdeira do Sacro Império Romano, e ao mesmo tempo surgir como alternativa ao internacionalismo socialista da União Soviética. As duas características foram bem expostas na política de Hitler, com oi genocídio a comunistas e minorias étnicas. O comunismo, aliás, era punido com o envio aos campos de concentração mesmo quando praticado entre alemães.

Por isso, a gênese do pensamento nacional-socialista era a grandeza da Alemanha. A própria questão racial, que alguns tentam ver como o núcleo do nazismo, é na verdade um derivativo dessa categoria. As raças impuras deveriam ser eliminadas precisamente porque a glória da expansão nacional-socialista era a glória da expansão germânica, do pensamento germânico, da política germânica, da filosofia germânica etc.

Como isso funcionava na prática?

Primeiro, com a reformulação de todas as ciências. São famosos os estudos de Josef Mengele, por exemplo, sobre as diferenças raciais que dariam aos caucasianos diversas vantagens evolutivas em relação aos não-causasianos, especialmente negros e miscigenados. Tais conceitos não eram restritos à Alemanha, eles influenciaram por muito tempo a política migratória de vários países, como os Estados Unidos, por exemplo, ao longo do próprio século XX (darei no final alguns textos que tratam desta e outras questões relacionadas).

Segundo, com a mitologização da história. A narrativização da história alemã como um fenômeno sui generis da história de todas as sociedades, em todos os tempos. A história alemã contada como sobreposição e até mesmo antagonismo em relação a todas as demais sociedades. Esse talvez seja o ponto mais conhecido e comentado sobre o fenômeno político nacional-socialista, ainda que alguns estudos tendam a descontextualizá-los em relação ao próprio ambiente do século XX, onde floresceram idéias como eugenia e pureza racial, dentre outras. Isto é grave, uma vez que os efeitos devastadores de tais idéias no inconsciente coletivo permanece e invade o mundo da política por meio de fenômenos aparentemente aleatórios, como o racismo, por exemplo.

Terceiro, com um aparato de mobilização midiática, trazendo para a vida política neologismos e discursos até então ausentes na própria vida política. Há toda uma série de palavras, frases, conceitos e até mesmo filosofias novas que foram apregoadas como a redenção de uma Europa moribunda pelo efeito devastador da 1ª Guerra Mundial, num momento em que o epicentro da economia mundial abandonava o Velho Mundo para postar-se do outro lado do Atlântico.

Observe essas três características, o que elas têm em comum? Se fôssemos fazer uma correlação para encontrar uma característica presente nos três processos, a que salta imediatamente aos olhos é a instrumentalização do passado em relação ao presente. Mesmo no terceiro fenômeno, o da mobilização midiática, as novas formas comunicacionais só puderam ser compreendidas e assimiladas porque foram antes resgatadas do remoto passado glorioso do Sacro Império Romano-Germânico, suas ações, seus guerreiros, sua audácia, sua coragem, seu anseio de liberdade, seu exemplo, sua "referência para o mundo" (daí porque, nesse contexto, tudo na vida política tendia a surgir como superlativo: o Grande e Amado Líder, a Pátria-Mãe, os Grandes Guerreiros da Nação Alemã etc).

O que o Acre tem a ver com isso?

Nas últimas décadas do séc. XIX, quando começam as primeiras navegações na Bacia Amazônica, o que ocorre no mundo? A invenção do automóvel e a ampliação dos artefatos de borracha pela grande indústria. Como a vulcanização já havia sido criada em 1839, interessava aos centros produtores de automóveis e pólos industriais de outros setores uma oferta grande e barata de matéria-prima. Estamos falando de Revolução Industrial, um processo imenso de organização das sociedades tendo como epicentro o mercado.

O Acre surge nesse contexto. A ocupação de nordestinos no chamado "primeiro ciclo da borracha" não foi extemporânea. Ela tinha explicações materiais, bases econômicas. Foi em busca de sobrevivência que milhares de pessoas se deslocaram para a Amazônia em busca do chamado "ouro branco", mesmo que esta área não pertencesse ao Brasil - isso já por força de dois tratados internacionais.

Mas não foi só isso. A construção de empreendimentos milionários em plena selva, que criariam uma oligarquia seringalista amazônica, demonstra a estreita necessidade do capital internacional em relação à borracha, que de melhor qualidade só se achava no Acre. Tudo pode ser explicado daí. O Acre não foi o resultado de ações gloriosas de homens abnegados e corajosos. Ele foi um experimento político conduzido meticulosamente por forças políticas que já se apropriavam do excedente da mão-de-obra daqueles mesmos nordestinos migrantes bem antes da chamada "revolução acreana" (o que é um conceito incorreto. Uma revolução ocorre quando um povo entra em guerra contra o seu próprio governo, o que não foi o caso).

As ações de José Carvalho, Ramalho Junior, Luiz Galvez e Plácido de Castro, dentre outros, tinham como lastro a defesa de interesses materiais de âmbito internacional que necessitavam da riqueza acreana ali presente para desenvolver o seu capital. Veja que todos os expedicionários, como Galvez e Plácido por exemplo, foram financiados por governos que não só dependiam do fornecimento dessa matéria-prima como também representavam os entrepostos onde a borracha era despachada para a Europa e os Estados Unidos. O capital ficava precisamente ali, e foi a existência desse capital a responsável pelo status de metrópoles que posteriormente ganhariam as cidades de Manaus e Belém.

Quero acrescentar que não estou negando nem relativizando a importância da mão-de-obra seringueira na construção do Acre. Pelo contrário, a mão-de-obra foi o elemento propulsor de todo o ciclo desenvolvimentista, não só em Rio Branco como também em Belém, Manaus, Rio de Janeiro e exterior). No entanto, vale lembrar que essa força de trabalho subsistia na sua forma fundamental no modo de produção capitalista: submetida aos meios de produção da classe dominante, alienada não somente do seu trabalho, mas do seu mundo, da sua história. Se o modo de produção capitalista reduz o trabalhador à condição de mercadoria o modo de produção seringalista, especialmente no modelo por aviamento, torna o indivíduo uma coisa, um objeto. As implicações severas desse modo de produção para a organização sociopolítica do Acre ainda não foram infelizmente analisadas pelas ciências humanas. Mas também não entrarei nessa lavoura, minha intenção aqui é frisar que foi o trabalho organizado, e não a bravura de heróis remunerados pelo capital oligárquico, o responsável pelo surgimento do Acre.

Entre o Primeiro Ciclo da Borracha e o Segundo Ciclo da Borracha temos um crash espetacular, a migração para as cidades e o desenvolvimento dos chamados "bolsões de miséria". O Acre não desenvolveria uma cultura política, porque não tinha uma: sua população, analfabeta, brutalizada pelas condições de existência na selva, alquebrada pela perda de todas as referências em relação à sua terra natal, foi forjada para a obediência em massa. O governo brasileiro, temendo que as oligarquias seringalistas formadas no primeiro ciclo ganhassem autonomia, inclusive política, resolveu impedir a formação do processo democrático que defendera quando na luta com as forças do antigo Império. Somente em 1962 - já em pleno crash do Segundo Ciclo da Borracha - o Acre conheceria a democracia representativa burguesa, elegendo um governador que seria deposto dois anos depois pelo golpe militar. Somente trinta anos depois haveria eleições.

Escrevi todas essas coisas para ressaltar o seguinte: quais são os elementos de aproximação entre a história de ascensão do nacional-socialismo e a história do Acre?

Em primeiro lugar, o protagonismo das forças políticas dominantes em detrimento das forças produtivas. Nos dois casos não se tratou de revolução popular, mas da atuação conjunta e associada de forças que detém a propriedade dos meios de produção, instrumentalizando o mundo do trabalho para a implantação das suas ideologias de dominação. Assim como a história do nacional-socialismo requer a sujeição e uniformização do pensamento do alemão comum, a história do Acre também requer a substituição do seringueiro - não o drama, mas o trabalho, a realização transformadora sobre a natureza - pela narrativa dos grandes homens, heróis, semideuses, ninfas e sátiros... O professor Marcos Inácio Fernandes, em sua tese de mestrado em Ciência Política pela UFRN, escreveu que o discurso da acreanidade - dos grandes homens que fizeram acontecer na Amazônia - foi durante muito tempo o que tornou possível a união das oligarquias acreanas em relação ao governo federal. Eles reivindicavam autonomia, mas a queriam porque pretendiam criar a sua própria política tarifária em relação à borracha. O governo, evidentemente, negava, e em contrapartida mantia o Acre como território governado por interventores.

Em segundo lugar, a negação do princípio mais básico da história: indivíduos agem no mundo por motivações reais, não por idéias. Se a fé removesse montanhas, os homens não precisariam construir tratores. É o trabalho organizado, disciplinado e conduzido (e numa sociedade capitalista, estranhado) que transforma a natureza para atender às necessidades dos homens, ainda que a existência de tais necessidades seja tomada como a manifestação de uma vontade divina ou mitológica. Esta negação conduz ao erro de se imaginar que a narração da história é a própria história, e que a escrita ou a produção teórica de uma ou várias pessoas não pode ser inevitavelmente explicada pela própria posição de classe de quem escreve ou produz. Esta negação aparentemente ingênua é na verdade o mais explosivo mecanismo de mistificação histórica, uma vez que abre o processo pelo qual se transforma a história em mito, e o mito em narrativa totalitária.

Em terceiro lugar, e de forma bastante aproximada das demais, a invocação do passado como forma de melhorar o presente. Ou, ainda, a transformação do presente numa forma mais evoluída, pormenorizadamente calculada, de uma evolução linear supostamente obtida da glória passada. Evidentemente estamos falando de ufanismo, mas de um ufanismo com função social: é a readequação social, coletiva, a uma leitura específica do que teria sido esta glória do passado. Os perpetradores dessa "releitura" do passado precisam não só abstrair os elementos materiais que propiciaram determinado momento histórico e o papel submisso das forças produtivas, mas também estabelecer a sua narrativa como um valor Universal, como uma bíblia laica.

Por isso mesmo, todo apelo ao passado para justificar ou construir o presente é um apelo conservador. Ao invocar o passado, você mata a dinâmica política, tenta restabelecer determinados recortes de um tempo em um espaço que não é seu e restringe as questões relacionadas às tentativas de libertação social (revolução das forças produtivas) ao espaço da delegacia de polícia. Se o modelo é o passado, a contestação do presente é um crime não só contra o passado, mas também contra o futuro. Nesses termos, a idealização da vida política acaba por mumificar o processo democrático e criminalizar a necessidade de libertação das forças produtivas - foi isso o que criou os campos de concentração alemães e está criando uma horda de historiadores malditos no Acre, hoje (precisamente quando vivemos a exacerbação da narrativa do presente acreano como um feito de heróis dotados de bravura, audácia, coragem etc, precisamente em benefício de um novo discurso político inaugurado pelo governador Jorge Viana, em 1999.

No mais, devo acrescentar que o Estado jamais se fez ausente no Acre. A origem do Acre, ou a "implantação" do Acre (uma vez que tratou-se, como visto, de um experimento de laboratório meticulosamente conduzido pelas forças do capital internacional) necessitou em todas as suas fases do Estado forte, organizado e disciplinado para garantir que os seringalistas tivessem o poder das instituições "democráticas" em seu favor quando, por exemplo, algum seringueiro se negasse a pagar o que devia ao barracão. Nos dois ciclos da borracha, o Estado brasileiro arrecadou enormes somas de dinheiro oriundas da taxação compulsória da borracha. Como estamos falando na Primeira República (o que por si só é um absurdo, pois trata-se de uma República Militar), a destinação desse numerário é algo a ser debitada na rubrica "incerto e não sabido".

Sobre o papel das lutas de classe na formação do Território Acreano, o que posso lhe dizer está subjacente a todo esse texto. Como um dado adicional poderíamos pensar, talvez, no papel socialmente agregador de romances, novelas e narrativas épicas, e pensar se tais coisas não se devem à posição do seu autor, à sua interpretação do mundo que requer - independentemente da sua vontade - determinada posição de classe. Se tais classes são materialmente dadas, se fazem parte do mundo real porque se formam nas ações cotidianas dos homens, nos seus sistemas de necessidades, então penso que este debate precisa ser clarificado.

Veja por exemplo, a história do Acre e a história do Brasil. Tais coisas existem como dados? Ou são reconstruções narrativas de fatos? Se são reconstruções narrativas, são reconstruções de alguém ou de um espírito neutro ex machina? Se são reconstruções de alguém, isto é, de uma pessoa (ou de um grupo de pessoas), tais pessoas constroem as narrativas eliminando (algumas vezes por ignorância, outras por antipatia) determinados elementos da dinâmica material da vida social?

Ora, se isso estiver certo, a narrativa histórica é sempre a narrativa de pessoas com poder de estudar, avaliar, catalogar e eliminar fatos. Logo, a narrativa histórica pertence a pessoas que dispõem de tempo e convicções que atuam sobre o seu produzir, que têm efetividade real.

Por que a história do Acre teria algo a ensinar ao Brasil, se a história do Brasil é um apanhado de tais reconstruções teóricas que ignoram solenemente os elementos de materialidade da vida social que permitem, num determinado tempo histórico, o soerguimento de fatos e processos sociopolíticos? O que haveria para ser revelado na história acreana, senão o fato claro e inconteste de que a nossa história, assim como a "brasileira" (estou tentando compreender o que seria isto), foi construída sobre camadas de mistificação política para favorecer o protagonismo de uma classe social sobre a maior parte da população?

O Acre tem história. A obviedade desta afirmação guarda-se inteiramente no fato inconteste de que no Acre há homens e mulheres com força de trabalho que produziram e ainda produzem a própria história com suas ações. Tanto quanto antes, esta história não é registrada, nem pode ser, porque o poder de sedução da história é o poder das ações positivas dos seus líderes iluminados, que mitologizam a história e a si mesmos para produzir uma sociedade alienada, infantilizada, bestificada e uniformizada.

Este sim é o nosso pior horror.

Josafá Batista.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

JUVENTUDE NAS TERRAS SAGRADAS DO SERTÃO


Com o tema “Juventude: sonhando e suando em marcha contra a violência” jovens de quatro municípios do sudoeste da Bahia (Palmas de Monte, Malhada, Iuiu e Sebastião Laranjeiras) se encontraram na cidade de Sebastião Laranjeiras para discutir o tema. O encontro foi promovido pela Pastoral da Juventude do Zonal 09 da Diocese de Caetité.

O intuito desse encontro foi promover uma reflexão mais aprofundada acerca da violência, sobretudo a que tem atingido a juventude, em suas diversas formas, desde a violência física à violência da falta de emprego e ensino superior; e também promover uma integração maior entre a juventude dessas quatro cidades.
Pejoteiros de Palmas de Monte Alto, no ônibus, a caminho de Sebastião Laranjeiras.
O encontro iniciou-se com a santa missa na igreja matriz de Seb. Larannjeiras.
Juventude, sob as mangueiras, aguardando o ínicio da marcha contra a violência.
Caminhamos do centro da cidade até o local do encontro, percorrendo algumas ruas.
Com faixas, cartazes e cantos a juventude marchou pelas ruas...
Fui um dos palestrantes do encontro, uma vez que sou assessor da Pastoral da Juventude desses quatro municípios.
O encontro além de formação, teve muita alegria e descontração. E não poderia terminar sem festa. É claro!
É hora de voltar...
Mas nada de rosto abatido...
... ainda sobrou forças para cantar algumas músicas populares.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

CAPIONGO: ROMANCE DA AMAZÔNIA ACREANA

Isaac Melo


O romancista não é um historiador nem profeta, assevera Milan Kundera, ele é um explorador da existência. É assim que se apresenta José Inácio Filho, um explarador da existência do homem seringueiro em seu Capiongo. Publicado em 1968, no Rio de Janeiro, Capiongo – Romance da Amazônia Acreana é o único romance de José Inácio Filho. Integra a lista dos poucos romances editados fora do estado, num momento de escassas publicações romanescas na literatura acreana.

Na ordem cronológica das obras do autor, Capiongo é seu segundo livro. A estreia foi com Fatos, Cultos e Lendas do Acre, que veio a termo em 1964, composto por 27 narrativas, que vão desde a descrição de algumas lendas regionais a relatos de alguns animais e aves que povoam o imaginário popular pelo seu caráter supersticioso. Termos e Tradições Populares do Acre, de 1969, uma espécie de dicionário que congrega palavras e expressões típicas do Acre, encerrou a trilogia de livros com temáticas acreanas do autor.

José Inácio Filho reside atualmente no Ceará, onde é membro da Associação Cearense de Escritores. Lançou em Junho de 2009, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura de Fortaleza, o livro de poesia "Canta Musa meus Versus e Rimas", obra que se abre num universo mágico de muitos personagens lendários e de diversas culturas, como Iracema, Uirapuru e o Boto Encantado, etc. Além desses livros, José Inácio escreveu: O bb e eu (RJ, 1975) e Vocabulário de termos populares do Ceará (CE, 2001).

O enredo de Capiongo se desenrola assim: Timbaúba, ou seu Timba como é chamado, é um experiente seringueiro respeitado por todos, muito estimado pelas crianças e que, apesar da idade, ainda desperta a admiração das mulheres. É casado com dona Guarabira, que morre de parto ao conceber seu único filho, Capiongo, cujo nome empresta a esse livro.

Sozinho o velho Timba se casa novamente, agora com dona Bebé das Brecas, esta desde a morte de Guarabira passou a morar com ele, e tomou para si os cuidados para com Capiongo, a quem estima e zela como filho. Capiongo, o filho tristonho das selvas, é como que uma repetição do pai num mundo sem grandes perspectivas e fadado a uma existência afogado na selva. Um dia Capiongo recebe a notícia da morte de seus pais afogados no rio. Agora é o seu drama a desenrolar-se. Tem a vida e os ensinamentos do velho Timba para garantir-lhe a sobrevivência na selva selvaggia.

Capiongo é um romance com características bem diferentes daqueles que comumente tenho me deparado. A maior parte dos diálogos é, paradoxalmente, intimista, isto é, de si para si. E porque não dizer uma obra filosófica, já que discorre a maior parte, não conceitualmente, sobre o sentido da existência humana, onde a luta física travada pelas personagens contra o próprio corpo pode ser entendido como a luta da vida frente às constantes situações de morte. Há certa dose de melancolia na narrativa, mas tão somente devido à melancolia da selva, fruto da monotonia de paisagens, sons e cores.

Há, no romance, um linguajar bem característico do acreano interiorano, com palavras como: mucumbu (anca, traseiro); tibungadas (pular n’água); casco (pequena embarcação feita do tronco de árvores); cangapé (estrepolia, pular); caicos (peixe pequeno); espinhel (instrumento utilizado para pesca atado de vários anzóis); coivara (galhos que não foram de todo queimados em um roçado). E expressões como “espinho que pinica de pequeno já trás a ponta”. São essas peculiaridades que faz com que Capiongo, embora razoavelmente pequeno, mereça figurar entre as obras de relevância literária para nossa história.

É mais uma obra que enriquece nossas letras, de um devotado acreano de Brasiléia, gerado desse chão, dessas águas e dessas matas e que encontrou na própria vida o enredo para muitos das alegrias e dramas de seus personagens. Com seu pequeno romance José Inácio Filho nos colocou frente a frente com um dos maiores e mais intrigantes dramas do ser humano, a morte. Todavia, só está passível de morte aquele a quem foi dado a vida. Esta, longa ou breve, útil ou medíocre, uma vez realidade, não há como negar ou anular seu existir. Escreveu a sua linha no compêndio inacabável do universo.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SUGESTÃO PARA NOVOS IMORTAIS

A Academia Acreana de Letras abriu edital para preenchimento de cinco vagas, para as cadeiras, 10, 17, 23, 25, e 32, como membros efetivos, posições subsequentes, 2, 2, 2, 4 e 3, em linhas horizontais, às dos titulares, saudosos acadêmicos, respectivamente, Geraldo Gurgel de Mesquita, 1, Luiz Cláudio de Castro e Costa , 1, Fernando de Oliveira Conde 1, Fernando de Castela, 3, e Josué Fernandes de Souza 2.

Minha sugestão para novos imortais:

- o autor do Menino da Rua do Bagaço, José de Anchieta Batista;

- e, o escriba de O Santo de Deus, Moisés Diniz.

Dois baluartes das letras acreanas na contemporaneidade. Seus escritos vão da sutileza dos filetes de águas que vazam dos igarapés à impetuosidade da força das águas de repiquete.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O CONCEITO ATUAL DE FILOSOFIA

Profª. Inês Lacerda Araújo**


Desde os primeiros filósofos até o século 19, portanto, até o início da modernidade, a filosofia tinha uma missão de ordenar e de fundamentar todos os conhecimentos. Aristóteles a considerava como a “rainha das ciências”. Para Descartes a metafísica era a raiz do saber. Para Kant a razão era suprema. Desse modo a filosofia poderia ser a base para ciência, a moral, o direito.

Atualmente, a maioria dos filósofos considera que ela colabora com todos os saberes. Não há mais uma concepção dogmática e impositiva: se os conceitos nascem de uma cultura e de uma história, a tarefa filosófica é a de pensar a diversidade das culturas em colaboração com a arte, a moral, o direito, as ciências.

Nossa época, a época da modernidade possui estruturas de racionalidade próprias, como a informação e a ciência; possui uma ética descentrada (não mais ditada pelas religiões), pluralismo de credos e ideias, um saber científico renovável, autonomia na arte e no direito.

A filosofia pode e deve fazer a mediação entre esses saberes, ensejar o diálogo entre eles sem pretender totalizá-los em uma única grande teoria que pudesse explicar o real de modo certo e indubitável.

Essa nova perspectiva leva a filosofia a fazer uma leitura de nossa época e propor caminhos alternativos para que se possa pensar com autonomia, liberdade, ampliando e renovando as experiências com o mundo. É um importante instrumento para pensar nossos problemas e dificuldades. Quando se questiona como e por que tal ou tal saber foi produzido, tal ou tal conceito é usado, o pensamento como que se ilumina, surgem novas ideias, mais criativas.

Ainda assim, há culturas e sociedades até hoje fechadas, impermeáveis, sectárias. Pense no Irã, no fundamentalismo islâmico, ou nos ditadores de alguns países africanos e de alguns vizinhos nossos, risíveis e farsescos, nem por isso menos perigosos.

Enfim, a filosofia pode mudar o modo de ser e de pensar de uma pessoa, e, às vezes, de toda uma cultura.

"Eu discordo de que haja um conceito ideal de exatidão dado a priori, como tal. Em épocas diferentes nós temos diferentes ideais de exatidão; e nenhum deles é supremo". (Wittgenstein)

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**INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa, autora e organizadora, entre outros, de Temas de Epistemologia (Editora Champagnat - PUCPR, 2006)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

MENINO DE SERINGAL

Meu pai, Zé Lima, foi seringueiro nas cabeceiras do rio Tarauacá, num seringal chamado Boca de Pedra, quando Melo, nosso primo, era o seringalista. Nunca estive naquelas paragens, mas ouvia, saudoso, meus pais a ela se referirem. Tempos difíceis. Minha mãe nasceu por aqueles lados. Lá nasceram também meus primeiros irmãos. E lá moravam os pais de minha mãe: Hibernon Alves de Melo, grande conhecedor da medicina natural, e Maria Engracia de Melo.

Já eu nasci no seringal Sumaré, quando era seringalista o sr. Luis Madeiro, meu avô (de criação). Meus pais compraram um pedaço de suas terras, à margem esquerda de quem sobe o rio, e foi aí que passei toda a infância e parte da adolescência. Esse seringal distava quase três dias de viagem da cidade de Tarauacá.

Ali, pela primeira vez, sentei num banco de escola. A professora chamava-se Célia Moura, filha do saudoso Chico Crente, que era nosso vizinho. Mas, digamos que eu era um aluno não muito afeito aos estudos. Gostava mesmo era de ir tirar goiabas, comer cereja, me fartar de cajarana. A casa do seu Chico era cercada por fruteiras, um paraíso para a criançada. Um paraíso que a gente suava para chegar, já que era em cima de uma enorme terra. Lá de cima via-se o marulhar das águas do rio das tronqueiras a denunciar quem nele vinha na volta de cima ou na de baixo.

Menino de seringal é menino besta. Eu era besta de feliz. Aquelas confusões no caminho da escola de volta p’ra casa. Inda bem que eu tinha um irmão maior. Naquele tempo ter uma borracha de apagar colorida era um luxo, p’ra mim, o que me fez recusar, certa vez, uma ‘borracha’ feita de um pedaço de sandália havaianas. Não, eu queria aquela de duas cores, e inteira. E ficou só no desejo. É, talvez, como castigo me vestiram em outra ocasião, no caipira, de saci, me pintando todinho com cinza de toco chamuscado de roçado.

Ainda no seringal eu não sabia ler, mas gostava de acompanhar o meu irmão mais velho, quando mexendo em seus livros, lia alguma coisa p’ra nós. Ele era o mais estudado da família. Com ele havia um livro com a pintura O Grito do Ipiranga (1888) de Pedro Américo. Eu tinha pavor daquela imagem, representava para mim a guerra, o mundo desconhecido e mal que havia para além da tranquilidade da floresta, então, meu único mundo, seguro e bom. Sei lá como fiz essa alegoria.
O Grito do Ipiranga (1888) de Pedro Américo

As circunstâncias me levaram para a cidade, juntamente com alguns de meus irmãos. Lá reiniciei meus estudos na Rousara Mourão da Rocha, e aprendi a ler e nunca mais parei. Essas reminiscências servem para dizer da minha paixão pelos livros e, de modo especial, pela literaura de cepa acreana.

Gibran, notável poeta sírio-libanês, já dizia que razão e paixão são os lemes e as velas de nossa alma navegante. Não somos só razão. Somos também seres de múltiplas paixões. Já li centenas de livros e parece que foi um apenas. Primeiramente, as fascinantes histórias dos livros didáticos, os gibis (claro emprestados e velhos), a Bíblia a quem devorei de cabo a rabo algumas vezes ainda na adolescência. Depois, com o suceder dos anos e da escola, literatura em geral, sobretudo poesia.

Foi José Potyguara, com seu Terra Caída, quem me implantou o gérmem inicial da magia pelas letras acreanas. Isso com a inestimável contribuição das obras de Leandro Tocantins, alcançando seu ápice com José Higino de Souza Filho em A Luta Contra os Astros. Desde então, tornei-me uma alma acreana a espalhar esse gérmem a quantos for possível. E considero-me, em meu neologismo, um acreanófilo, isto é, alguém que estuda sua terra, sua cultura, sua gente, não por querer satisfazer necessidades acadêmicas ou intelectuais, mas por amor.
Há alguns anos venho remexendo sebos e realizando pesquisas na internet em busca das obras acreanas “perdidas”. E, assim, tenho montado uma pequena biblioteca de títulos acreanos e temas amazônicos que se assemelham, hoje já com modestos 91 livros, dentro os quais a maior parte rara e de primeira edição. Nessa miscelânea, para se ter uma ideia, há a obra completa de José Potyguara, as edições fac-similadas de Álbum do Rio Acre (1906-1907), Autonomia Acreana (1913), A Primeira Insurreição Acreana (1904).

As primeiras edições de A Represa (1942) de Océlio de Medeiros, A Epopéia Acreana (1939) de Freitas Nobre, Certos Caminhos do Mundo: romance do Acre (1936) de Abguar Bastos, Folk-lore Acreano (1938) de Francisco Peres de Lima, Ressuscitados: romance do Purus (1938) de Raimundo Morais, Capiongo: romance da Amazônia Acreana (1968) de José Inácio Filho, Letras da Amazônia (1938) de Djalma Batista, O Estado Independe do Acre e José Plácido de Castro (1930) de Genesco de Castro, Os Assassinos do Cel. Plácido de Castro (1916) de Orlando Correia Lopes. Além de obras como a 2a. edição de Inferno Verde (1916) de Alberto Rangel, Histórias Silvestres do tempo em que Animais e Vegetais Falavam na Amazônia (1939) de Raimundo Morais, O Memorial em Prol dos Acreanos (1906) de Gumersindo Bessa, etc. Grande parte já resenhada e disponibilizada neste blog.

O meu sonho é também o de meus pais. Estes nunca aprenderam a ler, mas fizeram de tudo para que seus filhos não repetissem suas sinas. E, dessa forma, sigo em meu desvario de menino besta de seringal, às vezes, acompanhado, mas ainda a fazer a maior parte do caminhar como viandante solitário, cumprindo minha missão, no breve peregrinar por esse mundo, de viver para fé e com os livros...

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Foto: Angela Peres/Secom