segunda-feira, 3 de maio de 2010

MENINO DE SERINGAL

Meu pai, Zé Lima, foi seringueiro nas cabeceiras do rio Tarauacá, num seringal chamado Boca de Pedra, quando Melo, nosso primo, era o seringalista. Nunca estive naquelas paragens, mas ouvia, saudoso, meus pais a ela se referirem. Tempos difíceis. Minha mãe nasceu por aqueles lados. Lá nasceram também meus primeiros irmãos. E lá moravam os pais de minha mãe: Hibernon Alves de Melo, grande conhecedor da medicina natural, e Maria Engracia de Melo.

Já eu nasci no seringal Sumaré, quando era seringalista o sr. Luis Madeiro, meu avô (de criação). Meus pais compraram um pedaço de suas terras, à margem esquerda de quem sobe o rio, e foi aí que passei toda a infância e parte da adolescência. Esse seringal distava quase três dias de viagem da cidade de Tarauacá.

Ali, pela primeira vez, sentei num banco de escola. A professora chamava-se Célia Moura, filha do saudoso Chico Crente, que era nosso vizinho. Mas, digamos que eu era um aluno não muito afeito aos estudos. Gostava mesmo era de ir tirar goiabas, comer cereja, me fartar de cajarana. A casa do seu Chico era cercada por fruteiras, um paraíso para a criançada. Um paraíso que a gente suava para chegar, já que era em cima de uma enorme terra. Lá de cima via-se o marulhar das águas do rio das tronqueiras a denunciar quem nele vinha na volta de cima ou na de baixo.

Menino de seringal é menino besta. Eu era besta de feliz. Aquelas confusões no caminho da escola de volta p’ra casa. Inda bem que eu tinha um irmão maior. Naquele tempo ter uma borracha de apagar colorida era um luxo, p’ra mim, o que me fez recusar, certa vez, uma ‘borracha’ feita de um pedaço de sandália havaianas. Não, eu queria aquela de duas cores, e inteira. E ficou só no desejo. É, talvez, como castigo me vestiram em outra ocasião, no caipira, de saci, me pintando todinho com cinza de toco chamuscado de roçado.

Ainda no seringal eu não sabia ler, mas gostava de acompanhar o meu irmão mais velho, quando mexendo em seus livros, lia alguma coisa p’ra nós. Ele era o mais estudado da família. Com ele havia um livro com a pintura O Grito do Ipiranga (1888) de Pedro Américo. Eu tinha pavor daquela imagem, representava para mim a guerra, o mundo desconhecido e mal que havia para além da tranquilidade da floresta, então, meu único mundo, seguro e bom. Sei lá como fiz essa alegoria.
O Grito do Ipiranga (1888) de Pedro Américo

As circunstâncias me levaram para a cidade, juntamente com alguns de meus irmãos. Lá reiniciei meus estudos na Rousara Mourão da Rocha, e aprendi a ler e nunca mais parei. Essas reminiscências servem para dizer da minha paixão pelos livros e, de modo especial, pela literaura de cepa acreana.

Gibran, notável poeta sírio-libanês, já dizia que razão e paixão são os lemes e as velas de nossa alma navegante. Não somos só razão. Somos também seres de múltiplas paixões. Já li centenas de livros e parece que foi um apenas. Primeiramente, as fascinantes histórias dos livros didáticos, os gibis (claro emprestados e velhos), a Bíblia a quem devorei de cabo a rabo algumas vezes ainda na adolescência. Depois, com o suceder dos anos e da escola, literatura em geral, sobretudo poesia.

Foi José Potyguara, com seu Terra Caída, quem me implantou o gérmem inicial da magia pelas letras acreanas. Isso com a inestimável contribuição das obras de Leandro Tocantins, alcançando seu ápice com José Higino de Souza Filho em A Luta Contra os Astros. Desde então, tornei-me uma alma acreana a espalhar esse gérmem a quantos for possível. E considero-me, em meu neologismo, um acreanófilo, isto é, alguém que estuda sua terra, sua cultura, sua gente, não por querer satisfazer necessidades acadêmicas ou intelectuais, mas por amor.
Há alguns anos venho remexendo sebos e realizando pesquisas na internet em busca das obras acreanas “perdidas”. E, assim, tenho montado uma pequena biblioteca de títulos acreanos e temas amazônicos que se assemelham, hoje já com modestos 91 livros, dentro os quais a maior parte rara e de primeira edição. Nessa miscelânea, para se ter uma ideia, há a obra completa de José Potyguara, as edições fac-similadas de Álbum do Rio Acre (1906-1907), Autonomia Acreana (1913), A Primeira Insurreição Acreana (1904).

As primeiras edições de A Represa (1942) de Océlio de Medeiros, A Epopéia Acreana (1939) de Freitas Nobre, Certos Caminhos do Mundo: romance do Acre (1936) de Abguar Bastos, Folk-lore Acreano (1938) de Francisco Peres de Lima, Ressuscitados: romance do Purus (1938) de Raimundo Morais, Capiongo: romance da Amazônia Acreana (1968) de José Inácio Filho, Letras da Amazônia (1938) de Djalma Batista, O Estado Independe do Acre e José Plácido de Castro (1930) de Genesco de Castro, Os Assassinos do Cel. Plácido de Castro (1916) de Orlando Correia Lopes. Além de obras como a 2a. edição de Inferno Verde (1916) de Alberto Rangel, Histórias Silvestres do tempo em que Animais e Vegetais Falavam na Amazônia (1939) de Raimundo Morais, O Memorial em Prol dos Acreanos (1906) de Gumersindo Bessa, etc. Grande parte já resenhada e disponibilizada neste blog.

O meu sonho é também o de meus pais. Estes nunca aprenderam a ler, mas fizeram de tudo para que seus filhos não repetissem suas sinas. E, dessa forma, sigo em meu desvario de menino besta de seringal, às vezes, acompanhado, mas ainda a fazer a maior parte do caminhar como viandante solitário, cumprindo minha missão, no breve peregrinar por esse mundo, de viver para fé e com os livros...

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Foto: Angela Peres/Secom
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