sábado, 11 de abril de 2026

AQUATEMPO: poemas de Wanda Monteiro

I

 

E pensar que somos transitórios

um frágil equilíbrio de vida

líquida e efêmera

sobre a linha d'água

fluindo no tempo

finito em nós 

 

 

III

 

Teus olhos miram invisível rio

nele palavras que tu nunca disseste

nadam como peixes cegos

famintas

morrendo à mingua

de tua coragem em dizê-las

no leito do rio

um eu nunca dito

naufraga

reverberando teus assombros

e soçobros

 

 

IV

 

Tu olhas para o rio

como se ele fosse teu

não o tens

não podes tê-lo

nem detê-lo

o rio é um instante

que nunca para de morrer

o rio é esse fio líquido

morrendo em si mesmo

nele

cada mergulho

é uma despedida

 

 

XV

 

Silenciosa

a memória corre em teus olhos

lambe as margens

que choram água e sal

no rio de teus olhos

um leito seca de saudade

 

 

XVII

 

Nossa terra

é esse chão molhado de afetos

sob um céu de asas

de voos cumprindo seus ritos de passagem

nosso caminho

é essa estrada líquida

onde as pessoas vão passando

passando

no esquecimento do devir

 

 

XXIX

 

Olha para o rio

o rio dá ao pássaro

mais que sua imagem

no espelho de suas águas

ele dá o peixe em oferenda

e a possibilidade

do voo

 

 

XXX

 

Olha!

um peixe encadeado

cai do céu

ele boia

se apaga

é um anjo

perdeu suas asas

no anzol

 

 

XXXV

 

No repouso da margem

a canoa entristece

sonha e chora

derrama na areia

o testemunho de chegadas

de partidas

de histórias

naufragadas

 

 

XLI

 

Quando sonho o rio

as ausências penetram como lâminas

nos tímpanos do sono

ouço a voz do rio

choro

a dor cabe no rio

o rio cabe nas lágrimas

 

 

XLIV

 

A vida ribeira me ensinou

o rio o rio me ensina o tempo

o tempo me ensina o rio

os dois me ensinam a vida

 

a vida é esse rio morrendo em si mesmo

 

 

XLVI

 

Pensa que sou água

fio líquido que te desfia

pensa que sou rio

cio correndo livre

em tua geografia

 

 

AQUATEMPO

 

Cai do céu

brota na terra

corre por vigas

veios – veias – vidas

na pedra morre

da pedra vive

líquido chão

indiviso vão

um-sempre-tudo

existe e resiste

vinga - verte corre

na singularidade onde o tempo flui

no líquido espaço onde a vida

toda ela

surge e ressurge

na água

 

 

MONTEIRO, Wanda. Aquatempo – Aquatiempo. São Paulo: Patuá, 2020.

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Wanda Monteiro, advogada, escritora, nascida na margem esquerda do rio Amazonas, em Alenquer, no estado do Pará. É autora de O beijo da Chuva (2008), Duas Mulheres Entardecendo (2014, em parceria com Maria Helena Latini); Aquatempo (2016); A Liturgia do Tempo e Outros Silêncios (2019) e Chão de exílio (2025).