quinta-feira, 5 de agosto de 2010

UMA HISTÓRIA BONITA

Carlos Heitor Cony

É comum me perguntarem qual a história mais bonita que conheço. Difícil responder. De histórias feias estou cheio: é só ir contando o que costuma acontecer comigo e com os outros.

Das histórias bonitas que me encantaram, algumas têm fundo religioso. A parábola do filho pródigo é linda, assim como a história de José e seus irmãos. Mas quando pedem um conto bonito mesmo, lembro sempre a freirinha que era porteira de um convento.

Muito jovem, ela foi seduzida por um nobre que todos os dias passava pelo convento, aparentemente para trazer esmolas que ele recolhia pela cidade. No fundo, para seduzir aquela moça que dedicara sua juventude ao serviço de Deus.

A freira decidiu fugir. Antes, passou pela capela, onde havia uma imagem de Maria diante da qual sempre rezava. Colocou as chaves aos pés da Virgem e fugiu.

Anos depois, abandonada pelo sedutor, ela pensou em voltar ao convento. Bateu à porta – que estava aberta. Foi entrando e ficou admirada porque ninguém lhe fazia perguntas, era como se nunca tivesse fugido, como se todos os dias ela tivesse continuado a abrir e a fechar as portas – todas as portas do monastério.

Metade deslumbrada, metade apavorada, ela foi à capela. Ajoelhou-se diante da imagem de Maria, talvez nem mais soubesse rezar, mesmo assim rezou com o que sabia: com a amargura de sua derrota. De repente, viu que alguma coisa brilhava sob o manto azul da Virgem. Eram as suas chaves.

Ela nem mais se lembrava que as havia deixado ali, no momento da fuga. Tampouco, pedira qualquer coisa, apenas fugira, não tivera coragem para entregar as chaves à superiora.

E durante anos ninguém dera por sua falta. Todas as manhãs as portas eram abertas, todas as noites as portas eram fechadas. Alguém tomara o seu lugar. Alguém que lhe devolveu a capacidade de acreditar nela mesma.

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CONY, Carlos Heitor. Os anos mais antigos do passado. Rio de Janeiro: Record, 1999.
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