terça-feira, 31 de maio de 2011

MARIA - Carlos Heitor Cony

Hoje é o último dia de maio, mês dedicado ao culto (não à adoração) de Maria. Agnóstico, acreditando cada vez menos em Deus e na vida futura, devo justamente à perda da fé a minha ligação cada vez maior com os seres humanos, iguais a mim e a todos nós, que por isso ou aquilo cumpriram uma trajetória inexplicável na terra.

Lenda ou realidade, a história daquela menina-moça, de 15 ou 16 anos, camponesa ou pastora que ficou prenhe de um Deus, seria uma ficção além da capacidade humana.

Na fabulação do cristianismo, sobretudo depois da necessidade de transmitir a boa nova aos povos enraizados no politeísmo, a figura de Maria, com a sua carnalidade, sua assombrosa aventura no imaginário do homem, foi um elo que facilitou a conversão dos gentios. Não haveria gênio literário capaz de criar uma lenda com elementos tão delicados e, ao mesmo tempo, tão extraordinários. A menina-moça, virgem que permaneceria virgem através dos tempos, perdida na pobreza de uma Galiléia rude, foi erguida a protagonista de um auto pastoril cuja beleza varou os séculos.
A seu lado, também magnífico em sua missão, o carpinteiro José, que mereceu dos evangelistas um único adjetivo: era um homem justo. Mais tarde, seria consagrado como “custos pudice virginis”. Queiramos ou não, tenhamos a fé ou a não-fé do agrado ou da conveniência de cada um, a história de Maria e José é a mais bela e comovente de todas as histórias de amor que empolgam a mente humana.

Neste último dia de maio, um maio tão bonito e tão azul, com a luz das tardes dourando a lagoa, eu recordo a emoção dos maios antigos, junto à gruta que padre Cipriano fizera com as pedras que ele roubara de uma obra ao lado do seminário.

E, quando brilhava a primeira estrela no céu de maio, como era bonito o hino que cantávamos em gregoriano: “Ave maris stella Dei Mater alma...”

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CONY, Carlos Heitor. Os anos mais antigos do passado. Rio de Janeiro: Record, 1999.

sábado, 28 de maio de 2011

LA MEMORIA - León Gieco

"Dois mil comeriam por um ano
com o que custa um minuto militar"


Los viejos amores que no están,
la ilusión de los que perdieron,
todas las promesas que se van,
y los que en cualquier guerra cayeron.

Todo está guardado en la memoria,
sueño de la vida y de la historia.

El engaño y la complicidad
de los genocidas que están sueltos,
el indulto y el punto final
a las bestias de aquel infierno.

Todo está guardado en la memoria,
sueño de la vida y de la historia.

La memoria despierta para herir
a los pueblos dormidos
que no la dejan vivir
libre como el viento.

Los desaparecidos que se buscan
con el color de sus nacimientos,
el hambre y la abundancia que se juntan,
el mal trato con su mal recuerdo.

Todo está clavado en la memoria,
espina de la vida y de la historia.

Dos mil comerían por un año
con lo que cuesta un minuto militar
Cuántos dejarían de ser esclavos
por el precio de una bomba al mar.

Todo está clavado en la memoria,
espina de la vida y de la historia.

La memoria pincha hasta sangrar,
a los pueblos que la amarran
y no la dejan andar
libre como el viento.

Todos los muertos de la A.M.I.A.
y de la Embajada de Israel,
el poder secreto de las armas,
la justicia que mira y no ve.

Todo está escondido en la memoria,
refugio de la vida y de la historia.

Fue cuando se callaron las iglesias,
cuando el fútbol se lo comió todo,
que los padres palotinos y Angelelli
dejaron su sangre en el lodo.

Todo está escondido en la memoria,
refugio de la vida y de la historia.

La memoria estalla hasta vencer
a los pueblos que la aplastan
y no la dejan ser
libre como el viento.

La bala a Chico Méndez en Brasil,
150.000 guatemaltecos,
los mineros que enfrentan al fusil,
represión estudiantil en México.

Todo está cargado en la memoria,
arma de la vida y de la historia.

América con almas destruidas,
los chicos que mata el escuadrón,
suplicio de Mugica por las villas,
dignidad de Rodolfo Walsh.

Todo está cargado en la memoria,
arma de la vida y de la historia.

La memoria apunta hasta matar
a los pueblos que la callan
y no la dejan volar
libre como el viento.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

MISSÃO MARISTA EM TARAUACÁ

Tarauacá, desde 21 de Maio, está recebendo a missão mariana, pensada a partir da proposta do Ano Mariano (25 de março a 8 de dezembro de 2011), lançado pelos Irmãos Maristas no Brasil. A missão foi uma iniciativa dos Irmãos Maristas em Tarauacá (Ir. Carlos Scottá e Ir. Braz Lanius) para enfatizar a presença Marista nessa paróquia. É a primeira vez que os quatro ramos da Família Marista (padres, irmãos, irmãs e leigos) realizam algo em comum nessa região. Entre os missionários estão: Irmãos Maristas, Irmãs Maristas, Leigos, Padres Maristas, além da presença dos Padres Espiritanos da paróquia e as irmãs de Notre Dame. Dia 21 foi a celebração de abertura, com todos os missionários na Igreja Matriz de São José. Depois da abertura, os missionários foram divididos em equipes para celebrar em todas as comunidades num mesmo momento.
Como nos disse o Pe. José Maria, sm: “Está sendo um trabalho interessante de celebrações e visitas às comunidades da cidade e algumas do interior”. A missão encerra-se dia 30 de Maio.

Para mais informações acerca de nós, Maristas, sugerimos as seguintes páginas:
mais sobre

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Igreja Matriz de São José - Tarauacá - Ac
Igreja Matriz de São José - Tarauacá - Ac.
Celebração de abertura da missão mariana na Igreja Matriz.
Celebração de abertura na Igreja Matriz.
Pe. José Maria abençoando as crianças!
Irmão Marista Braz Lanius
Travessia da balsa p/ chegar a Comunidade N. Sra. da Glória - Corcovado.
Comunidade N. Sra. da Glória.
Comunidade de São Francisco - Bairro de Copacabana
Comunidade de São Francisco - Bairro Copacabana.
Irmã Marista Suely.
Estudantes da escola Rosaura Mourão da Rocha.
Visita aos estudantes da Escola Rosaura Mourão.

*
SÁBADO DIA 28 - CICLEATA.

VISITA À COMUNIDADE RIBEIRINHA DO SOCÓ - DIA 26.
Pe. José Maria e Jean (meu irmão).
Pe. Zé Maria na farofa de seringueiro. Huuummm....

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A GRAMÁTICA DA LÍNGUA PORTUGUESA E SEUS ALGOZES

Profª. Inês Lacerda Araújo
Filosofia de todo dia


Antes do surgimento da ciência da linguagem, a linguística, no século 19, os estudos sobre as línguas se limitavam ao seu aspecto evolutivo. Compreender que há uma estrutura, que há regras que formam as línguas, do contrário seria impossível qualquer articulação, qualquer fala, é relativamente novo.

A essa estrutura dá-se o nome de sintaxe. São ainda necessários sons, os fonemas e as palavras que são dicionarizadas; essas palavras têm uma ortografia (sua escrita) e um significado, seu sinônimo, ou uma descrição/exposição de seu uso.

Pois bem, as línguas são vivas, dependem de seus usuários. A língua portuguesa falada no Brasil, inclui diversas variantes regionais e diversos empregos conforme camadas sociais, culturais, e até mesmo variam de profissão para profissão (caso dos idioletos dos médicos, dos economistas, advogados, vaqueiros, pescadores do norte do Brasil, criadores de gado gaúchos, e muitos outros).

Há também a chamada norma culta, que vem sendo praticada e aceita como padrão para formar a "gramática", as regras gramaticais. E isso não é uma imposição de classe, da elite, da classa mais culta ou poderosa sobre outra! É simplesmente o resultado de uma necessidade de normatizar. Seguir essas normas não é uma opção no caso do ensino e da confecção de livros didáticos: é obrigatório. Escritores seguem essas normas, jornalistas têm seu "manual de redação", e mesmo assim cometem "erros", isto é, fogem de um padrão.

O que é, nesse sentido, errar? Sair das regras de ortografia, de sintaxe (concordância verbal, colocação de pronomes, por exemplo), uso inadequado de termos. Li há poucos dias em jornal conceituado "exitar" e o que o jornalista queria dizer era "hesitar", no sentido de vacilar. Ora, certos deslizes comprometem o próprio sentido da frase ou do texto. Por vezes textos como os da academia, dos doutores e dos especialistas são ininteligíveis. Mesmo quando há um revisor bem treinado nas chamadas normas do português padrão, não se entende o texto!

Livros didáticos e professores de língua portuguesa, no ensino fundamental ou médio podem explicar que há diversos modos de falar, que eles são aceitáveis, pois, afinal, a mensagem que comunicam esses diversos falares, é compreendida. Tudo bem até aqui. O problema é levar essa discussão para o terreno do juízo de valor: todos os que não reconhecerem esse fato são preconceituosos e intolerantes.

Do lado oposto, a academia e a grande imprensa consideram que o erro gramatical se deve a não seguir regras sagradas, que a gramática é tão certa quanto a matemática.

Estão equivocados também. Ninguém escreve e nem tampouco fala o português estrito da norma culta.

Mas é esse português que se deve ensinar, da melhor forma possível. Do contrário, e aí sim há uma dívida social para com a grande maioria de nossas crianças e jovens: se não lhes for ensinado o português padronizado pela norma e que é cobrado pela própria escola, como ser aprovado em testes e em concursos? Não se pode, não se deve sonegar a capacidade de se expressar bem, de escrever um texto de modo compreensível, interpretar o que se lê, evitar erros de ortografia (sim, erros) e frases mal construídas. Não se trata de elitismo ou de "preconceito linguístico". Leitura, muita leitura, interessante, de qualidade, e confecção de textos para preparar os alunos, o maior número possível deles, de modo que possam competir em igualdade de condições.

E isso não vem sendo feito. Esse é problema, essa é a questão crucial.

Professores bem preparados e bem pagos, aí começa um ensino de qualidade. Ideologizar o ensino de língua portuguesa é inaceitável.

***

* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

CINE BIRIBA - o filme

O curta-metragem  CINE BIRIBA, dirigido por Aurélia Hubner, é baseado na crônica da escritora acreana Leila Jalul, sobre uma singela sala de cinema que funcionava na década de 1950 na periferia de Rio Branco, Acre.
Para ler a crônica Cine Biriba, de Leila Jalul, acesse aqui.

domingo, 22 de maio de 2011

OS XERIFES DA LÍNGUA

José Ribamar Bessa Freire
22/05/2011 - Diário do Amazonas


Os toques de clarim e o rufar dos tambores chamaram a Infantaria e a 7ª. Cavalaria. O Exército colocou de prontidão os seus soldados armados até os dentes: a tropa da Academia Brasileira de Letras (ABL), o batalhão dos jornalistas, a brigada ligeira dos escritores, a legião de políticos, o pelotão do Ministério Público e até algumas divisões blindadas da Universidade. Todos eles irmanados na santa cruzada lançaram o grito de guerra que ecoou pelos campos, vilas e cidades do Brasil, ameaçando o inimigo:

- “Oh, vós, que desejais assassinar o idioma. Liquidar-vos-emos. Avante!”.

O inimigo é o livro “Por uma vida melhor” da professora Heloísa Ramos, adotado pelo MEC, que é apenas a ponta do iceberg. Lá, a autora apresenta a diferença entre falar e escrever e reconhece que na fala existe muito mais variação do que na escrita. O jeito de falar muda bastante, de acordo com a região, a classe social e a situação de comunicação. A mesma pessoa fala diferente se está em casa, na feira, no bar, no tribunal ou na igreja.

- “Existem várias línguas faladas em português” – já disse o escritor José Saramago, prêmio Nobel da literatura. Nesse sentido, cada um de nós é “bilíngue” na própria língua. Uma dessas línguas é a chamada ‘norma culta’, a de maior prestígio em nossa sociedade, que é usada na sala de aula e está mais próxima da escrita formal. Outras são as variedades populares, regidas por uma diversidade de regras, mas que não chegam a prejudicar a intercompreensão.

Acontece que milhões de brasileirinhos chegam à escola, falando segundo as regras da variedade popular. Por isso, são ridicularizados e humilhados. Dessa forma, são levados a se envergonharem das variedades que a norma culta considera “erradas”, e não se apropriam, nessas condições adversas, da outra variedade considerada “certa”. São reprimidos. Sua fala fica excluída dos espaços públicos, comprometendo o exercício da cidadania.

Esse fato demonstra a incapacidade do Estado, que não encontrou ainda o caminho para permitir que todos os alunos transitem pela norma culta. A autora defende, então, que a alternativa é admitir que a variedade popular EXISTE, tem suas regras e é legítima. As duas normas não se excluem, mas se complementam. O respeito ao jeito de falar do aluno cria um ambiente acolhedor e propício à aprendizagem da norma culta. Só isso.

Mas tal proposta foi suficiente para que os xerifes da língua, que combatem a diversidade, disparassem suas armas alegando, alguns deles, que o MEC quer instituir o “lulês” como idioma oficial. Distorceram – ou no mínimo não compreenderam (será que leram?) - o que está escrito no livro. Eles acham que quem defende o respeito à norma popular quer impô-la ao conjunto da sociedade, como eles o fazem com a norma culta. Por isso, chamam a 7ª. Cavalaria!!!

As cavalgaduras

A cavalaria veio. Na linha de frente, cavalgando um pangaré manco – tololoc, tololoc - o centurião José Sarney (PMDB, vixe-vixe!), membro da ABL, ex-presidente da República e presidente do Senado. No artigo ‘Fale errado, está certo’ na Folha de SP – com a espada em riste, ele faz aquilo que fez ao longo de sua vida: atribui aos outros seus próprios defeitos. Escreve que o livro em questão pretende “oficializar a burrice”, que “o Brasil resolve criminalizar quem fala corretamente”, quando é justamente o contrário, e que “defender a língua é defender a pátria”.

Sarney, defensor da pátria? Quaquaraquaquá! O que é ‘a língua’ e o que é ‘a pátria’ para ele? Em sua ‘pátria’ não cabem os deserdados, apenas os beneficiados pelo nepotismo. Já a ‘língua’ que defende não é um sistema variado, dinâmico e rico, mas se reduz à norma culta, que ele congela. Elimina as demais variedades, proclamando que apenas uma variedade é o português, embora nas conversas telefônicas com sua neta, que ouvimos gravadas e reproduzidas pelos telejornais, a norma usada para contratar o namorado dela, mais coloquial, não foi bem a que ele defende.

Da mesma forma, Sarney, o vixe-vixe, protesta com indignação contra a anarquia:

- “Voltemos ao sistema tribal: cada um fala como quer”.

Imagina! Que país é esse onde cada um fala como quer e não como os sarneys da vida pretendem impor! Sarney, que passou a vida confundindo a coisa pública com a privada, sobretudo no que se refere à grana, quer privatizar também a língua. Acha que ela é sua e dos seus. Não reconhece que se trata de produção coletiva. Nem sequer suspeita que existam regras no falar popular. Exige que a norma culta seja o padrão de correção de todas as demais variedades, confirmando o que escreveu Roland Barthes:

- “A língua não é fascista quando impede de dizer, mas quando obriga a dizer de uma determinada forma”.

Cavalgando um burro alazão – tololoc, tololoc – o presidente da ABL Marcos Villaça também atacou o livro. Reduziu a riqueza do idioma a uma reles operação aritmética, com uma visão primária da matemática, dizendo que admitir outras formas de falar “é como ensinar tabuada errada. Quatro vezes três é sempre doze, seja na periferia ou no palácio”.

A mesma imagem foi usada por sua colega, a escritora Ana Maria Machado, que esqueceu o que ensinou quando foi minha professora de Comunicação Fabular e Icônica na UFRJ. Ela reforça essa comparação infeliz: “Equivale a aceitar que dois mais dois possam ser cinco, com a boa intenção de derrubar preconceitos aritméticos”. Trata-se de uma falácia, porque ninguém está reivindicando que 2+2=5, mas a possibilidade de ser 1+1+1+1 ou 3+1 e até 2+2=5-1 e assim por diante, já que o quatro contém o infinito.

Mas quem se superou mesmo em bobagens foi o jornalista Merval Pereira - um projetinho de Sarney - que veio cavalgando uma besta de sela desembestada: tololoc, tololoc. Em sua coluna no Globo concluiu que se o português popular é legitimo, então ele deveria “ser ensinado nas escolas e faculdades”, como se fosse preciso ensinar o que já se sabe.

Merval condenou ainda o que chamou de “pedagogia da ignorância” e criminalizou o livro adotado pelo MEC: “Se for uma tentativa de querer justificar a maneira como o presidente Lula fala, aí então teremos um agravante ao ato criminoso de manter os estudantes na ignorância”.

Os criminosos

Ops! Vocês ouviram o que eu ouvi? Ato criminoso? Pois é. Parece que os xerifes do idioma querem criminalizar a desobediência às regras da norma culta, reproduzindo o que aconteceu na Cabanagem, a revolta popular mais importante da história da Amazônia (1832-1840). Bilhetes escritos pelos cabanos, anexados aos processos criminais, foram exibidos nos tribunais durante o julgamento como “prova de seus instintos criminosos”. Um deles assinado por Antônio Faustino, um cabano com a patente de major, diz:

“Axome çem monisão que muntas vezis teno pidido. Çe uver cunfelito aqi não çei o qe soçederá. Estarei em pouçilitado de zequtar qalqer prugetu. Halguns camaradas já çairão daqi pur farta de cumer”. Pontu da Barra, 3 de otobro de 1835. Antonho Fostino, manjor de artilharia.

O outro, que também se encontra no Arquivo Público do Pará, “com uma caligrafia feita de garranchos”, é de um chefe cabano que adverte o presidente da Província:

“...E se V. Exa. Responsave pellos mal desta província não sortar logo logo móhirmão e outros patrisio que saxão prezo prometo intrar na sidade comeu inzercito de sinco mil Ome i não dexar Pedra sobre Pedra”.

Um terceiro documento, escrito pelo tenente-comandante de Soure, é um ofício dirigido ao cabano Eduardo Angelim, que ocupou o cargo de presidente da Província:

“Rogo a V. Exa. Nois quera há-remidiar com algun çal e mesmo harmamentu que estamos mointos faltos deles. O mais V. Exa. verá no Pidido jontu q. faz obegeto tãoben desti ufisio. Deos guarde V. Exa. pur moitos anus. Soure, 13 de Dezembru de 1835”.

Que Deus guarde a ABL, Sarney e Merval pelo período de tempo acima indicado, bem como proteja políticos como o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), para quem o livro adotado pelo MEC “está transformando a ortografia em pornografia gramatical” e até o senador Cristovão Buarque (PDT), ex-reitor da UnB e ex-ministro da Educação, que declarou sobre o livro em questão:

- “Claro que o livro deseduca e, pior, mantém o apartheid linguístico. Manter o português errado é um crime, é manter a desigualdade”.

Crime? Desigualdade? Segundo Boaventura de Souza Santos, devemos “lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem e lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize”. Não se trata, evidentemente, de adotar as normas dos cabanos, mas de recusar sua criminalização.

A professora Heloisa, que fez um trabalho cuidadoso, está sendo tratada como “criminosa” segundo algumas divisões blindadas da própria Universidade que também entraram em ação. Cláudio Moreno, doutor em Letras, ameaçou no jornal Zero Hora de Porto Alegre:

- “O livro tem que ser proibido e as pessoas devem ser punidas”.

Não disse que tipo de punição considera mais adequada. Acionado, o pelotão do Ministério Público partiu para o ataque. A procuradora da República Janice Ascari, do Ministério Público Federal, cavalgando um jegue – tololoc, tololoc - considerou o livro citado como “um crime contra nossos jovens”, ganhando manchete de página no Globo. “Essa conduta não cidadã é inadmissível, inconcebível e, certamente, sofrerá ações do Ministério Público”, avisou a procuradora.

O historiador peruano Pablo Macera comenta que se o Império Romano conseguisse proibir o latim vulgar, como querem agora os xerifes da língua, nós não estaríamos hoje falando espanhol, português, francês, italiano, romeno, catalão – todas elas variantes “erradas” do latim clássico, conhecidas como línguas vulgares na Idade Média.

A troca de ‘l’ em ‘r’, que costuma ser considerada como “atraso mental”, quando alguém fala “pobrema”, “craro” ou “pranta” é um fenômeno fonético presente na formação da língua portuguesa, como esclarece Marcos Bagno. Palavras latinas como “blandu, clavu, flacu, sclavu, obligare” mantiveram o “l” no espanhol, no francês e no italiano, mas ficaram consagrados na norma culta da língua portuguesa com o “r”: “brando, cravo, fraco, escravo, obrigar”, etc.

Os xerifes querem continuar hegemônicos na formulação da política de línguas, autoritária e intolerante. Para isso, manipulam a opinião pública, ignorando a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, aprovada em 1996 em Barcelona, num evento realizado com o apoio da Unesco, recomendando que “os direitos linguísticos sejam considerados direitos fundamentais do homem” e que as diferenças linguísticas sejam respeitadas.


P.S. – Agradeço os colegas do COMIN e da EST, de São Leopoldo (RS), e os colegas da lista Uerj XXI, com quem pude trocar ideias sobre essa questão. Eles não têm, no entanto, qualquer responsabilidade pelo conteúdo ou pela forma desse texto.

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Nota: Artigo retirado do site TAQUI PRA TI de José Ribamar Bessa Freire.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

PASSA UMA BORBOLETA POR DIANTE DE MIM - Alberto Caeiro


Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.



Foto: por Crazy Souza.

O LEÃO DE NIETZSCHE E AS VACAS DE BIN LADEN

Profª. Inês Lacerda Araújo


Coragem e força para refazer os princípios e valores em nome dos quais se luta e se vive, isso é imperioso na moral, para Nietzsche, mas não imperativo. Se prestarmos atenção à história e ao modo como valores foram inventados para possibilitar trocas, convívio, expectativas humanas, então saberíamos que bem, mal, medo, valentia, bondade -, provieram de situações em que eles tiveram certo uso, serviram, por exemplo, para resolver conflitos. Sofrer, atingir o ideal do desprendimento total de tudo o que é humano, significa renunciar à vida. Não é nada nobre.

A atitude nobre, no sentido de "espírito livre", de "heroísmo refinado", mesmo trabalhando e sofrendo, usufrui de domingos de sol; esses entram e saem silenciosamente civilização após civilização, o espírito livre busca razões e não crenças.

O espírito, diz Nietzsche em Assim Falava Zaratustra, se transforma em camelo, animal da carga pesada, este se transforma em leão. O leão não se detém no "tu deves", cria liberdade, seu fardo na solidão em que se encontra para poder criar e decidir, é mais pesado que o do camelo. Se ainda não tem "o direito de instituir novos valores", pois para isso precisaria ser ave de rapina, em contrapartida, o leão pode ver nas imposições, pura arbitrariedade. Ao se tranformar em criança, brinca, gira sobre si, recomeça.

***

No refúgio de Bin Laden foram encontradas cerca de cem galinhas, alguns coelhos e duas vacas. Havia crianças e mulheres, afinal todos precisam comer. Na eventualidade de não poderem sair e precisarem se esconder "melhor", não morreriam de fome.

A que se apega o terror que covardemente usa o subterfúgio de uma religião, a muçulmana, que prega a fidelidade absoluta ao texto sagrado, dogma e guia de milhões de pessoas em diferentes culturas pacíficas, não apenas a árabe?

Como ocorreu essa transformação em ódio, como um credo pode degenerar em ideologia da vingança inclusive contra culturas que não são "inimigas" (recente ataque no Paquistão que dizimou 80 soldados da etnia dos pashtuns)? Isso se deve ao apoio dos EUA a Israel em detrimento dos palestinos? Porém, guerras e soluções diplomáticas, que serviram e servem à luta pelo poder, seja ele qual for, não são as armas do terror. As armas do terror nascem da intolerância, da vingança, qualquer um a qualquer momento pode ser vítima. Não há rosto, não há identidade, há a promessa de que a imolação é a salvação.

São como tarântulas, diria Nietzsche. Vivem em tocas, é preciso destruir a teia e fazer com que a cólera dessas aranhas saia "do antro de mentira"; a vingança trará "justiça"? É isso que as tarântulas querem, provocar a vingança e execrar tudo o que não seja igual a elas, igualdade entre elas e morte aos poderosos. Ora, os homens não são iguais, e nem devem sê-lo.

A diversidade de religiões, de culturas em sociedades que se emancipam de tutelas, isso é insuportável para os que vivem em esconderijos e acusam todos os demais de "infieis".

Ver a criança brincar, nascer o novo, isso a vingança não suporta!

Covardes, suas seitas pregam a violência, cegam os que são treinados para matar e morrer, mas eles próprios se escondem, possuem até mesmo vacas, doces e pacíficas a seu dispor!

Várias esposas, comida, TV, algum conforto para o chefe, o "mártir", o inspirador. Quanto aos doutrinados, esses sim devem seguir a ordem: morra e mate, o maior número possível, de inocentes, é claro!

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A PRIMEIRA OBRA LITERÁRIA EDITORADA NO ACRE

E a mata, testemunha silenciosa,
regava-se de sangue e amargos prantos
enquanto na folhagem numerosa
as aves entoavam doces cantos,
n’um perpétuo contraste criador,
vida e morte plena de ódio e amor.

Farias Gama


O extrativismo da borracha e a Revolução Acreana (ou conflito, se preferir), ambos, nesse caso, interligados, constituem-se os dois fatos históricos que, até por volta da década de 1960, mais predominou na literatura produzida no ou sobre o Acre. Em inúmeras obras (cartas, poesias, romances, contos, crônicas) se prodigalizou o fado dos migrantes, sobretudo nordestinos, diante da selva, o grande “inferno verde”; se cantou seus feitos, como o “amansamento” do deserto pantanoso e se chorou suas perdas; se desvelou o viver dos seringais, a sina dos seringueiros e a sanha dos coronéis... Enfim, se celebrou a revolução, que então se tornou uma façanha notável, elevada a categoria de epopeia e aqueles que tomaram parte no litígio, tornaram-se heróis.

O Fim da Epopéia (1924), posteriormente intitulada A Conquista do Deserto Ocidental do alagoano Craveiro Costa; A Epopéia Acreana (1939) do jovem paulista Freitas Nobre; A Epopéia do Acre (1964) do paraense Silvio de Bastos Meira, são apenas três exemplos que, explicitamente, dão dimensão de epopeia à história acreana. Discussões à parte sobre o emprego dos termos “epopeia” e “revolução”, a literatura que se desenvolveu nesses moldes não pode ser ignorada ou desprezada, embora questionada, sim. Obras que, sobretudo, não podem ser lidas a partir de nossa atual visão de mundo, muito menos, sem levar em conta seus contextos e finalidades.

Farias Gama
Em 1919 surgia um trabalho literário pioneiro, envolto numa história inusitada. Um encarcerado compõe, o que acredito ser, o primeiro poema sobre a Revolução Acreana. Trata-se do folheto “Epopéia Acreana”, de autoria de Farias Gama. O folheto, escrito em quinze dias, foi a primeira obra literária ideiada, escrita e editorada no Acre. Nesse sentido, o livro de poesias “Acreanas” (RJ: Ed. A Noite, 1922) de Juvenal Antunes, só pode ser considerado a primeira publicação de literatura referente ao Acre se o tomarmos como livro propriamente dito, já que a obra de Farias Gama trata-se de um folheto, copilado em 39 laudas. Sobre Farias Gama não possível levantar informações biográficas.

O poemeto apresenta um esquema de rimas único que permeia todo o poema, em que o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quarto, e o quinto com o sexto. Todas as estrofes (cantos) são compostas por seis versos. O folheto se encontra assim dividido: Esborço – em que faz um apanhado histórico da Revolução; Introdução – narra a ocupação da Amazônia (VIII estrofes); Canto I – narra a vinda dos nordestinos para o Acre (XI estrofes); Canto II - narra o início do confronto (XII estrofes); Canto III – narra os primeiros combates, a rendição dos acreanos, e depois a retomada (XIII estrofes); Canto IV – narra as batalhas mais sangrentas (XIII estrofes); Canto V – narra o alastramento da Revolta (V estrofes); Canto VI – canta o desfecho final da Revolução e a vitória dos acreanos, em tom de denúncia (XVII estrofes); Epílogo – faz menção ao assassinato do líder Plácido de Castro (VII estrofes).

No esborço inicial o poeta diz como surgiu o poemeto: “Um dia, inimigos de minha altivez, arrojaram-me num cárcere. Foi então que resolvi mais amplamente servir-me desta faculdade, que embora mal, me acompanha desde a infância – o trovar. Rebusquei o motivo. Era a Revolta do Acre. Quis tanger a lira, mas não encontrei-a. Num cárcere um carrilhão”. A crítica ao sistema de governo então adotado talvez tenha sido a causa da prisão do poeta: “Vieram as primeiras trovas. Veio o interesse pela dor dos meus irmãos. Hoje como ontem, eu e eles oprimidos pelos que neste rincão exercem a crueldade, ontem o invasor, hoje os enviados legais”.

É preciso lembrar que só em 1920 é que o Acre terá um Governo Geral do Território. Antes vigorava o Sistema Administrativo de Prefeituras Departamentais. Nesse período (e depois) houve um forte movimento pela autonomia acreana, e boa parte dos acreanos ou daqueles que viviam no Acre acusavam o Governo Federal de abandonar o Território, não realizar investimentos, embora ficasse com todo lucro dos impostos arrecados sobre a borracha (que diga-se de passagem eram enormes) e de nomear pessoas autoritárias para admistração do Território, que mandavam e desmandavam.

Nesse sentido, o folheto de Farias Gama quer ser uma crítica a essa realidade de abandono do Terrítorio, do esquecimento dos “veteranos” da Revolução, e da perseguição do governo aos seus opositores, como expressa a última estrofe do Canto VI:

Era finda a revolta. Dispersados,
como feras bravias e perseguidas
os chefes foram, por legais soldados,
em breve eram seus feitos esquecidos
que a Pátria vencedora na contenda
a terra abandonou, só vê a renda.

Por fim, como a querer convencer o leitor da autencidade de seus versos, Farias Gama acentua: “Guiei-me pelas narrativas mais fiéis. Não rebusquei, nem ataviei, preferindo a verdade da história aos lauréis do romanceiro”. A grande intenção do poeta além de fazer o registro da epopeia acreana é fazer memória àqueles que dela fizeram parte: “Este o mérito: ter condensado as narrativas dolorosas e sinceras dos veteranos da Epopéia, esquecidos, abandonados, como o livro o será, dois minutos após o olhar indiferente do leitor”. Felizmente Farias Gama estava equivocado, já que a “Epopéia” e o “livro” ainda persistem, nove décadas depois.

***

Excerto de Epopéia Acreana
Farias Gama

                    Canto I

                         I

Do Ceará, do Rio Grande e muitos
estados do Nordeste, brasileiros
acossados dos males mais fortuitos
emigravam aos milhares, forasteiros
que assim fugiam do torrão natal
sob o guante da seca, o grande mal.

                         II

Homem feitos em todos os rigores
da natureza ou do trabalho insano,
destemidos, audazes peleadores,
ei-los, em quatro paus transpondo o oceano,
ei-los no dorso de árdego montado
correndo a rês bravia em disparada.

                         III

De tais nervos, tais músculos, tais gênios,
precisava a conquista planejada,
e em romagem sinistra por decênios
fez-se o êxodo da turba escravizada
que no bojo de sórdido navios
deixava o verde mar por turvos rios.

                         IV

E subindo e crescendo a humana vaga
dos pigmeus tomados em gigantes
pela giganteia e misteriosa plaga,
ia alrotando os ecos dormitantes
da mata testemunha silenciosa
da batalha a travar-se, valerosa.

                         V

Mas nem sequer aos que a morrer seguiam,
davam conforto os rudos condutores,
quais bestas maltratadas prosseguiam
a jornada da fome e dos horrores
até a entrega ao patronal (?)rrate
por preço tal de um incapaz resgate.

                         VI

Eram chegados ao feudal domínio,
abatidos, sem ânimo, os escravos
e logo se iniciava o extermínio:
o índio a traição postrando os bravos,
transformando em ruínas, as sezões
aqueles que eram a graça dos sertões.

                         VII

De tão grande porção amiúde vinda
restava empalemado e barrigudo,
um pugilo, a lutar disposto ainda
contra o índio, a floresta, a doença, tudo,
tudo com o rude afinco congregador
como a tornar o solo inviolado.

                         VIII

Como se não bastassem tais tormentos
os pobres lutadores inorados
sofriam dos patrões, aviltamentos,
quais não sofrem maiores desgraçados,
sem ter em quem buscar mercê, justiça,
pois de estrangeiros se julgava a liça.

                         IX
  
E a mata, testemunha silenciosa,
regava-se de sangue e amargos prantos
enquanto na folhagem numerosa
as aves entoavam doces cantos,
n’um perpétuo contraste criador,
vida e morte plena de ódio e amor.

                         X

Em refregas inúteis se esgotavam,
há muito os elementos combatentes.
Simulacros de ação que redundavam
em morte e desbarato aos mais valentes,
quando empós a refrega sem proveito,
vinha a justiça com feroz aspeito.

                         XI

Muitos bravos haviam já tombado
e o desalento os arraiais minava,
pois no Pátrio Torrão ignorado
com bruto alarde o estranho dominava
impondo duras leis, provações novas,
o cárcere, o fuzil, o espicha e as covas.

***

GAMA, Farias. Epopéia Acreana: poemeto. Acre: 1919.

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Nota: os excertos do poema sofreram pequenas atualizações conforme a gramática regente atual (por exemplo, creador = criador, misterioza = misteriosa... que em nada tira o valor poético da obra).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A GRANDE LUTA – Altino Machado

Entrou no quarto cuidadosamente, procurando não ser pressentido, buscando recantos escuros próximos à cortina da janela e ficou quieto, imóvel, certificando-se de não ter sido visto. Após alguns minutos, adquiriu confiança. O casal permanecia na cama conversando sobre assuntos banais: filhos malcriados, empregada desordeira, problemas com o chefe na repartição, programa para o fim de semana. Tudo revelava não terem sequer suspeitado de sua presença. Mais adiante, viu quando se acarinharam, beijaram-se rapidamente, deram-se boa noite e apagaram o abajur de cabeceira. Continuou estático atrás da cortina, aguardando; não tinha pressa, a noite apenas começava e até clarear o dia poderia agir, desde que tomasse as cautelas necessárias, não se expondo ou cometendo imprudência.

Cerca de uma hora mais tarde, ouviu o ronco de ambos, voltados um para o outro na cama larga. Sentiu segurança e saiu da posição, postando-se ao lado do guarda-roupa, perto dos dois que dormiam profundamente. Abeirou-se, em seguida, do criado-mudo, iluminado pelo mostrador fosforescente do rádio-relógio. Continuavam inertes e ele se aventurou. Bem de leve, pousou na mão da mulher, sempre dava preferência ao sangue feminino, achava-o mais puro, mais ralo, mais doce. O do homem parecia-lhe grosso, pesado, de difícil absorção; a pele da mulher era, por outro lado, mais fina, lisa, delicada; o ferrão entrava sem risco de quebrar-se. No homem, a pele era áspera, os pêlos atrapalhavam. O local predileto era o colo, de preferência os seios, embora fosse difícil encontrá-los expostos, mormente na época de frio. No calor, por vezes deparou corpos desnudados e pôde escolher à vontade o ponto da picada.

A mão se mexeu e ele saiu, rápido, antes que o esmagasse. Todo cuidado era pouco. Voltou para o teto, longe do alcance; evitava precipitar-se. Meia hora mais, novamente desceu, aterrando o braço dobrado, fora do lençol verde. Nenhum movimento. Espichou o ferrão e começou a introduzi-lo, vagarosamente, num poro mais largo, na parte inferior do antebraço, sobre tênue veia azul. De súbito: plaft! Um tapa forte, a luz foi acesa, formou-se um burburinho, mal teve tempo de safar-se, o vento da mão impulsionou-o para baixo, ele assentou-se ao pé da cama.

– Tem pernilongo no quarto, querido.

– Onde? Não senti nada.

– Pois eu senti, estava me picando. Vamos procurá-lo, não consigo dormir com esses miseráveis chupando a gente!

– Tudo bem, deixe-me pôr os óculos. Apanhe a toalha de rosto no banheiro, umedeça-a; logo mato esse bicho desgraçado.

Rente ao chão, ele estava apavorado. Fora armadilha, ela fingira estar dormindo. Quase foi apanhado... Exatamente como na noite anterior, traidora, falsa! Ela me paga, pensava; se escapar desta, chupo-lhe todo o sangue. Ouviu barulho, os dois andavam pelo cômodo, sacudindo cortinas, afastando móveis, iluminando todos os cantos com luz forte.

– Olhe ali! Dê-me rápido a toalha, vamos antes que fuja!

– Onde?

– Aqui. Ah! você demorou, ele fugiu; veja do outro lado, deve estar passando por baixo.

Realmente, voara com risco de vida sob a cama e se escondera atrás da porta que dava para o corredor. Acreditava que não o procurariam lá; pelo menos não o fizeram na noite passada.

De repente, mexeram a porta e ele se viu exposto, no claro, inteiramente a descoberto. Passaram a jogar toalha dobrada, chinelos, paletó de pijama, até camisola ela tirou, transformando-a em petardo. Quase foi atingido, mas escapou pelo túnel escuro e sombrio do corredor. Assustado, pensou: ainda bem que não se valeram das armas químicas; limitaram-se à bateria antiaérea...

– Vamos dormir, meu bem. Acho que o matamos. Amanhã comprarei nova bomba de inseticida.

– Não suporto o cheiro do produto, prefiro o pernilongo.

– É, mas não há outro jeito...

Distante, no fundo do corredor, ele recordava os conselhos da mãe: não tenha pressa, não esmoreça, prefira o escuro e evite os ouvidos. O homem tem nos ouvidos o ponto mais sensível do corpo: o cérebro humano deve se localizar nos ouvidos. O rosto do homem é região acidentada, a montanha principal é o nariz, com duas cavernas profundas; as orelhas, onde ficam os ouvidos, vêm em seguida: duas abas grandes, radares poderosos, que detectam o zumbido e acionam braços e mãos para a morte. Os olhos são sensíveis mais inofensivos; a boca é cavidade perigosa, aprisiona os insetos descuidados que nela adentram à procura da língua, saborosa. Os homens são brutos e nada inteligentes. Bastariam cortinados e os pernilongos morreriam de fome; mas são comodistas, acham que junta poeira e preferem guerrear. Quando não matam logo – o homem só pensa em matar –, insistem na batalha até ficarem cansados e caírem no sono, entregando-se. Aí tudo fica bem. O ferrão entra fácil, o sangue escorre que é uma beleza!

Achava que aquele momento chegara e se preparava para a sucção. Achava mais: como é fácil lutar contra o homem; ele repete a mesma técnica todas às noites: atira tudo que tem à mão. Certa vez arremessaram-lhe um despertador, que não o alcançou e se desfez todo; teve pena. Difícil é lutar contra a largatixa, esta sim, sabida e viva, ardilosa e inteligente. Dificílima a luta contra a deusa-aranha, que tece sua teia invisível. Não há pernilongo que lhe escape, quando faminta. Já a papa-mosca é esperta, mas dá para se defender. Depois do homem, é o adversário mais burro...

Após longo tempo, retornou ao dormitório. Os roncos se reativaram, fortíssimos. Exaustos, rendiam-se. Então, ele esnobou. Esticou o ferrão e o introduziu lentamente no pescoço do homem, chupou meia gota de sangue grosso. Logo em seguida, com toda calma, outra meia gota do lindo colo feminino...

Afinal, deixou o quarto, voando solto e feliz, zumbindo forte, realizado com a vitória, pesado, barriga cheia de sangue, que digeriria pela semana inteira. Voou ao encontro dos seus, orgulho e certo de que seria recebido como herói: derrotara o homem, ganhara a grande luta da noite...

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MACHADO, Altino. A figura refletida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

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Nota: Prestamos aqui nossa homenagem póstuma a José Altino Machado, falecido na segunda-feira última (09/05) em São Paulo. Nascido em Taubaté no dia 21 de fevereiro de 1924, era formado em Direito pela Universidade de São Paulo (1947); foi Governador do Território Acre (1961), durante o governo do Presidente Jânio Quadros e Deputado Federal também pelo Acre, exercendo o mandato de 1963 a 67. Membro da Academia Paulista de Letras, foi autor de 4 livros, com um total de 82 contos editados. Veja mais aqui.

O BAILE DO JUDEU - Inglês de Sousa

Ora, um dia, lembrou-se o Judeu de dar um baile e atreveu-se a convidar a gente da terra, a modo de escárnio pela verdadeira religião de Deus Crucificado, não esquecendo, no convite, família alguma das mais importantes de toda a redondeza da vila. Só não convidou o vigário, o sacristão, nem o andador das almas, e menos ainda o Juiz de Direito; a este, por medo de se meter com a Justiça, e aqueles, pela certeza de que o mandariam pentear macacos.

Era de supor que ninguém acudisse ao convite do homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo numa cruz, mas às oito horas da noite daquele famoso dia, a casa do Judeu, que fica na rua da frente, a umas dez braças, quando muito, da barranca do rio, já não podia conter o povo que lhe entrava pela porta adentro; coisa digna de admirar-se, hoje que se prendem bispos e por toda parte se desmascaram lojas maçônicas, mas muito de assombrar naqueles tempos em que havia sempre algum temor de Deus e dos mandamentos de sua Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Lá estavam, em plena judiaria, pois assim se pode chamar a casa de um malvado Judeu, o tenente-coronel Bento de Arruda, comandante da guarda nacional, o capitão Coutinho, comissário das terras, o dr. Filgueiras, o delegado de polícia, o coletor, o agente da companhia do Amazonas; toda a gente grada, enfim, pretextando uma curiosidade desesperada de saber se, de fato, o Judeu adorava uma cabeça de cavalo mas, na realidade, movida da notícia da excelente cerveja Bass e dos sequilhos que o Isaac arranjara para aquela noite, entrava alegremente no covil de um inimigo da Igreja, com a mesma frescura com que iria visitar um bom cristão.

Era em junho, num dos anos de maior enchente do Amazonas. As águas do rio, tendo crescido muito, haviam engolido a praia e iam pela ribanceira acima, parecendo querer inundar a rua da frente e ameaçando com um abismo de vinte pés de profundidade os incautos transeuntes que se aproximavam do barranco.

O povo que não obtivera convite, isto é, a gente de pouco mais ou menos, apinhava-se em frente a casa do Judeu, brilhante de luzes, graças aos lampiões de querosene tirados da sua loja, que é bem sortida. De torcidas e óleo é que ele devia ter gasto suas patacas nessa noite, pois quantos lampiões bem lavadinhos, esfregados com cinza, hão de ter voltado para as prateleiras da bodega.

Começou o baile às oito horas, logo que chegou a orquestra composta do Chico Carapanã, que tocava violão; do Pedro Rabequinha e do Raimundo Penaforte, um tocador de flauta de que o Amazonas se orgulha. Muito pode o amor ao dinheiro, pois que esses pobres homens não duvidaram tocar na festa do Judeu com os mesmos instrumentos com que acompanhavam a missa aos domingos na Matriz. Por isso dois deles já foram severamente castigados, tendo o Chico Carapanã morrido afogado um ano depois do baile e o Pedro Rabequinha sofrido quatro meses de cadeia por uma descompostura que passou ao capitão Coutinho a propósito de uma questão de terras. O Penaforte, que se acautele!

Muito se dançou naquela noite e, a falar a verdade, muito se bebeu também, porque em todos os intervalos da dança lá corriam pela sala os copos da tal cerveja Bass, que fizera muita gente boa esquecer os seus deveres. O contentamento era geral e alguns tolos chegavam mesmo a dizer que na vila nunca se vira um baile igual!

A rainha do baile era, incontestavelmente, a D. Mariquinhas, a mulher do tenente-coronel Bento de Arruda, casadinha de três semanas, alta, gorda, tão rosada que parecia uma portuguesa. A D. Mariquinhas tinha uns olhos pretos que tinham transtornado a cabeça de muita gente; o que mais nela encantava era a faceirice com que sorria a todos, parecendo não conhecer maior prazer do que ser agradável a quem lhe falava. O seu casamento fora por muitos lastimado, embora o tenente-coronel não fosse propriamente um velho, pois não passava ainda dos cinqüenta; diziam todos que uma moça nas condições daquela tinha onde escolher melhor e falava-se muito de um certo Lulu Valente, rapaz dado a caçoadas de bom gosto, que morrera pela moça e ficara fora de si com o casamento do tenente-coronel; mas a mãe era pobre, uma simples professora régia!

O tenente-coronel era rico, viúvo e sem filhos e tantos foram os conselhos, os rogos e agrados e, segundo outros, ameaças da velha, que D. Mariquinhas não teve outro remédio que mandar o Lulu às favas e casar com o Bento de Arruda. Mas, nem por isso, perdeu a alegria e amabilidade e, na noite do baile do Judeu, estava deslumbrante de formosura. Com seu vestido de nobreza azul-celeste, as suas pulseiras de esmeraldas e rubis, os seus belos braços brancos e roliços de uma carnadura rija; e alegre como um passarinho em manhã de verão. Se havia, porém, nesse baile, alguém alegre e satisfeito de sua sorte, era o tenente-coronel Bento de Arruda que, sem dançar, encostado aos umbrais de uma porta, seguia com o olhar apaixonado todos os movimentos da mulher, cujo vestido, às vezes, no rodopiar da valsa, vinha roçar-lhe as calças brancas, causando-lhe calafrios de contentamento e de amor.

Às onze horas da noite, quando mais animado ia o baile, entrou um sujeito baixo, feio, de casacão comprido e chapéu desabado, que não deixava ver o rosto, escondido também pela gola levantada do casaco. Foi direto a D. Mariquinhas, deu-lhe a mão, tirando-a para uma contradança que ia começar.

Foi muito grande a surpresa de todos, vendo aquele sujeito de chapéu na cabeça e mal amanhado, atrever-se a tirar uma senhora para dançar, mas logo cuidaram que aquilo era uma troça e puseram-se a rir, com vontade, acercando-se do recém-chegado para ver o que faria. A própria mulher do Bento de Arruda ria-se a bandeiras despregadas e, ao começar a música, lá se pôs o sujeito a dançar, fazendo muitas macaquices, segurando a dama pela mão, pela cintura, pelas espáduas, nos quase abraços lascivos, parecendo muito entusiasmado. Toda a gente ria, inclusive o tenente-coronel, que achava uma graça imensa naquele desconhecido a dar-se ao desfrute com sua mulher, cujos encantos, no pensar dele, mais se mostravam naquelas circunstâncias.

- Já viram que tipo? Já viram que gaiatice? É mesmo muito engraçado, pois não é? Mas quem será o diacho do homem? E essa de não tirar o chapéu? Ele parece ter medo de mostrar a cara... Isto é alguma troça do Manduca Alfaiate ou do Lulu Valente! Ora, não é! Pois não se está vendo que é o imediato do vapor que chegou hoje! E um moço muito engraçado, apesar de português! Eu, outro dia, o vi fazer uma em Óbidos, que foi de fazer rir as pedras ! Agüente, dona Mariquinhas, o seu par é um decidido! Toque para diante, seu Rabequinha, não deixe parar a música no melhor da história!

No meio de estas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrando a dona Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça. O Carapanã dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes que dominassem o vozerio; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio. Os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

As risadas e exclamações ruidosas dos convidados, o tropel dos novos espectadores, que chegavam em chusma do interior da casa e da rua, acotovelando-se para ver por sobre a cabeça dos outros; sonatas discordantes do violão, da rabeca e da flauta e, sobretudo, os grunhidos sinistramente burlescos do sujeito de chapéu desabado, abafavam os gemidos surdos da esposa de Bento de Arruda, que começava a desfalecer de cansaço e parecia já não experimentar prazer algum naquela dança desenfreada que alegrava tanta gente.

Farto de repetir pela sexta vez o motivo da quinta parte da quadrilha, o Rabequinha fez aos companheiros um sinal de convenção e, bruscamente, a orquestra passou, sem transição, a tocar a dança da moda.

Um bravo geral aplaudiu a melodia cadenciada e monótona da varsoviana, a cujos primeiros compassos correspondeu um viva prolongado. Os pares que ainda dançavam retiraram-se, para melhor poder apreciar o engraçado cavalheiro de chapéu desabado que, estreitando então a dama contra o côncavo peito, rompeu numa valsa vertiginosa, num verdadeiro turbilhão, a ponto de se não distinguirem quase os dois vultos que rodopiavam entrelaçados, espalhando toda a gente e derrubando tudo quanto encontravam. A moça não sentiu mais o soalho sob os pés, milhares de luzes ofuscavam-lhe a vista, tudo rodava em torno dela; o seu rosto exprimia uma angústia suprema, em que alguns maliciosos sonharam ver um êxtase de amor.

No meio dessa estupenda valsa, o homem deixa cair o chapéu e o tenente-coronel, que o seguiu assustado, para pedir que parassem, viu, com horror, que o tal sujeito tinha a cabeça furada. Em vez de ser homem, era um boto, sim, um grande boto, ou o demônio por ele, mas um senhor boto que afetava, por um maior escárnio, uma vaga semelhança com o Lulu Valente. O monstro, arrastando a desgraçada dama pela porta fora, espavorido com o sinal da cruz feito pelo Bento de Arruda, atravessou a rua, sempre valsando ao som da varsoviana e, chegando à ribanceira do rio, atirou-se lá de cima com a moça imprudente e com ela se atufou nas águas.

“Des dessa” vez ninguém quis voltar aos bailes do Judeu.

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Inglês de Sousa (1853-1918) – escritor, jurista e político. Introduziu a escola literária naturalista no Brasil mediante uma obra voltada para a natureza e a vida amazônicas. A partir do primeiro trabalho, O Cacaulista (1876), fez dos problemas humanos da Amazônia a preocupação central de suas obras. Tal como o primeiro, seu segundo livro, O Coronel Sangrado (1877), não alcançou repercussão, mas inaugurou a corrente naturalista na literatura brasileira. O autor tornou-se conhecido com O Missionário (1888), em que descreve com fidelidade a vida numa pequena cidade do Pará. Publicou também Contos Amazônicos (1893). Nasceu em Óbidos, Pará, e faleceu no Rio de Janeiro.

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SOUSA, Inglês de. Contos Amazônicos. São Paulo: Martin Claret, 2005.