sexta-feira, 13 de maio de 2011

A GRANDE LUTA – Altino Machado

Entrou no quarto cuidadosamente, procurando não ser pressentido, buscando recantos escuros próximos à cortina da janela e ficou quieto, imóvel, certificando-se de não ter sido visto. Após alguns minutos, adquiriu confiança. O casal permanecia na cama conversando sobre assuntos banais: filhos malcriados, empregada desordeira, problemas com o chefe na repartição, programa para o fim de semana. Tudo revelava não terem sequer suspeitado de sua presença. Mais adiante, viu quando se acarinharam, beijaram-se rapidamente, deram-se boa noite e apagaram o abajur de cabeceira. Continuou estático atrás da cortina, aguardando; não tinha pressa, a noite apenas começava e até clarear o dia poderia agir, desde que tomasse as cautelas necessárias, não se expondo ou cometendo imprudência.

Cerca de uma hora mais tarde, ouviu o ronco de ambos, voltados um para o outro na cama larga. Sentiu segurança e saiu da posição, postando-se ao lado do guarda-roupa, perto dos dois que dormiam profundamente. Abeirou-se, em seguida, do criado-mudo, iluminado pelo mostrador fosforescente do rádio-relógio. Continuavam inertes e ele se aventurou. Bem de leve, pousou na mão da mulher, sempre dava preferência ao sangue feminino, achava-o mais puro, mais ralo, mais doce. O do homem parecia-lhe grosso, pesado, de difícil absorção; a pele da mulher era, por outro lado, mais fina, lisa, delicada; o ferrão entrava sem risco de quebrar-se. No homem, a pele era áspera, os pêlos atrapalhavam. O local predileto era o colo, de preferência os seios, embora fosse difícil encontrá-los expostos, mormente na época de frio. No calor, por vezes deparou corpos desnudados e pôde escolher à vontade o ponto da picada.

A mão se mexeu e ele saiu, rápido, antes que o esmagasse. Todo cuidado era pouco. Voltou para o teto, longe do alcance; evitava precipitar-se. Meia hora mais, novamente desceu, aterrando o braço dobrado, fora do lençol verde. Nenhum movimento. Espichou o ferrão e começou a introduzi-lo, vagarosamente, num poro mais largo, na parte inferior do antebraço, sobre tênue veia azul. De súbito: plaft! Um tapa forte, a luz foi acesa, formou-se um burburinho, mal teve tempo de safar-se, o vento da mão impulsionou-o para baixo, ele assentou-se ao pé da cama.

– Tem pernilongo no quarto, querido.

– Onde? Não senti nada.

– Pois eu senti, estava me picando. Vamos procurá-lo, não consigo dormir com esses miseráveis chupando a gente!

– Tudo bem, deixe-me pôr os óculos. Apanhe a toalha de rosto no banheiro, umedeça-a; logo mato esse bicho desgraçado.

Rente ao chão, ele estava apavorado. Fora armadilha, ela fingira estar dormindo. Quase foi apanhado... Exatamente como na noite anterior, traidora, falsa! Ela me paga, pensava; se escapar desta, chupo-lhe todo o sangue. Ouviu barulho, os dois andavam pelo cômodo, sacudindo cortinas, afastando móveis, iluminando todos os cantos com luz forte.

– Olhe ali! Dê-me rápido a toalha, vamos antes que fuja!

– Onde?

– Aqui. Ah! você demorou, ele fugiu; veja do outro lado, deve estar passando por baixo.

Realmente, voara com risco de vida sob a cama e se escondera atrás da porta que dava para o corredor. Acreditava que não o procurariam lá; pelo menos não o fizeram na noite passada.

De repente, mexeram a porta e ele se viu exposto, no claro, inteiramente a descoberto. Passaram a jogar toalha dobrada, chinelos, paletó de pijama, até camisola ela tirou, transformando-a em petardo. Quase foi atingido, mas escapou pelo túnel escuro e sombrio do corredor. Assustado, pensou: ainda bem que não se valeram das armas químicas; limitaram-se à bateria antiaérea...

– Vamos dormir, meu bem. Acho que o matamos. Amanhã comprarei nova bomba de inseticida.

– Não suporto o cheiro do produto, prefiro o pernilongo.

– É, mas não há outro jeito...

Distante, no fundo do corredor, ele recordava os conselhos da mãe: não tenha pressa, não esmoreça, prefira o escuro e evite os ouvidos. O homem tem nos ouvidos o ponto mais sensível do corpo: o cérebro humano deve se localizar nos ouvidos. O rosto do homem é região acidentada, a montanha principal é o nariz, com duas cavernas profundas; as orelhas, onde ficam os ouvidos, vêm em seguida: duas abas grandes, radares poderosos, que detectam o zumbido e acionam braços e mãos para a morte. Os olhos são sensíveis mais inofensivos; a boca é cavidade perigosa, aprisiona os insetos descuidados que nela adentram à procura da língua, saborosa. Os homens são brutos e nada inteligentes. Bastariam cortinados e os pernilongos morreriam de fome; mas são comodistas, acham que junta poeira e preferem guerrear. Quando não matam logo – o homem só pensa em matar –, insistem na batalha até ficarem cansados e caírem no sono, entregando-se. Aí tudo fica bem. O ferrão entra fácil, o sangue escorre que é uma beleza!

Achava que aquele momento chegara e se preparava para a sucção. Achava mais: como é fácil lutar contra o homem; ele repete a mesma técnica todas às noites: atira tudo que tem à mão. Certa vez arremessaram-lhe um despertador, que não o alcançou e se desfez todo; teve pena. Difícil é lutar contra a largatixa, esta sim, sabida e viva, ardilosa e inteligente. Dificílima a luta contra a deusa-aranha, que tece sua teia invisível. Não há pernilongo que lhe escape, quando faminta. Já a papa-mosca é esperta, mas dá para se defender. Depois do homem, é o adversário mais burro...

Após longo tempo, retornou ao dormitório. Os roncos se reativaram, fortíssimos. Exaustos, rendiam-se. Então, ele esnobou. Esticou o ferrão e o introduziu lentamente no pescoço do homem, chupou meia gota de sangue grosso. Logo em seguida, com toda calma, outra meia gota do lindo colo feminino...

Afinal, deixou o quarto, voando solto e feliz, zumbindo forte, realizado com a vitória, pesado, barriga cheia de sangue, que digeriria pela semana inteira. Voou ao encontro dos seus, orgulho e certo de que seria recebido como herói: derrotara o homem, ganhara a grande luta da noite...

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MACHADO, Altino. A figura refletida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

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Nota: Prestamos aqui nossa homenagem póstuma a José Altino Machado, falecido na segunda-feira última (09/05) em São Paulo. Nascido em Taubaté no dia 21 de fevereiro de 1924, era formado em Direito pela Universidade de São Paulo (1947); foi Governador do Território Acre (1961), durante o governo do Presidente Jânio Quadros e Deputado Federal também pelo Acre, exercendo o mandato de 1963 a 67. Membro da Academia Paulista de Letras, foi autor de 4 livros, com um total de 82 contos editados. Veja mais aqui.
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