domingo, 1 de maio de 2011

PENÉLOPE MORTÍFERA - Leila Jalul

Enquanto na grande sala acontecia o velório, capionga, dona Ana chamou a irmã e, sem que fossem notadas, fugiram para o quintal. Estava como triste e irritada com a baderna que a turma estava fazendo na sua casa. Mal o caixão foi aberto, a sala foi literalmente invadida pela turba, mostrando a verdadeira face do ser humano. Uns riam, outros se aproximavam do caixão, outros levantavam o véu que cobria o rosto de Doroty. Alguns outros, nem uma persignação pela paz da falecida. Foram direto para a cozinha, ou comer biscoitos com café, ou guaraná com bolacha. Esfomeados e “maliducados”, dizia a senhora.

Diante de tantas tragédias vividas e experimentadas pela filha, dona Ana, por mais que procurasse razões e justificativas, não sabia entender a trajetória daquela menina, tão cedo morta.

O berço foi bom, pensava ela. Mariano, enquanto raciocinava, foi bom pai. Os irmãos Maria Raimunda e Marianinho foram bons irmãos. Os avós Pedro Maia e Adaltiva, com os quais conviveu, igualmente, foram bons avós.

- Onde errei, Estefânia?

- Não se martirize Ana! As linhas de Doroty foram traçadas por Deus. Nada pode ser feito contra os desígnios Dele!

- Irmã, foram quatro cadáveres! Não poderiam ter sido dois? Foram dois jovens abatidos, mal se aproximaram de minha filha! Pode-se até considerar dois aspirantes a namorados e os dois maridos! Não é esquisito? O primeiro, tinha ela 16 anos de idade. Foi o jovem Tales Machado. O garoto vivia em Portugal, estudando na tal da universidade dos doutores da capa preta. Ele morreu antes de completar um mês de namoro propriamente dito. Veio de férias e não mais retornou. A impressão que tive, quando tudo aconteceu, foi que Doroty, já possuída pelo anjo da morte, invocou que o rapaz viesse aqui só para morrer. Meu Deus do céu! Estás lembrada, minha irmã? Foi naquela boate vagabunda lá pros lados do campo de aviação. O antigo paquera da minha filha apunhalou o Tales bem na altura do peito! O metal ficou cravado!

- Lembro direito e com todos os detalhes. Dona Lina foi quem, abraçada ao filho, amaldiçoou Doroty. As palavras dela foram cortantes. Terá sido praga, Ana?

- Sei não... Pode ser que tenha sido! A segunda tragédia aconteceu com Marcondes Meira. Já no começo, comecinho, mesmo, previ que algo de ruim aconteceria. Doroty sacaneava com o coitado por ele ter aqueles pés abertos na posição de quinze pras três, e, ainda, aquelas “lindas” e enormes orelhas de abano. No dia do aniversário dela, o dos dezessete anos, a malvada só tinha olhos para o filho do Major Diógenes. Na manhã seguinte, deu no que deu! O menino Marcondes tomou o veneno de ratos e buft! Nem um bilhete deixou...

- Ana, ele era um fraco! Feio que só o diabo, não teria chances com Doroty. Desculpe, minha irmã, é até compreensível! De interessante, bastante, mesmo, só o conteúdo do cofre!

- Sim, Estefânia, e o Eduardo Marins? O moço era bonito! Um Adônis, quase!

- Bonito e intragável! Esse eu não conto, Ana. A morte dele, me desculpe, foi da vontade dele. Ele procurou. Onde já se viu dirigir a mais de 200 km por hora só por causa de um ciuminho besta? É certo que Doroty instigava, mas... quem é burro pede a Deus que o mate e ao “capiroto” que o carregue!

- É... Talvez você tenha razão. Mesmo assim, é de assustar, não? Agora, meu maior desgosto, foi quando vi o coitado do Ricardo Osman estendido no caixão. Eu tenho certeza que aquele rapaz morreu por consentimento de Deus e ajudado pelas mãos e pela ruindade de Doroty. Desde que as terras de herança dele foram invadidas e a justiça fez vistas grossas, o coitado entrou numa profunda depressão. Minha filha só amaldiçoava o infeliz. Ou dizia que ele era incompetente, um peso morto ou passava na cara o prato de comida que dava a ele. Muitas vezes vi o meu genro chorar ainda na mesa. As lágrimas misturavam-se com a comida. Nem gosto de lembrar...

As duas irmãs foram interrompidas por Marianinho.

- Mãe, a senhora tem que acabar com aquele furdunço lá em casa. Já tirei um povo de dentro do meu quarto e do da senhora. Tinha gente deitada nas camas. Pedi licença, tranquei as portas e guardei as chaves comigo. Uma doida, nem sei quem é, deixou cair uma meia-calça no buraco do assoalho e, depois, por esquecimento ou por querer, jogou uma ponta de cigarro. A fumaça levantou e tive que apagar o fogo. Estão pedindo mais café e biscoitos. Uma outra maluca até perguntou a que horas o almoço será servido. Vai ter almoço? O enterro não vai ser às duas da tarde? Ande! Não fico mais ali, por nada deste mundo!

Dona Ana, sempre de poucas e curtas palavras, ordenou ao filho que fechasse o caixão, apagasse as velas e encerrasse a guarda do corpo. Entrou no recinto, de cara dura e falou para ser bem ouvida:

- Ao enterro, já! Onde já se viu uma balbúrdia desse tamanho? Vá, Doroty! Que a terra lhe seja leve e que Deus lhe perdoe os erros e os desvios. Vá, minha filha! Ele é generoso!

Despedidas feitas, sem lágrimas ou lamúrias, dona Ana fechou as portas e janelas da casa e voltou a sentar-se debaixo do pé de Jambo. Estefânia foi junto. Precisavam conversar sobre a falecida.

- Estefânia, chega lá no meu quarto e abra o guarda-roupa. Debaixo do monte de lençóis há um diário de Doroty. Traga-o aqui que quero mostrar umas coisas. Também recolha aquelas duas miniaturas de gárgulas que estão sobre a cômoda. Quero dar fim àquelas monstruosidades. Vá, antes que Marianinho e Maria Raimunda voltem do cemitério!

- Pronto, Ana!

Trêmula, Ana abriu o diário. Além de algumas frases de efeito e anotações gerais, uns relatos sobre a morte dos namorados e dos maridos. Sobre os nomes de Tales, Marcondes, Eduardo e Ricardo, uma grossa cruz desenhada com caneta preta. Nada demais, não fossem os textos escabrosos, difamantes e vingativos sobre os homens que passaram em sua vida. Passaram e morreram! Os textos eram quase uma graças aos céus por terem morrido e desocupado seu caminho. Sobre Ricardo, último marido da filha, ao ler o texto, dona Ana ficou emocionada. Ao final estava expresso, de próprio punho e com letras fortes, o pensamento sobre o rapaz: “Ricardo, viver com um homem bonito e rico é como carregar penas; tolerar um homem frouxo e pobre, ainda que bonito, é um exagero de castigo! Não usufruí de tuas terras. Que a terra, então, usufrua do teu corpo e da tua burrice. Sem saudades! Doroty.”

- Estefânia, faça-me um favor. Coloca fogo neste diário. Antes, porém, arranca as duas páginas finais. Quebre estas peças ridículas e jogue os cacos no lixo.

- Está bem, Ana. Qual significado têm estas imagens horríveis? Você recorda daquela mulher que diziam prever o futuro? Doroty vivia por lá!
Gárgulas de Notre-Dame
- É, Estefânia. Minha filha era chegada no que ela chamava de “ciências ocultas”. Nada de coisas de macumba. Isso, eu nunca vi. Estas tais gárgulas são coisas meio que demoníacas, do tempo da idade média. Dizem que elas serviam para proteger as igrejas, mas, pelo que li, são peças que ajudam a escoar as águas que se acumulam nos telhados das grandes igrejas. Hoje, creio, não fazem mais essas macacadas. Quando briguei com Doroty, “gentil” e simplesmente respondeu-me que iria transformar sua casa numa verdadeira Catedral de Notre Dame. E ainda complementou que tinha muito “olho gordo” atravancando a vida dela. Diante da resposta grosseira que deu, apenas retruquei: pois então aguarde até que tenha sua própria casa. Na minha eu não permito coleção destas coisas tétricas e que têm parte com o “cascudo”, com o “bicho ruim”. Uma vez, até fico arrepiada, encontrei Doroty na frente do espelho, com uma vela acesa ao lado. Ela permaneceu mais de duas horas com o olhar fixo naquele espelho, como se estivesse hipnotizada. Vi mais umas coisas que indicavam que ela tinha uma mente doentia. Lembra daquela brincadeira com o copo e com as letras? O copo andava, lembra? Ela era useira e abusadeira daquela arte do “demo”.

- Lembro, Ana. Agora vamos tratar de esquecer, está bem?

Enquanto o diário estava sendo consumido pelo fogo, a velha senhora leu para a irmã as últimas anotações da filha: “Venci a parada! Os cinquenta idiotas e bandidinhos perderam a questão! Meu sorriso de Muttley (*) para eles! Medalha, medalha, medalha!”

Os cinquenta idiotas e bandidinhos não eram senão uns garotos e garotas que pleiteavam um sonho profissional. Doroty armou documentação falsa e brecou o pedido. E os sonhos, também! “Matar sonhos é crime...” finalizou dona Ana.

- Vamos entrar, Estefânia. A vida vai continuar... Eu necessitava desabafar com alguém e desabafei. Obrigada, muito obrigada por me ouvir! Só você, minha irmã!

- Vamos, Ana. Por Doroty, daqui pra frente, só nossas orações. Ela vai precisar!

- E muito!

***

(*) Muttley é o cachorro do Dick Vigarista do desenho Corrida Maluca. Suas principais marcas são o desejo por medalhas, as fraudes para ganhar as corridas e a risada repugnante.

Nota da autora: dessa vez fui longe demais! Cinco cadáveres e mais cinquenta sonhos enterrados no chão. Credo!
Nota do Blog: texto publicado originalmente no site Lima Coelho.

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Para ler outras crônicas de Leila Jalul:
Site Lima Coelho, onde ela publica regularmente.
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