sábado, 30 de julho de 2011

O HITLER DA NORUEGA

Profª. Inês Lacerda Araújo


Não há limite nítido nem um critério razoável para se avaliar as motivações que levaram Breivik à matança generalizada em Oslo e na ilha de Utoya.

Fanatismo fruto de uma ideologia de extrema direita, renascimento da direita nazi-fascista em uma Europa que rejeita imigrantes, em especial africanos e muçulmanos, diagnóstico de insanidade (monstro moral incapaz de empatia) - são alguns dos juízos de avaliação/dignóstico para tentar compreender, mas nunca justificar o ato brutal.

Como é possível que uma sociedade avançada e pacífica, democrática, em que o acesso à educação de qualidade é uma conquista de há muito tempo, tenha produzido esse filhote de Hitler?

Se fosse em país pobre, com baixo índice de desenvolvimento humano, social e econômico, provavelmente essas seriam as justificativas. Não é o caso da Noruega.

Foi por ideologia? Breivik escreveu livremente um compêndio de 1500 páginas, espécie de diário on line insuflando uma revolução da direita contra o marxismo, contra o islamismo, contra os imigrantes, contra os governantes do partido trabalhista, contra a democracia.

Ideologias são formações políticas baseadas em ideias e propostas às quais é preciso aderir e pelas quais é preciso lutar, de alguma maneira, e também propagar. Breivik seguiu todos os passos dessa cartilha. A ironia da situação é que diferentes ideologias podem e devem contrapor-se no cenário democrático. Quer dizer, se não houvesse uma esfera pública com liberdade e que assegura a representatividade, seriam todos prejudicados. Não se pode impedir o livre acesso aos meios para a mobilização política.

O autor dos massacres pode ser incluído no rol de cidadão com direitos? E quando cultivou e propagou uma ideologia predadora, e nenhuma voz se ouviu que o criticasse? Controle e censura, até que ponto são aceitáveis e/ou necessários?
Terrorista loiro em uniforme militar, sem véus ou turbantes...
Quanto ao renascimento do nazi-facismo na Europa e nos EUA por meio de partidos de direita extremista, sabe-se que Breivik foi filiado a um deles. Portanto, mais um vez, a própria sociedade democrática não tem meios legais de barrar a implantação e o crescimento desses partidos. Cabe informar o eleitor para que, pelo seu voto e opinião, exclua o extremismo, seja de direita ou de esquerda.

E que dizer das análises do advogado do sorridente Breivik? Em declaração para a imprensa, o advogado afirma que após horas de reflexão resolveu aceitar a defesa do criminoso que não demonstra nenhum arrependimento, e até mesmo não estava suficientemente satisfeito com o resultado. Queria mais, as mortes eram "necessárias". É difícil explicar esse tipo de comportamento, afirma o advogado, "ele se considera um combatente, e em guerra é isso mesmo que se faz, mata-se o inimigo". Ele acha que Breivik pode ser considerado louco, "mas ainda é cedo para saber"...

O inimigo no caso foram jovens escolhidos estrategicamente, ilhados e indefesos. A polícia fora mobilizada duas horas antes para atender a explosão no centro de Oslo, demorou para agir, tal o inusitado dos pedidos de socorro. Vestido com uniforme da polícia, o matador tinha farta e devastadora munição, seu objetivo era matar o máximo de jovens para ter a mesma fama de Hitler, disse ele.

Lição 1: fanáticos podem surgir em qualquer tipo de sociedade.

Lição 2: não há como prever seus ataques.

Lição 3: paradoxo da liberdade: se democracias barrarem a livre representação, deixam de ser democráticas. Se não punirem, vigiarem e aumentarem a segurança põem em risco a vida de inocentes, mas perdem enquanto sociedades abertas.

Lição 4: psiquiatrizar o criminoso, diagnosticá-lo como louco e incapaz de julgamento moral não deve servir como parâmetro para julgar, pois desse modo se anula a responsabilidade das "escolhas" cruéis do fanatismo que acabam neutralizadas pela psiquiatria forense.

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. É professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

ANTOLOGIAS ACREANAS

Assim como fora em todo o Brasil, o Acre, nas décadas de 70 e 80, também experimentara o frenesi proporcionado pela chamada “cultura marginal” que marcou, sobretudo, a poesia (geração do mimeógrafo), a música, o teatro e as artes plásticas. Como um dos frutos dessa agitação literário-social, para nós, acreanos, está a publicação das primeiras antologias poéticas.

Em 1981, surgia a pioneira coletânea de poemas publicada pela “Cia Teatro 4o Fuso”, organizada e prefaciada por Jorge Carlos. A antologia era resultado da “Mostra de Poesia do Movimento Akiry Arte”. Tratava-se uma produção independente, sem ficha catalográfica, no formato de brochura, composta por 50 poemas, de 28 autores, ilustrada com desenhos, gravuras e reproduções de quadros de artistas locais, como Hélio Melo, Raimundo Mendes (Dim), Carlos Mejido, etc.

Um ano depois, 1982, era a vez de “Algumas Poesias Acreanas”, antologia que reunia os trabalhos premiados (e menções honrosas) dos concursos “Prêmio Vinicius de Moraes” e “Concurso Acreano de Poesias 81”, respectivamente, dos anos de 1980 e 1981, lançados simultaneamente por ocasião da III e IV Feira do Livro no Acre, promovido pelo Serviço Social do Comércio (SESC), em parceria com instituições locais e a Fundação Joaquim Nabuco, de Recife. Como se demonstra, nas páginas iniciais, o propósito da antologia não era colocar em evidência o trabalho de círculos intelectuais, mas incentivar a produção literária entre as camadas e faixas etárias da população, nas mais diversas localidades do Estado. Reúne trabalhos de 22 poetas, num total de 37 poemas. A Francis Mary pertence o maior número de poemas, cinco ao todo, seguida por Severino Giovanni de Souza Siqueira e Marcos Afonso, ambos com quatro.

Por sua vez, a Casa do Poeta Acreano, sob o patrocínio da extinta Fundação de Desenvolvimento de Recursos Humanos, da Cultura e do Desporto (FDRHCD), em 1986, faz vir a lume a “Antologia dos Poetas Acreanos 1986”. À época, a Casa do Poeta Acreano era presidida por Mauro Modesto, tendo Clodomir Monteiro como secretário geral. Essa antologia é mais sistematizada que as outras duas mencionadas anteriormente. Nela estão incluídos poemas de grandes nomes da poesia acreana dos primeiros tempos, que já haviam falecidos, como Juvenal Antunes, Garibaldi Brasil e Raimundo Thomé da Rocha. A antologia é composta por 91 poemas, de 91 poetas distintos, além de um belíssimo poema, na quarta capa, de autoria de Jacó Cesar Piccoli.

A temática dessas antologias, grosso modo, pode ser assim estabelecida: 1) poemas que retratam a opressão e os conflitos dos povos da floresta, sobretudo, os da Cia Teatro 4o Fuso; 2) poemas com ênfase no amor (sentimento); e 3) poemas de exaltação da natureza, no caso, da floresta amazônica com seus encantos e problemas, muito evidente nas antologias de 1982 e 1986. As palavras da professora Lucília Maria Parra Pastro, no prefácio da antologia de 86, fazem uma boa síntese da temática dessas antologias, aí ela diz que é evocada a presença viva e constante da floresta, dos rios, dos seringais, enfim, de todo o cosmo que faz parte da vida e dos sentimentos do povo acreano.

A importância dessas três antologias, portanto, se dá, sobremaneira, pelo fato de reunir a produção literária de um momento importante (e conturbado) da política e da cultura acreana, encetado a partir de 1964, a semelhança do que ocorrera em todo o país. Era o tempo do combativo e lendário Jornal Varadouro, do grito da ecologia, da luta contra a “zebunização”, dos empates de Chico Mendes, etc. Enfim, revisitar essas antologias é uma oportunidade de fazer reviver poesias e poetas, cujas ideias e ideais, bem como valores, ainda hoje persistem e se fazem necessários.

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Abaixo, uma pequena amostra do que há nessas antologias.


SEMENTE CORAÇÃO
Francis Mary

                           A Wilson Pinheiro

Na minha terra
planta-se corações
e nascem lutas
dessa plantação.
O chão é regado
com sangue
e as balas são sementes
que fazem calos
nas mãos...


A AMAZÔNIA E A ÚLTIMA ESTROFE
Severino Giovanni de Souza Siqueira

Meu Deus! Meu Deus!
Tristes lembranças na vida se desfazem.

Minha querida Musa do meu pranto!
Um povo heróico se lamenta e chora.
Traíram meus irmãos!
Não tenho mais inspiração.

Amazônia consorte! Eterna amante!
Na tua história, na expansão guerrida,
Desde o império arcaico, torpe e duro,
Promessas colossais jamais foram cumpridas.

Quando os meus versos renascerem no canto,
Numa balada de amor e de ternura,
Escreverei cativo em um prelúdio santo,
Tudo que sei exaltarei num grito.

Meu Deus! Meu Deus!
Agora eu te suplico,
A santa inspiração...
A última estrofe escreverei no pranto:

Amazônia dos céus! Vejo-te mansa...
Minhas lembranças não serão matizes solitárias.
Serás eleita rainha dos poetas,
Esta promessa não será desfeita.


INFERNO VERDE
Isabel Carpaneda

Ouvi falar de ti
Há muitos e muitos anos
Ouvi dizer que eras selvagem
Que tuas matas guardavam mistérios
Teu chão do inferno era a miragem...

Ouvi dizer que eras inóspita
Que em teu seio abrigavas feras
De todas as eras
Que seus uivos despertavam séculos
De esperanças e quimeras...

Ouvi falar de tua extensão
Que abrangia grande parte do Brasil
E os brasileiros te ignoravam
Te repudiavam e temiam
Cobrindo de mistérios o Brasil que dormia.

Vim de longe pra te ver
Te escutar e te conhecer
“Amazônia Legal”?...
Assim me disseram... É isto onde pisas!
E como de um sonho desvairado
Acordei e senti o Brasil despertado!

Então vi que tuas matas tombavam
Pelo braço do estóico forasteiro
Vi teus regatos se turvarem
No turbilhão da conquista
De impetuosos aventureiros...

E o Brasil te conheceu
Desvendou teus mistérios, tua riqueza
Penetrou tuas entranhas
E extraiu o feto do progresso:
Lá se foram a borracha e a castanha
Transformando teu chão em culturas
Sem sucesso.

Cadê tua paisagem verde?
Cadê a sinfonia de teus lindos pássaros?
E a fauna... exterminada, expulsa...
Ok! Amazônia,
Teu brado em vão sondou o infinito

Na história serás sempre o inferno maldito
Que o homem cruel, mil segredos há de buscar!


LAMENTOS DA AMAZÔNIA
Belkiss C. Leitão

Eu já fui verde!...
Já fui livre!
Terra sem dono,
Terra virgem.

Acolhi no meu seio o desterrado,
Dei-lhe comida,
A sombra, a habitação.

Vesti de verde,
Verde de esperança,
O seu mutilado coração.

E hoje, o mundo,
Inebriado pelo fogo da ambição
Queima as minhas entranhas
Fere a machado o meu verde coração.


FILHOS DA AMAZÔNIA
Ângela Batista

Terra água. Água de fartar.
Paisagem de dramas. Palco secular.
Medo e coragem. Floresta mulher.
Braços exangues. Bocas abertas.
Olhos pasmos de fé.
Trabalhar é bom. Morrer é difícil.
Gira a terra. Gira a lua.
A mata varre pensamentos.
Santo Daime. O apocalipse.
Meu Deus! A alma martela,
Constrói a Arca de Noé!
Outras terras, outras mentes
Veriam essas explosões de luz?
O estômago doente.
Lata. Sardinha. Água e farinha.
Preços. Vermes. Patrões.
Compreensão partida. Calma violência.
Os olhos presos à cruz...
O pasto cercado por arame farpado.
Criam. Pocriam. Entregam.
Esfregam-se nas redes suadas.
Tocam as alavancas do universo.
Trabalham. Trabalham. Morrem.
Já nascem diminuídos todo dia.
Todo dia o clarão de Deus
Obscurece a vista. O dono ilude.
A semente cai na terra fria.
E o passado despeja todo drama,
Toda luta, bem abaixo do chão.


PAISAGEM BRASILEIRA
Jorge Carlos

Os camponeses
A terra vão lavrando.
Não têm nada!
Pro patrão
A terra vão lavrando.


CADÊ A MACAXEIRA?
Silene Farias

É pouca farinha no prato
E muita fome na macaxeira.
É da gripe crônica
À falta do lambedor.
É um filho no peito,
Outro no bucho,
Outros quatro lambendo o dedo.
A rapadura foi pouca!
É a tristeza do companheiro,
A goteira que aumenta
E molha um outro filho
Que arde em febre...
É a peste!
É o andar curvado,
Do peso secular da carga.
É o brilho dos olhos desfeitos
Pela fumaça do látex.
A memória é forte! [...]


TODO CORAÇÃO
Beto Rocha

Todo coração
Tem um veneno
Uma chama
Um segredo
Uma magia.

Todo coração
Tem um amor
Uma dor
Um vexame
Uma fadiga.

Todo coração
Tem um arraso
Tem agonia
Um barato
Uma mania.

Todo coração
Tem um instante
Uma folia
Um acaso
Uma alegria.

Todo coração
Tem um pecado
Todo coração
É perdoado!


VENDO TARDE
Fátima Almeida

Essa vagareza que desliza lua
Acalma o coração o dia
Desce uma luz, sob outra luz
No tear da vida tênue algodão doce.

O tempo assim quem o percebe
Está morto – matou a criança
Na qual o tempo nunca se vê
Até o carrasco ir comprimindo o laço.


ANOITECEU O SONHADOR
João Veras

A noite
Anoitece
E tece a dor
A dor, o sonho

A noite
Anoitece
Eu e a dor
Tu e o sonho

A noite
Anoitece
E tece
Eu, o sonhador
A dor no sonho
O sonho na dor

A noite
Anoitece
Te tece
Sonho
Anoitece
Eu e o sonhador.


RELATO
Rângela Barros de Alencar

Rolou no seio da noite
A vontade de que tudo fosse belo
Amar é qualquer coisa de belo
Que se perde na noite.


ROSA VERMELHA
Vera Maria G. de Sá

Meu coração
Menino vadio
Fugiu
Do meu domínio

Meu coração
Moleque de beira de rio
Mergulhou
Na primeira canção

É rosa vermelha
Agora
Meu coração
Desabrochando em mim.


TEU AMOR
Fernando de Castela

O teu amor é doce suave e brando
Como cantiga d’água cristalina
Embalando e ninando,
Teu beijo morno, bálsamo piedoso
Cura a tormenta que me tira a calma
E vai bater de leve acariciando
as profundezas d’alma.
Tudo em ti é bondade, é beleza e perdão.
O teu amor suave e brando
Não tem as lavas de vulcão,
Não é loucura,
Nem é paixão.
O teu amor é simplesmente tudo
De uma simplicidade fervorosa
Tem uns sopros de brisa
Com perfumes de rosa.

Ah! Se esse teu amor um dia copiassem
E com amor assim as pessoas se amassem
Num sonho bom, feliz, quase irreal,
Talvez
que esse exemplo de amor trouxesse ao mundo
A paz universal.


CEMITÉRIO CÊNICO
Altino Machado

A crueldade
opaca da melancolia
tomou o cemitério em seus braços
e acalentou os mortos
com o estridente réquiem
que ficou gravado no peito amargo
das melancolias
das necrópoles inertes
Então os mortos nefastos
adormecidos, embriagados
dormiram perpetuados na esperança
necromântica, romântica
do necrólatra e necrófobo que sou.


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REFERÊNCIAS

Antologia dos Poetas Acreanos 1986. Rio Branco: Fundação Cultural/Casa do Poeta Acreano, 1986.
Algumas Poesias Acreanas. Rio Branco: SESC; Recife: FUNDAJ/Editora Massangana, 1982.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

ALGUMAS (BOAS) RAZÕES PARA VIVER BEM

Profª. Inês Lacerda Araújo


Não faltam receitas e conselhos para viver bem. Em geral se referem à saúde física e mental. A maioria das pessoas já leu sobre isso, há fartura de livros de auto-ajuda, sites, informação na TV e nos jornais: faça exercício, procure seu médico, não se estresse, durma, coma isso e não aquilo, etc.

Mesmo a filosofia tem sido usada com esses propósitos.

É possível, entretanto, apontar para campos pouco explorados, com ajuda de alguns filósofos.

No século I de nossa era os estóicos, filósofos romanos, se voltam para a vida concreta, para os valores que ensejam aceitação, simplicidade, confiança, sobriedade, moderação. Há que desprezar o caráter fraco, "bestial, infantil, indolente, desleal, de histrião, de mercador, de tirano", escreve Marco Aurélio, "a vida é breve; é preciso defrutar o presente com prudência e justiça, ser sóbrio folgando", nada de ficar lastimando, ser como o promontório que permanece firme com o vai e vem das ondas.

Difícil, em uma sociedade que prega o sucesso a qualquer preço e o imediatismo. Resolver tudo já, cumprir metas, devorar e devolver, de preferência sem precisar pensar muito.

É pena, deveríamos ter as malas prontas para partir, o navio mesmo longe, um dia chega. Ser leve para ir embora, não precisamos de bagagem alguma...


(Ilustração de S. Dali para
"Ensaios" de Montaigne)
Outros filósofos ensinam a desconfiar de mitos, de crenças arraigadas, riem dos presunçosos e criticam as pessoas que se têm alta conta. A meta que os orgulhosos perseguem é a glória. Mas também o oposto, crer-se inferior ao que se vale, é viver na sombra, de sobras.

Montaigne (século 16) não teme ferir os orgulhosos e nem teme desprezar os fracos e subalternos. Chegar à velhice, aceitar doenças, sem temor. "É impossível que alguém tenha descanso enquanto temer a morte", diz ele.

O homem oscila entre a animalidade e a racionalidade. Não se deve ignorar nem uma nem a outra: semelhança com os animais e ao mesmo tempo capaz de grandeza; algo de monstruoso (vilanias e violência), algo de gradioso (criatividade e atos livres). É isso que Pascal (século 17) chama de "duplicidade do homem". Talvez levar em conta essas facetas e disparidades sirva para mostrar porque ainda há fome no Sudão e fartura em shoppings. "Praça de alimentação" não é algo bizarro?
Alargar o horizonte e ver mais longe, praticar virtudes sem esnobismo, aprender com a análise de situações e do que nos cerca, crer sem exigir dos outros que também creiam, ver a partir de novas perspectivas tudo aquilo com que se está habituado; estranhar e indagar; saber quando parar; considerar que cada pessoa tem sua própria vida; livrar-se da ignorância, a melhor forma de cultivar a liberdade.

Essas são algumas das boas razões para vidas mais satisfatórias.

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. É professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Série A POESIA ACREANA > GLÓRIA PEREZ

A face poética de Glória Perez passa muitas vezes despecebida pelo fato do enorme prestígio que tem como novelista. Para situar e se compreender a poesia de Perez é necessário voltar à agitada e conturbada (e fértil) década de 1970. É, sobretudo, a partir dessa década que, em todo o país, irrompe um pipocar literário-social, com um enorme e heterogêneo contigente de poetas a investir, com seus versos-palavras-imagens, contra o sufoco da censura e repressão implantadas a partir de 1964 e também contra os valores morais e culturais da época. Surgia assim a poesia jovem 70, que deu um novo sentido ao fazer poético no Brasil, a semelhança do que proporcionara os modernistas com a semana de 22.

Nas palavras da professora Heloísa Buarque de Hollanda, mais que uma manifestação de denúncia e protesto, a poesia jovem foi uma explosão na literatura, jogando para o ar padrões poéticos, o que lhe valeu, inclusive, o nome de poesia marginal. A produção jovem alternativa – como a produção artesanal na literatura, os grupos de teatro independente e imprensa nanica – emerge com uma força surpreendente, procurando as brechas possíveis para uma intervenção crítica que trabalha novas formas de produção e de linguagem.

Do ponto de vista literário, os textos trabalham coloquial e ludicamente a linguagem, voltando-se para a realidade mais imediata do poeta: o cotidiano próximo, o gesto, o registro bruto do momento. A linguagem da ironia e do humor investe-se de forte sentido crítico. A poesia jovem procurou e tirou vantagem de uma dicção bem humorada, ardilosa, alegre e instantânea. Nela reivindicam-se o descompromisso, a gratuidade e a brincadeira como bandeiras da prática poética e como “bandeira” de uma postura crítica frente à ordem moral e institucional.

Constituíram o eixo dessa cultura marginal a politização das relações no interior do espaço cotidiano e a valorização das práticas artesanais e cooperativas ou coletivas, em resposta ao padrão técnico e “competente”, bem como o fechamento político. Os jovens poetas retomam a leitura pública da poesia, além da ênfase na experiência pessoal como espaço da crítica social. Ao recusar a poesia de “tese”, os poetas se voltam sobre o conteúdo de sua própria experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira.


Glória Perez no dia de seu empossamento
na Academia Acreana de Letras.
28 de abril de 2011.
É nesse contexto que se insere a poesia de Glória Perez. Ela estava ligada, principalmente, a poesia jovem produzida no Rio de Janeiro, que, em 1974, com o lançamento da “Coleção Frenesi” promeveu um verdadeiro reboliço na cultura literário-social, suscitando a urgência em se buscar novas formas e novos espaços para a poesia e a vida. Perez, por sua vez, irá integrar, em 1975, a pioneira antologia “Abertura poética, 1a. Antologia dos Novos Poetas do Novo Rio de Janeiro”, editada por Walmir Ayala e César de Araújo. Em seguida, participa das antologias: “Mulheres da vida”, “Escrita”, ambas de 1978, mesmo ano em que publica o seu primeiro livro “Sem Pão nem Circo”; “Alguma poesia” (1979); “Maria Poesia” e “Poesia Jovem Anos 70”, ambas de 1982.

A participação literária de Glória Perez, no entanto, não se limita ao Rio. Irá integrar publicações alternativas em todo o Brasil, sobretudo nos estados de São Paulo, Paraíba, Minas Gerais e Pernambuco. Fará ainda publicações em jornais e suplementos literários por todo o país e até no exterior, além de participar de alguns movimentos culturais.

A temática da poesia de Glória Perez não foge da proposta da poesia jovem 70, focalizando, sobremaneira, na questão de gênero, assumindo o discurso feminino, e uma forte e sutil crítica a certos valores, morais e culturais, pré-estabelecidos e canonizados por determinados grupos sociais. Características estas que poderão ser observadas nas poesias a seguir, a ressaltar a beleza e o primor literário desta que há muito encanta o Brasil.

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a palavra
é
arma
tantas vezes
a única
possível

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meu filho
se te disserem que isto é assim
porque sempre foi, porque sempre será
pergunta se tudo no mundo
não pode mudar

pergunta se o tempo não guarda outro tempo
assim como a fruta já está na semente
repara que em tudo floresce um avesso
e o sonho pressente

pergunta de tudo o que vês e o que sentes
é teu esse mundo com tudo o que há
porque só de ti é que vai depender
mudar pra valer ou deixar como está

-

PEDAGOGIA MODERNA

mamãe leu piaget
por isso diz o porquê
de tudo o quanto me obriga
contestando a moda antiga
nem quer ser mãe – só amiga
e me dá toda a liberdade
de fazer sua vontade

-

PENALIDADE MÁXIMA

a gente cresce escutando
– mulher nasceu pra sofrer
até o que dá prazer
nela promete doer

tão natural da mulher
é o sofrimento que, lógico,
o que a vida não lhe der
lhe dará o biológico
– as regras de todo mês
a dor da primeira vez
as penas da gravidez
a violência do parto

e o cabedal é tão farto
que a conclusão não permite
atenuante sequer
– viver é purgar a culpa
de ter nascido mulher

-

SINTOMÁTICO

era visível:
a cada dia
você ficava
mais invisível

-

BONS TEMPOS AQUELES

tenho saudades de quando
nos amávamos
vinhas de outras mulheres
eu te negava a boca
vasculhava o bolso
e tu desconfiavas
daquele namorado antigo
que quase casou comigo
reclamavas da torta
maldizendo a sorte
e batias a porta

vez por outra – rosas
mobília reformada
juras de nunca mais
nenhum atrito
e nova lua-de-mel
depois do exame de corpo de delito

-

VERDES ANOS

minha tia escutava bolero
dias e dias só chorando
secava
maldizendo a sorte das mulheres

despudorado coração exposto,
assim que eu queria sofrer
quando ficasse grande

-

amor às vezes dá nisso:
alguns quilos a mais
esperanças a menos
e filhos – pra acreditar
que mesmo assim
valeu a pena

-

MERCADO DE ESCRAVAS

ser livre para escolher
a mão que bate
e a boca que me cospe

-

ADOLESCÊNCIA

eu lia de candeeiro
e fazia que estudava
passei tinta no cabelo
bebi vinagre escondido
beijei no canto da rua
pulei janela de quarto
escrevi o nome dele
com o facão da cozinha
na casca de uma mangueira

e toda segunda-feira
a mãe me aparava as asas

-

viver
vicia

-

PÃO E CIRCO

fizemos tudo:
viagens, outra filha
mudar de casa
renovar a mobília
mas o amor acabou
e equilibristas
mantemos nosso lar
com amantes e analistas

-

REVERSO

amor também envenena:
o mais das vezes não mata
mas deixa a alma pequena


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PEREZ, Glória; MICCOLIS, Leila. Mercado de escravas. Rio de Janeiro: Achiamé/Trote, 1984.
PEREZ, Glória [et al.]. São Paulo: EDICON, 1990.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Poesia Jovem dos anos 70. São Paulo: Abril Educação, 1982.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

PORQUE WITTGENSTEIN É CONSIDERADO UM GÊNIO DA FILOSOFIA

Profª. Inês Lacerda Araújo


Considerar alguém como gênio pode parecer exagero ou muita pretensão, além do que pode sugerir uma avaliação métrica da inteligência.

Mansão da família.
Consideremos gênio, então, aquele que inova, que revoluciona, que transforma nossa maneira de ver, de pensar e de agir. Nesse sentido, Wittgenstein, é senão gênio, pelo menos genial!

Nascido em Viena (1889-1951)), de família riquísssima, seu pai era industrial e foi dos poucos que não perderam a fortuna no período de guerra. Música, artes plásticas, educação refinada, a casa frequentada por artistas e intelectuais, dois irmãos excelentes músicos, mas havia o outro lado: todos sofriam a pressão do pai para seguir carreira na engenharia e o sucederem na sua indústria.

Ludwigg frequentou a escola técnica, mas em seu íntimo não cessava de indagar, o que se é, o dever de ser verdadeiro, como se tornar um excelente ser humano. Mais tarde abriu mão de sua herança, e passou a vida de forma quase ascética.

O caminho em direção à filosofia seria o mais apropriado para realizar objetivos estritos do pensar e do agir, manifestados na lógica e na ética.

Como expressar o pensamento e como chegar à justeza da ética? O primeiro, pela linguagem. Ela estrutura todas as possibilidades de dizer com sentido, com propriedade, podendo projetar tudo o que pode ocorrer no mundo e pode ser dito. Ele chega assim, ao limite do pensável. Ser ético é algo inteiramente diverso, depende apenas de sua força interior, pois valores éticos não podem ser verificados, eles são vivenciados.

E Ludwigg Wittgenstein foi além: o que faço quando falo? Não expresso estados de coisa do mundo, nem dou nome às coisas, nem apenas me refiro a algo. Eu ajo. Sim, falar é ação e não expressão do pensamento.

Em nossas formas de vida, ao longo de todo o aprimoramento social, vital, cultural, crianças aprendem a dar nomes às coisas, a chamar alguém, a entender histórias, a distinguir cores, a usar a tabuada, a calcular, a distinguir o que é correto dizer em que circunstâncias, a empregar critérios, a decifrar signos e sinais, a perceber tal coisa como reta ou curva, que algo pode ocorrer em dado instante, que coisas podem se suceder uma após outra, que há o ver aspectos, ler para si, ler em voz alta, etc. etc. Não há "o" mental, mas operações diversas, atividades, comportamentos que requerem linguagem. Os jogos de linguagem.

Ao mesmo tempo nos são dadas certas imagens, certas concepções nas quais acreditamos, nas quais confiamos ou não, que servem de marcas, de parâmetros.

Cabana que servia de refúgio
nos fiordes da Noruega.
Procurar um fundamento? Só quando for o caso.

Trazer a filosofia para o cotidiano, retirá-la do mundo platônico, pôr nossas dúvidas e buscas no solo áspero do dia a dia. E o que se revela? Paisagens humanas, tudo o que se construiu, aspectos diversos.

Sua sede de infinito cessou. Nem Deus, diz ele, se precisasse calcular, poderia chegar ao infinito. Uma ação sem fim é impossível, assim como uma proposição sem sentido. Como dizer o sem sentido?

É impossível. O mundo faz sentido para nós e isso é terapêutico.

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O ENTERRO DAS VAIDADES - Leila Jalul*

- Moça, traz a comida dos cachorros!

- Já estou indo, Dr. Quirino! Deixe só eu terminar de almoçar. Um segundo e já estou indo!

- Moça, abaixe a colher e venha logo! Meus cachorros não podem ficar à mercê da sua lerdeza, mulher! Anda, pois! O pessoal já está chegando.

Os primeiros foram Lauro Lúcio Bertini e Neide Negrão, ambos colunistas sociais e alimentadores dos trololós políticos e sociais da cidade de Santo Flores. Chegaram ao alto da serra vomitando as próprias tripas de tão enjoados. A subida até o refúgio era, além de íngreme e tortuosa, “asfaltada” por cascalhos. Não tardou e as camionetes da TV Santo Flores estacionaram na entrada. Mauro Charmma, diretor da poderosa emissora de TV e seu chefe de redação Elano Antonio fizeram descer as modelos que desfilavam nas suas passarelas íntimas.

“O poder impõe, isto é fato”, dizia Mauro Charmma, um gaúcho de Uruguaiana a serviço do mundo da comunicação paulista.

– “Para trabalhar na ‘minha’ emissora tem que ser macho e ter tesão, estômago e força para engolir menininhas. Até as chatinhas e burrinhas!”, reforçava.

Dr. Quirino estava violentamente nervoso e excitado. Comprara aquela chácara com dois propósitos: lazer pessoal e refúgio para as socialites de Santo Flores, no sul de São Paulo, onde exercia suas análises psicanalíticas a preços de diamantes. Estava preparando a festa inaugural e nada poderia sair dos eixos. Os gabinetes S. Freud, Jacques Lacan, Carl Jung e Wilhelm Reich estavam montados e decorados. Do tradicional e confortável divã ao colchão d’água (?), do repertório New Age até, para espanto, um berço em tamanho aumentado! Sim, um berço!!! Para regressões, talvez. Quem pode dizer? Incensos, almofadões, cristais diversos, pequenos duendes e até uma coleção preciosa de sapos integravam a arte final dos consultórios luxuosos e livres dos atritos entre as correntes. Nada dizia de uma profissão séria que desvenda os mistérios do viver torto e das mentes defeituosas e confusas. Da charlatanice, desta sim, estava bem mais próxima.

Entre gafes e escorregões das ninfetas, antes das três da tarde, o almoço foi servido. Lulas gratinadas, camarões na moranga e suflê de mariscos despertavam vontades de comer de joelhos. De sobremesa, uma especialidade: sorvete de açaí com creme de chanttily, receita trazida de Codajás por Lídice, atual namorada do anfitrião. Uma culinária para mais de exótica a ser experimentada pelos distintos e fúteis convidados.

Lídice era uma caboclinha amazonense de fechar a 25 de março em véspera de Natal. Vinte anos de riso branco, bunda baixa e pernas bem torneadas, virou troféu nas mãos de Dr. Quirino, quase encostando no marco do meio século de existência. Foi através dela que chegaram à chácara o casal Moça e Walter Meira, direto de Codajás para “tomar de conta” e morar na propriedade. Eram simples e elegantes. Não usavam maconha, nem ecstasy, nem cheiravam a branquinha que provocava brilhos e sangrava narizes. Eram, de sobra, bem mais decentes, limpos, inteligentes e bondosos que a melhor e mais pura nata da sociedade de Santo Flores. Aos olhos do Dr. Quirino não passavam de estúpidos nortistas que estavam à sua disposição. Incluindo Lídice.

E foi em torno deles que girou a conversa de depois do almoço. Sem quê nem porquê, em uníssono, Lídice virou alvo de deboches e humilhações. Alguns especulavam como era ser comida por um boto, como era comer farinha todos os dias e morar em palafitas. Coisas assim. E piores, até!

Mauro Charmma, entredentes, pergunta:

- Ó, Quirino, onde você achou esta “coisa”?

- Ela é de Codajás. Sei lá onde fica isso! É na puta mata que a pariu, amigo! Nunca nem ouvi falar! Eu até pensei que ela não sabia beijar! Morder, até que sim! Está dando pro gasto, se é o que queres saber. É cheirosinha e apertadinha. Não é, benzinho?

Ficou sem resposta. Charmma, então, destilou:

- Hum, Codajás... Isso existe? Se existe, deve ser uma merda!

- Charmma, velho, eu não conheço, mas acho que sim! De merda pra baixo!!!

E riram solto. As models também riram, sem graça, quase. Estavam batizadas de bebida e empoadas de branquinha paraguaia pura. A beleza de Lídice era notável e bastante superior à delas.

Lídice, sem que ninguém percebesse, saiu de mansinho e botou os pés na estrada. Ali não ficaria. Apenas avisou aos caseiros, seus patrícios, e sumiu na pista. Sua Codajás não era merda, ela não era de merda para baixo, nunca foi comida por boto algum e, a bem de garantir que tinha vergonha, decidiu ser hora de ir. Também não era mulher de ficar vendo a bolinação geral que já rolava entre Mauro Charmma, Elano Antonio e o próprio Dr. Quirino, seu namorado, com as models completamente drogadas. Glória Esther, de apenas 16 anos, estava completamente nua e era revisada e fotografada desde o útero até as amígdalas. Um nojo de orgia! Um desrespeito aos mais básicos valores humanos. Um crime, afinal!

Fim de festa. Todos se foram, ainda bêbados e sem maiores complicações. É que “pra baixo todo santo ajuda”, como bem disse Elano Antonio, um sujeito desengonçado e feio, de bom conteúdo acadêmico, porém, sempre existe na vida um porém, subserviente e estúpido quando a serviço do chefe. Traduzindo melhor, somente assim comia e bebia as sobras da imundície que campeia entre os fazedores de meteóricas celebridades.

Anoiteceu rápido e Dr. Quirino estava razoavelmente satisfeito com o almoço de inauguração. Lauro Lúcio Bertini e Neide Negrão tinham farto material para publicar e divulgar a clínica. No que era publicável, sim. E no que não, também!

- Moça, chama Lídice! Já deu banho nos cachorros? Solte os meninos! Vai lá, mulher!

- Dr. Quirino, a Lídice foi embora. Os cachorros estão banhados e já vou soltá-los. Mais alguma coisa?

- Não. Só preciso primeiro dos cachorros e depois da Lídice. Logo ela volta. Não é besta de não voltar! Deve estar pelo meio da mata, de onde nunca deveria ter saído.

Dizendo isso, saiu em direção ao lago para tirar as molezas do dia, acompanhado de seus quatro Filas Brasileiros que, de tão fortes, mais pareciam bezerros bem nutridos. Quando estava na chácara, isso era costume. Naquele dia foi diferente. A brincadeira de afunda, emerge, afunda, emerge, emerge, afunda com os cães surpreenderam o doutor psicanalista alterado pelas drogas e pela bebida. Sem reflexos, pois! Por volta das nove da noite, hora de fechar a casa e os portões da chácara é que Moça e seu marido Walter Meira perceberam que, do lago, apenas voltaram os cachorros. Apenas os cachorros... As vaidades ficaram enterradas no fundo até que, de podre, pudesse emergir o que delas sobrou.

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* Crônica publicada originalmente no site Lima Coelho.