terça-feira, 5 de julho de 2011

O ENTERRO DAS VAIDADES - Leila Jalul*

- Moça, traz a comida dos cachorros!

- Já estou indo, Dr. Quirino! Deixe só eu terminar de almoçar. Um segundo e já estou indo!

- Moça, abaixe a colher e venha logo! Meus cachorros não podem ficar à mercê da sua lerdeza, mulher! Anda, pois! O pessoal já está chegando.

Os primeiros foram Lauro Lúcio Bertini e Neide Negrão, ambos colunistas sociais e alimentadores dos trololós políticos e sociais da cidade de Santo Flores. Chegaram ao alto da serra vomitando as próprias tripas de tão enjoados. A subida até o refúgio era, além de íngreme e tortuosa, “asfaltada” por cascalhos. Não tardou e as camionetes da TV Santo Flores estacionaram na entrada. Mauro Charmma, diretor da poderosa emissora de TV e seu chefe de redação Elano Antonio fizeram descer as modelos que desfilavam nas suas passarelas íntimas.

“O poder impõe, isto é fato”, dizia Mauro Charmma, um gaúcho de Uruguaiana a serviço do mundo da comunicação paulista.

– “Para trabalhar na ‘minha’ emissora tem que ser macho e ter tesão, estômago e força para engolir menininhas. Até as chatinhas e burrinhas!”, reforçava.

Dr. Quirino estava violentamente nervoso e excitado. Comprara aquela chácara com dois propósitos: lazer pessoal e refúgio para as socialites de Santo Flores, no sul de São Paulo, onde exercia suas análises psicanalíticas a preços de diamantes. Estava preparando a festa inaugural e nada poderia sair dos eixos. Os gabinetes S. Freud, Jacques Lacan, Carl Jung e Wilhelm Reich estavam montados e decorados. Do tradicional e confortável divã ao colchão d’água (?), do repertório New Age até, para espanto, um berço em tamanho aumentado! Sim, um berço!!! Para regressões, talvez. Quem pode dizer? Incensos, almofadões, cristais diversos, pequenos duendes e até uma coleção preciosa de sapos integravam a arte final dos consultórios luxuosos e livres dos atritos entre as correntes. Nada dizia de uma profissão séria que desvenda os mistérios do viver torto e das mentes defeituosas e confusas. Da charlatanice, desta sim, estava bem mais próxima.

Entre gafes e escorregões das ninfetas, antes das três da tarde, o almoço foi servido. Lulas gratinadas, camarões na moranga e suflê de mariscos despertavam vontades de comer de joelhos. De sobremesa, uma especialidade: sorvete de açaí com creme de chanttily, receita trazida de Codajás por Lídice, atual namorada do anfitrião. Uma culinária para mais de exótica a ser experimentada pelos distintos e fúteis convidados.

Lídice era uma caboclinha amazonense de fechar a 25 de março em véspera de Natal. Vinte anos de riso branco, bunda baixa e pernas bem torneadas, virou troféu nas mãos de Dr. Quirino, quase encostando no marco do meio século de existência. Foi através dela que chegaram à chácara o casal Moça e Walter Meira, direto de Codajás para “tomar de conta” e morar na propriedade. Eram simples e elegantes. Não usavam maconha, nem ecstasy, nem cheiravam a branquinha que provocava brilhos e sangrava narizes. Eram, de sobra, bem mais decentes, limpos, inteligentes e bondosos que a melhor e mais pura nata da sociedade de Santo Flores. Aos olhos do Dr. Quirino não passavam de estúpidos nortistas que estavam à sua disposição. Incluindo Lídice.

E foi em torno deles que girou a conversa de depois do almoço. Sem quê nem porquê, em uníssono, Lídice virou alvo de deboches e humilhações. Alguns especulavam como era ser comida por um boto, como era comer farinha todos os dias e morar em palafitas. Coisas assim. E piores, até!

Mauro Charmma, entredentes, pergunta:

- Ó, Quirino, onde você achou esta “coisa”?

- Ela é de Codajás. Sei lá onde fica isso! É na puta mata que a pariu, amigo! Nunca nem ouvi falar! Eu até pensei que ela não sabia beijar! Morder, até que sim! Está dando pro gasto, se é o que queres saber. É cheirosinha e apertadinha. Não é, benzinho?

Ficou sem resposta. Charmma, então, destilou:

- Hum, Codajás... Isso existe? Se existe, deve ser uma merda!

- Charmma, velho, eu não conheço, mas acho que sim! De merda pra baixo!!!

E riram solto. As models também riram, sem graça, quase. Estavam batizadas de bebida e empoadas de branquinha paraguaia pura. A beleza de Lídice era notável e bastante superior à delas.

Lídice, sem que ninguém percebesse, saiu de mansinho e botou os pés na estrada. Ali não ficaria. Apenas avisou aos caseiros, seus patrícios, e sumiu na pista. Sua Codajás não era merda, ela não era de merda para baixo, nunca foi comida por boto algum e, a bem de garantir que tinha vergonha, decidiu ser hora de ir. Também não era mulher de ficar vendo a bolinação geral que já rolava entre Mauro Charmma, Elano Antonio e o próprio Dr. Quirino, seu namorado, com as models completamente drogadas. Glória Esther, de apenas 16 anos, estava completamente nua e era revisada e fotografada desde o útero até as amígdalas. Um nojo de orgia! Um desrespeito aos mais básicos valores humanos. Um crime, afinal!

Fim de festa. Todos se foram, ainda bêbados e sem maiores complicações. É que “pra baixo todo santo ajuda”, como bem disse Elano Antonio, um sujeito desengonçado e feio, de bom conteúdo acadêmico, porém, sempre existe na vida um porém, subserviente e estúpido quando a serviço do chefe. Traduzindo melhor, somente assim comia e bebia as sobras da imundície que campeia entre os fazedores de meteóricas celebridades.

Anoiteceu rápido e Dr. Quirino estava razoavelmente satisfeito com o almoço de inauguração. Lauro Lúcio Bertini e Neide Negrão tinham farto material para publicar e divulgar a clínica. No que era publicável, sim. E no que não, também!

- Moça, chama Lídice! Já deu banho nos cachorros? Solte os meninos! Vai lá, mulher!

- Dr. Quirino, a Lídice foi embora. Os cachorros estão banhados e já vou soltá-los. Mais alguma coisa?

- Não. Só preciso primeiro dos cachorros e depois da Lídice. Logo ela volta. Não é besta de não voltar! Deve estar pelo meio da mata, de onde nunca deveria ter saído.

Dizendo isso, saiu em direção ao lago para tirar as molezas do dia, acompanhado de seus quatro Filas Brasileiros que, de tão fortes, mais pareciam bezerros bem nutridos. Quando estava na chácara, isso era costume. Naquele dia foi diferente. A brincadeira de afunda, emerge, afunda, emerge, emerge, afunda com os cães surpreenderam o doutor psicanalista alterado pelas drogas e pela bebida. Sem reflexos, pois! Por volta das nove da noite, hora de fechar a casa e os portões da chácara é que Moça e seu marido Walter Meira perceberam que, do lago, apenas voltaram os cachorros. Apenas os cachorros... As vaidades ficaram enterradas no fundo até que, de podre, pudesse emergir o que delas sobrou.

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* Crônica publicada originalmente no site Lima Coelho.
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