terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

DJALMA LIMONGI BATISTA (1947-2023)

Manaus, anos 50


Lembro quando, em 1959, E Deus Criou a Mulher (Et Dieu Créa la Femme, 56, de Roger Vadim) estreou em Manaus. Eu tinha doze anos. Não se falava de outra coisa na cidade. Um amigo do meu pai havia visto o filme no Rio de Janeiro e sua esposa retornara horrorizada: Ela fica nua sem pudor! É nojenta! – este foi bem o termo que usava para se referir à Brigitte Bardot. Eu e meus irmãos velhos, Gualter e Gilma, loucos para ver aquele “escândalo”, pedimos auxílio ao nosso mon ocle tio Cazuza. Prontamente chegamos ao Cine Polytheama, respeitosamente acompanhados, inclusive, pela nossa tia Nícea. O porteiro do cinema logo reconheceu a gente, frequentadores assíduos, e avisou: “Esses meninos não podem entrar, eles não cumprem a censura”. “Como não? Eles têm quinze anos!”, respondeu meu tio, achando que a idade mínima era de quatorze. Mas o filme é proibido para menores de dezoito anos!, rebateu o porteiro. Meu tio, sempre cúmplice, não titubeou: “Então eles têm dezenove!”. E vimos o filme.

...E Deus criou o cinema!

Mais do que ilustrar a minha paixão desde criança pelo cinema, esta anedota explica muito da família que me criou e da Manaus em que cresci. A cidade ignorava a censura federal e os oito cinemas locais, quatro de cada cadeia, permaneciam sempre de portas abertas para todos – uma das vantagens de se morar numa cidadezinha de 150 mil habitantes, cercada pela selva amazônica por todos os lados, sob um sol e calor infernais.

O “ciclo da borracha” já havia se extinguido, deixando como herança os casarões portugueses. Manaus era quase uma aldeia, estagnada no tempo e isolada no espaço – sem estradas que não fossem os grandes rios, sem luz elétrica nas casas, sem televisão. Apenas os aviões, que pousavam lá duas ou três vezes por semana, traziam sinais do mundo exterior, como os enormes rolos de filmes que estreavam todo dia. A literatura era, para nós, a chave do mundo. Mas o cinema era as portas do século XX.

O primeiro filme que vi, me contam, foi Aviso aos Navegantes (Brasil, 1950, de Watson Macedo). Diziam que eu chorava muito. Mas o primeiro do qual tenho memória, talvez por ser colorido, talvez por ser desenho animado, foi Bambi, de Disney. De qualquer maneira, sempre tive o hábito de ir ao cinema desde muito cedo. Minha avó materna – Filomena Demasi Limongi – pertencente a uma das quatro famílias italianas que migraram da Basilicata, na Itália, para Manaus – sempre nos levava às matinês. Com ela, mesmo sem saber, assisti a todo o neorrealismo italiano. Ela adorava. Meu pai, Djalma da Cunha Batista, um médico muito popular e querido na cidade, verdadeiro visionário, um ecologista antes mesmo de se inventar o termo, também amava o cinema. Muitas vezes contratava um projecionista para passar filmes lá em casa mesmo, com lotação esgotada de primos, amigos, vizinhos.

Seus oito filhos herdaram essa paixão, mas nenhum tanto quanto eu e Gualter. Ele era o mais velho dos homens, batizado como meu avô. Sou o segundo e recebi o mesmo nome do meu pai (até hoje tenho amigos que visitam Manaus e acham que a principal avenida da cidade é uma homenagem a mim!). Quase viro “Júnior”, mas fui salvo a tempo por meu rigoroso e temido avô Gualter, que impôs que eu fosse registrado com o Limongi de minha mãe, Gilda Limongi Batista. Depois vieram José Roberto e Cláudio. Entre as meninas, Gilma, Marilena, Edith e Francisca. Todos – como bons nortistas – com seus respectivos apelidos, muitos apelidos pelos quais nos tratávamos no cotidiano. O meu sempre foi Nani. Não preciso dizer que morava numa casa, no mínimo, animadíssima.

Foi o cinema que uniu Gualter e eu, mais que os outros irmãos. Íamos praticamente todo dia ao cinema, às vezes matando aula de datilografia para pegarmos duas ou três sessões seguidas. Quanto bem crianças, eram as empregadas domésticas que nos levavam para assistir aos musicais da Atlântida, que nós adorávamos. Para horror do meu pai, que não admitia que os atores falassem português errado ou, pior ainda, que Oscarito e Grande Otelo aparecessem vestidos de mulher.

Devorávamos todo estilo e gênero de filme, e logo a família começou a perceber que havia ali dois irrecuperáveis monstrinhos cinematográficos... Acordávamos a casa toda, em plena sesta (naquela época, havia sesta obrigatória no norte), discutindo quem sabia mais sobre filmes, diretores, atores – com nossos caderninhos de perguntas e respostas e nossos recortes das revistas Cinelândia e Cinemascope (guardo alguns encadernados até hoje). Até a vovó Filomena, que alimentara aquele nosso hábito desde cedo, uma vez me viu encenar uma morte super dramática em uma brincadeira de “mocinho e bandido” e vaticinou: “Excesso de cinema!”.

Gualter e eu éramos muito parecidos. Gildowisky (gozação carinhosa a nossa mãe, como se ela comandasse a família como uma inabalável camarada russa) nos vestia igual e todo mundo perguntava se éramos gêmeos. Só depois, na adolescência, meu irmão ficou pequeno e eu espichei como varapau para meus 1,90 m de altura. Fui amorenando e ele continuou branquinho, lindo, bem italianinho. Mas, no cinema, logo tivemos gostos diferentes. Ele era fã nº 1 de Jeanne Moreau; eu gostava mesmo era da Marilyn Monroe aí. Eu me concentrava nas tramas; ele sempre foi muito visual, viajava nas cores e nos detalhes do cenário, na fotografia.

Em pleno filme, muitas vezes até se esquecia da história, cutucava minhas irmãs e perguntava: “O que está acontecendo?”. Elas caíam na gargalhada.

E assim ele cresceu para se tornar um grande artista plástico e o diretor de fotografia de nossos filmes. Foi meu maior parceiro e amigo, toda a vida. E a nossa cumplicidade surgiu aí: adorando os “filmes de suspense”, comédias e musicais de Hollywood; Cleópatra e todos os “péplons” (fitas de halterofilistas/gladiadores) da Cinecittà (deste só eu gostava!) e descobrindo a Nouvelle Vague com Quem Matou Leda? (À Double Tour, 59, de Claude Chabrol); vendo Antonioni, Fellini, Visconti; acompanhando a formação do cinema brasileiro pela Vera Cruz de O Cangaceiro (Brasil, 53, de Lima Barreto), até surgir A Grande Feira (Brasil, 61, de Roberto Pires) do ciclo baiano, depois o Cinema Novo... Eu só nunca tive saco para filme de bangue-bangue.

 

DJALMA LIMONGI BATISTA in NADALE, Marcel. Djalma Limongi Batista: livre pensador/por Marcel Nadale. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2005. p. 11-17

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DJALMA LIMONGI BATISTA nasceu em Manaus-AM, em 9 de outubro de 1947, e faleceu, nesta terça-feira, 14 de fevereiro de 2023, em São Paulo. Filho de Djalma da Cunha Batista e Gilda Limongi Batista. Consagrado diretor de cinema, iniciou sua carreira em 1968, com o curta-metragem “Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora”. Em seguida vieram os também curtas “Retorna, Vencedor” (1968), “O Mito da Competição do Sul” (1969), “Hang-five” (1969), “Puxando Massa” (1972), “Porta do Céu” (1973) e “Rasga Coração – O Teatro Brasileiro de Anchieta ao Oficina” (1973), até estrear o seu primeiro longa-metragem, “Asa Branca, um Sonho Brasileiro” (1981), premiado como Melhor Direção nos Festivais de Brasília, Gramado, no Prêmio Air France de Cinema e como Melhor Filme no Prêmio Air France de Cinema e no Festival des Trois Continents, além dos prêmios para as atuações de Walmor Chagas e Edson Celulari. A seguir, dirigiu no cinema “Brasa Adormecida” (1986), “Bocage, o Triunfo do Amor” (1998) e “Autovideografia” (2003), além de “Um homem indignado” (2005), no teatro, estrelado por Walmor Chagas. Publicou, em 2008, pela imprensa Oficial do Estado de São Paulo, o livro “Walmor Chagas: ensaio aberto para Um Homem Indignado”.

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