segunda-feira, 25 de maio de 2009

Inesquecíveis do Zé Leite

 

Tão Acre...

Verdade verdadeira. Em Senador Guiomard, quando era prefeito o alto e espigado João Rodrigues, o popular João Jia, com banda de música, escolares de bandeirolas nas mãos, discursos e tudo o mais foi inaugurado solenemente... um quebra-molas.

 

Mensagem Radiofônica

Mensagem lida na Rádio Difusora Acreana, rigorosamente verdadeira:

"Atenção senhor Antônio José, na Colocação Vai-quem-quer, seringal Sapopemba. Aviso-lhe que o Manuel foi atropelado e está internado no Hospital de Base com fratura craniana, três costelas quebradas, perna direita amputada e fraturas expostas nos dois braços. Peço que não se preocupe, pois ele passa bem. Abraços do Raimundo".

 

 

Referência e sugestão:

Tão Acre: Humor acreano de todos os tempos de José Chalub Leite. Rio Branco: BOGRAF Editora Preview Ltda, 2000.



quarta-feira, 13 de maio de 2009

ALMA ACREANA: Primeira peça teatral de José Potyguara

THEATRO MUNICIPAL

Sociedade Sportiva e Dramatica Tarauacaense

Quinta-feira, 26 de outubro de 1933

Sexta representação da burlêsca de costumes regionaes

 

Em tres actos

ALMA ACREANA

Da autoria do Dr. José Potyguara

 

Ornada com 19 números de musicas do Maestro Mozart Donizetti

 

                                     Veja mais no blog do Palazzo:

                               http://tarauacanoticias.blogspot.com



segunda-feira, 20 de abril de 2009

A voz que vem da floresta

Dym Gomes,

Um cantor da floresta

 

 

O Acre é um recanto de talentos. Tudo aqui é tão Acre mesmo, como nos diria o saudoso Zé Leite. Ainda não temos um ritmo musical que nos identifique como tais, assim como o Amazonas tem o Boi-bumbá, o Pará o ritmo quente do carimbó, etc. Os espaços para a música regionalista são poucos, como pouco também são os artistas com temática local.  Muitos esbarram na falta de apoio, por questões financeiras ou mesmo por não conseguir espaço nas mídias, sobretudo nas rádios e TVs, que absorvem toda sua programação na propagação dos artistas da massa e do momento. Raras são as rádios que tem na sua programação um programa dedicado exclusivamente à música regionalista.

Na contramão desse movimento, surgem artistas como Alberan Morais, voz firme da Terra da Farinha, Cruzeiro do Sul, Auricélio Guedes, Magno Valença, na capital, ou mesmo Dym Gomes na Terra do Abacaxi Grande. Artistas que voltam-se para sua gente, sua terra, sua cultura.

Dym Gomes é um artista genuinamente de alma acreana. Nascido em Tarauacá, suas músicas estão entre um ritmo de brega pop e um ritmo regional próprio. O seu primeiro trabalho foi produzido em Manaus, onde morou por alguns anos. Com o título de "Cabeça de Abacaxi", nome de uma das músicas do Cd, Dym chegou ao topo das paradas na região de Tarauacá. Há uns três anos atrás lançou um novo Cd intitulado "A Dança do Mariri", com músicas inéditas e outras do primeiro trabalho. Destaque para as músicas que se voltam para a região, com ênfase na cultura dos povos indígenas e da floresta.

Dym ao longo destes anos tem lutado para conseguir patrocínio e apoio para a manutenção e divulgação de seu trabalho. Mas não tem sido nada fácil, vez por outra encontra alguém que lhe patrocina a tiragem de determinadas quantidades de seus Cds, que ele mesmo divulga e vende.

Ao reencontrá-lo no início deste ano, ele me falava de seu plano de retornar a Manaus para fazer um tratamento nas cordas vocais, prejudicadas devido a um assalto onde foi vítima de agressão, fato que o tem prejudicado nas suas apresentações. Todavia, as adversidades não tiraram seu sonho de continuar cantando e produzir novos trabalhos. Ele é um artista simples, daqueles que tem o talento, mas não como custeá-lo. É um artista de resistência ao modelo dominante, como tantos outros ocultos e desconhecidos por esse brasilzão maravilhoso, mas imprescindíveis.

Da mesma forma como admiro Vivaldi na música Clássica, Raulzito no Rock ou Mercury no axé, também admiro com a mesma presteza os artistas de minha terra, não pelo simples fato de serem da terra, mas porque eles ajudam a manter nossa identidade e a preservar aquilo que chamamos de memória.

É por isso que apresento o Dym a vocês! Divulgue nosso pop da floresta.



A Dança do Mariri - Dym Gomes

terça-feira, 24 de março de 2009

Tão Acre: o humor acreano de todos os tempos

Não resta dúvida de que José Chalub Leite (1939-1998) foi um dos maiores nomes do jornalismo acreano. Trabalhou em diversos jornais, tais como: Tribuna do Povo, O Estado do Acre, O Rio Branco, etc. Fundou com outros a Associação dos Cronistas Esportivos do Acre, a Associação Profissional dos Jornalistas do Acre, a Federação de Pugilismo. Zé Leite, como era popularmente conhecido, legou para o Acre uma das mais belas páginas do humor jornalístico acreano. Em 1992 ele lançava o livro: “Tão Acre: o humor acreano de todos os tempos”, um livro tão palpitante de graça, trepidante de alegria e acreanissimamente moleca.

Tão Acre, como ressalta o próprio Zé Leite na introdução, é jamaxi de gargalhadas, varadouro de humor, jirau de “causos”, poronga de folclore, sapupema de alegria, cuia-pitinga de gaiatice, piracema de verve... açude do riso antológico acreano de bubuia satírica. Tão Acre é a prova provada da saga gafolheira de uma sociedade altiva, ferina, irônica, extrovertida, aberta, capaz somente de rejeitar os mal-intencionados e os que, como diziam o velho Guiomard, bancam besta pensando que acreano é besta.

E o título TÃO ACRE? Zé Leite explica o porque: “O Acre é o Acre, por isso é tão Acre. O que não acontece no Acre não acontece em lugar algum do Brasil: cambista de bicheiro faz greve, médico de Sena Madureira atesta gravidez de homem de 70 anos, motorista de táxi dá carona, prefeito inaugura quebra-molas com banda de música e foguetes, prostituta tem orgasmo múltiplo e dá de graça, reitor manda abrir inquérito para descobrir quem fez cocô na piscina, preso escapa do presídio serrando a barra de ferro com gilete, vigarista como o “Dr.”. Josias Cavalcante não foi governador porque não quis, mucura de “dois pés” come numa noite 1.666 galinhas do governo e fica por isso mesmo... cunhei a palavra para designar o inexplicável do Acre. E não se fala mais nisso.”

Enfim resta dizer com Antônio Stélio que TÃO ACRE é nosso. O Zé o pariu, mas nós o educaremos. Ele passa a ser parte de nosso cotidiano e, com certeza, como deseja o autor, irá gerar seus filhotes, robustos e sacanas, assim... Tão Zé.

Selecionei alguns fragmentos do livro:

Surrealismo
Padre José encontra-se com o pintor primitivista Hélio Melo, puxam papo, entram em terreno de amplo domínio da dupla:
Padre José:
– Hélio, eu minto muito mais que você.
Hélio:
– Mas você fez curso, eu não fiz!

Frei José e a beata
Velha beata, arrastando os pés, corre dentro da Igreja de São Sebastião (antes da Prelazia demoli-la) e captura o apressado padre José Maria Carneiro de Lima.
- Que é que há, vovó?
- Padre José, é pecado peidar na Igreja?
- Vovó, não apagando as velas. Pode peidar a vontade.

Homenagem ao poeta
Abundam no Acre entidades governamentais, empresariais, industriais e congêneres com o topônimo Acre: Cageacre, Teleacre, Eletroacre, Sanacre, Colonacre, Codisacre, Acredata, Represacre, Banacre, Construacre, Deracre, Oxiacre, Sabenacre, Acrevelimda, essas coisas.
Pois há anos, na rolagem do termo azedo, uma diretora da Escolinha Marechal Arthur da Costa e Silva, na linha do Mofundo, ramal da rodagem Senador Guiomard – Plácido de Castro, batizou na embalagem dos acres uma entidade comunitária.
“Centro Recreativo e Comunitário Olavo Bilacre”.
Não se sabe a prestativa e zelosa professora aderira à moda ou adotara nova homenagem ao patrono do serviço militar e poeta autor de “Tercetos”, obra-prima do poemário nacional auriverde.

Tão Acre...
Verdade verdadeira. Em Senador Guiomard, quando era prefeito o alto e espigado João Rodrigues, o popular João Jia, com banda de música, escolares de bandeirolas nas mãos, discursos e tudo o mais foi inaugurado solenemente... um quebra-molas.

Mensagem Radiofônica
Mensagem lida na Rádio Difusora Acreana, rigorosamente verdadeira:
“Atenção senhor Antônio José, na Colocação Vai-quem-quer, seringal Sapopemba. Aviso-lhe que o Manuel foi atropelado e está internado no Hospital de Base com fratura craniana, três
costelas quebradas, perna direita amputada e fraturas expostas nos dois braços. Peço que não se preocupe, pois ele passa bem. Abraços do Raimundo”.

Lição de vida

Do ilustre médico acreano, natural de Xapuri, Dr. Adib Domingos Jatene:
- O grande problema do pobre, no Brasil de hoje, não é ele ser pobre, é o amigo dele ser pobre.

O golpe de vista
Padre José vinha de Xapuri dirigindo sua Toyota azul-cerúleo, tendo como carona seu irmão também padre, o frei Pelegrino. No meio do percurso da esburacada estrada em pleno verão, padre Pelegrino se pronuncia, quase gritando:
- Pára, José, Pára! Eu vou saltar.
- Que é que houve, meu irmão?
- Vou recolher aquela agulha ali na beira da estrada.
- Estás doido, Pelegrino, vais só perder tempo. És cego?
- Perder tempo? Cego?
E frei José:
- Não estás vendo que a agulha não tem buraco na cabeça, é apenas um alfinete?

Tão Acre
Em Tarauacá, o ex-vereador José Pinheiro descobriu que o único vendedor de peças de motosserras é o ecologista Gérson de Oliveira Araújo.

Terra boa
Os tarauacaenses orgulham-se de sua terra. Os demais acreanos, talvez com inveja, nominam assim a risonha região do Juruá:
Tarauacá, terra da mulher bonita, do abacaxi grande e homem pequeno.

Educação
O ex-senador Altevir Leal, rico seringalista de Tarauacá, gentilmente curva-se diante de toda menina de 12 anos, em sua terra, e cumprimenta-a reverente:
- Como vai, minha senhora!
Menina-moça, pra ele, já é. Ou era.

Helicóptero
Um helicóptero em Rio Branco, em 1991, deu força à Secretaria da Saúde no combate à cólera que ameaçava assolar o Acre. Quem muito usufruiu da traquitana foi o falecido governador Edmundo Pinto. Um dia convidou o deputado Chico Sombra para um sobrevôo. O parlamentar agradeceu:
- Obrigado, governador, eu não ando em avião de rosca.
*
Referência e sugestão:
Tão Acre: Humor acreano de todos os tempos de José Chalub Leite. Rio Branco: BOGRAF Editora Preview Ltda, 2000.

sábado, 14 de março de 2009

SEJA HOMEM E NÃO ME SIGA



J. Wolfgang Goethe é um dos maiores nomes da literatura mundial. Em 1774 Goethe lançava “Os sofrimentos do jovem Werther”, a obra mais emblemática de uma época de transição entre valores aristocráticos, nas artes e na sociedade, e o nascente poder da burguesia, que buscava afirmar sua visão de mundo e consolidar uma nova estética.

“Seja homem e não me siga.” O sucesso junto ao público e o efeito do romance “Os sofrimentos do jovem Werther”, relançado numa versão revista e definitiva em 1787, foram tão estrondosos que o autor se viu levado a introduzir em edições posteriores essa advertência de não confundir a vida com a ficção. É que vários de seus leitores mais empolgados tinham resolvido imitar a ação do herói de pôr fim aos tormentos de sua paixão amorosa através do ato de meter-se uma bala na cabeça – não antes sem cuidar da devida auto-encenação, que consistia em se vestir, como o modelo, de paletó azul e colete amarelo, conforme ressalta o crítico literário Willi Bolle.

Os Sofrimentos do jovem Werther narra o desenrolar de um drama íntimo, de uma paixão irrefreável cujo limite é a morte. Nas cartas que o protagonista envia ao seu melhor amigo, confidenciando-lhe o seu amor pela bela Charlotte, encontra-se também a descrição de uma nova sensibilidade, a da burguesia, que se contrapunha ao mundo de regras pedantes e artificiais da sociedade aristocrata. O tom intimista que caracteriza o romance, além da poeticidade raramente alcançada em obras de ficção, também garantem seu lugar como precursor do moderno romance psicológico, assim como fez Hermann Hesse na obra “O Lobo da Estepe”. Abaixo transcrevo um excerto do romance:


10 de maio

Uma serenidade maravilhosa apoderou-se de todo o meu ser, semelhante às doces manhãs de primavera que venho saboreando intensamente. Estou sozinho, e felicito-me por viver neste lugar, feito para as almas como a minha. Sinto-me tão feliz, meu caro amigo, ando tão inteiramente absorto no sentimento de uma existência tranqüila, que minha arte sofre com isso. Seria incapaz de desenhar agora um simples traço a lápis e, apesar disso, nunca fui tão excelente pintor. Quando o vale gracioso exala em torno de mim uma névoa repleta de fragrâncias, o sol do meio-dia repousa no obscuro inviolável da floresta, e somente alguns raios esparsos penetram o interior do santuário; quando, estendido sobre a relva espessa, perto do rio que flui, descubro rente à terra mil variedades de plantinhas; quando sinto, mais próximo de meu coração, o fervilhar desse pequeno mundo entre os arbustos, as figuras inúmeras, infinitas, dos vermes e dos insetos; quando sinto, enfim, a presença de Deus Todo-Poderoso, que nos criou à Sua imagem e semelhança, e o sopro do Seu amor infinito, que nos dirige e nos sustenta, embalados numa alegria eterna. Meu amigo, se o dia começa a raiar à minha volta, se o mundo que me cerca e o céu inteiro descansam no meu peito como a imagem de uma bem-amada, então suspiro e digo para mim mesmo: “Ah! Caso pudesse se exprimir, caso pudesse passar para o papel o que em você sente viver com tanto ardor e tamanha abundância, de forma que ali estivesse o espelho de sua alma, como sua alma é o espelho de Deus infinito!...” Ah, meu amigo... Mas me sufoco, esmoreço diante da magnitude dessas visões.

Referência e sugestão:
Os sofrimentos do jovem Werther de J. Wolfgang Goethe. São Paulo: Nova Alexandria, 1999.

quinta-feira, 12 de março de 2009

DJALMA BATISTA E A MEDICINA


"É tarefa honrosa, emotiva e portanto difícil abordar a face médica, a meu ver a mais eclética da formação do Djalma da Cunha Batista. Neste ciclo de palestras onde a Fundação que leva seu nome o homenageia nos 80 anos de seu nascimento, pensei cumprir esta minha parte, a última do ciclo, começando pela análise da conjuntura política, econômica e social da década de 30, quando ele iniciava seu curso médica na Faculdade de Medicina da Bahia(...)

(...)O que o motivou a ser médico? Era importante que eu iniciasse pelos porquês e buscasse entender sua vida médica dedicada à Amazônia e aos amazônidas(...)

(...)Djalma Batista durante o curso médico se destacava dos colegas quando exercia funções técnicas peculiares do Curso. Internato no Sanatório São Jorge pode tê-lo iniciado na compreensão e compromisso do combate à tuberculose(...)

(...)Assim, o marco referencial que busquei ter acesso para entender e falar do médico que foi Djalma da Cunha Batista não poderia ser outro senão o seu Discurso de Formatura. Escolhido no meio de tantos, de diferentes origens e procedências, o acadêmico finalista de Medicina, da turma de 1939, com apenas 23 anos de idade, fez um disco de formatura intitulado Medicina e Estética, que se consituiu em sua primeira obra literária(...)

(...)Ao retornar aos 23 anos, o Dr. Djalma Batista funda em 12 de fevereiro de 1940, o Laboratório De Patologia Clínica que traz o seu nome, hoje com 56 anos de bons serviços prestados aos doentes do Amazonas.

(...)O reencontro com o amigo da adolescência Moura Tapajós, agora médico vinda escola de Octávio de Freitas no Recife, cimenta uma profunda convivência com base em respeito mútuo e no idealismo contagiante.

(...)É a convite de Moura que Djalma começa a militar na Liga Amazonense contra a Tuberculose (fundada em 1932)(...)

(...)Com o retorno dos jovens médicos e o crescimento galopante da "peste branca" (assim chamava-se a tuberculose), Moura Tapajós e seu grupo fundam em 31.07.1939 o Dispensário Cardoso Fontes(...)

(...)A partir desta base definitiva e contando com melhores e mais especializados recursos humanos, o Dispensário se desenvolveu com o "Ateneu Clemente Ferreira", um Centro de Estudos que Djalma assim definia: "é uma escola de disciplina mental e profissional e de incentivo espiritual, em que todos são mestres e discípulos fraternalmente, compreensivamente"(...)

(...)Todo este trabalho de quase 20 anos não lhe mudaram a modéstia e a humildade. "Não sou tisiólogo, apenas afeiçoado entusiasta da especialidade, sobretudo da parte social da tisiologia. O que se fizer não em meu benefício pessoal, nem me trará glórias, a que não aspiro, certo, com Anatole France, de que a glória é a mais funesta e a mais ridícula das ilusões de um cerébro doente"(...)

(...)Depois da atividade em tuberculose, o Dr. Djalma Batista foi o médica de família e dos doentes da Santa Casa que tinha certa de 30 leitos(...)

(...)Somente quando eu tomei consciência de que as perdas desses homens sabios àquela altura não eram somente dos cargos, mas de suas próprias vidas, pude perceber claramente que aqueles que tinham o "lado" bem definido, que estavam ombreados com os desvalidos, que pensavam o bem comum, "estavam subvertendo a ordem estabelecida" e deviam ter seus caminhos cortados. Tempos de chumbo! Como e quanto perdermos com eles! Penso que Djalma Batista começou a morrer com esta perda, com estes tempos.(...)

(...)Apesar de tudo isso, chegou o momento de nos encontrarmos no espaço que percebí ter sido sua grande realização: a Faculdade de Medicina. Educar as gerações, socializando o imenso conhecimento acumulado, lecionando Patologia Clínica. O meste nos ensinou, com a paciência do sábio que desvalorizava nossa ignorânci e alienação(...)

(...)Quando após uma de suas aulas, ele me destacou dos outros alunos e me convidou para estagiar em seu laboratório de patologia clínica, estava me abrindo um espaço que não só mudou a minha vida, mas me fez olhar o mundo sobre outro prisma(...)

(...)Hoje, o que mais nos tem entristecido além da saudade que sentimos dele, é revermos o quadro nosológico brasileiro se agravando com a volta das endemias medievais como a cólera, das viroses que nem conhecemos, ou da tuberculose que volta a ter a força da "peste branca"da década de 40"(...)

*
(Trechos da palestra do Dr. Marcus Luiz Barroso Barros, proferida em 29.02.96, no Auditório da Faculdade de Ciências da Saúde).
*

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Quem disse que a Bíblia não é romântica...


“Que me beije com beijos de sua boca!

Teus amores são melhores do que o vinho,

O odor dos teus perfumes é suave,

Teu nome é como óleo escorrendo,

E as donzelas se enamoram de ti…”

(Ct 1, 2-3)


Esses versos, por mais que pareçam, não são de nenhum poeta moderno ou mesmo do romantismo, etc. Eles iniciam o livro mais “romântico” da Bíblia, o Cântico dos Cânticos (ou Cantares), o mais belo cântico que celebra numa série de poemas o amor mútuo de um Amado e de uma Amada, que se unem e se perdem, se buscam e se encontram.

Este livro, que não fala de Deus (propriamente) e que emprega a linguagem de um amor apaixonado, tem causado estranheza. É tanto que dificilmente as igrejas o lêem, ficando o mesmo esquecido, seja propositalmente, seja devido às divergentes interpretações, já que segundo alguns exegetas bíblicos, é o livro do Antigo Testamento que mais tem sido alvo das mais diferentes interpretações.

Ao relegarem este livro a segundo plano, as Igrejas tem muito a perderem, tanto por ignorarem o seu valor enquanto texto sagrado, quanto por deixarem de usá-lo principalmente para a educação do matrimônio, o valor do casamento, do relacionamento honesto e sadio, enfim falar do amor, é sem dúvida cantar a beleza do Deus que se revela também por meio do amor conjugal. Aliás, uma imagem que Deus usa muito no Antigo testamento é a da Esposa e do Esposo, para se referir a sua relação com o seu povo.

De acordo com os comentários da Bíblia de Jerusalém (considerada uma das melhores traduções), o autor dos Cânticos é um poeta original e hábil literato, e pode-se buscar a origem do Cântico nas festas que acompanhavam a celebração do matrimônio, e se têm feito comparações interessantes com as cerimônias e os cânticos nupciais dos árabes da Síria e da Palestina. O Cântico é uma coleção de poemas unidos somente pelo seu tema comum, que é o amor.

O Cântico dos cânticos ensina a seu modo a bondade e a dignidade do amor que aproxima o homem e a mulher, exorciza os mitos que se lhe associavam então e livra-o tantos dos vínculos do puritanismo como da licenciosidade do erotismo. Nossa época não deveria deixar passar despercebida esta lição.

Acompanhe mais um trecho:
*

(dueto entre o Amado e a Amada)

"- Como és bela, minha amada,
Como és bela!…
Teus olhos são de pombas.

- Como és belo, meu amado,
E que doçura!
Nosso leito é toda relva.

(…)

- Macieira entre as árvores do bosque,
É meu amado entre os jovens;
À sua sombra eu quis assentar-me,
Com seu doce fruto na boca.
Levou-me ele à adega
E contra mim desfralda
Sua bandeira de amor.
Sustentai-me com bolos de passas,
Dai-me forças com maçãs, oh!
Que estou doente de amor…
Sua mão esquerda
Está sob minha cabeça,
E com a direita me abraça.

- Filhas de Jerusalém,
Pelas servas e gazelas dos campos,
Eu vos conjuro:
Não desperteis, não acordeis o amor,
Até que ele o queira!"


(Ct 1, 15-16; 2, 3-7)


Deixo, assim, o convite a conhecer esse belíssimo livro bíblico, que na sua linguagem própria fala daquilo que nós mais precisamos hoje, o amor.


Obs: Texto feito com base nos Comentários da Bíblia de Jerusalém, edições Paulinas, São Paulo: 1973.
***
*
-- Isaac Melo --

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Maranhão é da Família Sarney.

O Povo, que povo?

- Para nascer, Maternidade Marly Sarney;

- Para morar, escolha uma das vilas: Sarney, Sarney Filho, Kiola Sarney ou, Roseana Sarney;

- Para estudar, há as seguintes opções de escolas: Sarney Neto, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney;

- Para pesquisar, apanhe um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney e vá até a Biblioteca José Sarney, que fica na maior universidade particular do Estado do Maranhão, que o povo jura que pertence a um tal de José Sarney;

- Para inteirar-se das notícias, leia o jornal O Estado do Maranhão, ou ligue a TV na TV Mirante, ou, se preferir ouvir rádio, sintonize as Rádios Mirante AM e FM, todas do tal José Sarney. Se estiver no interior do Estado ligue para uma das 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante, todas do mesmo proprietário;

- Para saber sobre as contas públicas, vá ao Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney (recém batizado com esse nome, coisa proibida pela Constituição, lei que no Estado do Maranhão não tem nenhum valor);

- Para entrar ou sair da cidade, atravesse a Ponte José Sarney, pegue a Avenida José Sarney, vá até a Rodoviária Kiola Sarney. Lá, se quiser, pegue um ônibus caindo aos pedaços, ande algumas horas pelas 'maravilhosas' rodovias maranhenses e aporte no município José Sarney.
Não gostou de nada disso? Então quer reclamar? Vá, então, ao Fórum José Sarney, procure a Sala de Imprensa Marly Sarney, informe-se e dirija-se à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney...
Seria cômico se não fosse tão triste....
E quando o Zé Sarney morrer.... o Maranhão fica para seus filhos ou volta para o povo????
*
-- Luisa por via e-mail --

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A velhinha...

Um homem jovem estava fazendo compras no supermercado, quando notou que uma velhinha o seguia por todos os lados.

Se ele parava, ela parava e ficava olhando para ele.

No fim, já no caixa, ela se atreveu a falar com ele, dizendo:

- 'Espero que não o tenha feito se sentir incomodado; mas é que você se parece muito com meu filho que faleceu.

'O jovem, com um nó na garganta, respondeu que tudo estava bem, que não havia problema.

A velhinha lhe disse, então:

- 'Quero lhe pedir algo incomum.

'O jovem lhe respondeu:

- 'Diga-me em que posso ajudá-la.

'- 'Queria que você me dissesse 'Adeus, Mamãe', quando eu me for do supermercado, isso me fará muito feliz!

'O jovem, sabendo que seria um gesto que encheria o coração da velhinha, aceitou. Então, a velhinha passou pela caixa, após ter registrado as suas muitas compras.

Aí, se voltou sorrindo e, agitando sua mão, disse:
'Adeus, filho!'

Ele, cheio de amor e ternura, lhe respondeu efusivamente:
'Adeus, mamãe!

'Ela se foi e o homem ficou contente e satisfeito pois, com certeza,havia dado um pouco de alegria à velhinha.

E, então, passou suas compras.

'São R$ 554,00'; lhe disse a moça do caixa.

'Por que tanto, se só levo estes cinco produtos?

'E a moça do caixa lhe disse:

- 'Sim, mas sua mamãe disse que você pagaria pelas compras dela também...



'P.S. Até os canalhas envelhecem.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

AS ALMAS SÃO DESERTAS E GRANDES

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
(Heterónimo de Fernando Pessoa)