quarta-feira, 15 de maio de 2013

AMAR

Carlos Drummond de Andrade


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro Enigma. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.43

MIA GIOCONDA

Uma das famosas canções de Vicente Celestino (1894-1968), “um dos mais importantes cantores brasileiros do século XX. Seu eterno arrebatamento, paixão e inigualável voz de tenor, fizeram com que o povo o elegesse como A Voz Orgulho do Brasil.”

terça-feira, 14 de maio de 2013

A PROMESSA

Jorge Luis Borges



Em Pringles, o doutor Isidro Lozano me contou a história. Fez isso com tal economia que compreendi que já o fizera antes, como era previsível, muitas vezes; acrescentar ou alterar um pormenor seria um pecado literário.

O fato aconteceu aqui, em mil novecentos e vinte

e tantos. Eu tinha voltado de Buenos Aires com meu
diploma. Certa noite, mandaram me chamar, do hospital.
Levantei-me de mau humor, vesti-me e atravessei a praça
deserta. Na sala de espera, o doutor Eudoro Ribera me
disse que um dos malfeitores do comitê, Clemente Garay,
tinha sido trazido com uma punhalada no ventre. Nós
e examinamos; agora estou endurecido, mas na época
mexeu comigo ver um homem com os intestinos de fora.
Estava com os olhos fechados e a respiração era difícil.
O doutor Ribera me disse: 
– Não há mais nada a fazer, meu jovem colega.
Vamos deixar que este porqueira morra.
Respondi-lhe que tinha me arrastado até ali depois
das duas da manhã e que faria o possível para salvá-lo.
Ribera deu de ombros; lavei os intestinos, coloquei-os no
lugar e costurei o ferimento. Não ouvi uma única queixa.
No dia seguinte voltei. O homem não havia morrido; 
Olhou-me, apertou minha mão e disse: 
– Para o senhor, obrigado, e meu cabo de prata para Ribera.
Quando deram alta a Garay, Ribera já partira para
Buenos Aires. 
Desde essa data, todos os anos recebi um cordeirinho
no dia de meu aniversário. Por volta dos 40 o presente
cessou.





BORGES, Jorge Luis. Poesia. [trad. Josely Vianna Baptista]. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p.136-137

segunda-feira, 13 de maio de 2013

FUTEBOL E KANT, VEJAM SÓ

Roberto Gomes


Dia destes, ouvindo uma transmissão de futebol no rádio, me diverti com a aflição do locutor, francamente favorável a um dos times – ele estava irritado com a cera que o adversário fazia para segurar o empate. O locutor esbravejava, exigia do juiz uma atitude, condenava a demora, o anti-jogo, e por aí vai. Eu tomava um quieto café de final de tarde e segui escutando aquela arenga.

Volta e meia o locutor se exaltava:

- Olha o goleiro! Não repõe a bola! É uma barbaridade!

Sendo o futebol a tal da caixinha de surpresas, quando eu passava manteiga no segundo pedaço de pão, o time do locutor fez um gol, mudando o placar. O locutor, comemorou aos berros, fazendo com que meu rádio desse saltos sobre a mesa da cozinha. Agora seu time estava vencendo.

Bom, não demorou, o time do locutor retardou a colocação da bola em jogo por conta de um lateral. E ele, triunfante:

- É isso aí! Agora é nossa vez!

E toda a equipe da rádio comemorou aquilo que passaram a chamar de esperteza, de jogo de cintura, de “administração do resultado”.

Bom. O Brasil é um país não apenas de ponta-cabeça, como dizia Tom Jobim, mas é também um país que, por diversas circunstâncias históricas e sociais, não exercita o que se chama de pensar. Pensar é de fato doloroso, custa esforço, desprendimento das circunstâncias imediatas da vida, projeção da inteligência e da imaginação no futuro, acúmulo de dados vindos do passado, para ficarmos apenas no mínimo necessário.

Fascinado pelo imediatismo, o locutor agia em função dos estímulos momentâneos, o jogo. Não lhe ocorria especular sobre as condições que tornam um jogo possível – não só a bola, as traves, as chuteiras, mas as regras comuns a todos. O lamentável é que esta cegueira intelectual não está presente apenas no torcedor de futebol, mas se encontra em todas as camadas da população e condiciona o que podemos chamar de oportunismo ético. Ou realismo cínico.

Desliguei o rádio, meu café chegava ao fim de modo melancólico.

Lembrei então que o locutor tinha não apenas um grande número de iguais, mas também um número ilustre de iguais. No caso, o presidente Lula, que vive citando o futebol como o universo de onde extrai seus conceitos (Conceitos? Que Kant e os leitores me perdoem.)

Quando esteve em Madrid, Lula fez uma declaração surpreendente, ao menos para mim, que gasto um tempinho diário com isso de pensar. Disse ele: “Você não governa com principismos. Principismo você faz no partido quando pensa que não vai ganhar as eleições. Quando vira governo, governa em função da realidade que tem”.

É uma versão vulgar da idéia de que existem razões de estado que se impõem aos governantes, caricatura tupiniquim das relações entre meios e fins – uma espécie de Maquiavel de chuteiras. Ela exige, em nome do realismo político, que os governantes possam mudar de convicções e atitudes com relação àquilo que pregavam antes de chegar ao poder.

Se estes dois, o tal locutor e o presidente Lula, conseguissem pensar e tivessem o hábito de ler e estudar, lembrariam que Kant estabeleceu uma condição básica para o imperativo ético: a universalidade. Para que algo possa ser tido como ético deve ser passível de generalização para todos os seres humanos. Por que a mentira é condenável? Porque, se todos mentirem, qualquer sociedade humana se torna inviável. No futebol, as botinadas indiscriminadas ou as malandragens impunes destruiriam o jogo. Trata-se, poderia objetar o filósofo Lula, de um “principismo”. O locutor diria que ficaria impedido de torcer. Enfim, os dois lutariam para que prevalecesse a ética brucutu: ao nosso time tudo, ao adversário o cartão vermelho. Enfim, como não pensam, buscam seus modelos no futebol.

Eis como, terminado o meu café vespertino, descubro mais uma vez que o Brasil é um país desossado intelectual e eticamente. Um país que não pensa. Por isso, qualquer um – seja presidente ou profissional da comunicação – pode dizer qualquer besteira impunemente.

Como talvez observasse Kant, que era um “principista” de quatro costados: “neste caso vocês vão ter que agüentar a guerra de todos contra todos”.

É onde estamos, não é mesmo? 

-

* Roberto Gomes é autor, entre outros, de Crítica da Razão Tupiniquim (1977), hoje em décima terceira edição, a propósito da qual Darcy Ribeiro escreveu, em Aos Trancos e Barrancos: "O Brasil volta, finalmente, a filosofar". O texto acima foi retirado do site do escritor. 

** Entrei em contato ainda recente com a obra de Roberto Gomes, esse blumenauense que reside em Curitiba, onde se aposentou como professor da UFPR. Tive oportunidade de encontrá-lo ainda recente na Biblioteca Pública do Paraná, e desde então sua obra passou a ter um fascínio ainda mais sobre mim. Seus textos são excelentes. Escreve com profundidade e humor.

sábado, 11 de maio de 2013

A TRILOGIA DAS CORES

Comentário de Marcelo Hailer

Antes de qualquer análise crítica, pra conhecimento do leitor é válido saber que o projeto “A trilogia das cores” nasce por dois motivos: o bicentenário da revolução francesa, sendo que é deste fato histórico/ político donde nasceu o lema: liberdade, igualdade e fraternidade, e o segundo fato é o momento político europeu, a comemoração da unificação da Europa, a já conhecida União Européia.

Feito o contexto da obra, vamos a ela. Como já mencionado Krzysztof Kieslowski foi convidado a fazer um filme que prestasse dupla homenagem, a partir deste ponto o diretor tem a seguinte idéia: com os três lemas da bandeira francesa, transportá-los a década de 90 e com a seguinte questão, como estão estes valores no mundo de hoje? Como anda a liberdade, a igualdade e a fraternidade na Europa e no mundo hoje?

A liberdade é azul ou apenas Azul, como no título original, Kieslowski toma como ponto de partida a tragédia e os dez minutos iniciais já denotam a desgraça. Num acidente de carro, Julie (Juliette Binoche) perde o marido e a filha, após a tragédia a personagem decide-se livrar de tudo que lhe prende ao passado, porém, impossível se livrar de tudo, eis o ponto filosófico do roteiro, aquela liberdade utópica é possível?

Em “A igualdade é branca” a personagem central é Carol (Zbiniew Zamachowski) ele é polonês e não fala francês, é apaixonado pela sua mulher, Dominique (Julie Delpy), que o surpreende com um pedido de divórcio, Carol é julgado na França sem falar uma palavra sequer em francês, mesmo em tom de comédia o filme já dá o tom logo de cara, como um estrangeiro é julgado, obrigado a assinar uma separação sem sequer falar a língua nativa, sem um interprete, onde reside a igualdade na sociedade? Carol resolve retornar a sua cidade natal, volta a trabalhar com o irmão na profissão de cabeleireiro e planeja uma inusitada vingança.

No Vermelho ou “A fraternidade é vermelha”, Valentine (Irene Jacob) leva uma vida normal, faz curso universitário, no filme não é citado qual curso, ganha o seu dinheiro como modelo, tem um namorado onipresente no filme, toda a sua tranquilidade e normalidade serão quebradas quando atropela uma cadela pastor-alemão, na coleira da cadela há o endereço de sua casa, Valentine vai então até lá, quando adentra a casa do dono, o Juiz, senhor aposentado que tem um estranho hobby, com um aparelho de escuta, consegue escutar as conversas telefônicas de seus vizinhos, paralelamente há a história de um jovem que estuda pra ser juiz e tenta a sorte no amor, porém nada fácil e linear na visão de Kieslowski.