terça-feira, 14 de maio de 2013

A PROMESSA

Jorge Luis Borges



Em Pringles, o doutor Isidro Lozano me contou a história. Fez isso com tal economia que compreendi que já o fizera antes, como era previsível, muitas vezes; acrescentar ou alterar um pormenor seria um pecado literário.

O fato aconteceu aqui, em mil novecentos e vinte

e tantos. Eu tinha voltado de Buenos Aires com meu
diploma. Certa noite, mandaram me chamar, do hospital.
Levantei-me de mau humor, vesti-me e atravessei a praça
deserta. Na sala de espera, o doutor Eudoro Ribera me
disse que um dos malfeitores do comitê, Clemente Garay,
tinha sido trazido com uma punhalada no ventre. Nós
e examinamos; agora estou endurecido, mas na época
mexeu comigo ver um homem com os intestinos de fora.
Estava com os olhos fechados e a respiração era difícil.
O doutor Ribera me disse: 
– Não há mais nada a fazer, meu jovem colega.
Vamos deixar que este porqueira morra.
Respondi-lhe que tinha me arrastado até ali depois
das duas da manhã e que faria o possível para salvá-lo.
Ribera deu de ombros; lavei os intestinos, coloquei-os no
lugar e costurei o ferimento. Não ouvi uma única queixa.
No dia seguinte voltei. O homem não havia morrido; 
Olhou-me, apertou minha mão e disse: 
– Para o senhor, obrigado, e meu cabo de prata para Ribera.
Quando deram alta a Garay, Ribera já partira para
Buenos Aires. 
Desde essa data, todos os anos recebi um cordeirinho
no dia de meu aniversário. Por volta dos 40 o presente
cessou.





BORGES, Jorge Luis. Poesia. [trad. Josely Vianna Baptista]. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p.136-137
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