Thiago de Mello
I – O VELÓRIO
Se foi triste, se
não foi,
se gostou de olhar
o azul,
se sofreu por
desamor,
se digeria a
contento,
se procurou Deus
(achou-o?)
não conta mais.
Salatiel
já é matéria sem
ganga,
que se oferta,
horizontal,
aos olhares e aos
pesares.
Chegam vizinhos,
amigos
de longa data,
parentes
trajando roupas de
festa.
E ao penetrarem na
sala,
onde Salatiel
repousa
de todos os
cansaços,
esquecem-se de si
próprios
ou porventura se
encontram
com total exatidão:
o rosto bêbado é
sóbrio,
o folgazão,
compungido;
os sempre austeros
ensaiam
gestos suaves e os
tristes
disfarçam sua
tristeza.
Mas Salatiel
defunto
adorna o meio da
sala
sombria, apesar das
flores,
sem nem perceber,
que pena,
que o gordo senhor
de óculos
veio lhe pedir
perdão
por malquerenças
antigas;
do vulto esguio num
canto,
a recordar o
colóquio
que teve com o
morto, um dia,
chuvoso, em praça
antiga,
e desse encontro
conserva
lembrança em forma
de flor,
que perdura,
delicada,
entre as páginas de
um livro
de poemas de amor
eterno;
do seu barbeiro,
contrito
que lhe contempla o
bigode,
a barba espessa,
azulada,
e lembra canção de
infância
contando que o
mato, a relva
são cabeleiras de
mortos.
Pelas narinas do
morto,
que já não sentem o
aroma
do café que corre a
sala,
penetra o velado
som
dos faladores
incautos:
cada qual lembra
seus mortos,
todos bons, quase
perfeitos
em sua humana
condição,
imperfeitos, porque
humanos,
mas isentos da
soberba.
Depois cambiam de
tema:
falam de jogos, de
guerras,
comentam velhas
intrigas,
fazendo sempre um
parêntesis
para louvar as
virtudes
de que foi
Salatiel.
Que já não é. Suas
orelhas
são búzios
côncavos, secos.
Ah, Salatiel, se
visses
a ternura de teu
filho,
de todos o mais
rebelde,
que regozijo seria.
Com quanto zelo ele
muda
as velas dos
castiçais
e espanta – no
gesto, afago –
a mosca da tua
boca.
Mas Salatiel não
vê.
Como também não
percebe
as filhas
arrematando
com seus soluços
ritmados
o choro seco da mãe
que, em seu
respeito ao defunto,
repele os erros
furtivos,
o desamor não
contado
e o desapreço
profundo
de saber-se
repartida,
que lhe voltam à
memória,
já se dissolvem no
pranto
e o purificam.
II – O SEPULCRO
Na clareira de
treva
em que o tempo não
conta
e onde o brilho de
luas
afoga-se em argila,
os vermes já
circundam
a carne
recém-vinda.
Abraçam-na com
júbilo
de seres separados
que afinal se
reencontram
e este abraço
revela
um sutil
parentesco:
não aquele que
implica
em um correr de
hormônios,
certas cumplicidades
pobres conquanto
físicas
e que o tempo
desgasta
e em lembrança
converte.
Outro, porém, mais
fundo,
que elimina a
distância
do que, por ser
minguado,
alonga-se no sonho,
ao exato minério
feliz em seu
contorno:
e brandamente reúne
a besta que se
entrega
a êxtases
promíscuos
e o que de amor
constrói
sandálias adequadas
para a longa
excursão,
numa aventura só
de crescer e acabar
e aguardar, entre
sombras,
que a mão cega do
mundo
vá recompondo as
cinzas.
E com um linguajar
que só as coisas
entendem
os vermes
confabulam
acerca do destino
deste novo parente
que, aos poucos, se
devolve
ao útero da terra.
III – EPÍLOGO
O dono de tal
carne, todavia,
conhece a paz de
canto que se evola
de garganta
demasido tensa.
Liberto dos enredos
da memória,
isento de
esperança, ele palmilha
os caminhos
abstratos, modulados
em matéria de além,
de sono puro.
Salatiel não-sendo,
desconhece
a exata perfeição
do que não é,
e integra-se à
paisagem absoluta
onde nem sombras há
das três colunas
suportes do
planalto que assegura
o repouso dos
deuses fatigados:
constante prolongar
do dia sétimo.
O outrora sonhador
de galardões,
que passeou pelo
bosque dos enigmas
e entregou-se a
engenhos intrincados
como o de mergulhar
na própria luz
e de lá regressar
sujo de treva,
ou do chão mais
rasteiro para erguer montanhas,
exerce, então,
mister dos mais humildes:
Salatiel não-sendo
já faz parte
do azul na
arquitetura do vazio.
MELLO, Thiago de.
Silêncio e palavra. 5.ªed. Valer: Manaus, 2020. p. 88-95
Nota do autor:
Da primeira e
segunda partes deste poema, alguns versos, quem sabe os mais felizes, são de
nosso Tom Jobim, meu companheiro das noites da rua Redentor, quando cantávamos
e recitávamos poemas de Drummond e de Bandeira, pela primavera dos anos
cinquenta do século passado.
__________________
“Para este fecho, e
por todos os motivos, deixei o poema também capítulo final de Silêncio e palavra: aquele que se
intitula “Romance de Salatiel”. Sem nenhuma dúvida, é o mais completo, o mais
substancial, o mais bem-acabado de todos os poemas até agora produzidos pelo
Sr. Thiago de Mello. De maneira perfeita, ajustam-se nesta peça, e nela se
harmonizam, a representação temática, a variedade rítmica e a estrutura
estrófica. Trata-se de um poema ordenado em pensamento, e construído no defluir
de mediações, com alguns traços descritivos no cenário, com uma nota de humour fundo e pungente no ideário de
objetivação intencionada.
Abre-se o poema com
uma condicional acerca de Salatiel, o que contribui para criar desde logo a
atmosfera de uma expectativa, por força da sugestão em torno de uma
problemática necessariamente anterior àquela que vai ser desdobrada na
sequência dos versos. Dividido em três partes, apresenta-nos, a primeira; o
velório de Salatiel. Neste grupo de estrofes, ali ainda está um ser humano
presente: e isto importa muito. Presença de morto, mas presença, ainda, de
qualquer maneira. E o poeta se utiliza por isso, neste momento, da redondilha
maior. Depois, na segunda parte, Salatiel passa para o sepulcro: penetra “na
clareira de treva.” Não é mais nada. Nada mais é do que um corpo entregue os
vermes. Então, neste outro grupo de estrofes, levando em conta a redução
dimensional de Salatiel, eis que se abrevia também o ritmo de versos,
consequentemente passados para o metro em hexassílabo. Por último, no epílogo,
há uma amplitude desmesurada no destino de Salatiel. Liberta-se ele, para o
astral, neste derradeiro lance.
Salatiel não-sendo, desconhece
a exata perfeição do que não é,
e integra-se à paisagem absoluta
onde nem sombras há das três colunas
suportes do planalto que assegura
o repouso dos deuses fatigados:
constante prolongar do dia sétimo.
Volta então o Sr.
Thiago de Mello a utilizar-se, por isso, do amplo e forte decassílabo, a fim de
poder exprimir este canto de libertação no epílogo. Avançando, num crescendo,
em sentido mais geral do que o da mera arte de metrificação, o poeta ergue-se
largo e liberto – mediante essa projeção de Salatiel a um fenômeno de ársis –
para deixar-nos, afinal, com uma visão ainda mais metafórica do que alegórica,
bem expressa nestes versos:
– É substância de nuvens sem sabê-lo,
Azula a arquitetura do vazio.
(Álvaro Lins, 1952)
MELLO, Thiago de.
Silêncio e palavra. 5.ªed. Valer: Manaus, 2020. p. 140-141