sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O ESTRANGEIRO

Albert Camus


Meursault é a personagem protagonista do romance O Estrangeiro (1942) de Albert Camus, Nobel de Literatura de 1957. Meursult é um homem indiferente a todas as normas sociais, impermeável a todos os valores morais. Condenado por matar dois árabes numa praia, tudo que declara para justificativa de seu ato injustificável é que o fez “por causa do sol”. Dizer mais do que isso, tenta defender-se, significaria acatar as regras de um jogo que ele recusa.
Selecionei um dos trechos do livro, em que Meursault, na prisão, narra o seguinte fato...


Entre a enxerga e as tábuas da cama, eu encontrara, com efeito, um velho bocado de jornal, amarelecido e transparente, quase colado ao pano. Relatava um acontecimento cujo início faltava, mas que devia ter sucedido na Tchecoslováquia. Um homem partira de uma aldeia para fazer fortuna. Ao fim de vinte e cinco anos, rico, regressara casado e com um filho. A mãe dele, juntamente com a irmã, tinha uma estalagem na aldeia. Para lhes fazer uma surpresa, deixara a mulher e o filho noutra estalagem e fora visitar a mãe, que não o reconheceu. Por brincadeira, tivera a idéia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o dinheiro que trazia. De noite, a mãe e a irmã tinham-no assassinado a martelada e atirado o corpo ao rio. No dia seguinte de manhã, a mulher do desgraçado viera à estalagem e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe enforcara-se. A irmã atirara-se num poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado, era inverossímil. Por outro lado, era natural. De todos os modos, achava que o viajante merecera até certo ponto a sua sorte e que nunca se deve brincar com estas coisas. (p. 247-248)

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CAMUS, Albert. Estado de Sítio / O Estrangeiro. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
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