quinta-feira, 24 de março de 2011

DESASTRES NATURAIS E CONSTRUÇÕES HUMANAS

Profª. Inês Lacerda Araújo*
FILOSOFIA DE TODO DIA


Habitantes da superfície de um planeta que abriga e reproduz a vida, nossa civilização, desde há poucas dezenas de anos construiu uma tecnologia sofisticada. Ainda assim, ocupamos parte instável de um planeta com um núcleo incandescente, contra o qual essa tecnologia nada pode. E sucumbimos com terremotos e tsunamis.
O antigo medo dos povos primitivos se manifesta ainda hoje sob a forma de datas que prevêem acontecimentos catastróficos, cataclismo final descrito em termos bíblicos. É mais uma dessas formas mágicas de obter explicação para tudo e pôr um ponto final em tudo. Há as que asseguram a redenção e a salvação (para os bons) e as que profetizam o fim dos tempos a cada novo desastre natural.

Ora, é imprevisível quando e como, mas altamente provável que placas tectônicas se movam! Isso já aconteceu e acontecerá!

Há três modos de o ser das coisas se produzir, ocorrer, fazer efeito. Se há alguma lógica, e precisamos dela em nossas ações, é a de que acontecimentos se dão, eles ocorrem. Prevê-los, apenas com grau de probabilidade, jamais com certeza.

Para Peirce (1839-1914), filósofo norte-americano que fundou a ciência geral dos signos (Semiótica), o descrito acima pertence ao nível da "primeiridade", o que está aí no mundo, fenômenos simples e sem que interfira neles a vontade humana, que são completos em si mesmos e absolutamente livres. Por exemplo, tsunamis, explosões vulcânicas, um galho de árvore que se desprende, tossir nesse momento.

Em outro nível, o da "secundidade", há relações entre dois aspectos, a realidade opõe resistência, e nos obriga a reagir. Exemplos: A causa B, abro uma garrafa, dou a partida no carro, procuro algo que perdi; entra a vontade, é preciso deliberar e escolher.

No nível da "terceiridade" (nada a ver com velhice), ocorre uma modificação do que está aí pela ação humana, por meio da comunicação, por meio de signos. Alguém comunica que vai chover, o outro reage a signos, dá uma olhada no céu com nuvens que indicam precipitação (a que Peirce chama de "índice"), emite uma opinião, concorda, discorda, enfim, é preciso um interpretante para o signo "chuva", que é também outro signo (por exemplo, "que pena", "preciso comprar um guarda-chuva", etc.). Pode ser que a resposta não seja verbal, como a reação de ficar em casa, abrigar-se.

Essa lógica permite ler o significado das coisas, responder, interpretar símbolos, concluir, associar, deduzir e investigar.

Sofrer uma ação brutal da natureza se deve a fenômenos. Não é um castigo bíblico, não é "sinal dos tempos". É uma catástrofe, há que enfrentar, há que reerguer-se.

Nós, seres humanos, habitamos há muito tempo um planeta que recebe a marca de nosso tipo de vida: construímos casas, usinas, pontes, objetos, instrumentos para mil e uma tarefas, povoamos a superfície terrestre com estradas, carros e mais carros. Produzimos lixo, muito lixo.

Quando tudo isso é destruído, constatamos que as necessidades básicas são abrigo e alimento. Mas a civilização humana foi além dessas necessidades, muitas vezes à custa de guerra, violência, morticínios. Até hoje ditadores violentos e patéticos submetem seus povos e são tolerados porque nossa civilização depende de um produto, o petróleo.

A despeito disso, criamos arte, expressamos emoções, valorizamos a justiça e a solidariedade.

Nietzsche em o Eterno Retorno diz: Se o mundo pudesse enrijecer, secar, morrer, tornar-se nada, ou se pudesse alcançar um estado de equilíbrio, ou se tivesse algum alvo que encerrasse em si a duração, a inalterabilidade, [...] se o vir a ser pudesse desembocar no ser ou no nada, esse estado teria de estar alcançado. Mas não está alcançado.

Resumindo, a reflexão filosófica chega a conclusões do tipo: em tudo há um jogo de forças.

Se você refletir, pode chegar a sua própria conclusão!

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.
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