domingo, 11 de dezembro de 2011

LICO: UMA FIGURA!

José Augusto de Castro e Costa*


Ao aproximar-se o final do ano vêm-nos recordações de passagens ocorridas em anos anteriores, que, sem dúvida, acompanham-nos para sempre, mormente se os fatos foram protagonizados por pessoas próximas, mantidas guardadas no peito. Alegro-me de possuir, acomodadas na memória, inúmeras figuras, as quais revivem, vez por outra, comigo passagens hilariamente indeléveis. O Lico é uma dessas personagens que, não raras vezes, vem-me à lembrança e, quando isto ocorre, vejo-me facilmente exposto ao ridículo de esboçar um franco sorriso, sem o menor propósito, aparentemente sem-ver-de-quê. E isto sem levar em conta sua aparência curiosamente alegre. O Lico era albino, irmão de outros dois acreanos, também albinos: Raimundo Louro e João Branco. Eram seis irmãos, sendo quatro albinos e dois de cor morena, os filhos de dona Jandira, vizinha de minha avó. Dona Jandira, morena clara, tal qual o esposo, partiu sem saber, na verdade, a razão de haver concebido quatro albinos e dois morenos.

Raimundo Louro, João Branco e Lico eram muito atraídos pela música. O primeiro “arranhava” os teclados dos pianos do Colégio Acreano e das casas de família de Rio Branco. Era estudioso e procurava sempre destacar-se na casta superior da população. João Branco e Lico eram mais liberais, boêmios e seresteiros. Estavam frequentemente nas serenatas ou nas alvoradas levadas a efeito a aniversariantes. Ambos eram conhecidos percussionistas. O Lico, então, era exímio baterista, excelente pandeirista, muito bom ritmista. Talvez mais que os irmãos, era impagável gracejador, sobretudo nas situações em que algumas vezes envolvia-se.

Nos círculos de seresteiros de Rio Branco distinguia-se o Jonas, deficiente visual, bastante requisitado devido ao domínio com que executava seu velho cavaquinho. Seu desempenho era, por unanimidade, admirável, envolvente, incomparável. Nunca se ouviu falar dos familiares de Jonas, sabendo-se que vivia desacompanhado e sobrevivia da música que alegrava os arrasta-pés na periferia. Como vivia sozinho, utilizava-se sempre da companhia de alguém, na maioria das vezes um vizinho, para guiá-lo a algum local.

Educandário Santa Margarida em Rio Branco (AC)
Certa ocasião, ao encerrar uma alvorada (comemoração de aniversário que iniciava-se às primeiras horas da madrugada e estendia-se até às três e meia), o Lico prontificou-se a levar o companheiro. Jonas residia numa casinha pequenina, localizada na parte baixa de um barranco caído, defronte ao Preventório – Educandário Santa Margarida. Era dezembro, mês de chuvas. Ao chegar às imediações da residência do Jonas, começaram os procedimentos de descida, num local íngreme, escorregadio e escuro. Desce o Lico conduzindo o Jonas em seu ombro, esforçando-se para não desequilibrar-se, o mínimo que fosse, preocupado com um possível desfecho desastroso.

A casinha do amigo era a primeira, ali fincada, como por estratégia, para que alguém pudesse socorrer o vizinho, quando necessário. Ao tocar a porta da casa Lico procurou a maçaneta e encontrou um barbante ligado a dois pregos, para mantê-la fechada. Desatou o cordão e adentrou no recanto do amigo, perguntando-o:

- Onde acende a luz, Jonas? Responde o Jonas:

- Prá que luz, Lico? Eu não sou cego?

O plenilúnio de maio na planície acreana é, certamente, de muito bom grado para gente que gosta de curtir a noite, atravessando a madrugada adentro para “pegar o sol com a mão” e fascinar-se com o risonho e límpido céu formoso ao amanhecer.

Em uma dessas noites Lico acabara de sair de um rala-coxa no Filó, lá paras bandas do primeiro Aeroporto, defronte ao Quinze. Caminhava sozinho em busca de nova aventura quando encontra o Mota de Oliveira, radialista famoso, sobremaneira pela voz gutural. Lico viu o companheiro cambaleando e supôs que tratasse de bebida. Soube que não era apenas por isso, mas o Mota acabara de ser retirado de um buraco negro, aberto para a colocação de um poste, nas proximidades da oficina do Vivi, quase na antiga entrada para a Floresta.

Prosseguiram a caminhada em busca de um repouso, para mais uns tragos. Encontraram uma humilde e rústica birosca, bem em frente ao Cemitério São João Batista. Não havia acomodações, nenhum tamborete, evidentemente, até porque Rio Branco, na época, era completamente desprovido de qualquer requinte, mormente em local sinistro. O menu de bebidas à disposição também era de sofrível escassez: apenas Quinado e cachaça (Cocal).

Quase não conversavam, muito menos o dono da birosca. Mas lá pela terceira dose, já amanhecendo, o Lico, muito conversador, resolve puxar assunto e pergunta ao dono:

- Meu companheiro, você não tem medo de trabalhar, numa hora dessas, defronte ao cemitério? O cara respondeu:

- Rapaz, quando eu era vivo eu tinha!!!

Aí o Mota de Oliveira desmoronou, desmaiado! E o Lico engatou uma quinta no rumo de casa, aonde chegou arrebentando o portãozinho e caindo na varanda da entrada:

- Mãeeeeeeeeeeeeeeee!

Não apenas dona Jandira acordara, mas a vizinhança inteira sobressaltou-se com o berro do Lico e o ensurdecedor barulho de seu tombo no assoalho. Minha avó Emilia também correu para ver, quando dona Jandira dizia:

- Quando abri a porta, parecia que eu estava vendo o cão chupando limão: o Lico, com os cabelinhos arrepiados, de branco ele estava uma mistura de roxo com lilás e as meninas dos olhos sem parar, de um lado para o outro, parecia que iam pular para fora. Cruzes! Tibes! Vote!

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* José Augusto de Castro e Costa é acreano, natural de Rio Branco. Reside atualmente em Brasília, onde trabalha no Senado Federal, lotado no Instituto Legislativo Brasileiro – ILB, onde exerce a atividade de Coordenador de Cursos.
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