segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PORTA-LARGA

José Augusto de Castro e Costa*


Encontra-se denominações de tudo quanto é porta, aquela passagem existente numa parede, localizada ao nível de um pavimento. Temos porta-aviões, porta-bandeira, porta-estandarte, porta-retratos, porta-voz. Todos esses termos têm significados pré-definidos. A nossa porta-larga, porém, em aditamento à sua denominação, tem uma significação deliciosamente especial.

Estamos diante de um simpático casarão, um pouco depois do início da Rua Seis de Agosto, localizado à esquerda, no sentido do Igarapé da Judia. Melhor explicando, dava fundos com os fundos da Rua da África.

Era um casarão destinado ao entretenimento, como amar, como frequentar um cinema, como jogar dominó ou uma partida de bilhar.

Ao transpor-se a larga porta-dupla, dava-se de cara com várias mesas, dispostas de maneira que formavam corredores entre umas e outras, até chegar-se ao salão, onde homens dominavam, premido ao corpo, com maestria, o corpo de mulheres rebolativas, a provocar o entusiasmo contagiante. Logo a seguir localizava-se o balcão, onde eram servidas as bebidas, com destaque para o gin-com-vermouth e a cachaça (Cocal) aos que não tinham o privilégio cômodo das mesas.

A distração era tamanha que se perdiam as questões do cotidiano, ao encontrar-se alí figuras jocosas, divertidas, como Luizão (de camisa aberta ao peito por força da protuberância), Predial, Prikit Seco, Zilda Vara-Pau, Fernando Bruzugú, Nego da Izaura, Oswaldo Xexéu.

O Luizão, bom contador de causos, orgulhava-se de, para o espanto de todos, entornar na boca da garrafa, todo o conteúdo da Cocal, sem fazer caretas. É verdade que tal atitude era apenas a título de demonstração, a pedido de alguém a quem devesse atenção. Na maioria das noites o Luizão servia-se apenas de dozes medidas – nunca menos que duas garrafas.

A denominação Porta-Larga era dada em função do largo espaço de quatro metros e meio, ocupado por duas portas sobrepostas uma a outra. Com a pintura de cor azul desbotada, a casa apresentava aspecto de vetustez, o que na realidade o era, havendo até quem temesse por seu desabamento. Mas Zé Beiçola, ou melhor, José Praxedes, seu dono, corajosamente tocou o quanto possível seu empreendimento que, por ser paralelo à Rua da África, contava com uma vizinhança de primeiríssima qualidade, à estirpe de Silvio, Sálvio, Oswaldinho, Oscar, Nonato, Guariba, Galvãozinho. Eram também senhorios da área, embora residentes um pouco mais distantes, grandes companheiros como Papagaio, Capa-Bode, Brachula, Otacilio, João Cara-Olho.

Quem se dirigia ao Porta-Larga, obrigatoriamente teria que passar pelo Bar do Joaquim Pinto, onde muitos entretiam-se, apresentando suas habilidades no maior e mais refinado Salão de Sinucas e Bilhares de Rio Branco. Era no Bar do Joaquim Pinto que eram levadas a efeito as preliminares para o Porta-Larga.

O pessoal do Primeiro Distrito também frequentava a área, mas era importante manter boas relações com o pessoal do Segundo Distrito. De vez em quando havia algum conflito, com riscos de maiores proporções, o que levava o visitante a atravessar o rio a nado. Outras vezes ocorria o contrário, era alguém do Segundo Distrito que retornava nadando, por retaliação.

Pilunga, de baixa estatura e muito arrogante, com uma revista O Cruzeiro nas mãos, tinha visto uma reportagem sobre a inauguração de uma Usina no interior paulista e, para puxar assunto, foi perguntar à Zilda Vara-Pau, se ela já havia visto as chaminés da usina de Boqueirão, ao que a outra respondeu:

– Nunca vi nem quero ver. E se botar prá fora eu passo-te a garrafa na cabeça, cabra sem-vergonha, seu Fio duma Égua.

O tempo fechou, literalmente, porque também começou a chover, e o Pilunga saiu correndo no rumo do rio. Caiu n’água, na altura da casa do Sálvio e saiu abaixo da Cadeia Velha. Quase morreu! Passou tempos sem voltar ao Porta-Larga, onde o rala-coxa continuava.

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* José Augusto de Castro e Costa é acreano, natural de Rio Branco. Reside atualmente em Brasília, onde trabalha no Senado Federal, lotado no Instituto Legislativo Brasileiro – ILB, aí exerce a atividade de Coordenador de Cursos.
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