sábado, 28 de janeiro de 2012

BRAZIL ACREANO

José Augusto de Castro e Costa*


Acabo de ler uma verdadeira obra-prima, em termos de Acre, do escritor amazonense Antônio José Loureiro. O livro é interessante por tratar de fatos ocorridos logo após a Revolução Acreana, com vista aos efeitos do decreto do governo brasileiro que organizou o território recém-anexado, em três departamentos autônomos.

O título Brazil Acreano, na verdade, é a denominação de um jornal de Sena Madureira, principal cidade do Departamento do Alto Purus que, definia-se como “órgão independente, sem peias de partido, conservador, representante do comércio, da indústria e da agricultura”. Juntando-o aos periódicos Alto Purus e Estado do Acre, percebemos que Sena Madureira, nos primórdios de sua existência, possuía três jornais que documentaram fatos ocorridos entre 1909 e 1918, em seu Departamento, quando, além do declínio da borracha, a região viveu momentos dramáticos de lutas pela criação de um Estado do Acre autônomo, dentro da Federação brasileira.

As fontes pesquisadas para a elaboração da obra foram exatamente as edições dos três jornais, de onde o autor recolheu anúncios, noticiários, vida associativa, diversões, prendas, feminismo e aspectos médicos e sociais de Sena Madureira, além de dados estatísticos referentes aos imigrantes brasileiros e estrangeiros e as populações masculinas e femininas e ainda as representações das diversas profissões ali existentes.

No capítulo sobre o feminismo o autor destaca notas de um articulista do Brazil Acreano, manifestando-se jocosamente sobre o assunto, conforme se lê: “Já não mais lhes agrada falar no vestido de seda, com que devem ir ao baile; já não lhes trás encantos o chapéu de finíssimos enfeites, com que aos domingos saem a passeio; só lhes apetece dizer que o poder marital é uma tirania; que as leis são exclusivistas e odiosas. Já usam o fraque, o jaquetão, montam bicicleta, dirigem automóveis, lêem os romances realistas de Julio Ribeiro e de Aluizio Azevedo, enfim mil cousas, que as tornam mais e mais homens, à medida que os homens vão se tornando mais e mais mulheres“.
Vagonete Apurinã – Rua Iaco
Foto: Blog de Sena
Vagonete Aruaque – Rua Macapá
Foto: Blog de Sena
Plantada no centro da selva, a milhares de quilômetros das grandes metrópoles, Sena Madureira, há cem anos, possuía uma linha de bondes à tração animal. O novo transporte funcionava das 6 da manhã até as 19 horas, pelo preço de 300 réis a passagem, no trajeto da Praça 25 de Setembro ao Bosque.

Manuel Passos Galvão, dentista e diretor do Jornal Alto Purus, foi o idealizador desse empreendimento, pomposamente denominado de Purus Ferro-Carril. Anos depois, Dr. Galvão transferiu-se para Rio Branco, indo residir à antiga Rua da África, próximo ao bar do Joaquim Pinto, onde, já em nossa juventude, Sálvio, Nego da Izaura, João KaraOlho e Otacílio desafiavam, na sinuca, duplas do Primeiro Distrito.

Sena Madureira da época adotava a música como complemento indispensável a todas as reuniões, animadas por orquestra composta de piano, violinos, bandolins e flautas.

A vida associativa da cidade, por volta de 1909, era bastante ativa, onde se destacavam a Igreja Católica, Igreja Batista, Loja Maçônica Fraternidade e Trabalho, Sociedade Protetora Familiar, Sociedade Beneficente Cearense, Centro Pernambucano do Alto Purus, Grêmio Recreativo Nova Olinda e Associação Comercial do Alto Purus. Já em 1917 havia cinco times de futebol: Team dos Onze, Alto Purus Club, Club Familiar, Club Floresta e o Ideal Club, unindo a família puruense.

O autor da obra é amazonense, filho de uma escritora acreana radicada há muitos anos em Manaus, e neto de uma das principais figuras da História de Sena Madureira – magistrado Antonio Pinto do Areal Souto, que dirigiu os jornais Gazeta do Purus e O Brazil Acreano.

O escritor nos põe em contato com membros de famílias ilustres com as quais lidamos nos dias atuais, como Alencar Araripe, Flaviano Flavio Batista, Areal Souto, Custódio Freire, José Daou, Dr. Galvão e outros, que se dedicaram de corpo e alma para o progresso de Sena Madureira e do Acre em geral, salientando-se o Dr. Flávio Batista, literalmente o número (1) da OAB nacional.

A partir de 1918, com o desaparecimento do jornal O Alto Purus, dois novos periódicos surgiram: O Jornal e a Gazeta do Purus. Todos os jornais aqui citados pertencem ao acervo do Instituo Geográfico e Histórico do Estado do Amazonas.

A razão que levou o jornal Brazil Acreano a ter em sua denominação a inserção do “z“ no lugar do “s“, ainda permanece no campo das suposições. Porém, do que não se tem dúvidas é quanto à localização dos documentos (jornais) aos quais recorreu o autor de Brazil Acreano – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. O Acre poderia e deveria possuir, também, seu Instituto que acomodasse seu cabedal de informações geográficas e históricas.

É justo e natural que um estado guarde referências de outrem que integre sua história. Mas, que o seja em forma de cópias, microfilmagens ou outros recursos tecnológicos, cabendo os originais aos estados de origem.

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* José Augusto de Castro e Costa é poeta e cronista acreano.
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