quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

CANTOS DO SERINGAL - Isaac Melo

                                                       O meu caleidoscópio é o pensamento,
                                                       que imagens do Acre forma em minha mente:
                                                        é o rio que dobra um porto lamacento...
                                                        é o barranco... é a floresta... é a minha gente...
                                                                                                  Océlio de Medeiros
Foto: Sérgio Vale
Agência de Notícias do Acre

Dias há em que desperto com as lembranças do seringal. A verdade é que me apetecem as recordações da floresta. Não por um saudosismo melancólico. Seringal não é um espaço bucólico no estilo das pastorais virgilianas. Seringal é dureza, é luta, é esforço... No entanto, seringal é encanto, é beleza, é harmonia...

Nove anos vivi num seringal. O seringal Sumaré, no rio Tarauacá. Impressões de um tempo que ainda me impressionam, e o tempo não apaga. Não carrego memórias na cabeça. Minhas memórias habitam o meu peito. Não preciso fazer força para pari-las. Elas surgem e escorrem tranquilas como as águas de um igarapé quando é chegado o verão.

Uma paisagem, um barulho, um cheiro basta para me transportar às reminiscências do seringal. A mata vislumbrada do alto dá uma impressão de monotonia. É preciso descer, percorrê-la, habitá-la. Então a mata se desdobra numa miscelânea de cores, cantos, aromas, formas, tamanhos... A mata inebriante desperta a sobriedade dos sentidos.

Foto: Sérgio Vale
Agência de Notícias do Acre
Enquanto o céu derrama-se em pétalas douradas por sobre as majestosas copas de samaumeiras, cumarus, seringueiras, no anfiteatro da selva silenciosa mil vozes ecoam numa sinfonia perfeita. Tal polifonia de cantares é harmonia, é sincronia de tudo o que há. Nada é fora do seu tom, do seu ritmo, da sua poesia... Ali só a ganância humana é anomalia.

A selva quanto mais selvagem mais fascínio me causava. Por ela nunca sentir pavor, embora me apavorassem as histórias contadas sobre os seres fantásticos que a habitavam: mapinguari, visagem, caipora... Um medo, porém, reconheço, o de atravessar matas de igapós, medo dos estrambóticos e fatais poraquês. Ou das cobras peçonhentas. Minhas duas ressalvas.

Como o mais novo de casa, gostava de acompanhar meus irmãos nas caçadas, nas pescarias, nas estradas de borracha, nas andanças pela mata. Meus sentidos ficavam despertos para tudo o que não me era comum. Novas sensações para um corpo que desconhecia as extravagâncias da civilização. Minha civilização era o que sentia, via, degustava, apalpava ou sonhava.

O que se esconde nos olhos de um menino de seringal? Escondem-se as manhãs em que o sol, despontando vagaroso lá na curva do rio, vem trazer a aurora no cantar de um bem-te-vi; escondem-se o voo das andorinhas que, à tardezinha, enfeitavam o céu, levemente retocado de azul, indo pousarem sobre a galharia de uma velha árvore arrastada pelo rio.

À frente de casa passava o rio. O rio de tantos repiquetes com seus balseiros a descer, e que tanto mexiam com meu imaginário infantil. No verão, as águas sumiam e as praias surgiam com suas areias tão alvinhas. Aí viviam os tetéus e os maçaricos que eu costumava perseguir a força de baladeiras e reboladas em dias de peraltices.

Foto: Sérgio Vale
Agência de Notícias do Acre
Ao fundo de casa, antes de atingir a mata, ficava o igapó, onde abundavam os aguapés e as vitórias-régias. Aí também estava assentada a tábua onde mamãe lavava a roupa, sobretudo no tempo do inverno, quando as águas dos rios eram ainda mais barrentas. No igapó encontravam-se as jaçanãs, com um cantar fino e belo.

Bonito de ver eram as noites de verão. A noite, como um manto pontilhado de diamantes reluzentes, se estendia sobre nós. Uma lua enorme adornava de prata os campos, as matas, o rio. Nem Van Gogh com sua A Noite Estrelada seria capaz de dar uma noção daquele espetáculo tão natural que chegava a ser sobrenatural. A noite desperta outros cantos.

Meu irmão chamava-o sapo canoeiro. Era o kampu. Um anuro pequeno, mas quando coaxava se agigantava, pois tão imponente ressoava o seu cantar. Produz uma substância que pode ser fatal, embora os seringueiros e ribeirinhos o aplicassem, em justa medida, para retirar panema e atrair a sorte. Herança da sabedoria dos povos indígenas.

Dos barrancos quem dava o tom era o Bacurau. Pássaro de perfeita camuflagem. Pipilo um pouco nostágico, não tanto como o da Mãe-da-lua, outro mestre da camuflagem. Seu canto penetrante e melódico invadia a noite e me despertava sensações estranhas. Pobres de nós que transferimos às aves as impressões do nosso próprio coração.

E o que dizer da Acauã? Reza a lenda que seu canto é agourento. Prenúncio de morte ou desgraça. Quando entoava seu piar mamãe, na sua piedosidade cristã supersticiosa, logo exclamava: “Deus conjuro, condenada!”. Apesar de nossa ingratidão, a avezinha persistia em ofertar o seu singelo cantar, às vezes logo ao amanhecer, outras ao apontar da noite.

O Cancão também tinha um canto forte, estridente, como é próprio das aves falconiformes. Dizem que ele costumava acompanhar os temíveis bandos de queixadas. Daí meu receio. Os anus-corocas, que a gente chamava de arigó, costumavam fazer algazarras às margens dos rios e saiam voando e fazendo ecoar seu canto rouco com o aproximar das canoas.

Nossa casa parecia se enamorar do rio à sua frente, com seus dois olhinhos a mirá-lo de cima do barranco. Casa coberta de palha de jaci ou ouricuri. Soalho de paxiúba. Paredes de paxuibinha. À sua frente um trapiche. Trapiche de onde acompanhava as exibições cinematográficas projetadas na grande tela por sobre a selva.

Sentado à ponta do trapiche, enquanto o sol começava a ser engolido pela boca da noite, ficava a admirar o casal de papagaios em seu voo curto e deselegante, o bando de garças, as maracanãs chilreantes, as graúnas, os japós... Do aceiro da mata vinha o canto dos nambus. Por entre as palhas, nesgas de fumaças iam mesclar-se à bruma lá fora.

Foto: Angela Peres
Agência de Notícias do Acre
Poucas vezes vi o espetáculo de um barreiro, isto é, um depósito natural, às vezes às margens de um igarapé, rico em salitre, aonde inúmeros animais vêm comer. Chilreios ensurdecedores de centenas de periquitos num vai e vem incessante. Mas a mata tem o som ímpar, para mim, do Corrupião. Toda vez que o ouço gorjear minha alma volta a fundir-se à floresta.

A mata me viu nascer, crescer, voar. Por isso ficou impresso na alma um naco de cada canto: do cicio da cigarra ao brado do guariba. A selva de pedra nunca sufocara a selva das minhas reminiscências... Ainda ouço o chiado das folhas secas no caminhar dos varadouros... Ainda trago nos olhos uma noite florida de estrelas, onde a lua desabrocha em pétalas prateadas.

A floresta nunca foi o inferno. Nem o paraíso. A selva é o que a selva é. Selvagem. Há encantos e artimanhas. Não é amiga. Nem inimiga. É generosa. Abundante. E pode ser cruel. Mas não há maldade. Há a vida. E tudo o mais gira em seu entorno. A floresta me faz esteta. Não romântico. E quem me dera ter alma de poeta, pois “que triste não saber florir”.
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