segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CHEGA DE CONVERSA MOLE

OLIVIA MARIA MAIA


Cheguei ao Shopping um pouco mal-humorada. Explico. Não gosto de Shopping Center, pois me dá uma sensação de aperreio. De falta de ar. De poluição visual. Aquele mundo de vitrines com os produtos piscando para os passantes: comprem-me! Prefiro comércio de ruas. Ultimamente ando frequentando, já que a maioria das boas salas de cinemas se encontra nesses monstrengos. Pois. Um dia, na saída do cinema, vi uma botinha muito simpática e ontem resolvi comprá-la. Sabia mais ou menos o rumo da loja e fui direto pra lá. Quando senti um esbarrão. Uma moça pendurada em um celular quase me derrubou, e seguiu em frente. Desculpas, para quê? De certo não poderia interromper o papo com a pessoa do outro lado da linha. Fiquei indignada, mas certa de que adiantaria falar nada já que eu “não existia”. Sim, ninguém existe. O que existe são vozes... Muitas vozes nos telefones.

Resolvi sentar pra tomar um café e observar as pessoas que passavam, com o firme propósito de contar quantas estavam falando ao celular. Devo dizer que me senti uma idiota, pois o difícil foi ver alguém que não estivesse falando no tal aparelhinho. Eram jovens, velhos, crianças, homens, mulheres... A única coisa que me veio à mente foi: o que esse povo tanto fala? Que tanto assunto, gente! Me bateu um tédio... Tenho sentido falta de um bom dia, um oi, olá, como vai? Um desculpe-me... Um olhar. A sensação que me deu é que ninguém mais quer “olhar” para o outro. Os outros não contam. Não existem.

Juro que não estou aguentando tanta conversa mole. Ando de saco cheio de ter que ouvir conversas alheias: como a da mulher que no meio do supermercado fica falando em alto e bom som com a empregada, perguntando se ainda tem alface para o almoço. Ou a da mocinha que, na fila do Banco, conta pra amiga como foi a noitada com o “ficante” no barzinho. A da mãe histérica dando ordens para o filho fazer tarefa. A da moça no salão de cabeleireiro fazendo futrico da roupa da melhor amiga. A conversa do casal no restaurante, que enquanto aguarda a comida - ela fala com a mãe sobre as crianças, e ele com o amigo sobre o trabalho. Ou a fala do sujeito que mal acaba de sentar ao meu lado no avião e liga para mulher avisando que já embarcou... E tão logo a aeronave para no pátio, é um alvoroço... Parece uma comoção coletiva, todos enfiando a mão nas bolsas, pastas, bolsos à procura do famigerado aparelhinho. E nem adianta você tentar mexer-se para pegar seus pertences, que eles te olham de cara feia tipo insinuando: não tá vendo que eu preciso telefonar?!

Sim. Tem mais. Depois que inventaram a tal de ligação com tarifas por chamada (tipo R$ 0,21 com tempo indeterminado), minha tortura, de ter que ouvir conversas que não me dizem respeito aumentou ainda mais, e com mais um complicador. Literalmente tive que colocar ordem na casa.

− Francisco! Francisco! − chamei o jardineiro para pedir-lhe que podasse uma árvore que estava alta, e nada de o cabra aparecer. Saí à sua procura, e me deparei com ele embaixo da mangueira com o celular... E trololó... trololó... Quando me viu, fez sinal com a mão para que eu esperasse. Esperei... Passaram vinte minutos e ele veio me perguntar o que eu desejava... (naquele momento o que desejava era lhe dar um esporro, mas fiquei calada).

E o rumo da prosa foi aumentando. Procurava o Francisco e lá estava ele encostado à máquina de cortar grama (desligada, claro)... Celular no ouvido... trololó... trololó. Um dia eu estava escrevendo, no escritório. A janela dá pra área da frente da casa e quando olhei para o gramado vi o jardineiro “trabalhando”. Acocorado, como se estivesse retirando mato da grama. Percebi que ele não se mexia (ou melhor, as mãos não se mexiam – uma na orelha e outra parada segurando uma machadinha). E lá estava no celular... Trololó... trololó. Resolvi então marcar a duração da ligação, dessa vez sem incomodá-lo. Uma hora e quinze minutos (sentou, acocorou, riu, falou e falou). Quando ele terminou, fui lá fora e perguntei:

− Rapaz! Será que esse serviço fica pronto hoje? – Ele me olhou com cara de: não estou entendendo! O que estou fazendo de errado?... Tô só telefonando. – Então eu acrescentei:

− Com mais um telefonema desses, a metade do teu dia vai ser descontada, sabia?

Ele me encarou como se eu estivesse lhe fazendo a maior injustiça. Quando eu notei que o pouco pra ele era muito pra mim, decretei:

− Cara, ou tu desligas a porra desse telefone ou vai procurar emprego em outro lugar.

Na semana seguinte ele chegou com um fone de ouvido. Agora fala e trabalha. Pronto, resolvida a questão, dele claro, pois meu jardim está um caos.

Alguém conhece um jardineiro que não use celular, para me indicar?


* Olivia Maria Maia é escritora acreana, autora de EM RIO QUE MENINO NADA RAIA NÃO FERRA (2010). Reside em Brasília.
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