quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DAS ORIGENS

Paulo Bomfim


Das origens só restou
este jeito de sentir.
Arrogância disfarçada,
sesmarias de remorso,
glebas de tédio e de luto,
ponchos cobrindo de sono
o galope das varandas.
As demandas se perderam
na agonia dos avós,
e o tiro das emboscadas
é flor de chumbo crescendo
no pressentir de seus netos.
Há vetustos casarões
e espectros de cafezais
habitando nossos pousos;
– os mansos apartamentos,
as vivendas de aluguel
onde deuses clandestinos
tilintam suas esporas,
preiam índias, sangram ouro,
emprenham sol nas mucamas,
balanças cadeiras rústicas,
e tiram de seus alforjes
a palha para o cigarro,
a pólvora para a morte,
e a matéria para o sonho.
Das origens só restou
o sigilo das candeias.


BOMFIM, Paulo. 50 anos de poesia. São Paulo: Editora Green Forest do Brasil, 2000. p.321
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