terça-feira, 7 de março de 2017

JOÃO VERAS: alguns poemas

DES-SEJA
João Veras

(para toda pessoa humana)

A pessoa não é o corpo.

Não é o que fala,
o que consome,
o que imagina,
o que expele,
o que padece,
o que come.

Não é o que acena,
entristece,
tem pena,
a que põe mesa.
A pessoa não é o que beija.

Não é o copo que emborca,
o crime que presencia,
o pesar que ignora,
a doença que insiste.
Não é a dor que chora,
a leitura que não faz,
a encomenda que traz,
o filme que assiste.

Nem a alma que possui,
a crença que alimenta,
o fato que comenta,
a unha que rói,
a mãe que cuida,
a vida esquecida,
o pai herói.

Não é o que veste e o que desnuda.
Macho taludo, fêmea carnuda.

A pessoa é,
não sobejo,
todo o desejo,
o que quer.

08.12.2016


LA LIBERTAD Y LA FURIA EN MI CAMINO
João Veras

pego aquele martelo
que tá ali posto
sem nada fazer sem uso
e saio destruindo tudo que é concreto duro consistente

pego tudo que é concreto duro consistente
que tá ali posto
sem nada fazer sem uso
e saio jogando contra as paredes muros e cercas

pego aquelas paredes muros e cercas
que estão ali postos
sem nada a fazer sem uso
derrubo tudo ao chão
e saio de pisos leves
- quando então - para nada fazer e sem uso.

04.12.2014


NATUREZAS (de segundas intenções)
João Veras

as unhas crescem
eu corto
crescem de novo
torno a cortar
insistem
teimo
e vamos

o caminho é longo
até não mais crescer até não mais cortar
e quando?

sem renuncia
sem abandono
nenhum de nós
até o fim?
e vamos

11.11.2014


ARTISTAS DA TERRA
João Veras

São quatro
O um, que acha que é
O dois, que dizem que não é
O três, que sonha ter nascido em marte
E o quatro

Engarrafados em frascos de si
Pratas esvaziadas de êxito fabril
Circulam na esfera do quintal
Esse universo bastante
abarrotado de tantos quês!

Cada um é um
Mas só alguns são

02.03.2017


DESCULPA, É A GUERRA DOS CULPADOS
João Veras

Acre 21: matadouro de humano
Um parente, um conhecido ou qualquer sicrano
Todo dia alguém assassina alguém
Quem foi dessa vez, quem?

Nunca se sabe o que aconteceu.
E vai restando uma certeza impura
nessa concentração de loucura:
o culpado é sempre quem morreu.

01.03.2017


REALEZA SEM IMPÉRIO NO CARNAVAL DOS COMUNS
João Veras

Eu não vi, fugi!

Na cidade
o chic lebreu dominou os conforts cercados
E ao resto sobraram as coroas postiças

Sóis rei, princesas e rainhas
No carnaval que passou

Quanto riso, oh quanta agonia!

28.02.2017
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