CANTO 1
ALMA DAS COISAS
Uma canoa só
é só uma canoa.
Cabanos dentro, locupleta-se,
corta o rio com rumo,
escreve sua história.
Sem homem,
é castanha podre
selva sem tribos,
anzol sem tamaru,
uirapuru com canto morto.
O homem
é terra e água,
fogo e seiva,
alma
(ou pulverização)
das coisas. p. 23
CANOEIROS
Na montaria,
proeiro e piloto multifalam:
comentam – opinam – discutem.
Depois calam:
seco hiato,
silêncio de caramujos
dentro da viagem.
Cada margem
tem silêncio próprio.
E
conversam por cima do rio:
discurso de lodo e mangueiros,
praias, aves, pescadores,
sob a carranca solar
ou ramagens chuvarentas.
Voltam a falar
os canoeiros:
uma frase ligada
ao antes dito:
complemento – exemplo – ilustração.
Foi a pausa cavada
entre as falas,
como vala sob alguém saltando:
corpo no ar,
indo,
sustido,
mas escravo do seu
peso. p 24
SUCURIOMEM
(a)
Viscoso, escuro, lustroso, estira-se
entre folhas, raízes e águas.
Sobre o lodo palpita
esse lombo.
Vem do leste luar mundiante.
Rebrilha o líquido
e a pele gosmenta.
(b)
Come Sucuriomem
peixe assado com pirão de açaí.
Batata-doce, beiju.
Se a barriga é cheia,
pode vir o fim do mundo. A morte.
Sucuriomem não se importa. Cata
pupunha, cupuaçu, uxi, tucumã.
Rói, lambe, lambuza-se.
Tudo engole com farinha.
Faz licores. Emporria-se.
Sesta em rede-ao-rio; cabana:
paredes e assoalho de juçara,
coberta de palhas de ubuçu: palafita.
Telúrica penumbra.
Sente a cálida barriga
da fêmea sobre-roçando a sua.
Ri de esguelha entre barbas crescidas.
Rósea,
balança-se a noite, para um gêmeo
de todos os mortais.
(c)
Acredita Sucuriomem:
distante há castigo e céu,
perto, crescem as marés-de-lanço
da revolta;
que, ontem, havia pai e mãe,
casa e cuidados;
mas hoje nasce no peito
outro impulso macho,
bravio
como enfurecida onça.
(d)
Sucuriomem larga
cuia de chibé,
deixa cabana,
onde se resignam mulher e filhos.
Saudade é palha.
Viver é não voltar
atrás.
Nem suportar grilhões
ou rastejar na
humilhação.
Ser é ter o merecido
seu.
Sucuriomem não chora.
Larga o visco da pele,
a pachorra da rede.
Empunha armas.
Vai trabalhar com chumbo
sob as bandeiras da libertação.
Vai dar porrada em "bicudo",
sacudir a estrangeirada:
botar justiça no mundo.
Sucuriomem
vai rasgar bem fundo.
Vai virar herói. p. 33-34
ILDONE, José. Romanceiro da Cabanagem. 2ª ed.
Belém: Imprensa Oficial do Estado, 2015.
JOSÉ ILDONE FAVACHO SOEIRO, poeta, prosador,
jornalista e professor licenciado pleno em Letras (pela UFPA), nasceu em 14.04.1942,
na histórica Vigia de Nazaré (a 93 km de Belém - Amazônia - Pará), filho do
ferreiro Manuel Brito Soeiro e da professora Irene Favacho Soeiro (com a qual
estudou parte do primário no antigo Grupo Escolar da Vigia, depois “Barão de
Guajará”, e da qual foi professor, durante o curso médio, no Ginásio “Bertoldo
Nunes”. Membro da Academia Paraense de Letras é autor, entre outros, de “Chão d’Água”
(1979), “Luas do Tempo” (1983), “Romanceiro da Cabanagem” (1985), “A Hora do
Galo” (1987), “Trilogia do Exílio” (1987), “Introdução à Literatura no Pará” (1990/97),
oito volumes em coautoria com Acyr Castro e Clóvis Meira e “Murais de Barro” (2002).

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