sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ROMANCEIRO DA CABANAGEM: José Ildone

CANTO 1

ALMA DAS COISAS

 

Uma canoa só

é só uma canoa.

 

Cabanos dentro, locupleta-se,

corta o rio com rumo,

escreve sua história.

 

Sem homem,

é castanha podre

selva sem tribos,

anzol sem tamaru,

uirapuru com canto morto.

 

O homem

é terra e água,

fogo e seiva,

alma

(ou pulverização)

das coisas. p. 23

 

 CANTO 2

CANOEIROS

 

Na montaria,

proeiro e piloto multifalam:

comentam – opinam – discutem.

Depois calam:

seco hiato,

silêncio de caramujos

dentro da viagem.

 

Cada margem

tem silêncio próprio.

E

conversam por cima do rio:

discurso de lodo e mangueiros,

praias, aves, pescadores,

sob a carranca solar

ou ramagens chuvarentas.

 

Voltam a falar

os canoeiros:

uma frase ligada

ao antes dito:

complemento – exemplo – ilustração.

 

Foi a pausa cavada

entre as falas,

como vala sob alguém saltando:

corpo no ar,

indo,

sustido,

mas escravo do seu peso. p 24

 

 CANTO 6

SUCURIOMEM

 

(a)

Viscoso, escuro, lustroso, estira-se

entre folhas, raízes e águas.

Sobre o lodo palpita esse lombo.

Vem do leste luar mundiante.

Rebrilha o líquido

e a pele gosmenta.

 

(b)

Come Sucuriomem

peixe assado com pirão de açaí.

Batata-doce, beiju.

Se a barriga é cheia,

pode vir o fim do mundo. A morte.

Sucuriomem não se importa. Cata

pupunha, cupuaçu, uxi, tucumã.

Rói, lambe, lambuza-se.

Tudo engole com farinha.

Faz licores. Emporria-se.

Sesta em rede-ao-rio; cabana:

paredes e assoalho de juçara,

coberta de palhas de ubuçu: palafita.

Telúrica penumbra.

Sente a cálida barriga

da fêmea sobre-roçando a sua.

Ri de esguelha entre barbas crescidas.

Rósea,

balança-se a noite, para um gêmeo

de todos os mortais.

 

(c)

Acredita Sucuriomem:

distante há castigo e céu,

perto, crescem as marés-de-lanço

da revolta;

que, ontem, havia pai e mãe,

casa e cuidados;

mas hoje nasce no peito

outro impulso macho,

bravio

como enfurecida onça.

 

(d)

Sucuriomem larga

cuia de chibé,

deixa cabana,

onde se resignam mulher e filhos.

Saudade é palha.

Viver é não voltar atrás.

Nem suportar grilhões

ou rastejar na humilhação.

Ser é ter o merecido seu.

 

Sucuriomem não chora.

Larga o visco da pele,

a pachorra da rede.

Empunha armas.

Vai trabalhar com chumbo

sob as bandeiras da libertação.

Vai dar porrada em "bicudo",

sacudir a estrangeirada:

botar justiça no mundo.

Sucuriomem

vai rasgar bem fundo.

Vai virar herói. p. 33-34

  

ILDONE, José. Romanceiro da Cabanagem. 2ª ed. Belém: Imprensa Oficial do Estado, 2015.

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JOSÉ ILDONE FAVACHO SOEIRO, poeta, prosador, jornalista e professor licenciado pleno em Letras (pela UFPA), nasceu em 14.04.1942, na histórica Vigia de Nazaré (a 93 km de Belém - Amazônia - Pará), filho do ferreiro Manuel Brito Soeiro e da professora Irene Favacho Soeiro (com a qual estudou parte do primário no antigo Grupo Escolar da Vigia, depois “Barão de Guajará”, e da qual foi professor, durante o curso médio, no Ginásio “Bertoldo Nunes”. Membro da Academia Paraense de Letras é autor, entre outros, de “Chão d’Água” (1979), “Luas do Tempo” (1983), “Romanceiro da Cabanagem” (1985), “A Hora do Galo” (1987), “Trilogia do Exílio” (1987), “Introdução à Literatura no Pará” (1990/97), oito volumes em coautoria com Acyr Castro e Clóvis Meira e “Murais de Barro” (2002).

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