domingo, 27 de setembro de 2026

DULCINÉA PARAENSE: A flor da pele

Visionária

 

Nederland, em teus moinhos

me crucifixo

à espera do meu Quixote

que há de vir rasgando os ventos

cavalgando o seu relâmpago

para me resgatar.

 

Inutilmente, no entanto

anda ele a brandir, sonâmbulo,

suas lanças de martírio

cortando o ar de Toboso,

enquanto em terras de Holanda

meu desejo eriça as crinas

fora de tempo e lugar. p. 98

 

Holanda, 1979.


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Cromo

 

No porto

boiam barcos ancorados.

 

Ágeis mãos – aranhas brancas –

tecem teias de tarrafas

enquanto seus donos vagam

o olhar de doces memórias

sobre as casas de brinquedo

com janelas cortinadas

parapeitos adornados

por vasos de porcelana

e em cujas portas não vemos

seus tamancos batizados

do sol, de areia e de sal. p. 99

 

Voledam, 1979.


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Conselho para mim mesma

 

Pisa muito de leve... Não maltrata

a terra que é teu berço e que te acolhe.

Sente a carícia do ar, o odor da mata.

Vê este esplendor de sol que o céu recolhe.

 

Goza, tranquila, a sombra das mangueiras

que abrigam tantos pássaros em festa.

Colhe as plumas em flor das sumaumeiras

e adormece, em madorna, à hora da sesta.

 

Vive de forma intensa este momento

com que o destino te presenteou

gravando, para sempre, o encantamento

 

que teu retorno te proporcionou.

E nunca esqueças o deslumbramento

com que esta terra te nutriu e amou. p. 7

 

Belém, 1946.

 

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O vendedor de flores

 

Desta janela, deste apartamento,

vejo um menino, livre e só, na rua.

 

Um menino qualquer

mas diferente

de tantos que a miséria cria

e cultiva para o submundo

das quadrilhas urbanas e dos vícios.

 

Esse menino

não joga futebol pelas calçadas,

não se esgueira entre carros, não esmola,

não agride ninguém, não tem perfídia.

 

É um menino qualquer

mas diferente.

 

Tem um sorriso isento de impureza

e as mãos curtidas oferecem flores.

 

O olhar não inquire, não acusa: aceita

o gritante contraste

em que a vida coloca as criaturas.

 

Esse menino, mercador de flores,

murcho na infância, livre e só nas ruas

– pássaro implume de asas já crestadas

por emigrantes ventos que percorrem mundos –,

sabe da vida e dá o ensinamento:

 

Vende beleza com a serenidade

de quem conhece o quanto ela é perene

mesmo que seja por um só momento. p. 26

 

Belém, 1937.

 

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Inquietude

 

Eu existi como a mulher que tinha a carne como um grito.

Como a mulher que, sem saber, foi alguém para

inúmeros destinos.

 

Pelas noites brancas eu me erguia

e ia beijar todas as sombras.

 

Os meus lábios se abriam

para beber a cacimba que escorria do céu

e eu sentia o borbulhar de espumas nos ouvidos: era o mar.

 

Todos os ventos frios me envolviam

e eu tinha a alegria das folhas balançando...

 

Senti teus pés machucando as distâncias.

Senti tua voz ecoando nas distâncias.

Senti teu gesto apalpando as distâncias.

 

E por isso vivi como a mulher que tinha a carne como um grito! p. 29

 

Belém, 1941.

 

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Biografia

 

Das almas desencontradas

houve duas que se acharam.

Dispersas elas estavam.

Somaram-se. Nasci.

 

Cactos havia nas estradas

por onde às noites vagaram.

Não viram, porque se amavam,

que os pés nas urzes feri.

 

Com flores dilaceradas

o corpo da mãe plantaram.

"E o pai?" - as gentes falavam...

Não chorei. Nem esqueci.

 

Sem clorofila, estioladas,

as faces jamais coraram,

Corpo e alma, agrestes, medraram,

sem seiva, não floresci.

 

Mas à sombra das ramadas,

Quantos viajores pararam!

Meu tronco nu tatuaram.

Fui oásis. E sofri.

 

Angústias desabrochadas

foram luzes que sangraram.

E do amor com que me amaram

fiz meu destino. Vivi. p. 40

 

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Equação

 

De tudo o que parte

ou se parte

fica um pouco.

 

Da soma de cada pouco

se faz

o que se fica sendo e é. p. 41

 

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Escuta...

 

Não tenhas medo.

Não leias meus versos

como quem, de pés nus,

se fere em espinhos.

 

Não voes, não corras

sobre palavras cheias de intenções

que extraí com amor uma por uma.

 

Meus conflitos são teus,

tuas são as angústias e esperanças,

as chamas que me aclaram o pensamento.

 

Lê meus pesares como quem mergulha

nos abismos do mar com seus mistérios

porque dentro de nós somos iguais.

 

Lê meus versos

sorvendo, devagar, gota por gota,

o vinho que sangrou por minha pena,

o néctar que verti por minhas lágrimas.

 

Não leias os meus versos

com a ironia dos que não têm piedade.

Procura intuir aquilo que eu não disse

ou que apenas insinuei

por timidez,

com medo ou com ternura ou com pudor, talvez.

 

Lê meus versos como quem se encontra

diante da própria face desnudada.

 

Sofre cada expressão, cada momento,

como quem participa

da hora milagrosa em que ela nasce. p. 78

 

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O nenúfar e a lua emersa

 

Foge o cavalo marinho...

Espinho cortando o vento

sobre o dorso da onda inquieta.

Na noite branca, o nenúfar

beija os cabelos da morta.

 

A lua afogada emerge...

Os olhos cegos, abertos,

refletem estrelas.

 

Silêncio!

A branca afogada chora.

E a espuma tornou-se flor

nas mãos tranquilas da aurora. p. 147

 

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O destino do silêncio

 

Eu não queria ser como o gesto que passa

O pensamento criador que não se alcança

A frase que se não materializa

 

Não quero ser como o futuro

Que um dia passará.

 

Não quero ser como o ato renovador da concepção

Que se perde com o aniquilamento da vitalidade.

 

Eu preferia ser aquilo que ainda ninguém pensou

Eu preferia ser a matéria mais bruta,

A que me parecesse a mais irracional.

 

– Uma pedra perdida em meio de uma estrada deserta

onde todos os viandantes encontrassem o descanso da jornada,

onde todos descarregassem o peso morto dos caminhos.

 

Onde todas as cabeças dos predestinados

para os longos percursos, repousassem

a canseira dos grandes, dos pesados pensamentos.

Para no fim da vida eu ser a única memória suave do caminho,

aquela que ficou vivendo, cheia de todos os cansaços na estrada percorrida,

a que pôde guardar o segredo das fraquezas do homem

com o silêncio de todas as fraquezas cumuladas

A que teve o destino

de ser, na lembrança de todos os viajeiros,

 

– a pedra do caminho... p. 181

 

PARAENSE, Dulcinéa. Dulcinéa Paraense: a flor da pele. Orgª. Lilia Silvestre Chaves. Belém: SECULT, 2011.

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Dulcinéa Lobato Paraense nasceu em Belém, a 2 de janeiro de 1918, onde bacharelou-se em Direito em 1938. Escreveu para diversos jornais e revistas do Pará. Em 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro. Apenas em 2011, na XV Feira Pan-Amazônica do Livro teve sua primeira obra publicada, “A flor da pele”, com organização de Lilia Silvestre Chaves. Não há notícia disponível sobre seu falecimento.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ROMANCEIRO DA CABANAGEM: José Ildone

CANTO 1

ALMA DAS COISAS

 

Uma canoa só

é só uma canoa.

 

Cabanos dentro, locupleta-se,

corta o rio com rumo,

escreve sua história.

 

Sem homem,

é castanha podre

selva sem tribos,

anzol sem tamaru,

uirapuru com canto morto.

 

O homem

é terra e água,

fogo e seiva,

alma

(ou pulverização)

das coisas. p. 23

 

 CANTO 2

CANOEIROS

 

Na montaria,

proeiro e piloto multifalam:

comentam – opinam – discutem.

Depois calam:

seco hiato,

silêncio de caramujos

dentro da viagem.

 

Cada margem

tem silêncio próprio.

E

conversam por cima do rio:

discurso de lodo e mangueiros,

praias, aves, pescadores,

sob a carranca solar

ou ramagens chuvarentas.

 

Voltam a falar

os canoeiros:

uma frase ligada

ao antes dito:

complemento – exemplo – ilustração.

 

Foi a pausa cavada

entre as falas,

como vala sob alguém saltando:

corpo no ar,

indo,

sustido,

mas escravo do seu peso. p 24

 

 CANTO 6

SUCURIOMEM

 

(a)

Viscoso, escuro, lustroso, estira-se

entre folhas, raízes e águas.

Sobre o lodo palpita esse lombo.

Vem do leste luar mundiante.

Rebrilha o líquido

e a pele gosmenta.

 

(b)

Come Sucuriomem

peixe assado com pirão de açaí.

Batata-doce, beiju.

Se a barriga é cheia,

pode vir o fim do mundo. A morte.

Sucuriomem não se importa. Cata

pupunha, cupuaçu, uxi, tucumã.

Rói, lambe, lambuza-se.

Tudo engole com farinha.

Faz licores. Emporria-se.

Sesta em rede-ao-rio; cabana:

paredes e assoalho de juçara,

coberta de palhas de ubuçu: palafita.

Telúrica penumbra.

Sente a cálida barriga

da fêmea sobre-roçando a sua.

Ri de esguelha entre barbas crescidas.

Rósea,

balança-se a noite, para um gêmeo

de todos os mortais.

 

(c)

Acredita Sucuriomem:

distante há castigo e céu,

perto, crescem as marés-de-lanço

da revolta;

que, ontem, havia pai e mãe,

casa e cuidados;

mas hoje nasce no peito

outro impulso macho,

bravio

como enfurecida onça.

 

(d)

Sucuriomem larga

cuia de chibé,

deixa cabana,

onde se resignam mulher e filhos.

Saudade é palha.

Viver é não voltar atrás.

Nem suportar grilhões

ou rastejar na humilhação.

Ser é ter o merecido seu.

 

Sucuriomem não chora.

Larga o visco da pele,

a pachorra da rede.

Empunha armas.

Vai trabalhar com chumbo

sob as bandeiras da libertação.

Vai dar porrada em "bicudo",

sacudir a estrangeirada:

botar justiça no mundo.

Sucuriomem

vai rasgar bem fundo.

Vai virar herói. p. 33-34

  

ILDONE, José. Romanceiro da Cabanagem. 2ª ed. Belém: Imprensa Oficial do Estado, 2015.

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JOSÉ ILDONE FAVACHO SOEIRO, poeta, prosador, jornalista e professor licenciado pleno em Letras (pela UFPA), nasceu em 14.04.1942, na histórica Vigia de Nazaré (a 93 km de Belém - Amazônia - Pará), filho do ferreiro Manuel Brito Soeiro e da professora Irene Favacho Soeiro (com a qual estudou parte do primário no antigo Grupo Escolar da Vigia, depois “Barão de Guajará”, e da qual foi professor, durante o curso médio, no Ginásio “Bertoldo Nunes”. Membro da Academia Paraense de Letras é autor, entre outros, de “Chão d’Água” (1979), “Luas do Tempo” (1983), “Romanceiro da Cabanagem” (1985), “A Hora do Galo” (1987), “Trilogia do Exílio” (1987), “Introdução à Literatura no Pará” (1990/97), oito volumes em coautoria com Acyr Castro e Clóvis Meira e “Murais de Barro” (2002).