Visionária
Nederland, em teus moinhos
me crucifixo
à espera do meu Quixote
que há de vir rasgando os ventos
cavalgando o seu relâmpago
para me resgatar.
Inutilmente, no entanto
anda ele a brandir, sonâmbulo,
suas lanças de martírio
cortando o ar de Toboso,
enquanto em terras de Holanda
meu desejo eriça as crinas
fora de tempo e lugar. p. 98
Holanda, 1979.
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Cromo
No porto
boiam barcos ancorados.
Ágeis mãos – aranhas brancas –
tecem teias de tarrafas
enquanto seus donos vagam
o olhar de doces memórias
sobre as casas de brinquedo
com janelas cortinadas
parapeitos adornados
por vasos de porcelana
e em cujas portas não vemos
seus tamancos batizados
do sol, de areia e de sal. p. 99
Voledam, 1979.
Conselho para mim mesma
Pisa muito de leve... Não maltrata
a terra que é teu berço e que te acolhe.
Sente a carícia do ar, o odor da mata.
Vê este esplendor de sol que o céu recolhe.
Goza, tranquila, a sombra das mangueiras
que abrigam tantos pássaros em festa.
Colhe as plumas em flor das sumaumeiras
e adormece, em madorna, à hora da sesta.
Vive de forma intensa este momento
com que o destino te presenteou
gravando, para sempre, o encantamento
que teu retorno te proporcionou.
E nunca esqueças o deslumbramento
com que esta terra te nutriu e amou. p. 7
Belém, 1946.
O vendedor de flores
Desta janela, deste apartamento,
vejo um menino, livre e só, na rua.
Um menino qualquer
mas diferente
de tantos que a miséria cria
e cultiva para o submundo
das quadrilhas urbanas e dos vícios.
Esse menino
não joga futebol pelas calçadas,
não se esgueira entre carros, não esmola,
não agride ninguém, não tem perfídia.
É um menino qualquer
mas diferente.
Tem um sorriso isento de impureza
e as mãos curtidas oferecem flores.
O olhar não inquire, não acusa: aceita
o gritante contraste
em que a vida coloca as criaturas.
Esse menino, mercador de flores,
murcho na infância, livre e só nas ruas
– pássaro implume de asas já crestadas
por emigrantes ventos que percorrem mundos –,
sabe da vida e dá o ensinamento:
Vende beleza com a serenidade
de quem conhece o quanto ela é perene
mesmo que seja por um só momento. p. 26
Belém, 1937.
Inquietude
Eu existi como a mulher que tinha a carne como
um grito.
Como a mulher que, sem saber, foi alguém para
inúmeros destinos.
Pelas noites brancas eu me erguia
e ia beijar todas as sombras.
Os meus lábios se abriam
para beber a cacimba que escorria do céu
e eu sentia o borbulhar de espumas nos ouvidos:
era o mar.
Todos os ventos frios me envolviam
e eu tinha a alegria das folhas balançando...
Senti teus pés machucando as distâncias.
Senti tua voz ecoando nas distâncias.
Senti teu gesto apalpando as distâncias.
E por isso vivi como a mulher que tinha a carne
como um grito! p. 29
Belém, 1941.
Biografia
Das almas desencontradas
houve duas que se acharam.
Dispersas elas estavam.
Somaram-se. Nasci.
Cactos havia nas estradas
por onde às noites vagaram.
Não viram, porque se amavam,
que os pés nas urzes feri.
Com flores dilaceradas
o corpo da mãe plantaram.
"E o pai?" - as gentes falavam...
Não chorei. Nem esqueci.
Sem clorofila, estioladas,
as faces jamais coraram,
Corpo e alma, agrestes, medraram,
sem seiva, não floresci.
Mas à sombra das ramadas,
Quantos viajores pararam!
Meu tronco nu tatuaram.
Fui oásis. E sofri.
Angústias desabrochadas
foram luzes que sangraram.
E do amor com que me amaram
fiz meu destino. Vivi. p. 40
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Equação
De tudo o que parte
ou se parte
fica um pouco.
Da soma de cada pouco
se faz
o que se fica sendo e é. p. 41
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Escuta...
Não tenhas medo.
Não leias meus versos
como quem, de pés nus,
se fere em espinhos.
Não voes, não corras
sobre palavras cheias de intenções
que extraí com amor uma por uma.
Meus conflitos são teus,
tuas são as angústias e esperanças,
as chamas que me aclaram o pensamento.
Lê meus pesares como quem mergulha
nos abismos do mar com seus mistérios
porque dentro de nós somos iguais.
Lê meus versos
sorvendo, devagar, gota por gota,
o vinho que sangrou por minha pena,
o néctar que verti por minhas lágrimas.
Não leias os meus versos
com a ironia dos que não têm piedade.
Procura intuir aquilo que eu não disse
ou que apenas insinuei
por timidez,
com medo ou com ternura ou com pudor, talvez.
Lê meus versos como quem se encontra
diante da própria face desnudada.
Sofre cada expressão, cada momento,
como quem participa
da hora milagrosa em que ela nasce. p. 78
O nenúfar e a lua emersa
Foge o cavalo marinho...
Espinho cortando o vento
sobre o dorso da onda inquieta.
Na noite branca, o nenúfar
beija os cabelos da morta.
A lua afogada emerge...
Os olhos cegos, abertos,
refletem estrelas.
Silêncio!
A branca afogada chora.
E a espuma tornou-se flor
nas mãos tranquilas da aurora. p. 147
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O destino do silêncio
Eu não queria ser como o gesto que passa
O pensamento criador que não se alcança
A frase que se não materializa
Não quero ser como o futuro
Que um dia passará.
Não quero ser como o ato renovador da concepção
Que se perde com o aniquilamento da vitalidade.
Eu preferia ser aquilo que ainda ninguém pensou
Eu preferia ser a matéria mais bruta,
A que me parecesse a mais irracional.
– Uma pedra perdida em meio de uma estrada
deserta
onde todos os viandantes encontrassem o
descanso da jornada,
onde todos descarregassem o peso morto dos
caminhos.
Onde todas as cabeças dos predestinados
para os longos percursos, repousassem
a canseira dos grandes, dos pesados
pensamentos.
Para no fim da vida eu ser a única memória
suave do caminho,
aquela que ficou vivendo, cheia de todos os
cansaços na estrada percorrida,
a que pôde guardar o segredo das fraquezas do
homem
com o silêncio de todas as fraquezas cumuladas
A que teve o destino
de ser, na lembrança de todos os viajeiros,
– a pedra do caminho... p. 181
PARAENSE, Dulcinéa. Dulcinéa Paraense: a flor da pele. Orgª. Lilia Silvestre Chaves. Belém: SECULT, 2011.
Dulcinéa Lobato Paraense nasceu em Belém, a 2
de janeiro de 1918, onde bacharelou-se em Direito em 1938. Escreveu para diversos
jornais e revistas do Pará. Em 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro. Apenas em
2011, na XV Feira Pan-Amazônica do Livro teve sua primeira obra publicada, “A
flor da pele”, com organização de Lilia Silvestre Chaves. Não há notícia
disponível sobre seu falecimento.

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