segunda-feira, 16 de maio de 2011

A PRIMEIRA OBRA LITERÁRIA EDITORADA NO ACRE

E a mata, testemunha silenciosa,
regava-se de sangue e amargos prantos
enquanto na folhagem numerosa
as aves entoavam doces cantos,
n’um perpétuo contraste criador,
vida e morte plena de ódio e amor.

Farias Gama


O extrativismo da borracha e a Revolução Acreana (ou conflito, se preferir), ambos, nesse caso, interligados, constituem-se os dois fatos históricos que, até por volta da década de 1960, mais predominou na literatura produzida no ou sobre o Acre. Em inúmeras obras (cartas, poesias, romances, contos, crônicas) se prodigalizou o fado dos migrantes, sobretudo nordestinos, diante da selva, o grande “inferno verde”; se cantou seus feitos, como o “amansamento” do deserto pantanoso e se chorou suas perdas; se desvelou o viver dos seringais, a sina dos seringueiros e a sanha dos coronéis... Enfim, se celebrou a revolução, que então se tornou uma façanha notável, elevada a categoria de epopeia e aqueles que tomaram parte no litígio, tornaram-se heróis.

O Fim da Epopéia (1924), posteriormente intitulada A Conquista do Deserto Ocidental do alagoano Craveiro Costa; A Epopéia Acreana (1939) do jovem paulista Freitas Nobre; A Epopéia do Acre (1964) do paraense Silvio de Bastos Meira, são apenas três exemplos que, explicitamente, dão dimensão de epopeia à história acreana. Discussões à parte sobre o emprego dos termos “epopeia” e “revolução”, a literatura que se desenvolveu nesses moldes não pode ser ignorada ou desprezada, embora questionada, sim. Obras que, sobretudo, não podem ser lidas a partir de nossa atual visão de mundo, muito menos, sem levar em conta seus contextos e finalidades.

Farias Gama
Em 1919 surgia um trabalho literário pioneiro, envolto numa história inusitada. Um encarcerado compõe, o que acredito ser, o primeiro poema sobre a Revolução Acreana. Trata-se do folheto “Epopéia Acreana”, de autoria de Farias Gama. O folheto, escrito em quinze dias, foi a primeira obra literária ideiada, escrita e editorada no Acre. Nesse sentido, o livro de poesias “Acreanas” (RJ: Ed. A Noite, 1922) de Juvenal Antunes, só pode ser considerado a primeira publicação de literatura referente ao Acre se o tomarmos como livro propriamente dito, já que a obra de Farias Gama trata-se de um folheto, copilado em 39 laudas. Sobre Farias Gama não possível levantar informações biográficas.

O poemeto apresenta um esquema de rimas único que permeia todo o poema, em que o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quarto, e o quinto com o sexto. Todas as estrofes (cantos) são compostas por seis versos. O folheto se encontra assim dividido: Esborço – em que faz um apanhado histórico da Revolução; Introdução – narra a ocupação da Amazônia (VIII estrofes); Canto I – narra a vinda dos nordestinos para o Acre (XI estrofes); Canto II - narra o início do confronto (XII estrofes); Canto III – narra os primeiros combates, a rendição dos acreanos, e depois a retomada (XIII estrofes); Canto IV – narra as batalhas mais sangrentas (XIII estrofes); Canto V – narra o alastramento da Revolta (V estrofes); Canto VI – canta o desfecho final da Revolução e a vitória dos acreanos, em tom de denúncia (XVII estrofes); Epílogo – faz menção ao assassinato do líder Plácido de Castro (VII estrofes).

No esborço inicial o poeta diz como surgiu o poemeto: “Um dia, inimigos de minha altivez, arrojaram-me num cárcere. Foi então que resolvi mais amplamente servir-me desta faculdade, que embora mal, me acompanha desde a infância – o trovar. Rebusquei o motivo. Era a Revolta do Acre. Quis tanger a lira, mas não encontrei-a. Num cárcere um carrilhão”. A crítica ao sistema de governo então adotado talvez tenha sido a causa da prisão do poeta: “Vieram as primeiras trovas. Veio o interesse pela dor dos meus irmãos. Hoje como ontem, eu e eles oprimidos pelos que neste rincão exercem a crueldade, ontem o invasor, hoje os enviados legais”.

É preciso lembrar que só em 1920 é que o Acre terá um Governo Geral do Território. Antes vigorava o Sistema Administrativo de Prefeituras Departamentais. Nesse período (e depois) houve um forte movimento pela autonomia acreana, e boa parte dos acreanos ou daqueles que viviam no Acre acusavam o Governo Federal de abandonar o Território, não realizar investimentos, embora ficasse com todo lucro dos impostos arrecados sobre a borracha (que diga-se de passagem eram enormes) e de nomear pessoas autoritárias para admistração do Território, que mandavam e desmandavam.

Nesse sentido, o folheto de Farias Gama quer ser uma crítica a essa realidade de abandono do Terrítorio, do esquecimento dos “veteranos” da Revolução, e da perseguição do governo aos seus opositores, como expressa a última estrofe do Canto VI:

Era finda a revolta. Dispersados,
como feras bravias e perseguidas
os chefes foram, por legais soldados,
em breve eram seus feitos esquecidos
que a Pátria vencedora na contenda
a terra abandonou, só vê a renda.

Por fim, como a querer convencer o leitor da autencidade de seus versos, Farias Gama acentua: “Guiei-me pelas narrativas mais fiéis. Não rebusquei, nem ataviei, preferindo a verdade da história aos lauréis do romanceiro”. A grande intenção do poeta além de fazer o registro da epopeia acreana é fazer memória àqueles que dela fizeram parte: “Este o mérito: ter condensado as narrativas dolorosas e sinceras dos veteranos da Epopéia, esquecidos, abandonados, como o livro o será, dois minutos após o olhar indiferente do leitor”. Felizmente Farias Gama estava equivocado, já que a “Epopéia” e o “livro” ainda persistem, nove décadas depois.

***

Excerto de Epopéia Acreana
Farias Gama

                    Canto I

                         I

Do Ceará, do Rio Grande e muitos
estados do Nordeste, brasileiros
acossados dos males mais fortuitos
emigravam aos milhares, forasteiros
que assim fugiam do torrão natal
sob o guante da seca, o grande mal.

                         II

Homem feitos em todos os rigores
da natureza ou do trabalho insano,
destemidos, audazes peleadores,
ei-los, em quatro paus transpondo o oceano,
ei-los no dorso de árdego montado
correndo a rês bravia em disparada.

                         III

De tais nervos, tais músculos, tais gênios,
precisava a conquista planejada,
e em romagem sinistra por decênios
fez-se o êxodo da turba escravizada
que no bojo de sórdido navios
deixava o verde mar por turvos rios.

                         IV

E subindo e crescendo a humana vaga
dos pigmeus tomados em gigantes
pela giganteia e misteriosa plaga,
ia alrotando os ecos dormitantes
da mata testemunha silenciosa
da batalha a travar-se, valerosa.

                         V

Mas nem sequer aos que a morrer seguiam,
davam conforto os rudos condutores,
quais bestas maltratadas prosseguiam
a jornada da fome e dos horrores
até a entrega ao patronal (?)rrate
por preço tal de um incapaz resgate.

                         VI

Eram chegados ao feudal domínio,
abatidos, sem ânimo, os escravos
e logo se iniciava o extermínio:
o índio a traição postrando os bravos,
transformando em ruínas, as sezões
aqueles que eram a graça dos sertões.

                         VII

De tão grande porção amiúde vinda
restava empalemado e barrigudo,
um pugilo, a lutar disposto ainda
contra o índio, a floresta, a doença, tudo,
tudo com o rude afinco congregador
como a tornar o solo inviolado.

                         VIII

Como se não bastassem tais tormentos
os pobres lutadores inorados
sofriam dos patrões, aviltamentos,
quais não sofrem maiores desgraçados,
sem ter em quem buscar mercê, justiça,
pois de estrangeiros se julgava a liça.

                         IX
  
E a mata, testemunha silenciosa,
regava-se de sangue e amargos prantos
enquanto na folhagem numerosa
as aves entoavam doces cantos,
n’um perpétuo contraste criador,
vida e morte plena de ódio e amor.

                         X

Em refregas inúteis se esgotavam,
há muito os elementos combatentes.
Simulacros de ação que redundavam
em morte e desbarato aos mais valentes,
quando empós a refrega sem proveito,
vinha a justiça com feroz aspeito.

                         XI

Muitos bravos haviam já tombado
e o desalento os arraiais minava,
pois no Pátrio Torrão ignorado
com bruto alarde o estranho dominava
impondo duras leis, provações novas,
o cárcere, o fuzil, o espicha e as covas.

***

GAMA, Farias. Epopéia Acreana: poemeto. Acre: 1919.

***

Nota: os excertos do poema sofreram pequenas atualizações conforme a gramática regente atual (por exemplo, creador = criador, misterioza = misteriosa... que em nada tira o valor poético da obra).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A GRANDE LUTA – Altino Machado

Entrou no quarto cuidadosamente, procurando não ser pressentido, buscando recantos escuros próximos à cortina da janela e ficou quieto, imóvel, certificando-se de não ter sido visto. Após alguns minutos, adquiriu confiança. O casal permanecia na cama conversando sobre assuntos banais: filhos malcriados, empregada desordeira, problemas com o chefe na repartição, programa para o fim de semana. Tudo revelava não terem sequer suspeitado de sua presença. Mais adiante, viu quando se acarinharam, beijaram-se rapidamente, deram-se boa noite e apagaram o abajur de cabeceira. Continuou estático atrás da cortina, aguardando; não tinha pressa, a noite apenas começava e até clarear o dia poderia agir, desde que tomasse as cautelas necessárias, não se expondo ou cometendo imprudência.

Cerca de uma hora mais tarde, ouviu o ronco de ambos, voltados um para o outro na cama larga. Sentiu segurança e saiu da posição, postando-se ao lado do guarda-roupa, perto dos dois que dormiam profundamente. Abeirou-se, em seguida, do criado-mudo, iluminado pelo mostrador fosforescente do rádio-relógio. Continuavam inertes e ele se aventurou. Bem de leve, pousou na mão da mulher, sempre dava preferência ao sangue feminino, achava-o mais puro, mais ralo, mais doce. O do homem parecia-lhe grosso, pesado, de difícil absorção; a pele da mulher era, por outro lado, mais fina, lisa, delicada; o ferrão entrava sem risco de quebrar-se. No homem, a pele era áspera, os pêlos atrapalhavam. O local predileto era o colo, de preferência os seios, embora fosse difícil encontrá-los expostos, mormente na época de frio. No calor, por vezes deparou corpos desnudados e pôde escolher à vontade o ponto da picada.

A mão se mexeu e ele saiu, rápido, antes que o esmagasse. Todo cuidado era pouco. Voltou para o teto, longe do alcance; evitava precipitar-se. Meia hora mais, novamente desceu, aterrando o braço dobrado, fora do lençol verde. Nenhum movimento. Espichou o ferrão e começou a introduzi-lo, vagarosamente, num poro mais largo, na parte inferior do antebraço, sobre tênue veia azul. De súbito: plaft! Um tapa forte, a luz foi acesa, formou-se um burburinho, mal teve tempo de safar-se, o vento da mão impulsionou-o para baixo, ele assentou-se ao pé da cama.

– Tem pernilongo no quarto, querido.

– Onde? Não senti nada.

– Pois eu senti, estava me picando. Vamos procurá-lo, não consigo dormir com esses miseráveis chupando a gente!

– Tudo bem, deixe-me pôr os óculos. Apanhe a toalha de rosto no banheiro, umedeça-a; logo mato esse bicho desgraçado.

Rente ao chão, ele estava apavorado. Fora armadilha, ela fingira estar dormindo. Quase foi apanhado... Exatamente como na noite anterior, traidora, falsa! Ela me paga, pensava; se escapar desta, chupo-lhe todo o sangue. Ouviu barulho, os dois andavam pelo cômodo, sacudindo cortinas, afastando móveis, iluminando todos os cantos com luz forte.

– Olhe ali! Dê-me rápido a toalha, vamos antes que fuja!

– Onde?

– Aqui. Ah! você demorou, ele fugiu; veja do outro lado, deve estar passando por baixo.

Realmente, voara com risco de vida sob a cama e se escondera atrás da porta que dava para o corredor. Acreditava que não o procurariam lá; pelo menos não o fizeram na noite passada.

De repente, mexeram a porta e ele se viu exposto, no claro, inteiramente a descoberto. Passaram a jogar toalha dobrada, chinelos, paletó de pijama, até camisola ela tirou, transformando-a em petardo. Quase foi atingido, mas escapou pelo túnel escuro e sombrio do corredor. Assustado, pensou: ainda bem que não se valeram das armas químicas; limitaram-se à bateria antiaérea...

– Vamos dormir, meu bem. Acho que o matamos. Amanhã comprarei nova bomba de inseticida.

– Não suporto o cheiro do produto, prefiro o pernilongo.

– É, mas não há outro jeito...

Distante, no fundo do corredor, ele recordava os conselhos da mãe: não tenha pressa, não esmoreça, prefira o escuro e evite os ouvidos. O homem tem nos ouvidos o ponto mais sensível do corpo: o cérebro humano deve se localizar nos ouvidos. O rosto do homem é região acidentada, a montanha principal é o nariz, com duas cavernas profundas; as orelhas, onde ficam os ouvidos, vêm em seguida: duas abas grandes, radares poderosos, que detectam o zumbido e acionam braços e mãos para a morte. Os olhos são sensíveis mais inofensivos; a boca é cavidade perigosa, aprisiona os insetos descuidados que nela adentram à procura da língua, saborosa. Os homens são brutos e nada inteligentes. Bastariam cortinados e os pernilongos morreriam de fome; mas são comodistas, acham que junta poeira e preferem guerrear. Quando não matam logo – o homem só pensa em matar –, insistem na batalha até ficarem cansados e caírem no sono, entregando-se. Aí tudo fica bem. O ferrão entra fácil, o sangue escorre que é uma beleza!

Achava que aquele momento chegara e se preparava para a sucção. Achava mais: como é fácil lutar contra o homem; ele repete a mesma técnica todas às noites: atira tudo que tem à mão. Certa vez arremessaram-lhe um despertador, que não o alcançou e se desfez todo; teve pena. Difícil é lutar contra a largatixa, esta sim, sabida e viva, ardilosa e inteligente. Dificílima a luta contra a deusa-aranha, que tece sua teia invisível. Não há pernilongo que lhe escape, quando faminta. Já a papa-mosca é esperta, mas dá para se defender. Depois do homem, é o adversário mais burro...

Após longo tempo, retornou ao dormitório. Os roncos se reativaram, fortíssimos. Exaustos, rendiam-se. Então, ele esnobou. Esticou o ferrão e o introduziu lentamente no pescoço do homem, chupou meia gota de sangue grosso. Logo em seguida, com toda calma, outra meia gota do lindo colo feminino...

Afinal, deixou o quarto, voando solto e feliz, zumbindo forte, realizado com a vitória, pesado, barriga cheia de sangue, que digeriria pela semana inteira. Voou ao encontro dos seus, orgulho e certo de que seria recebido como herói: derrotara o homem, ganhara a grande luta da noite...

***

MACHADO, Altino. A figura refletida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

***
Nota: Prestamos aqui nossa homenagem póstuma a José Altino Machado, falecido na segunda-feira última (09/05) em São Paulo. Nascido em Taubaté no dia 21 de fevereiro de 1924, era formado em Direito pela Universidade de São Paulo (1947); foi Governador do Território Acre (1961), durante o governo do Presidente Jânio Quadros e Deputado Federal também pelo Acre, exercendo o mandato de 1963 a 67. Membro da Academia Paulista de Letras, foi autor de 4 livros, com um total de 82 contos editados. Veja mais aqui.

O BAILE DO JUDEU - Inglês de Sousa

Ora, um dia, lembrou-se o Judeu de dar um baile e atreveu-se a convidar a gente da terra, a modo de escárnio pela verdadeira religião de Deus Crucificado, não esquecendo, no convite, família alguma das mais importantes de toda a redondeza da vila. Só não convidou o vigário, o sacristão, nem o andador das almas, e menos ainda o Juiz de Direito; a este, por medo de se meter com a Justiça, e aqueles, pela certeza de que o mandariam pentear macacos.

Era de supor que ninguém acudisse ao convite do homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo numa cruz, mas às oito horas da noite daquele famoso dia, a casa do Judeu, que fica na rua da frente, a umas dez braças, quando muito, da barranca do rio, já não podia conter o povo que lhe entrava pela porta adentro; coisa digna de admirar-se, hoje que se prendem bispos e por toda parte se desmascaram lojas maçônicas, mas muito de assombrar naqueles tempos em que havia sempre algum temor de Deus e dos mandamentos de sua Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Lá estavam, em plena judiaria, pois assim se pode chamar a casa de um malvado Judeu, o tenente-coronel Bento de Arruda, comandante da guarda nacional, o capitão Coutinho, comissário das terras, o dr. Filgueiras, o delegado de polícia, o coletor, o agente da companhia do Amazonas; toda a gente grada, enfim, pretextando uma curiosidade desesperada de saber se, de fato, o Judeu adorava uma cabeça de cavalo mas, na realidade, movida da notícia da excelente cerveja Bass e dos sequilhos que o Isaac arranjara para aquela noite, entrava alegremente no covil de um inimigo da Igreja, com a mesma frescura com que iria visitar um bom cristão.

Era em junho, num dos anos de maior enchente do Amazonas. As águas do rio, tendo crescido muito, haviam engolido a praia e iam pela ribanceira acima, parecendo querer inundar a rua da frente e ameaçando com um abismo de vinte pés de profundidade os incautos transeuntes que se aproximavam do barranco.

O povo que não obtivera convite, isto é, a gente de pouco mais ou menos, apinhava-se em frente a casa do Judeu, brilhante de luzes, graças aos lampiões de querosene tirados da sua loja, que é bem sortida. De torcidas e óleo é que ele devia ter gasto suas patacas nessa noite, pois quantos lampiões bem lavadinhos, esfregados com cinza, hão de ter voltado para as prateleiras da bodega.

Começou o baile às oito horas, logo que chegou a orquestra composta do Chico Carapanã, que tocava violão; do Pedro Rabequinha e do Raimundo Penaforte, um tocador de flauta de que o Amazonas se orgulha. Muito pode o amor ao dinheiro, pois que esses pobres homens não duvidaram tocar na festa do Judeu com os mesmos instrumentos com que acompanhavam a missa aos domingos na Matriz. Por isso dois deles já foram severamente castigados, tendo o Chico Carapanã morrido afogado um ano depois do baile e o Pedro Rabequinha sofrido quatro meses de cadeia por uma descompostura que passou ao capitão Coutinho a propósito de uma questão de terras. O Penaforte, que se acautele!

Muito se dançou naquela noite e, a falar a verdade, muito se bebeu também, porque em todos os intervalos da dança lá corriam pela sala os copos da tal cerveja Bass, que fizera muita gente boa esquecer os seus deveres. O contentamento era geral e alguns tolos chegavam mesmo a dizer que na vila nunca se vira um baile igual!

A rainha do baile era, incontestavelmente, a D. Mariquinhas, a mulher do tenente-coronel Bento de Arruda, casadinha de três semanas, alta, gorda, tão rosada que parecia uma portuguesa. A D. Mariquinhas tinha uns olhos pretos que tinham transtornado a cabeça de muita gente; o que mais nela encantava era a faceirice com que sorria a todos, parecendo não conhecer maior prazer do que ser agradável a quem lhe falava. O seu casamento fora por muitos lastimado, embora o tenente-coronel não fosse propriamente um velho, pois não passava ainda dos cinqüenta; diziam todos que uma moça nas condições daquela tinha onde escolher melhor e falava-se muito de um certo Lulu Valente, rapaz dado a caçoadas de bom gosto, que morrera pela moça e ficara fora de si com o casamento do tenente-coronel; mas a mãe era pobre, uma simples professora régia!

O tenente-coronel era rico, viúvo e sem filhos e tantos foram os conselhos, os rogos e agrados e, segundo outros, ameaças da velha, que D. Mariquinhas não teve outro remédio que mandar o Lulu às favas e casar com o Bento de Arruda. Mas, nem por isso, perdeu a alegria e amabilidade e, na noite do baile do Judeu, estava deslumbrante de formosura. Com seu vestido de nobreza azul-celeste, as suas pulseiras de esmeraldas e rubis, os seus belos braços brancos e roliços de uma carnadura rija; e alegre como um passarinho em manhã de verão. Se havia, porém, nesse baile, alguém alegre e satisfeito de sua sorte, era o tenente-coronel Bento de Arruda que, sem dançar, encostado aos umbrais de uma porta, seguia com o olhar apaixonado todos os movimentos da mulher, cujo vestido, às vezes, no rodopiar da valsa, vinha roçar-lhe as calças brancas, causando-lhe calafrios de contentamento e de amor.

Às onze horas da noite, quando mais animado ia o baile, entrou um sujeito baixo, feio, de casacão comprido e chapéu desabado, que não deixava ver o rosto, escondido também pela gola levantada do casaco. Foi direto a D. Mariquinhas, deu-lhe a mão, tirando-a para uma contradança que ia começar.

Foi muito grande a surpresa de todos, vendo aquele sujeito de chapéu na cabeça e mal amanhado, atrever-se a tirar uma senhora para dançar, mas logo cuidaram que aquilo era uma troça e puseram-se a rir, com vontade, acercando-se do recém-chegado para ver o que faria. A própria mulher do Bento de Arruda ria-se a bandeiras despregadas e, ao começar a música, lá se pôs o sujeito a dançar, fazendo muitas macaquices, segurando a dama pela mão, pela cintura, pelas espáduas, nos quase abraços lascivos, parecendo muito entusiasmado. Toda a gente ria, inclusive o tenente-coronel, que achava uma graça imensa naquele desconhecido a dar-se ao desfrute com sua mulher, cujos encantos, no pensar dele, mais se mostravam naquelas circunstâncias.

- Já viram que tipo? Já viram que gaiatice? É mesmo muito engraçado, pois não é? Mas quem será o diacho do homem? E essa de não tirar o chapéu? Ele parece ter medo de mostrar a cara... Isto é alguma troça do Manduca Alfaiate ou do Lulu Valente! Ora, não é! Pois não se está vendo que é o imediato do vapor que chegou hoje! E um moço muito engraçado, apesar de português! Eu, outro dia, o vi fazer uma em Óbidos, que foi de fazer rir as pedras ! Agüente, dona Mariquinhas, o seu par é um decidido! Toque para diante, seu Rabequinha, não deixe parar a música no melhor da história!

No meio de estas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrando a dona Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça. O Carapanã dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes que dominassem o vozerio; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio. Os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

As risadas e exclamações ruidosas dos convidados, o tropel dos novos espectadores, que chegavam em chusma do interior da casa e da rua, acotovelando-se para ver por sobre a cabeça dos outros; sonatas discordantes do violão, da rabeca e da flauta e, sobretudo, os grunhidos sinistramente burlescos do sujeito de chapéu desabado, abafavam os gemidos surdos da esposa de Bento de Arruda, que começava a desfalecer de cansaço e parecia já não experimentar prazer algum naquela dança desenfreada que alegrava tanta gente.

Farto de repetir pela sexta vez o motivo da quinta parte da quadrilha, o Rabequinha fez aos companheiros um sinal de convenção e, bruscamente, a orquestra passou, sem transição, a tocar a dança da moda.

Um bravo geral aplaudiu a melodia cadenciada e monótona da varsoviana, a cujos primeiros compassos correspondeu um viva prolongado. Os pares que ainda dançavam retiraram-se, para melhor poder apreciar o engraçado cavalheiro de chapéu desabado que, estreitando então a dama contra o côncavo peito, rompeu numa valsa vertiginosa, num verdadeiro turbilhão, a ponto de se não distinguirem quase os dois vultos que rodopiavam entrelaçados, espalhando toda a gente e derrubando tudo quanto encontravam. A moça não sentiu mais o soalho sob os pés, milhares de luzes ofuscavam-lhe a vista, tudo rodava em torno dela; o seu rosto exprimia uma angústia suprema, em que alguns maliciosos sonharam ver um êxtase de amor.

No meio dessa estupenda valsa, o homem deixa cair o chapéu e o tenente-coronel, que o seguiu assustado, para pedir que parassem, viu, com horror, que o tal sujeito tinha a cabeça furada. Em vez de ser homem, era um boto, sim, um grande boto, ou o demônio por ele, mas um senhor boto que afetava, por um maior escárnio, uma vaga semelhança com o Lulu Valente. O monstro, arrastando a desgraçada dama pela porta fora, espavorido com o sinal da cruz feito pelo Bento de Arruda, atravessou a rua, sempre valsando ao som da varsoviana e, chegando à ribanceira do rio, atirou-se lá de cima com a moça imprudente e com ela se atufou nas águas.

“Des dessa” vez ninguém quis voltar aos bailes do Judeu.

***
Inglês de Sousa (1853-1918) – escritor, jurista e político. Introduziu a escola literária naturalista no Brasil mediante uma obra voltada para a natureza e a vida amazônicas. A partir do primeiro trabalho, O Cacaulista (1876), fez dos problemas humanos da Amazônia a preocupação central de suas obras. Tal como o primeiro, seu segundo livro, O Coronel Sangrado (1877), não alcançou repercussão, mas inaugurou a corrente naturalista na literatura brasileira. O autor tornou-se conhecido com O Missionário (1888), em que descreve com fidelidade a vida numa pequena cidade do Pará. Publicou também Contos Amazônicos (1893). Nasceu em Óbidos, Pará, e faleceu no Rio de Janeiro.

***

SOUSA, Inglês de. Contos Amazônicos. São Paulo: Martin Claret, 2005.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O QUE É CORRETO? O QUE É JUSTO?

Profª. Inês Lacerda Araújo*


Na obra de Richard Rorty A Filosofia como Política Cultural (já traduzida, 2009), há um capítulo com reflexões sobre o conceito de justiça. Rorty acha que justiça é a lealdade alargada, e pergunta: a quem ser leal? Em geral somos leais aos mais próximos, ao que atinge nossa família, nossos amigos, vizinhos; a lealdade decresce com o alargamento desse círculo, se um massacre acontece em um país africano, ou no Afeganistão, não nos atinge de perto.

Mas a justiça não é para todos?

Quando se perde postos de trabalho na indústria automobilística norte-americana, ganham os países periféricos cuja mão de obra é mais barata? A liberdade política deve prevalecer, ou a justiça econômica igualitária? Se houver uma catástrofe e os alimentos escasseiam, o que se conseguir vai para os mais próximos (lealdade) ou devem ser distribuídos (justiça)?

Esses casos servem para Rorty refletir sobre se a justiça e a lealdade, afinal, não viriam juntas, e ampliar a lealdade seria, então, prover a sociedade com uma justiça mais efetiva. Ele não segue a tradição kantiana de conflito entre razão e sentimento, em que prevalece a primeira que é universal e obrigatória, igual para todos. Rorty acha que a moralidade nasce da lealdade ao grupo, e que dilemas morais não resultam de conflito entre razão e sentimento, mas de construções de si alternativas, descrições de si, diferentes modos de dar sentido à vida em diferentes grupos sociais. Não há um centro permanente do eu ou da história, mas pluralidade de modos de dar conta de problemas e dilemas. Isso é mais leve e fácil quando se trata dos que nos são próximos, e mais difícil e pesado quando os grupos são maiores, outras culturas e povos.

Aos poucos, costumes cederam lugar ao julgamento por leis, questões de justiça deveriam ser resolvidas, pensa Rorty, não por regras transcendentais e universais, mas pelas circunstâncias envolvidas em cada caso.

A obrigação moral não é indiscutível e nem há uma resolução que sirva para todos os casos, compulsória. Justiça requer razoabilidade. Atender aos interesses de todos, resumidos nos direitos fundamentais que vigoram em sociedades modernas ocidentais, essa base histórica pode servir de parâmetro? Isso é justo?

Tratar casos similares de modo similar esbarra em crenças e culturas que tratam semelhantes de modo desigual (mulheres, negros, homossexuais, os “infiéis” nas culturas islâmicas, por exemplo). O consenso que ultrapassa fronteiras é próprio da cultura liberal ocidental dos últimos duzentos anos.

Na França proibiu-se a vestimenta muçulmana para mulheres, sem consenso até mesmo na Europa. É perigoso considerar que uma cultura é superior a outra (colonialismo, nazismo, etc.), mesmo porque não se trata de casos nos quais há uma verdade a ser aceita, não há um consenso acima da história para julgar quais são os procedimentos corretos.

Para Rawls, e Rorty concorda com ele, os princípios brotam de práticas que comunidades criaram e sobre as quais há acordo. É sempre preferível buscar o acordo e o consenso, pois eles podem evitar a ameaça e imposição pela força. Deve ser possível justificar demandas de acordo com princípios razoavelmente aceitos por uma comunidade, com os quais outras comunidades podem concordar.

E Rorty vai além, é possível construir novas identidades morais, alargar a lealdade com um grupo formado por grupos menores. Lealdade e justiça se combinam, argumentos racionais e o compartilharmento de valores e ideais dos outros, próximos ou distantes, isso pode levar a concluir que o outro tem suas razões e almeja objetivos parecidos, que ele é confiável. Razão e sentimento são complementares e não dicotômicos. Supor que os outros são razoáveis, significa que podemos compartilhar também de seus desejos e crenças. Se não há meios de entender ou compartilhar tais desejos e crenças, então é provável que a força e a violência entrem em cena.

Mas exigir que o outro seja razoável em questões em que nós somos razoáveis, é apelar excessivamente para um critério em que a autoridade é a Razão, leia-se razão ocidental. Tolerância, respeito aos direitos da mulher, dos homossexuais, seria tanto mais valioso quanto ficasse claro que são da cultura ocidental moderna. Ótimo se outras culturas forem abertas, mas melhor ainda é ser etnocêntrico, isto é, levar em conta a diversidade cultural e adotar práticas liberais, as únicas que melhoram as relações entre povos e culturas.

Rorty abomina a noção de normas morais obrigatórias.

Um exemplo: é possível e razoável tolerar mulheres quase nuas e/ou inteiramente cobertas? Em uma mesma cultura, em diferentes culturas?

***

* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

sábado, 7 de maio de 2011

SIMONE BICHARA - Gratidão ao público


Simone Bichara desenvolve uma arte singular e bela. Conheço a artista e a obra, por isso, posso falar que ela é uma artista fascinante que desenvolve uma arte encantadora. Tem cativado um público cada vez maior e em diferentes lugares, o que vem tornando-a uma artista muito apreciada no cenário acreano e além-fronteiras.
Então, aproveitem para conhecer o seu trabalho e participar da promoção, e quem saber ter uma reprodução da Mandala Alma (acima) em sua parede, gratuitamente. Eu já me inscrevi.

---
De Simone Bichara:
Como forma de gratidão à sensibilidade e carinho que temos recebido dos que aqui nos acompanha, o Blog Mandalas da Floresta sorteará uma impressão em papel fotográfico medindo 70 X 70 cm, da Mandala Alma, da artista plástica Simone Bichara. Essa peça foi confeccionada enquanto a artista convivia com índios em suas aldeias, numa profunda conexão com a natureza e os povos da floresta. Como foi elaborado em papel comum, o trabalho passou por uma restauração profissional, e depois por scanneação e impressão em alta qualidade em papel fotográfico. Para participar, basta ser seguidor (a) do Blog e deixar um comentário na postagem dizendo seu nome e sobrenome, endereço de e-mail e aonde você reside.

MAIORES INFORMAÇÕES e REGULAMENTO:

Grande abraço e boa sorte,
Produção - Exposição Mandalas da Floresta

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A DIFÍCIL ARTE DE ESCREVER

Eu, como todo escritor, ou aspirante a escritor, devo ler bastante, tanto livros de autores consagrados como de novos escritores, sejam os já publicados ou os milhares de blogueiros (Alma Acreana, um blog que adoro!) espalhados pelo país e pelo mundo.

Profª. Luísa Galvão Lessa
Jornal  A Gazeta

Fala-se, hoje, sobre temática complicada, uma questão que envolve todas as pessoas que se arriscam nos caminhos do texto escrito. Escrevo há mais de 12 anos no Jornal “A Gazeta”. Confesso que gostaria de ter muitos interlocutores, pessoas críticas, no bom sentido, no desejo de construir, sempre, um melhor texto. Mas os leitores, modo geral, são silenciosos, apáticos, talvez porque o jornal não abra espaço para o leitor interagir com o escritor. Por isso, somente quando me encontram falam: leio seus textos, adoro-os, aprendo muito com eles. Mas a verdade é que eu gostaria muito de uma interação estreita com os leitores, que eles escrevessem e manifestassem opinião sobre o tema tratado. Assim, essas opiniões se somariam a minha e estaríamos numa construção ampla de um mundo melhor, mais justo e humano.

Escrevo, ainda, desde abril do ano passado, no jornal online “Gosto de ler”. Ali tenho 50 artigos publicados e 25.000 leitores. Muitos dialogam comigo. É algo fantástico! É uma tarefa gratificante porque à medida que um texto é lido o escritor sobe na escala dos textos mais lidos. Isso é muito estimulante. É bom escrever assim.

Mas tudo isso que escrevi serve, apenas, para indagar: como escrever bem? Ou melhor, o que é escrever bem? É uma questão complexa, pois envolve diferentes gostos e diferentes linhas de pensamento. Destacam-se, aqui, as principais: a de uma boa parte da crítica, principalmente a brasileira e a européia (com exceção, talvez, da Inglaterra), e a comercial.

Eu, como todo escritor, ou aspirante a escritor, devo ler bastante, tanto livros de autores consagrados como de novos escritores, sejam os já publicados ou os milhares de blogueiros (Alma Acreana, um blog que adoro!) espalhados pelo país e pelo mundo. Naturalmente, reflito sobre aquilo que leio, tento identificar o que ficou bom e o que ficou ruim. Infelizmente, vejo muita coisa ruim. E vejo muita gente que produz coisas ruins reclamar de poucas oportunidades no mercado editorial. Sei que eles têm razão, as oportunidades são poucas, mas um pouco de cuidado com o texto poderia facilitar. Foi então que me ocorreu: como fazer para escrever bem?

Menciono o livro "Os segredos da ficção", do Raimundo Carrero (três prêmios jabuti). É uma obra que vale a pena ser lida. Não é livro de auto-ajuda, mas ensina muito. O autor mostra que a literatura está ao alcance de todos àqueles que têm o impulso de criá-la e, também, a perseverança de trabalhar duro para transformar suas idéias em contos, novelas, romances, artigos, poemas. Se não há receitas para a boa literatura, existem, sim, caminhos para chegar a ela. E é nestas trilhas que o autor guia o leitor, falando diretamente a ele com a ajuda de ilustres gênios de diversos estilos e épocas que têm em comum a disciplina e o rigor na criação de seus universos ficcionais.

Dois de meus autores favoritos, Mario Quintana e Machado possuem estilos fabulosos, fantásticos que os fizeram grandes nomes na literatura mundial. O primeiro é conhecido pela genial simplicidade de seus textos, por isso, certamente, é considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX, pertencente à segunda geração do Movimento Modernista. Com um estilo tranqüilo e introspectivo, Quintana não se sentia à vontade para falar de sua vida pessoal. Em uma entrevista, chegou a dizer que a sua vida estava descrita nos seus poemas. "Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão". O segundo, Machado Assis, possui estilo sutil e irônico. Suas crônicas são atuais até hoje, pois remetem a reflexões profundas de fatos corriqueiros, tocando na essência daquilo que observava com um meio riso de contemplação e quase sempre esse riso traz, implícita ou explicitamente, uma advertência. Em Machado de Assis, o fato em si tinha menor importância, o que interessava era a reflexão que esse fato provocava. Ao contrário de Flaubert – que esquecia do narrador por detrás da objetividade narrativa, e os naturalistas, à exemplo de Émile Zola, narrava todos os detalhes do enredo — Machado de Assis optou por abster-se de ambos os métodos para cultivar o fragmentário e interferir na narrativa com o objetivo de dialogar com o leitor, comentando seu próprio romance com filosofias, metalinguagens, intertextualidade.

Defendo, por isso, como orientação para aqueles que participam da Roda de Poesia, aqui no Acre, que cada escritor procure encontrar o seu estilo, a sua forma de lidar com as palavras, sem se preocupar com o julgamento dos outros. Grande parte da crítica se dá por afinidade, por gosto: e é assim que deve ser. Neste contexto, já ouvi umas pessoas dizerem que escrever bem é cortar palavras (é, repetindo Carlos Drummond de Andrade) e outras afirmarem que para se produzir um bom texto é preciso descrever bem a cena, com detalhes, para permitir que o leitor se envolva com o texto.

De fato, existem estas duas formas de se produzir literatura, e milhares de outras formas intermediárias ou até mesmo totalmente diferentes. Todas elas podem fazer sucesso e podem, também, ser bem aceitas pela crítica. Como falei anteriormente, em geral, é uma questão de gosto. Resta ao escritor produzir o máximo que puder, reler, corrigir, re-escrever. Resta a ele também mostrar o seu texto para outros, receber as críticas e, claro, saber diferenciar os comentários que se referem ao seu estilo daqueles que apontam para melhorias significativas em sua produção. Certamente, é uma tarefa difícil, mas ninguém disse que escrever bem é tarefa fácil.

***

* LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 da Academia Acreana de Letras.
***
Nota: Luísa Galvão Lessa é colunista do Jornal A Gazeta (Acre) e do Site Gosto de Ler. Escreve também em seu blog Linguagem e Cultura.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

OS NOVOS IMORTAIS DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS

No dia 28 de Abril último, a Academia Acreana de Letras realizou, no Teatro Plácido de Castro, em Rio Branco, a solenidade de empossamento de seus cinco novos membros. Os ‘novos imortais’ são: Francisco Gregório Filho, Edson Ferreira de Carvalho, Glória Perez, Moisés Diniz e Margarete Edul Prado de Souza Lopes. Os empossados ocuparão as cadeiras em que antes estavam Geraldo Gurgel de Mesquita (10), Luiz Cláudio Castro e Costa (17), Francisco de Oliveira Conde (23), Fernando de Castela (25) e Josué Fernandes (32).
Teatro Plácido de Castro
Foto: Val Fernandes

***

FRANCISCO GREGÓRIO FILHO
Francisco Gregório Filho é natural de Rio Branco (AC). Quando adolescente, foi para o Rio de Janeiro, onde se formou em Artes Cênicas (UNIRIO). Foi ator, diretor e produtor de peças teatrais, gestor de programas e projetos culturais nas áreas de música, rádio e teatro. Foi professor do Curso de Leitura, Teoria e Prática, promovido pela PUC/RJ. Na década de 1990 começou a se dedicar às questões da leitura, tendo sido um dos organizadores do Programa Nacional de Incentivo à Leitura, implantado em 1992, na Biblioteca Nacional (1992 a 1996). Desde então desenvolve oficinas de formação de contadores de histórias para educadores sociais, estudantes e profissionais de diferentes áreas.

Funcionário da Biblioteca Nacional, participou da equipe técnica do Setor Educativo do Paço Imperial, e de maio a outubro de 2010, iniciou a implantação da Secretaria de Promoção da Leitura de Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro, primeira secretaria municipal dedicada à leitura no país. Tem Título de Notório Saber pela PUC/RJ, Condecoração de Ordem ao Mérito do Livro pela Biblioteca Nacional; Pesquisador da UNESCO / PUC/RJ do quadro da BN-MINC. No Acre, criou a rede de Casa de Leitura.

Como contador de histórias, vem se dedicando especialmente a um repertório voltado para os contos populares brasileiros. Seus livros publicados procuram dar conta das muitas histórias vividas e escutadas pelo Brasil a fora. Entre outros trabalhos, escreveu os seguintes livros: Grávidas histórias - Histórias de mulheres do Brasil (1998); Lembranças amorosas (Global); Difícil Passagem (Santa Clara, 2003)); Dona Baratinha e Outras Histórias (Rocco, 2006); Ler e Contar, contar e ler - caderno de histórias (Letra Capital, 2008 e 2011).

-----------------

EDSON FERREIRA DE CARVALHO
O mineiro Edson Ferreira de Carvalho é natural de Bambuí. Além de ser Bacharel em Direito (UFAC, 1998) graduou-se em Engenharia Agronômica (UFV, 1984) e fez Mestrado (1986) e Doutorado (1990) em Fitotecnia na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Fez cursos de capacitação na área de Ecologia Florestal na Universidade para a Paz, da Organização das Nações Unidas (Costa Rica) e na Universidade Austral do Chile, bem com de Monitoramento e qualidade ambiental e Direitos Humanos, na Universidade das Nações Unidas (Japão). Participou das seções de capacitação do Instituto Internacional de Direitos Humanos (Estrasburgo, França) e da Corte Internacional de Justiça (Haia, Holanda). É Master em Educação Ambiental pelo Instituto de Investigaciones Ecológicas (Espanha) e especialista em Liderança e Administração Universitária pela Inter-American Organization for Higher Education – Canadá. Cursou Pós-doutoramento na Universidade de Notre Dame (Estados Unidos), na área de Direitos Especiais, como bolsista do CAPES. Recebeu o prêmio internacional Gilles Boulet, da Inter-American Organization for Higher Education (OUI). É membro fundador e ex-Diretor-Presidente da Fundação Instituto da Biodiversidade e Manejo de Ecossistemas da Amazônia Ocidental (Fundação BIOMA). Foi Tutor do Programa Especial de Treinamento (CAPES) e Vice-Reitor da Universidade Federal do Acre. Atualmente é Professor Associado da Universidade Federal de Viçosa e do Programa de Mestrado em Direito Ambiental da Universidade Federal do Amapá. Autor de artigos científicos e livros na área de Direito, orientou e co-orientou alunos de Mestrado e Doutorado, no Brasil e no exterior. Entre seus trabalhos estão os seguintes livros: Meio Ambiente & Direitos Humanos (Editora Juruá, 2005); Meio Ambiente como Patrimônio da Humanidade – Princípios Fundamentais (Editora Juruá, 2008), e Manual Didático de Direito Agrário (Editora Juruá, 2010).


-----------------

GLÓRIA PEREZ
Natural de Rio Branco, Glória Maria Ferrante Perez viveu no Acre até os 16 anos. O pai, escritor e ministro de Justiça, Miguel Jerônymo Ferrante, e família, mudaram-se para Brasília, depois São Paulo e Rio de Janeiro. Cursou Direito e Filosofia na UNB, bacharelado e Mestrado em História (UFRJ). Começou a carreira de autora em 1979, no seriado ‘Malu Mulher’, da TV Globo. Em 1983, ela deu sequência a minissérie ‘Eu Prometo’, de Janete Clair, depois de a titular ficar doente. Sucessos no Brasil e exterior, ela recebeu nos Estados Unidos, do FBI e do DEA, prêmios pela campanha para auxiliar os dependentes químicos, enfocados na novela ‘O Clone’. Em: ‘Carmem’, de 1987, escreveu sobre Aids. Em ‘Barriga de Aluguel’, de 1990, tratou de troca de bebês em maternidades. Homossexualismo, deficiência visual, cleptomania, islamismo, foram outros temas. Em ‘Amazônia, de Galvez a Chico Mendes’, aviva a saga acreana de se incorporar ao Brasil. Glória Perez escreveu também ‘Partido Alto’, ‘Desejo’, “De Corpo e Alma”, ‘Explode Coração’, ‘Pecado Capital’, ‘América’, que ganhou o prêmio internacional Emmy, na categoria melhor novela. ‘Caminhos das Índias’ e ‘O Clone’ foram adaptadas para versões latinas: ‘Camino a las Índias’, na TV Azteca e ‘El Clon’, na Telemundo. É co-autora do livro de poesias Mercado de Escravas (Achiamé, 1984).

----------------- 

MOISÉS DINIZ
Moisés Diniz é neto de nordestinos de Riacho do Sangue, no Ceará, e índios Ashaninkas das margens do Rio Amônia, em Cruzeiro do Sul, no Acre, um pequeno pedaço de terra amazônica que, para se tornar brasileira, pegou em armas na Revolução Acreana. Moisés Diniz é oriundo da Congregação dos Irmãos Maristas, aonde chegou a professar os votos temporários de pobreza, castidade e obediência. É formado em Pedagogia pela Universidade Federal do Acre. Aprendiz da luta em Tarauacá, cidade acreana aonde se estabeleceu em 1985, aí ajudou a organizar sindicatos de trabalhadores urbanos e extrativistas, organizações comunitárias, juvenis, indígenas, de cultura e de mulheres. Foi eleito vereador e vice-prefeito em Tarauacá e, atualmente, exerce o terceiro mandato de deputado estadual. Moisés Diniz, como ele mesmo diz, está mais para a poesia do que para a política. “A poesia é a nossa alma que herdamos dos tempos imemoriais quando o homem ainda não havia se tornado lobo do semelhante. A política é a ferramenta necessária para vencer os lobos e lutar pela felicidade humana”. Entre outras obras, escreveu: Exclamações Populares; Bandeira Gêmea e O Santo de Deus (Edições Bagaço, 2009).

----------------

MARGARETE EDUL PRADO DE SOUZA LOPES
Margarete Edul Prado de Souza Lopes nasceu em São Paulo (SP), mas foi criada desde criança em Tarauacá (AC). Entre outros títulos e cargos é bacharel em Letras Clássicas (Rio de Janeiro), licenciada em Letras/Inglês pela (UFAC), mestra em Teoria da Literatura (Universidade Estadual de Campinas) e doutora em Literatura Brasileira (Universidade Federal da Bahia). Coordenadora dos Cursos de Letras da UFAC, foi a primeira diretora do Centro de Educação, Letras e Artes, fundadora, e coordenadora por 11 anos contínuos, da Universidade Aberta da Terceira Idade. Pesquisadora do CNPq, desde 1997, com trabalhos na área de Literatura, Gênero, Geração e Mitologia. Professora-adjunta, da UFAC, é coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero na Amazônia e dirige a Revista Seringal de Ideias. Publicou: artigos especializados e livros sobre as escritoras acreanas: “Motivos de Mulher na Amazônia” (EDUFAC, 2006) e “Vozes Femininas da Floresta”. E, para a UNB, o “Ensino à Distância sobre História da Educação no Acre”. Atualmente, orienta bolsistas de iniciação científica e do mestrado da UFAC.

***

Nota: Informações organizadas a partir, sobretudo, da Agência de Notícias do Acre.

Acesse aqui a página da

domingo, 1 de maio de 2011

PENÉLOPE MORTÍFERA - Leila Jalul

Enquanto na grande sala acontecia o velório, capionga, dona Ana chamou a irmã e, sem que fossem notadas, fugiram para o quintal. Estava como triste e irritada com a baderna que a turma estava fazendo na sua casa. Mal o caixão foi aberto, a sala foi literalmente invadida pela turba, mostrando a verdadeira face do ser humano. Uns riam, outros se aproximavam do caixão, outros levantavam o véu que cobria o rosto de Doroty. Alguns outros, nem uma persignação pela paz da falecida. Foram direto para a cozinha, ou comer biscoitos com café, ou guaraná com bolacha. Esfomeados e “maliducados”, dizia a senhora.

Diante de tantas tragédias vividas e experimentadas pela filha, dona Ana, por mais que procurasse razões e justificativas, não sabia entender a trajetória daquela menina, tão cedo morta.

O berço foi bom, pensava ela. Mariano, enquanto raciocinava, foi bom pai. Os irmãos Maria Raimunda e Marianinho foram bons irmãos. Os avós Pedro Maia e Adaltiva, com os quais conviveu, igualmente, foram bons avós.

- Onde errei, Estefânia?

- Não se martirize Ana! As linhas de Doroty foram traçadas por Deus. Nada pode ser feito contra os desígnios Dele!

- Irmã, foram quatro cadáveres! Não poderiam ter sido dois? Foram dois jovens abatidos, mal se aproximaram de minha filha! Pode-se até considerar dois aspirantes a namorados e os dois maridos! Não é esquisito? O primeiro, tinha ela 16 anos de idade. Foi o jovem Tales Machado. O garoto vivia em Portugal, estudando na tal da universidade dos doutores da capa preta. Ele morreu antes de completar um mês de namoro propriamente dito. Veio de férias e não mais retornou. A impressão que tive, quando tudo aconteceu, foi que Doroty, já possuída pelo anjo da morte, invocou que o rapaz viesse aqui só para morrer. Meu Deus do céu! Estás lembrada, minha irmã? Foi naquela boate vagabunda lá pros lados do campo de aviação. O antigo paquera da minha filha apunhalou o Tales bem na altura do peito! O metal ficou cravado!

- Lembro direito e com todos os detalhes. Dona Lina foi quem, abraçada ao filho, amaldiçoou Doroty. As palavras dela foram cortantes. Terá sido praga, Ana?

- Sei não... Pode ser que tenha sido! A segunda tragédia aconteceu com Marcondes Meira. Já no começo, comecinho, mesmo, previ que algo de ruim aconteceria. Doroty sacaneava com o coitado por ele ter aqueles pés abertos na posição de quinze pras três, e, ainda, aquelas “lindas” e enormes orelhas de abano. No dia do aniversário dela, o dos dezessete anos, a malvada só tinha olhos para o filho do Major Diógenes. Na manhã seguinte, deu no que deu! O menino Marcondes tomou o veneno de ratos e buft! Nem um bilhete deixou...

- Ana, ele era um fraco! Feio que só o diabo, não teria chances com Doroty. Desculpe, minha irmã, é até compreensível! De interessante, bastante, mesmo, só o conteúdo do cofre!

- Sim, Estefânia, e o Eduardo Marins? O moço era bonito! Um Adônis, quase!

- Bonito e intragável! Esse eu não conto, Ana. A morte dele, me desculpe, foi da vontade dele. Ele procurou. Onde já se viu dirigir a mais de 200 km por hora só por causa de um ciuminho besta? É certo que Doroty instigava, mas... quem é burro pede a Deus que o mate e ao “capiroto” que o carregue!

- É... Talvez você tenha razão. Mesmo assim, é de assustar, não? Agora, meu maior desgosto, foi quando vi o coitado do Ricardo Osman estendido no caixão. Eu tenho certeza que aquele rapaz morreu por consentimento de Deus e ajudado pelas mãos e pela ruindade de Doroty. Desde que as terras de herança dele foram invadidas e a justiça fez vistas grossas, o coitado entrou numa profunda depressão. Minha filha só amaldiçoava o infeliz. Ou dizia que ele era incompetente, um peso morto ou passava na cara o prato de comida que dava a ele. Muitas vezes vi o meu genro chorar ainda na mesa. As lágrimas misturavam-se com a comida. Nem gosto de lembrar...

As duas irmãs foram interrompidas por Marianinho.

- Mãe, a senhora tem que acabar com aquele furdunço lá em casa. Já tirei um povo de dentro do meu quarto e do da senhora. Tinha gente deitada nas camas. Pedi licença, tranquei as portas e guardei as chaves comigo. Uma doida, nem sei quem é, deixou cair uma meia-calça no buraco do assoalho e, depois, por esquecimento ou por querer, jogou uma ponta de cigarro. A fumaça levantou e tive que apagar o fogo. Estão pedindo mais café e biscoitos. Uma outra maluca até perguntou a que horas o almoço será servido. Vai ter almoço? O enterro não vai ser às duas da tarde? Ande! Não fico mais ali, por nada deste mundo!

Dona Ana, sempre de poucas e curtas palavras, ordenou ao filho que fechasse o caixão, apagasse as velas e encerrasse a guarda do corpo. Entrou no recinto, de cara dura e falou para ser bem ouvida:

- Ao enterro, já! Onde já se viu uma balbúrdia desse tamanho? Vá, Doroty! Que a terra lhe seja leve e que Deus lhe perdoe os erros e os desvios. Vá, minha filha! Ele é generoso!

Despedidas feitas, sem lágrimas ou lamúrias, dona Ana fechou as portas e janelas da casa e voltou a sentar-se debaixo do pé de Jambo. Estefânia foi junto. Precisavam conversar sobre a falecida.

- Estefânia, chega lá no meu quarto e abra o guarda-roupa. Debaixo do monte de lençóis há um diário de Doroty. Traga-o aqui que quero mostrar umas coisas. Também recolha aquelas duas miniaturas de gárgulas que estão sobre a cômoda. Quero dar fim àquelas monstruosidades. Vá, antes que Marianinho e Maria Raimunda voltem do cemitério!

- Pronto, Ana!

Trêmula, Ana abriu o diário. Além de algumas frases de efeito e anotações gerais, uns relatos sobre a morte dos namorados e dos maridos. Sobre os nomes de Tales, Marcondes, Eduardo e Ricardo, uma grossa cruz desenhada com caneta preta. Nada demais, não fossem os textos escabrosos, difamantes e vingativos sobre os homens que passaram em sua vida. Passaram e morreram! Os textos eram quase uma graças aos céus por terem morrido e desocupado seu caminho. Sobre Ricardo, último marido da filha, ao ler o texto, dona Ana ficou emocionada. Ao final estava expresso, de próprio punho e com letras fortes, o pensamento sobre o rapaz: “Ricardo, viver com um homem bonito e rico é como carregar penas; tolerar um homem frouxo e pobre, ainda que bonito, é um exagero de castigo! Não usufruí de tuas terras. Que a terra, então, usufrua do teu corpo e da tua burrice. Sem saudades! Doroty.”

- Estefânia, faça-me um favor. Coloca fogo neste diário. Antes, porém, arranca as duas páginas finais. Quebre estas peças ridículas e jogue os cacos no lixo.

- Está bem, Ana. Qual significado têm estas imagens horríveis? Você recorda daquela mulher que diziam prever o futuro? Doroty vivia por lá!
Gárgulas de Notre-Dame
- É, Estefânia. Minha filha era chegada no que ela chamava de “ciências ocultas”. Nada de coisas de macumba. Isso, eu nunca vi. Estas tais gárgulas são coisas meio que demoníacas, do tempo da idade média. Dizem que elas serviam para proteger as igrejas, mas, pelo que li, são peças que ajudam a escoar as águas que se acumulam nos telhados das grandes igrejas. Hoje, creio, não fazem mais essas macacadas. Quando briguei com Doroty, “gentil” e simplesmente respondeu-me que iria transformar sua casa numa verdadeira Catedral de Notre Dame. E ainda complementou que tinha muito “olho gordo” atravancando a vida dela. Diante da resposta grosseira que deu, apenas retruquei: pois então aguarde até que tenha sua própria casa. Na minha eu não permito coleção destas coisas tétricas e que têm parte com o “cascudo”, com o “bicho ruim”. Uma vez, até fico arrepiada, encontrei Doroty na frente do espelho, com uma vela acesa ao lado. Ela permaneceu mais de duas horas com o olhar fixo naquele espelho, como se estivesse hipnotizada. Vi mais umas coisas que indicavam que ela tinha uma mente doentia. Lembra daquela brincadeira com o copo e com as letras? O copo andava, lembra? Ela era useira e abusadeira daquela arte do “demo”.

- Lembro, Ana. Agora vamos tratar de esquecer, está bem?

Enquanto o diário estava sendo consumido pelo fogo, a velha senhora leu para a irmã as últimas anotações da filha: “Venci a parada! Os cinquenta idiotas e bandidinhos perderam a questão! Meu sorriso de Muttley (*) para eles! Medalha, medalha, medalha!”

Os cinquenta idiotas e bandidinhos não eram senão uns garotos e garotas que pleiteavam um sonho profissional. Doroty armou documentação falsa e brecou o pedido. E os sonhos, também! “Matar sonhos é crime...” finalizou dona Ana.

- Vamos entrar, Estefânia. A vida vai continuar... Eu necessitava desabafar com alguém e desabafei. Obrigada, muito obrigada por me ouvir! Só você, minha irmã!

- Vamos, Ana. Por Doroty, daqui pra frente, só nossas orações. Ela vai precisar!

- E muito!

***

(*) Muttley é o cachorro do Dick Vigarista do desenho Corrida Maluca. Suas principais marcas são o desejo por medalhas, as fraudes para ganhar as corridas e a risada repugnante.

Nota da autora: dessa vez fui longe demais! Cinco cadáveres e mais cinquenta sonhos enterrados no chão. Credo!
Nota do Blog: texto publicado originalmente no site Lima Coelho.

***

Para ler outras crônicas de Leila Jalul:
Site Lima Coelho, onde ela publica regularmente.