segunda-feira, 8 de outubro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XVIII

José Augusto de Castro e Costa


Plácido de Castro com seus cachorros
no seringal Capatará
A emboscada boliviana na “Volta da Empresa” repercutira como um verdadeiro desastre, chegando a pronunciar-se o pânico no seringal “Liberdade”, que Plácido, após a batalha, encontrara inteiramente deserto, tendo o próprio dono da cabana, tomado de terror, fugido com a família.

Contudo, o Caudilho não desanimara, de vez que sabendo-se ser um guerreiro completo, houvesse ele lutado em campo mais amplo, com comandados um pouco mais experientes, teria alcançado melhor resultado.

A estreia, com efeito, trouxera-lhe aproveitável lição. Estudando as causas da sensível baixa, Plácido de Castro verificara que todos os mortos e feridos vestiam-se de roupas claras, o que favorecera ao inimigo alvo certeiro. Imediatamente ordenara que os soldados brasileiros providenciassem uniforme azul, o mais rápido possível, conseguindo-o em poucos dias, graças à boa vontade de todos, sem exceção.

Reorganizadas as forças, Plácido traçara o plano de ataque a “Nova Empresa” e, para lá, pôs-se em marcha, com um contingente importante, em face do acréscimo de mais de cem homens tirados do seringal do coronel Antonio Antunes de Alencar.

Precisamente no dia 2 de outubro de 1902 estavam diante dos bolivianos novamente os acreanos, contando com a participação dos senhores Antunes de Alencar, Alexandrino Silva, que anos depois protagonizaria triste episódio, Gastão de Oliveira e outros. Todos reconheceriam a supremacia militar de Plácido de Castro, ocasião em que o aclamaram general, fato que recebera o declínio do Caudilho, não apenas por modéstia, mas, sobretudo, para evitar mau precedente de promoções por pronunciamentos.

A 5 de outubro, conforme planejado, os acreanos atacaram a “Volta da Empresa”, simultaneamente, pelo lado de cima e pela retaguarda.

Segundo apontamentos do próprio Plácido, “estando marcado o combate para às 10:00 da manhã, no momento em que o inimigo deveria estar descansando da formatura, tal não acontecera, porque o coronel Alencar mandara, às 9:30 atirar em uma sentinela inimiga, o que alterara bastante o resultado, pois não pudera o inimigo ser colhido de surpresa”.

Com efeito, a batalha fora iniciada com os acreanos abrindo fogo, com muita bravura e assombroso vigor, avançando sob um furacão de balas e desalojando os bolivianos de suas trincheiras, improvisadas no gaiola “Rio Afuá”, sequestrado pelo inimigo, que surpreendido pela vazante, ficara encalhado no porto da “Volta da Empresa”, sob violenta pressão, mostrando haver enfraquecido o âmbito da defensiva.

A noite o combate fora suspenso , a fim de que os mortos fossem enterrados e os feridos conduzidos para o hospital de emergência, na “Volta da Empresa”.

Logo ao amanhecer os bolivianos perceberam que estavam completamente cercados por elementos hostis, tais como uma frente humana de brasileiros abrindo fogo incessante, o paredão verde da floresta que os isolava de suas bases e, finalmente, o rio Acre minguando as precárias águas do estio, natural da época, que seria o caminho de Puerto Alonso, de onde deveriam chegar os recursos. O rio seco, obstruído pelos acreanos, completara a linha eficiente do bloqueio, impedindo o inimigo até de buscar água para beber.

Todavia Plácido de Castro sempre procurara demonstrar seu traço humano na guerra que empreendia, razão pela qual oferecera garantias para rendição ao Coronel Rosendo Rojas, Comandante das Forças Bolivianas em Volta da Empresa, e estabelecera bases condicionais para a suspensão das hostilidades, entre as quais, bloqueio do abastecimento de víveres e de água para os sitiados.

Apesar do caráter humanitário, o Caudilho era inflexivelmente rigoroso, a ver-se pela sua atitude para a execução de Antonio Português, o guia da coluna Coronel Rojas, preso por oficiais acreanos, para quem ordenara o imediato fuzilamento, após o qual, alguém vira rolar duas lágrimas dos olhos acreanos do gaúcho.

O combate da “Volta da Empresa” tivera prosseguimento por quase onze dias, quando, depois de alguns entendimentos por trocas de correspondências, o armistício seria aceito, contido na resposta afirmativa do Coronel Rozendo Rojas. Plácido, então, mandara elaborar uma Ata, redigida em português e espanhol, na qual constara garantia de vida para o Comandante e seus oficiais e soldados bolivianos, liberdade a todos os prisioneiros, licença aos indígenas carregadores e soldados casados para regressassem à Bolívia, via rio “Madre de Dios”, sob o comando de seus superiores, enquanto o Coronel Rosendo Rojas e demais aprisionados seguiriam para seu país, com baldeação por Manaus.

Plácido de Castro começara a provar ser um brasileiro inclinado à lealdade, à honra e ao cavalheirismo, de espírito elevado no momento de receber o adversário vencido. Acompanhado de cerca de 60 homens, descera o rio levando os bolivianos presos até o Antimarí, de onde prosseguiram para Manaus, com destino à Bolívia.

Ao regressar, por outro caminho, servindo-se de um varadouro para “Bom Destino”, Plácido tomou conhecimento da derrota da pequena força acreana no igarapé “Baía”, onde um baixo número de brasileiros fora vítima de fuzilamento e outros carbonizados, dentro do barracão incendiado por outra força boliviana.

Atravessando a floresta densa, o Caudilho atingira, a 17 de novembro, já com um total de 400 homens, a barraca Bela Vista, em Santa Rosa, no rio Abunã, onde, na manhã seguinte, seus pelotões delinearam o ataque, com imenso tiroteio contra as linhas bolivianas, protegidas por trincheiras de pelas de borracha, em combate que durara cerca de cinco horas, terminando com a dispersão das tropas inimigas, evadindo-se pelo emaranhado da selva. Os brasileiros concluíram o ataque, que se configurara no terceiro combate, ateando um vasto incêndio às casas e trincheiras bolivianas.

De Santa Rosa Plácido invadira a Bolívia, tomando “Palestina”, posto boliviano abastecido pelo quartel-general de Riberalta para, no princípio de dezembro dirigir sua tropa a Xapurí, de onde partiria para o quarto combate, no lugarejo denominado Costa Rica, guarnecido por aproximadamente 100 bolivianos.

Antes, porém, a 25 de outubro, Dom Lino Romero, Delegado boliviano em Puerto Alonso, sentindo bem claro a situação dos acontecimentos desencadeados no Acre, escrevera ao presidente da Bolívia, fazendo relato da revolução acreana, em que insinuara que seu país não deveria sacrificar-se por causa estéril, como a encontrada naquela região tão adversa aos seus caracteres gentílicos e raciais, e que, por natureza cultural, ecológica e ambiental, não lhe pertencia. Em certo trecho, escrevera textualmente Dom Romero, que “El Acre nominalmente ES de Bolivia, pero materialmente ES Del Brazil, todo contribuye à ello; inmensas distancias y obstáculo que ló separan Del resto Del paiz, La población extraña que ló Puebla, La falta de vias de comunicación dentro Del mismo território y finalmente La imposible adaptación de nuestra raza a este clima mortífero............ Se AL Brazil apetece El Acre, que ló posea em buena hora......... Tengo a bien comunicar a ud que el Sr. Placido de Castro y demás jefes enemigos se han portado com nuestros prisioneros com toda nobleza y cavallerosidad”.

Em tal missiva ao Presidente da Bolívia, Dom Lino Romero argumentara que povos poderosos não puderam manter, sob seu domínio, seres de outra raça e outros costumes, então os bolivianos, ainda em estágio débil e embrionário, não poderiam contrariar uma lei histórica comprovada a cada passo. Para a autoridade boliviana, em sã consciência, o Acre nunca poderia ser da Bolívia.

Porém esmorecer, em descumprimento de ordens, jamais! Os bolivianos, em Puerto Alonso, procuraram reconstituir o ânimo para enfrentar toda a adversidade que o destino, através de autoridades brasileiras e bolivianas, lhe houvera traçado. Cavaram trincheiras, derrubaram árvores, instalaram cercas de arame farpado, intensificaram o patrulhamento, verificaram as circunstâncias e armaram, em prontidão, o canhão tomado aos “Poetas” dois anos atrás. Enfim, mantiveram-se em alerta.

No princípio de janeiro de 1903, o Acre, ao norte da chamada linha Cunha Gomes, estava livre de bolivianos que, batidos por toda parte recuaram a território incontestável, concentrando-se em Puerto Alonso, onde o Coronel Lino Romero ainda dispunha de certa quantidade de soldados para a defesa de sua autoridade combatida, desacatada e periclitante, a qual, ele próprio, mantinha sem entusiasmo, por simples lealdade ao governo de seu país, conforme definira com a expressão de que “El Acre nominalmente ES da Bolivia, pero materialmente, ES Del Brazil”.

Dom Lino Romero fixara-se em Puerto Alonso, com sua autoridade limitada e encurralada, entre a floresta e o rio, com um quartel-general dos revolucionários ali próximo, em Caquetá, e, entre os flancos, as tropas de Plácido de Castro, ditador em toda a região, por aclamação popular. Sentira-se prisioneiro em sua própria cidadela - Puerto Alonso.

De salientar que Plácido de Castro, com sua saúde precária, em vista dos ataques do implacável impaludismo, caracterizado por longas e graves acessos de febre, que ocasionam frequentemente o estado comatoso, o qual às vezes precede a morte, exercera uma quase onipresença nos lugarejos do Acre. Quando não podia caminhar ou montar, era carregado numa rede para, num ponto necessariamente pré-estabelecido, erguer-se e, não só comandar, mas também proceder a artilharia. Já comandara efetivamente quatro combates atemorizantes.

A providência de estar presente o Caudilho onde fizera-se necessário, funcionara, pois sempre seu aparecimento desmentira os boatos espalhados, com relação à sua morte e consequentemente ao fracasso do movimento.

Contudo, a superioridade que os acreanos levavam sobre os bolivianos era incontestável e enlevavam a alma dos revolucionários. Plácido vira, como estímulo, o aumento considerável de seu exército, regularmente eficiente para as ações vindouras.
 
 
Leia aqui a série
BRASILEIRO POR OPÇÃO
 
 
* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

sábado, 6 de outubro de 2012

HEITOR VILLA-LOBOS - BACHIANA BRASILEIRA Nº 5

Bachianas Brasileiras é uma série de nove composições de Heitor Villa-Lobos escritas entre 1930 e 1945. Bachianas brasileiras n° 5 está dividida em dois movimentos: I) Ária (Cantilena) – Adágio, dedicada a Arminda Villa-Lobos. A letra deste movimento é de Ruth Valadares Corrêa, e a composição possui semelhanças com obras como a "Ária" de Bach e o "Vocalise" de Rachmaninov. II) Dança (Martelo) – Allegretto. A letra desse movimento é de Manuel Bandeira, apresentada em 1945.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Série A POESIA ACREANA > Prof. Freitas

Isaac Melo


Para Fernando Pessoa o amor é uma companhia. Para mim, a poesia é uma companhia, e já não sei andar sozinho. Não há poetas grandes ou poetas menores. Se é poeta ou não se é poeta. Há poetas menos conhecidos, mas nem por isso deixam de ser menos poetas. A poesia, por não ter fronteiras, só conhece a infinitude do coração humano. E, parafraseando Bilac, só quem ama tem coração capaz de entender a poesia, senti-la como se sente o puro mel suavemente a envolver a boca num misto de prazer e encanto.

Apreciador sou dos clássicos poetas, porém, em meu coração há sempre lugar para os poetas de meu tempo, de meu chão. Leios com o mesmo enternecimento, o mesmo fascínio, pois são eles, hoje, que continuam a fazer o coração da humanidade florir, frente a tantas agruras e mesquinhez. Nenhuma guerra, nenhum reino, nenhum poder vale o sentimento profundo que a poesia pode causar num espírito humano. A sociedade do futuro, e de hoje, há de ser poética ou será esquelética.

A poesia acreana, como expressou o sociólogo Jacó César Piccoli, é feita de vida, feita de amor, palpitante, selvagem, popular. De cada recanto do Estado emerge os seus representantes. Tarauacá, berço de grandes expressões poéticas, como J. G. de Araújo Jorge, é terra em que o veio d’água da poesia nunca deixou de minar, como cacimba boa que resiste ao inclemente sol de verão. Um nome que desponta nesse cenário é o de Francisco Alves Freitas, o prof. Freitas, como é conhecido.

Nascido nas barrancas do Rio Muru e criado às margens do Rio Tarauacá não teria como ser diferente, sua poesia traz a força das águas, a beleza da selva com tudo que ela encerra, e o louvor de sua fé. O estudo, a leitura, as letras, a poesia fez dilatar as fronteiras de seu seringal. E com as asas da poesia ultrapasssou os limites do grande tapete verde e fez seu canto ecoar além do horizonte. Só o fato de se dedicar ao ensino há mais de três décadas é motivo suficiente para um sincero e profundo apreço. Mas, há que se educar além da cabeça, o coração, os sentimentos. E isso foi o que fez. Homem temente a Deus, com toda profundidade e verdade que tal assertiva pode ter ante a carga depreciativa que toma nos dias atuais.

Prof. Freitas possui dois livros publicados “O amor, a natureza e o povo” e “Brados de vida”. Grosso modo, podemos distinguir três temáticas principais que perpassam praticamente toda sua obra: 1) o amor; 2) Deus; e 3) a natureza. O poeta abre seu coração aos enleios do amor, da grandeza do amor humano, que em medida mais sublime, é expressão do amor divivo. Porque o amor divino só é possível à medida que assume a face humana. Por isso, ele canta as benesses do amor, com suas alegrias, dores e saudades. Paradoxalmente, apenas a ‘escravidão’ do coração nos fará livres.

Um poeta tocado e que se deixa tocar pelas coisas simples, que reconhece nos pequenos acontecimentos da vida a grandeza de seu Criador. Então o coração do poeta, como água abundante de fonte a jorrar, se extasia em versos, a lembrar os magníficos louvores entoados pelo povo de Deus ao longo da história, como autêntico salmista de nossos dias: “Meu Deus, como és sublime / Quando contemplo as flores, / O orvalho da manhã, / A fina teia da aranha, / O nascer de um passarinho, / O voo suave de um pássaro, / O sorriso de uma criança, / E dos grandes astros o caminho.” Assim, nos versos do prof. Freitas, recordamos os versos da grande poeta Adélia Prado: “Poesia sois vós, ó Deus / Eu busco vos servir.” A poesia, a mais íntima, é a divina relação da criatura com seu Criador.

Por fim, não está ausente, na poesia do prof. Freitas, a problemática social e ambiental. O poeta é enfático, e ergue seu brado enérgico contra os “homens sem ética, ladrões e profanos, / Assolando o povo com corrupção.” Não é também o brado de todos nós? Ainda mais na atual conjuntura política em que se encontra a política nacional, desacreditada e imoral? Além disso, há a preocupação ecológica, que antes não se fazia necessária, hoje, tornou-se indispensável, frente aos abusos humanos advindos com o aperfeiçoamento da técnica e da tecnologia. Mas tudo isso passa pelo olhar atento do poeta, e, com seus versos, conclama a responsabilidade humana não só por outros seres humanos, mas também por toda natureza, que ‘chora em dores de parto’. Em contrapartida, canta as belezas da floresta, com a diversidade de seus cantos, cores, aromas, paisagens. O coração enfeiurado só se cura com a beleza, a beleza que nasce do próprio coração.

Estendemos aqui nossa homenagem a esse ilustre poeta acreano-tarauacaense que contra o silêncio dos covardes ergue seus brados de vida, a nos encantar, e nos cantar as belezas do amor, de Deus, da vida e da natureza no altar de nossos corações, “pois os que amam sem amor não terão o reino dos céus”.


FOLHAS CAÍDAS
Prof. Freitas

Folhas caídas, levadas ao vento,
Como uma lembrança
que o tempo apaga,
Esquecemos logo, sai do pensamento.

Folhas caídas, é como o amor;
Que partiu errante,
Deixando saudade,
Ficou o silêncio, matando de dor.

Folhas caídas, é humo certeiro;
Eu estou distante!
Ela está ausente,

É como um sonâmbulo ou um seresteiro,
Que perdeu a amante,
E seu coração ainda está doente!


SONETO ÀS MINHAS MEMÓRIAS
Prof. Freitas

Velha seringueira, onde descansei
Nos dias quentes, comendo meu pão,
Sentado ao teu tronco, lá eu estudei,
Fazendo exercícios; revendo a lição.

Fiz as refeições, sob a tua sombra,
Sobre folhas secas, pensava na vida,
Às vezes alegre, às vezes tristonho,
Com a alma festiva, às vezes abatida.

Velha seringueira, árvore centenária,
Foste derrubada, não tens esperança!
Hoje quando passo, me restam as lágrimas

A recordação, dos tempos de criança...
Mas vem-me à memória: tudo se acaba!
Das coisas da vida, ficam só lembranças.


TEMPO
Prof. Freitas

Tempo que carrega a vida
Que apaga o amor
Que faz esquecer a dor
Das vidas divididas.

Tempo que apaga o olhar
Que muda o coração
É tempo contra mão
De quem deixou de amar.

Tempo sem lembranças
Sem estrelas
Sem beleza
Sem grandeza
Sem esperança

Somos peça
Desse tempo
No negrume
da noite
Apaixonados
Descontentes
Descuidados
Desamados
No universo
Sem sonhos
Sem poesias
Sem versos.

Somos pássaros
Fugitivos
do amor
Da alegria
Que o tempo
Destruiu e apagou!..


E DEUS FALA
Prof. Freitas

Num universo sem definições,
Pássaros cantam duetando com o assobio do vento e com o
ciciar dos insetos,
Como o rugir dos motores dos automóveis,
E com o murmurar do mar.
Sou caminheiro do destino,
Da saudade e da solidão,
Entre pedras, entre areias,
A contemplar o mar, verde mar, nesta imensidão.

Céus que se turvam; se azulam;
Sol que brilha entre as verdes palmeiras e matagais;
Meus sonhos se colorem
Neste verde mar a beijar as pedras,
Teu corpo, a areia, nada mais...

Neste cenário, se perdem os pensamentos meus,
Entre sonhos e realidade,
Entre lembranças e recordações,
Entre preces e saudades
A contemplar a grandeza de Deus.

Fortaleza – 23.11.2001


TEUS OLHOS
Prof. Freitas

Quando vejo teus olhos claros
Sob a luz solar de raios transparentes
E num sorriso teus lábios declaram
Um amor imenso, meigo e presente.

Quando fito teus olhos claros
Sob a luz ardente dos raios do sol
Oh como é difícil! São momentos raros
Ver teus olhos lindos, como o arrebol.

Ah se eu pudesse, se eu pudesse um dia!
Ler teus pensamentos e ler nos teus olhos:
por que fitam longe o azul do infinito?
E sem palavra alguma ungem como óleo.

Ó princesa, não direi teu nome!
Mas tu saberás que falo de ti
Leio em teus olhos que algo te consome
E quase a soluçar pensas em partir.

Sei que teus olhos sonham, sonhos de amor
E fitam ao redor o verde da paisagem
É como um perfume a transpirar odor
Trazendo-me o amor, como uma miragem.

Não esqueço teus olhos, a contemplar o infinito!
As flores, o céu, o azul sem fim!
Os pássaros brancos, a voar bonito
Te quero meu amor, sempre perto a mim.


QUATRO PAREDES
Prof. Freitas

Entre quatro paredes me encontrei,
Num silêncio, que a noite encerra,
No travesseiro eu te procurei,
me senti estranho, como em outra terra.

A escuridão da noite que jazia,
E o silêncio que enchia o quarto,
O coração bate e tem fantasias,
E te procurava entre os meus braços.

E a cama que parece fria,
Deitado nela, fiquei sem jeito,
Senti teus lábios me acariciando,
E por instantes, eu senti teu peito.

Então compreendi que não era sonho,
Era realidade e fiquei pensando,
Ouvi tua voz, com amor risonho,
Senti tua mão, me acariciando.

Depois parti pela noite adentro...
Calmo e fugitivo na escuridão,
Te levei comigo, em meus pensamentos,
Te deixei sozinha... Mas que solidão!...


CORRUPÇÃO
Prof. Freitas

É inegável, que existe dano,
Em cada escala da administração,
Homens sem ética, ladrões e profanos,
Assolando o povo com corrupção.

Cada bem público custa muito mais,
Sempre que envolve a corrupção,
O povo sofre, não aguenta mais,
Gerando miséria; gerando inflação.

E a impunidade, assola as ruas,
Nunca se fez nada; não tem solução,
Gastam as riquezas, que são minhas e tuas,

Sofrem nossos filhos; comem o nosso pão,
Deixando as cidades, cada vez mais nuas,
Com o vírus maldito da corrupção.


A MORTE DO PLANETA
Prof. Freitas

A terra está muito mudada:
O horizonte já está cinzento;
A camada de estufa, aquecendo o ar,
Particulas voando, fuligem, carbono. . .
Tornando difícil, pra se respirar.

O verde está sumindo,
Surgindo desertos na terra,
Cachoeiras e rios vão ficando secos,
Pássaros, animais desaparecendo
O sol emitindo raios ultravioletas.

Rios e oceanos estão abarrotados:
De esgotos, chumbo e mercúrio,
Sacolas, embalagens, muitos detergentes,
Devastando peixes e microorganismos,
Venenos humanos, estão matando gente.

O planeta terra nos pede socorro!
Poluição sonora e também visual,
Ondas magnéticas estão cortando os ares,
A camada de estufa afetou os pólos,
Meu planeta morre; e deixa pesares!...

O planeta terra está saturado:
Derretendo o gelo, tremores de terra,
Cheias e desertos, ventos, furacões...
É gente demais; já não há espaço,
Falta água potável pros sete bilhões.


POEMAS À MADRUGADA
Prof. Freitas

É madrugada a noite está calma,
O céu azulado, anunciando a aurora,
Lembro-me de ti, a saudade na alma,
A presença de Deus, sinto nesta hora.

É madrugada, o galo já canta,
A brisa refresca a paisagem,
Abrem-se as rosas, que perfumam tanto,
Vemos o horizonte, como uma miragem.

É madrugada, dos sonhos mais lindos,
Ou de quem acorda para sair cedo,
De quem busca a Deus, momentos infindos,

O sol vai nascer, espantar o medo,
Alguns se despedem, pois já vão partindo,
E na cama, alguns, sussurram segredos.

                  II

É madrugada, o capim molhado
É bom que o mundo acorde, o silêncio devasse,
Irradiando luz, clareando os prados,
O que estava oculto, agora se mostrasse.

É madrugada, a lua está branca,
Minh'alma medita, sentindo-se triste,
Aos poucos, o passarinho canta,
Pois na madrugada o amor consiste.

É madrugada, oh meu paraíso!
Vejo a natureza; o mundo colorido,
Esqueço as mágoas, do amor perdido,

Surge a esperança, um novo sentido,
Vem-me a memória o que havia esquecido,
Remove a tristeza, do coração ferido.

                  III

É madrugada, do canto dos pássaros,
Nas lâmpadas caem a última serração,
E quem vai partir: um beijo, adeus, um abraço. . .
Ficando a saudade; fica a solidão.

É madrugada, muitos estão dormindo,
Muitos estão sonhando. . .
As estrelas do céu vão sumindo,
E alguns, uma prece, a Deus ofertando.

É madrugada, começo do dia,
Acordo mui cedo; contemplo o infinito!
Vejo a Via-Láctea; traz-me alegria,

Ouve-se bem longe, do vaqueiro o grito,
Nosso coração cria fantasias,
Tudo é madrugada; oh! Mundo bonito!...


PLANETA MORTO
Prof. Freitas

Meu planeta está muito mudado!
Muitos poluentes
Detergentes
Gases
Fumaças
Que envenenam a gente!

Meu planeta está modificado!
Cheio de venenos
Tudo está morrendo
Radioatividade
Mercúrio
A terra varrendo!

Meu planeta está virando lixo!
Bombas
Que assombram!
Contaminação
Lixo industrial
Pondo nossa vida em risco.

Meu planeta está devastado...
Quase sem florestas
Os montes e arestas
Estão sem animais
Oh! que triste estado!

Meu planeta está ficando quente!
Muitos furacões
Desertos, sertões,
Secas,
Tempestades
Estão matando gente!...

Meu planeta está por um triz!
Bonito que era
Azul. . . primavera,
Verde, colorido,
Mas hoje ferido
É muito infeliz!...
Não é verde mais,
Hoje está cinzento,
Morfo, fedorento,
Águas poluídas
Animais sem vidas
Se ouvem seus ais!...


LIBERDADE
Prof. Freitas

Ó liberdade, me ilumina agora!
Ao som de harpas e guitarras famosas,
Quero-te sempre, todo dia toda hora,
Na terra dos viventes, és a mais gloriosa.

Não quis os pedestais, e não tenho saudades,
Nada substitui os valores dela,
Por nada troco minha liberdade,
Das bênçãos da terra, tu és a mais bela.

Ó liberdade, eu nunca te esqueço!
Meu coração palpita no berço do teu ninho,
Nada pagará; valerá teu preço,
Quero-te raiando sempre em meu caminho.

Liberdade é o sonho intenso de quem vive,
Quero adormecer, eternamente em teus braços,
Nada me importa! MAS QUERO SER LIVRE,
Longe das algemas, dos grilões, dos laços.

Ó liberdade, bem mais precioso!
Pra todo ser vivo, até o passarinho,
Quero ter o vento soprando no rosto,
O sol, as estrelas, pelo meu caminho,
De tudo que eu sei, de tudo que eu conheço. . .
A maior riqueza, meu maior apreço,
pois MINHA LIBERDADE, NUNCA TERÁ PREÇO!...


EU E VOCÊ
Prof. Freitas

Somos peças
Desse tempo
Que não pára
Que não muda
Como incêndio
De coivara
A queimar tudo.

Somos mensageiros
Do amor
Companheiros da saudade
Triste, aventureiros
Do amor,
Do destino, da fatalidade!

Eu e você
Somos assim
Flores sem perfumes,
Pássaros a voar sem fim,
No vazio, na escuridão,
Nas lembranças,
perdidos na solidão.

Eu e você
Dois pontos na imensidão...
Preocupados
Sem motivos, sem razão.
Divididos, amados,
Quase perdidos
Escravos do coração.

Indiferentes ao preconceito
Com sonhos
Com esperança
Às vezes magoando o peito
À luz de tantas lembranças
presos no mundo dos laços
Sem razão, sem jeito,
Sem espaço,
No mundo indefinidos
Como chumaços proibidos.


JANELA
Prof. Freitas

Vi pela janela passarem os ventos,
A brisa suave, que refresca o quarto,
Quando estou deitado, um pequeno tempo,
vejo as estrelas, que povoam o espaço.

Quando é noite fria, a deixo fechada,
Mas quando amanhece, o sol logo bate,
Raia a claridade em sua fachada,
E abrindo vejo, meu pé de tomate.

Janela querida, dos sonhos mais lindos,
Quando ainda escuro, vejo os passarinhos,
De lá posso ver o vizinho sorrindo.

Dela vejo a horta, quando é bem cedinho,
Vejo meus cachorros, ainda dormindo,
por ela Deus ver, todos os meus caminhos.


CARTÃO POSTAL
Prof. Freitas

Pequena lembrança, que o tempo amarelou,
Mas que falam muito, pela vida inteira,
Cartão de natal, cheio de amor,
Com inspiração, pura e verdadeira.

Amiga de outrora, meiga e pequena,
O tempo passou; não foste esquecida;
Amiga querida, rosa de açucena,
Hoje estás distante, e vives outra vida.

Pequeno cartão, com grande mensagem,
Falando de Deus, que está presente,
Lembro seu poder, oh! Bela paisagem!

Todos nós mudamos; hoje é diferente!
Vamos pela vida como carruagem,
Teu cartão relembra, e faz-me contente.


LEMBRANÇAS
Prof. Freitas

Há na vida:
Uma indiferença
No amor
Na dor
Sem tua presença.

Há em cada instante:
Uma saudade louca
De te abraçar
De te apertar
E beijar tua boca.

Há em cada sonho:
Uma eterna lembrança
De cada beijo
De desejo
E muita esperança.

Há no teu perfume:
Uma recordação
Vivida, sonhada,
Amada, guardada,
No coração.



*Poesias disponíveis no blog Asas da Liberdade, do prof. Freitas.

FREITAS, Francisco Alves. Brados de Vidas. Rio Branco: Printac: Gráfica e Editora, sd.
FREITAS, Francisco Alves. O amor, a natureza e o povo. Edição do autor.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XVII

José Augusto de Castro e Costa


Em Xapuri as autoridades bolivianas não eram muitas e estavam alojadas em três casas: na Intendência, onde residia o próprio Intendente, Dom Juan de Dios Bulientes, na de Alfredo Pires e na de Augusto Nunes, português, colaborador dos bolivianos.

Ao saltar em terra, Plácido de Castro dividira a pequena força de 33 homens em três grupos, para atacar simultaneamente as três casas, reservando para ele a do centro, onde funcionara a Intendência.

Penetrando onde achara-se o Intendente, de lá, em silêncio, retiraram algumas carabinas e dois cunhetes de balas, para em seguida chamar o comandante em alto brado, o qual, ainda sonolento respondera: “Es temprano para la fiesta”, ao que Plácido, elevando o tom, retorquiu: “Não festa, Sr. Intendente, é revolução”.

Levantaram-se, sobressaltados , o Intendente e os seus comandados. Deixando-os sob guarda, Plácido dirigira-se à casa de Augusto Nunes, onde Moreira nada houvera feito. Ali todos foram presos, enquanto o coronel Galdino já viera da casa de Alfredo Pires, escoltando vários bolivianos, caracterizando-se assim, o início da revolução acreana.

Tropa do exército acreano, em marcha, em 1902, tendo a frente Plácido de Castro.
Neste mesmo dia 6 de agosto continuaram a reunir gente, verificando o Caudilho que alguns proprietários prometiam tudo, mas em verdade mostravam-se receosos. O coronel José Galdino era quem agia com mais desassombro, sem parcimônia.

Plácido convocara uma reunião para a madrugada seguinte, a qual se realizara conforme esperado. Nela expusera as razões que determinaram a revolução e ouvira a eloquência das palavras dos senhores Dr. Albino dos Santos Pereira, Gastão de Oliveira e Manfredo Álvares Affonso.

Em seguida o Caudilho convidara os presentes a proclamar a independência do Acre, com o nome de Estado Independente do Acre, e sugerira o ato simbólico de ser hasteada a bandeira ao som da Marcha Batida, pois já havia um corneteiro entre eles, fato que todos reverenciaram, tirando o chapéu respeitosamente.

Foi lavrada uma Ata, da qual Plácido de Castro mandara extrair várias cópias, para serem distribuídas rio abaixo, imediatamente, enviando uma ao Delegado boliviano, em Puerto Alonso, a fim de que, se alguém fraquejasse, não pudesse recuar, visto de haver comprometido com a assinatura no documento.

Os prisioneiros bolivianos foram expulsos do território via Iaco, enquanto Plácido descia o rio Acre a frente de 64 homens, ficando o coronel Galdino no comando da guarnição de Xapurí, que se compusera de cerca de 150 homens, e com ordem de recrutar quantos fossem necessário.

Ao embarcar com seu grupo para descer o rio, Plácido tomara conhecimento de que um judeu-francês, estabelecido na região, estaria fazendo reuniões ocultas, com o fim de sufocar a revolução, talvez não acreditando que o movimento triunfasse.

Ato contínuo, Plácido mandara prender esse estrangeiro, levando-o em sua companhia, na sua própria canoa.

No terceiro dia de viagem, o Caudilho recebera um recado que lhe enviara o coronel João do Monte, comunicando que o batalhão boliviano já haveria chegado em “Capatará”, com grande numero de efetivo.

Continuando a marcha, chegaram ao seringal “Itu”, de onde Plácido mandara reconhecimentos a “Capatará”, por água e por terra, recebendo, em seguida, a informação de que a notícia era falsa, pois ainda não se soubera nada sobre o batalhão boliviano ali esperado. Era final de agosto quando a tropa revolucionária chegara a “Capatará”, pela manhã, partindo em seguida para “Benfica”, onde o Caudilho soubera que, com sua demora, em vista de forte impaludismo, muitos companheiros haviam fugido, dando crédito ao boato sobre sua morte, enquanto outros seriam presos pelos bolivianos, que já possuiriam conhecimento da revolução.

Entre os dias 1 e 7 de setembro, no seringal “Liberdade”, Plácido de Castro ocupara-se em convocar os vizinhos e em reunir muita gente. Segundo ele, muitos foram agarrados, já em fuga, pelo pavor que lhes haveriam causado a prisão e a fuga de seus chefes.

Continuando a marcha revolucionária, Plácido chegara a “Caquetá”, ali encontrando seu conterrâneo Gentil Norberto, o qual viera informar-lhe que trouxera de Manaus 120 Winchesters, 100 encapados de farinha e 12 cunhetes de balas, de vez que fora encarregado pelo governo do Amazonas de fazer guerra no Acre, demonstrando, ao Caudilho, não possuir a mínima noção sobre coisas militares, muito menos bélicas.

Logo a seguir apresenta-se o Sr. Rodrigo de Carvalho, que se dissera com a mesma incumbência do governo amazonense. Notara-se ser público o desentendimento dos dois, passando os dias em implicância mútua, em discussões estéreis e em troca de insultos e inculpabilidades.

Prosseguindo viagem Plácido passara pelos seringais “Bagaço” e “Liberdade”, preparando-se para atingir a Empresa, quando, ao romper do dia 18 de setembro, as 5:30 horas, foram surpreendidos, em cheio, no campo da “Volta da Empresa”, pela primeira descarga de balas, a céu aberto. A tropa acreana, estupefata, reagira como pudera, em tiroteio intenso.

Extinta a munição, a derrota pronunciara-se pelos revolucionários, a despeito do esforço despreendido para evitar o desastre.

A estreia dos acreanos em campo de batalha contabilizara baixa de 22 mortos, dez feridos e 6 evadidos.

O inimigo, não obstante achar-se munido de fuzil, também tivera suas arranhaduras, constante de 10 mortos, inclusive um capitão, e 8 feridos. Mesmo em número superior, os bolivianos não efetuaram perseguição aos brasileiros.



Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.