segunda-feira, 1 de outubro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XVII

José Augusto de Castro e Costa


Em Xapuri as autoridades bolivianas não eram muitas e estavam alojadas em três casas: na Intendência, onde residia o próprio Intendente, Dom Juan de Dios Bulientes, na de Alfredo Pires e na de Augusto Nunes, português, colaborador dos bolivianos.

Ao saltar em terra, Plácido de Castro dividira a pequena força de 33 homens em três grupos, para atacar simultaneamente as três casas, reservando para ele a do centro, onde funcionara a Intendência.

Penetrando onde achara-se o Intendente, de lá, em silêncio, retiraram algumas carabinas e dois cunhetes de balas, para em seguida chamar o comandante em alto brado, o qual, ainda sonolento respondera: “Es temprano para la fiesta”, ao que Plácido, elevando o tom, retorquiu: “Não festa, Sr. Intendente, é revolução”.

Levantaram-se, sobressaltados , o Intendente e os seus comandados. Deixando-os sob guarda, Plácido dirigira-se à casa de Augusto Nunes, onde Moreira nada houvera feito. Ali todos foram presos, enquanto o coronel Galdino já viera da casa de Alfredo Pires, escoltando vários bolivianos, caracterizando-se assim, o início da revolução acreana.

Tropa do exército acreano, em marcha, em 1902, tendo a frente Plácido de Castro.
Neste mesmo dia 6 de agosto continuaram a reunir gente, verificando o Caudilho que alguns proprietários prometiam tudo, mas em verdade mostravam-se receosos. O coronel José Galdino era quem agia com mais desassombro, sem parcimônia.

Plácido convocara uma reunião para a madrugada seguinte, a qual se realizara conforme esperado. Nela expusera as razões que determinaram a revolução e ouvira a eloquência das palavras dos senhores Dr. Albino dos Santos Pereira, Gastão de Oliveira e Manfredo Álvares Affonso.

Em seguida o Caudilho convidara os presentes a proclamar a independência do Acre, com o nome de Estado Independente do Acre, e sugerira o ato simbólico de ser hasteada a bandeira ao som da Marcha Batida, pois já havia um corneteiro entre eles, fato que todos reverenciaram, tirando o chapéu respeitosamente.

Foi lavrada uma Ata, da qual Plácido de Castro mandara extrair várias cópias, para serem distribuídas rio abaixo, imediatamente, enviando uma ao Delegado boliviano, em Puerto Alonso, a fim de que, se alguém fraquejasse, não pudesse recuar, visto de haver comprometido com a assinatura no documento.

Os prisioneiros bolivianos foram expulsos do território via Iaco, enquanto Plácido descia o rio Acre a frente de 64 homens, ficando o coronel Galdino no comando da guarnição de Xapurí, que se compusera de cerca de 150 homens, e com ordem de recrutar quantos fossem necessário.

Ao embarcar com seu grupo para descer o rio, Plácido tomara conhecimento de que um judeu-francês, estabelecido na região, estaria fazendo reuniões ocultas, com o fim de sufocar a revolução, talvez não acreditando que o movimento triunfasse.

Ato contínuo, Plácido mandara prender esse estrangeiro, levando-o em sua companhia, na sua própria canoa.

No terceiro dia de viagem, o Caudilho recebera um recado que lhe enviara o coronel João do Monte, comunicando que o batalhão boliviano já haveria chegado em “Capatará”, com grande numero de efetivo.

Continuando a marcha, chegaram ao seringal “Itu”, de onde Plácido mandara reconhecimentos a “Capatará”, por água e por terra, recebendo, em seguida, a informação de que a notícia era falsa, pois ainda não se soubera nada sobre o batalhão boliviano ali esperado. Era final de agosto quando a tropa revolucionária chegara a “Capatará”, pela manhã, partindo em seguida para “Benfica”, onde o Caudilho soubera que, com sua demora, em vista de forte impaludismo, muitos companheiros haviam fugido, dando crédito ao boato sobre sua morte, enquanto outros seriam presos pelos bolivianos, que já possuiriam conhecimento da revolução.

Entre os dias 1 e 7 de setembro, no seringal “Liberdade”, Plácido de Castro ocupara-se em convocar os vizinhos e em reunir muita gente. Segundo ele, muitos foram agarrados, já em fuga, pelo pavor que lhes haveriam causado a prisão e a fuga de seus chefes.

Continuando a marcha revolucionária, Plácido chegara a “Caquetá”, ali encontrando seu conterrâneo Gentil Norberto, o qual viera informar-lhe que trouxera de Manaus 120 Winchesters, 100 encapados de farinha e 12 cunhetes de balas, de vez que fora encarregado pelo governo do Amazonas de fazer guerra no Acre, demonstrando, ao Caudilho, não possuir a mínima noção sobre coisas militares, muito menos bélicas.

Logo a seguir apresenta-se o Sr. Rodrigo de Carvalho, que se dissera com a mesma incumbência do governo amazonense. Notara-se ser público o desentendimento dos dois, passando os dias em implicância mútua, em discussões estéreis e em troca de insultos e inculpabilidades.

Prosseguindo viagem Plácido passara pelos seringais “Bagaço” e “Liberdade”, preparando-se para atingir a Empresa, quando, ao romper do dia 18 de setembro, as 5:30 horas, foram surpreendidos, em cheio, no campo da “Volta da Empresa”, pela primeira descarga de balas, a céu aberto. A tropa acreana, estupefata, reagira como pudera, em tiroteio intenso.

Extinta a munição, a derrota pronunciara-se pelos revolucionários, a despeito do esforço despreendido para evitar o desastre.

A estreia dos acreanos em campo de batalha contabilizara baixa de 22 mortos, dez feridos e 6 evadidos.

O inimigo, não obstante achar-se munido de fuzil, também tivera suas arranhaduras, constante de 10 mortos, inclusive um capitão, e 8 feridos. Mesmo em número superior, os bolivianos não efetuaram perseguição aos brasileiros.



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* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.
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