quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A TINTA

Florentina Esteves


A melhor datilógrafa de quantas já haviam passado pela Secretaria de Educação. Iniciativa própria, despachada, inteligente, disputada por outros secretários, eu a segurava com unhas e dentes, até apelava: Você que foi minha aluna fica é comigo, vale a nossa amizade ou não? E sua competência, é claro.

E assim íamos trabalhando. Dia entrando pela noite, material humano escasso, todos sobrecarregados, muito boa vontade mas pouco tempo, vi-me obrigada a redigir eu mesma as licitações para a construção de algumas escolas na zona rural, antes da chegada do inverno. Construções simples, bastava indicar a metragem, material a utilizar, acabamento, pintura, ela já sabia como compor o documento, aquela tranquilidade tê-la como datilógrafa. Era só assinar. Tudo perfeito.

Isto é, perfeito julgasse eu, ela se permitia opinar, algum detalhe não lhe parecesse de acordo com a região. Assim é que um fim-de-expediente, prazo apertado para a publicação das licitações, entra-me ela esbaforida, e peremptória: professora, não há tempo para ficar batendo e rebatendo esta licitação. Vamos logo corrigi-la, porque a senhora não sabe como anda o comércio de Rio Branco. Vamos botar só uma marca de tinta para pintar a escola, que essa tem bastante lá no Hechem Farhat. A outra, nem adianta mencionar, que não se encontra mesmo, tenho certeza.

- Mas que outra marca de tinta é essa, que nem lembro de ter citado?

- Está vendo? É isso que eu digo, nem a senhora lembra a marca.

- Veja aqui – e botou-me o rascunho na frente – vamos corrigir. Aqui. Onde está “A escola deve ser pintada com tinta Paredex ou similar”, deixe só Paredex, porque essa tem em qualquer loja. Mas “similar”, essa marca eu lhe garanto que ainda não chegou a Rio Branco. Nem adianta procurar.


> Florentina Esteves é da Academia Acreana de Letras. A crônica "A Tinta" está publicada em ESTEVES, Florentina. Enredos da memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1990.
Postar um comentário