segunda-feira, 29 de outubro de 2012

POEMAS - Jorge Tufic

O poeta acreano Jorge Tufic acaba de ganhar o prêmio Raul Bopp da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo livro "Quando as noites voavam", melhor de 2011. A premiação se deu dia 26/10 no auditório da Academia Brasileira de Letras. Tufic pertece às Academias de Letras do Acre, do Amazonas e de Letras e Artes do Nordeste.

 
I

Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.

Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.

Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.

Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.

II

Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.

─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.

Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...

III

O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.

O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.

Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.




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