sexta-feira, 12 de outubro de 2012

MEMÓRIAS DO FUTURO

Luiz Felipe Jardim


Alguns amigos, algum dia, dirão que só não tenho memória de cera porque sou a própria cera que envolve a memória.

Menos. Menos, amigos do futuro. Sei que tenho muito boa memória, mas sei também que não é tanto assim. Não me lembro de muita coisa que gostaria de lembrar. Por exemplo: de quando eu tinha quatro, cinco, ou então ali pelo comecinho dos seis. Mas não, não consigo me lembrar de nada dessa época. Só comecei a dar conta de mim realmente, só comecei saber que existia, quando eu estava ali na curva dos seis meses, nos seis meses e meio exatamente. Só a partir daí é que começo a me conhecer como gente.

As minhas primeiras lembranças são as dos sons. Especialmente as de um som permanente, suave, profundo ao qual eu me sentia umbilicalmente ligado. Foi ouvindo aquele som, na quase profunda calmaria do mundo, que me senti pela primeira vez. Senti que existia. Ali, eu nasci em mim.

É bem certo que para o mundo lá fora eu nem existia, portanto eu nem era eu ainda. Por isso, por estar num paraíso, eu aproveitava a vida. Não havia muita coisa a se fazer além de crescer. Eu já me ocupava demasiado em fazer o meu coraçãozinho ficar maior, em dar um pouco mais de cor aos olhos, coisinhas assim. Para passar o tempo e entender melhor outras coisas, dei asas aos meus ouvidos e me pus a escutar. E foi nas asas dos ouvidos que percebi que aquele som contínuo, agradável e vital que eu ouvia e sentia, pulsava num ritmo de 72 batidas por minuto. É esse o ritmo com que pulsam os corações dos humanos adultos. Só bem depois vim saber que os bebês humanos, quando no colo das mães, esperam que elas os abracem de modo que seus ouvidos fiquem o mais perto possível do coração. O que eles querem é ouvir aquele som, naquele ritmo, no ritmo do coração. No ritmo em que eles entraram no mundo.

- Entraram no mundo é uma maneira de dizer. Porque o mundo do útero, o mundo por aonde todos chegam à vida, é outro mundo. Aí você não anda, não fala, não sente gosto, nem mesmo respira com seus pulmões sô!... Mas ouve. Logo aos seis meses, ouve. E o primeiro som é sempre aquele, o de 72 batidas por minuto. O som do coração que dança a dança da vida.

Na falta de outros estímulos eu ouvia. Envolto por uma temperatura morna, também constante, eu me sentia permanentemente abraçado por um abraço total, suavemente quente, que envolvia cada ponto meu e me protegia com sensações boas e poderosas.

Afora isso eu flutuava. Sabe aquela sensação que ficamos tendo, de vez em quando, depois de passar longo tempo em um barco, ou depois de ficar muito tempo meio imerso em águas que ondulam? A gente fecha os olhos e sente como se estivesse flutuando; como que estivesse sendo carinhosamente embalado por pequenas ondas que vão e vêm silenciosas e prazerosas. Essa sensação é quase que uma reminiscência daquelas que tínhamos quando, ainda no útero, envoltos no líquido amniótico, também balançávamos quando nossas mães se movimentavam. Num movimento harmônico, sonoro, quente, prazeroso.

Essas são as primeiras notícias que posso dar de mim de quando me conheci: que eu estava envolto por um abraço total, quente e permanente; que flutuava num embalo suave e prazeroso; e que ouvia as batidas do coração de minha mãe. 72 pulsações por minuto. O ritmo de pulsação do paraíso.

Todo paraíso é só um ninho. Um espaço de passagem. Um espaço natural para o pouso ágil, fértil e fugaz. Um espaço grávido de encantamentos, onde a vida pousa, nasce e vive, mas de onde a vida deve sair rapidamente para que possa renascer e viver.

- Sair rapidamente é maneira de dizer. De lá não se sai. De lá se é expulso. Para sempre. De lá se é lançado fora, para nunca mais voltar...

De repente, em poucas horas, a erupção de uma fúria opressora se apossa daquele universo e o paraíso é violentamente destruído. O abraço total, sonoro, carinhoso e reconfortante, no caos em que tudo se transforma, é agora apertos que esmagam. Tudo o que existe e é bom é impiedosamente destruído para que aconteça a experiência mais traumática de toda a nossa vida: Nascer. E nascer não é fácil. Ninguém aprende a nascer antes de nascer. Nascer se aprende nascendo. Ninguém pode nascer por você. É certo que os empurrõezinhos que mãe e natureza dão, facilitam um pouco mais as coisas, mas não tornam nada fácil o nascimento.

Não é sem motivos que os bebês chegam ao outro lado da vida aos berros e prantos, com uma tensa e convulsa expressão da mais pura e profunda desesperação. É que eles trazem consigo o sentimento de quem foi expulso do paraíso às cegas, e às cegas, chegou a um mundo que ainda não vê.

E quando se vê... nasceu!!! Quando se percebe, se está no mundo!!! Num vale de lágrimas. Nascido.

- Nascido é maneira de dizer. Ainda há muito chão, nos caminhos de quem mal começou a sugar ares com o próprio fôlego...

Sugar o ar, respirar é a primeira coisa que fazemos quando nascemos. É essa a marca de nosso nascimento. É esse o carimbo com o qual a natureza oficializa nossa nascença. Mas o choro rouba a cena. É que em cinco ou seis segundos após o nosso primeiro alento, começamos a chorar. A chorar e a mover cabeça, braços e pernas. Nosso berro pode ser ouvido à distância, e isso impressiona mais aos humanos que o ato mais silencioso e sutil de respirar. Daí que somos mais uma vez carimbados com simbólica certidão de nascimento. Desta vez pelo choro em que nos pomos logo ao nascer. Por cerca de meia hora choramos, protestamos, nos sacudimos, até que caímos em nós mesmos. Uma vez dentro de nós, nos abrigamos em largo e profundo sono...

Não nos lembramos de quando estávamos sonhando o sonho do nosso primeiro sono. Mas sei que sonhamos o sonho que todos sonham pela primeira vez. Sonhamos com sons e flutuações, com luzes e prantos e com música. Uma música especial, própria, bem particular. Uma música de 72 batidas por minuto. Que passa a existir dentro de cada um de nós.

É com essa música embalando nosso primeiro sono que, ainda em nosso primeiro sonho, nos encontramos com nossa alma. Quando a reconhecemos, abraçamo-la num abraço tão envolvente, tão profundo, tão intenso que nos fazemos um. Por sermos agora nós e nossa alma, e não mais só nós ou só nossa alma, resultamos em mais um ainda, que é o termo da fusão de nós e nossa alma: o nosso espírito. Os três, que agora somos um - nós, alma e espírito, celebramos nossa comunhão, com a dança da vida, a 72 pulsações por minuto.

Na verdade, estamos nascendo mais uma vez. Agora de uma maneira sutil, espiritual, imaterial, mas não menos intensa ou importante. Nesse novo nascimento nos encontramos com os elementos simbólicos fundamentais que dentro de nós darão formas às fisionomias que viremos a ter por toda a nossa vida. É aí que encontramos nossa índole; é aí que encontramos e sorvemos nossos sentimentos; é aí que vislumbramos nossos pensamentos e conhecemos-lhes a fonte; é aí que pela primeira vez acariciamos nossas sensações; é aí que somos apresentados e ligados à vontade e ao desejo; é aí que vemos já vívidas, as lembranças e para elas acenamos. Todos dentro de nós. Profundamente. Reunindo-nos e celebrando nosso nascimento, a nossa existência. É aí que sorvemos o sopro da vida. À Vida abraçamos num abraço total. Também assim por ela somos abraçados. Em nós a vida se realiza, e realiza sua eterna tarefa de viver. Generosa, nos mostra o que trazemos em nós traços de sua eterna viagem desde a primeira célula que no universo pulsou. Generosa, nos apresenta à memória o que um dia viremos a ser, para que nos miremos e que sejamos exatamente o que seremos um dia.

Nascemos aprendendo a nascer.

- Aprendendo a nascer é modo de dizer. Pois a nascer ninguém aprende. Simplesmente se nasce.

Ali no comadrio do nascimento social, real, material, e na intimidade do nascimento simbólico, onírico, espiritual, se aprende a aprender a nascer (mesmo que a isso ninguém aprenda). Ali, se aprende que dentro de nós estão as forças necessárias para conquistarmos o mundo depois que o mundo se acaba. Ali aprendemos que na profunda entrega a nós próprios e às nossas mais íntimas verdades, mais nós mesmos a nós mesmos fazemos, mais em nós mesmos nos tornamos. Aprender a nascer é isso: é aprender a tecer a fisionomia do vir a ser. É saber trazer para nós a vida, e levar à vida a nossa existência. É saber inspirar e trazer para nossa alma - e levar ao espírito coletivo - os ares das coisas novas que nós e a vida, juntos, devemos viver.

- Que nós e a vida devemos viver é maneira de dizer... Acho que vamos ter que falar disso depois, porque tô achando que o tempo tá mudando... e que tá chegando a minha hora de... nnnnaaaasssssccccceeeeeerrrrrrrr.......



* Luiz Felipe Jardim leciona História.

3 comentários:

Anônimo disse...

E que bom que você nasceu, trazendo tanta sensibilidade e beleza.

Olivia Maria Maia disse...

Que lindo, sensível e profundo. Sua "chegança" foi abençoda.
Um bejo no coração do menino Felipe
(Seu texto me fez lembrar a descrição das matrizes perinatal de Groff... um estudioso transpessoal).

Anônimo disse...

DEPOIS QUE O ANJO ANUNCIOU VEIO UM MENINO MAIS CHEIROSO, MAIS GOSTOSO, MAIS CHARMOSO E MAIS INTELIGENTE QUE CONHEÇO.
QUEREM MAIS?
LEILA