sexta-feira, 5 de junho de 2015

A INFANTICIDA MARIE FARRAR

Bertolt Brecht (1898-1956)


1

Marie Farrar, nascida em Abril, menor
De idade, raquítica, sem sinais, órfã
Até agora sem antecedentes, afirma
Ter matado uma criança, da seguinte maneira:
Diz que, com dois meses de gravidez
Visitou uma mulher num subsolo
E recebeu, para abortar, uma injeção
Que em nada adiantou, embora doesse.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

2

Ela porém, diz, não deixou de pagar
O combinado, e passou a usar uma cinta
E bebeu álcool, colocou pimenta dentro
Mas só fez vomitar e expelir
Sua barriga aumentava a olhos vistos
E também doía, por exemplo, ao lavar pratos.
E ela mesma, diz, ainda não terminara de crescer.
Rezava à Virgem Maria, a esperança não perdia.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

3

Mas as rezas foram de pouca ajuda, ao que parece.
Havia pedido muito. Com o corpo já maior
Desmaiava na Missa. Várias vezes suou
Suor frio, ajoelhada diante do altar.
Mas manteve seu estado em segredo
Até a hora do nascimento.
Havia dado certo, pois ninguém acreditava
Que ela, tão pouco atraente, caísse em tentação.
      Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

4

Nesse dia, diz ela, de manhã cedo
Ao lavar a escada, sentiu como se
Lhe arranhassem as entranhas. Estremeceu.
Conseguiu no entanto esconder a dor.
Durante o dia, pendurando a roupa lavada
Quebrou a cabeça pensando: percebeu angustiada
Que iria dar à luz, sentindo então
O coração pesado. Era tarde quando se retirou.
      Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

5

Mas foi chamada ainda uma vez, após se deitar:
Havia caído mais neve, ela teve que limpar.
Isso até a meia-noite. Foi um dia longo.
Somente de madrugada ela foi parir em paz.
E teve, como dia, um filho homem.
Um filho como tantos outros filhos.
Uma mãe como as outras ela não era, porém.
E não podemos desprezá-la por isso.
      Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

6

Vamos deixá-la então acabar
De contar o que aconteceu ao filho
(Diz que nada deseja esconder)
Para que se veja como sou eu, como é você.
Havia acabado de se deitar, diz, quando
Sentiu náuseas. Sozinha
Sem saber o que viria
Com esforço calou seus gritos.
      E os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos precisamos de ajuda, coitados.

7

Com as últimas forças, diz ela
Pois seu quarto estava muito frio
Arrastou-se até o sanitário, e lá (já não
sabe quando) deu à luz sem cerimônia
Lá pelo nascer do sol. Agora, diz ela
Estava inteiramente perturbada, e já com o corpo
Meio enrijecido, mal podia segurar a criança
Porque caía neve naquele sanitário dos serventes.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

8

Então, entre o quarto e o sanitário – diz que
Até então não havia acontecido – a criança começou
A chorar, o que a irritou tanto, diz, que
Com ambos os punhos, cegamente, sem parar
Bateu nela até que se calasse, diz ela.
Levou em seguida o corpo da criança
Para sua cama, pelo resto da noite
E de manhã escondeu-o na lavanderia.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

9

Marie Farrar, nascida em abril
Falecida na prisão de Meissen
Mãe solteira, condenada, pode lhes mostrar
A fragilidade de toda criatura. Vocês
Que dão à luz entre lençóis limpos
E chamam de “abençoada” sua gravidez
Não amaldiçoem os fracos e rejeitados, pois
Se o seu pecado foi grave, o sofrimento é grande.
      Por isso lhes peço que não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Ed. 34, 2000. p.40-43

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A FORMAÇÃO DA SOCIEDADE ECONÔMICA ACRIANA (Introdução)

Eduardo de Araújo Carneiro

Ah! Meus amigos, estão manchadas de lodo
e sangue as páginas da história do Acre.
(Plácido de Castro apud LIMA, 1998, 
p.270, grifo nosso).


Esse livro é uma versão ligeiramente revisada de minha monografia defendida no Curso de Economia da UFAC sob a orientação do ilustríssimo professor Carlos Estevão Ferreira Castelo. Apesar de os professores da banca tê-la avaliado com a nota máxima, alerto que o texto tem suas limitações e não pretende alçar maiores voos. No entanto, mesmo assim, achei oportuno publicá-lo por conta da revisão historiográfica que faz sobre a origem da sociedade econômica¹ acriana. O meu objetivo nesse livro foi estudar a economia praticada pelo homem branco na região dos rios Purus e Juruá durante o surto da borracha (1877 a 1912) e as implicações que ela teve para a formação histórica da sociedade acriana.

A premissa que conduziu esse estudo foi a de que a Economia-Mundo Capitalista, por ser dominada pela lógica do lucro a qualquer custo, produz sociedades marcadas por “patologias sociais” (KEPPE, 1987; FROMM, 1983) ou por “irracionalidades” (SINGER, 1987; HARNECKER, 1979) que serão tratadas aqui pelas metáforas “sangue” e “lodo”. Para tanto, nossa hipótese foi que o “sangue” e o “lodo”, característicos da economia capitalista, foram constituintes da sociedade econômica acriana¹. Isso porque o surgimento dela tem a ver com a inclusão da Amazônia sul ocidental na cadeia mercantil dos países imperialistas. Por isso é que o capital circula em suas “veias” desde a gestação, contaminando-a com patologias congênitas.

Como a formação da sociedade acriana faz parte da história da reprodução ampliada do capital estrangeiro oriundo dos países desenvolvidos, resolvi fazer um breve estudo das principais patologias sociais encontradas no processo de fundação do Acre. Isso não quer dizer que todos os migrantes da região estavam “contaminados” com uma ou mais patologias, apenas quero afirmar que tais patologias foram identificadas e que fazem parte da história da formação da sociedade acriana. Algumas delas são: o genocídio indígena, a invasão de terras, a servidão por dívida, a corrupção política e judiciária, o tráfico de prostitutas, a sonegação fiscal e tributária, a exploração predatória da natureza, dentre outros.

Nessa perspectiva, a primeira geração de acrianos – aquela que a historiografia oficial afirma ser composta por heróis – passa a ser compreendida como aquela responsável pela incorporação da região ao sistema capitalista. Esse posicionamento muda toda uma tradição de interpretação historiográfica fincada na narrativa epopeica do Acre, uma vez que o patriotismo acriano passa a ser entendido como um discurso utilizado para disfarçar as marcas do homo economicus² que existiam nos primeiros acrianos. A “Revolução Acriana” não pode ter sido uma luta contra o imperialismo, já que os fundadores do Acre passam a ser percebidos como “as mãos e os pés” do “império do mal” (PERRAULT, 1999, p. 12). Foram eles e não outros que, na prática, colocaram a região acriana na “esfera de influência” do capital monopolista internacional.

O solo onde estão enterradas as “raízes do Acre” foi adubado com “sangue” e “lodo”. A narrativa epopeica da origem do Acre é uma versão manipulada dos fatos que inventa um passado “glorioso” para dissimular a barbárie constitutiva da sociedade acriana. Tal barbárie foi uma consequência direta tanto do homo economicus² acriano quanto das patologias congênitas de uma sociedade organizada para atender a reprodução ampliada do capital dos países desenvolvidos da Economia-Mundo Capitalista.

Por isso, acredito que a história do Acre, da forma como vem sendo ensinada, em nada contribui para a formação crítica da consciência histórica do povo acriano. Pelo contrário, o passado inventado como epopeico serve tão somente para induzi-lo a uma sensação megalomaníaca, que tem por objetivo deixá-lo alienado e vulnerável a manipulações. Quem mais ganha com a perpetuação desse abuso da história é a elite política local, pois é ela quem canaliza todo o ufanismo para o tempo presente a fim de forjar uma sensação de consenso e de otimismo coletivo.

Esse livro foi dividido em três capítulos. No primeiro, serão analisadas a formação do sistema capitalista e algumas de suas consequências sociais, morais, ecológicas e econômicas. No segundo, será abordada a relação que o capital internacional manteve com a economia gumífera na Amazônia, desde a primeira metade do século XIX até a primeira década do século XX. No terceiro, será estudado as principais “marcas de nascença” do Acre enquanto comunidade de brasileiros inseridos na periferia do sistema econômico capitalista.

Para finalizar, é bom que se diga que os resultados dessa pesquisa não passam de “interpretação de interpretações” (REIS, 2006, p. 73). Portanto, não pretende esgotar o assunto, muito menos apontar o caminho seguro da verdade, pelo contrário, a intenção foi ressuscitar o debate acadêmico sobre as “raízes Acre”, retirando-lhes o manto glorioso do heroísmo e do patriotismo propositalmente atribuídos a elas pelo status quo acriano.

Boa leitura! 

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1 O conceito de “sociedade econômica” foi tomado emprestado do economista Robert Heilbroner (1972). E para efeito de nossa análise, o termo “sociedade econômica acriana” significa aquela sociedade que surgiu na Amazônia sul ocidental em função da produção da borracha demandada pelas economias do centro dinâmico do capitalismo mundial em fins do século XIX e início do XX.
2 Conceito utilizado pelos economistas liberais e neoclássicos para privilegiar a dimensão econômica do comportamento humano. Segundo eles, tal dimensão é caracterizada pelo egoísmo, ou seja, o homem sempre buscará maximizar o prazer e minimizar a dor, obtendo o máximo de bem estar com o menor esforço possível.

*Texto retirado do blog Estudando a História, do autor.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

ESTORNO

Florentina Esteves


“Arrumando as malas”, demissionária da Secretaria de Educação e Cultura, já nem indagando mais quem chegava, de onde, mas bem recomendado, “competente, responsável”. Precisando fazer o inventário do que recebera, o rapaz me chegava bem na hora: Você vai para o Almoxarifado, quero um levantamento completo, rigoroso, tudo contado, relacionado, direitinho.

– Sim Senhora.

– Vinte e quatro horas, está bem?

– Sim senhora.

– Então amanhã, às dez?

– Sim senhora.

Nem às dez, nem às doze, treze. Findo o expediente, só em casa lembrei. No outro dia “sim senhora” não me apareceu. Terceiro dia? É demais.

– Então, seu José, fez o inventário?

– Sim senhora.

– Tudo certinho?

– Sim senhora.

– Pode me entregar?

– Sim senhora.

E continuava ali de pé, à minha frente, imóvel, calado, mumificado.

– Então, seu José, o inventário?

– Sim senhora. Mas... tem uma coisa que não encontrei, virei tudo, contei, tornei a contar, procurei, não está em parte alguma. Quem sabe, a senhora pode me dizer onde mais procurar?

– Mas que falta, seu José? E comecei a imaginar as dores de cabeça que teria. Um ventilador? Máquina? Projetor?

– Diga logo, seu José. Afinal, que falta?

Voz quase sumida, “sim senhora” suspirou, enxugou o suor do rosto, foi soltando devagarinho: É um tal de estorno, professora, estorno. Não tem mais onde procurar. Onde será que está?


ESTEVES, Florentina. Enredos da Memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro Ed., 1990. p.123-124

terça-feira, 2 de junho de 2015

POESIAS DE MILTON MAIA FILHO

O CANOEIRO DO TEMPO
Milton Maia Filho

As asas do tempo são as horas, pássaro que não para de voar. Voam para bem distante e não voltam mais.

O tempo é como água do rio que corre para o mar.

A canoa e o remador desafiam a correnteza, sobem o rio.

A saudade é um canoeiro que faz do tempo um desafio: sobe contra sua corrente e não se cansa de remar.


COMPARTILHANDO
Milton Maia Filho

Exuberante açaizeiro
Sementes para a passarada
Que sempre chega primeiro
Outras a serem processadas

Divide-se assim a vinha
Fonte de energia e vigor
Em gestos a vida caminha
Desfrutando o amor

Dividindo com multiplicação
Nesse açaizeiro
Passarinhos não faltarão

Para nova plantação
No ar levam as sementes
E largam em novo chão


HOJE AO LUAR
Milton Maia Filho

A vista é fantástica; a encosta íngreme e o mar infindo a se perder com o pôr do sol. Já bem indo...

No entremear da noite acende-se a fogueira à luz do luar. Na areia começa a dança e o porvir. O cancioneiro canta quebrando o silêncio com a canção do mar: as ondas e o bramir.

Na falta de mais gente, são testemunhas as estrelas e a lua com brilhos incandescentes.

Oh! Grande oceano, conduza sempre o mar a escrever suas poesias na areia com o seu bailar.


MEU PÉ DE CANELA
Milton Maia Filho

Tempera mingau
O pé de canela
Pode ser de curau
Que fiz para ela

Raspa seca em pó
Joga por cima
Não vale comer só
Gosto que desatina

Na fritada de banana
No arroz doce
Todo mundo ama

Cravo, erva doce e canela
São como temperos da vida
Que adoçam a saudade dela


O POETA, O ESCULTOR E O ALFAIATE: “O poder da criação”
Milton Maia Filho

O corte do linho pelo alfaiate
ajustou-se na medida certa,
como o escultor da arte
que fez do barro a sua descoberta.

O corte foi o inglês,
a estátua renascentista;
chegou a vez
de um prosaísta:

o poeta,
para fazer das letras
uma festa.

Todo mundo leu, comeu,
Bebeu e dançou como passista,
o que ele rimou e escreveu.


A CURVATURA DA LUZ
Milton Maia Filho

A luz do luar
é a única
que faz curvas
na estrada da noite.

Só obedece
a uma direção:
a que vem do
do coração.


O OLHAR DAS ESTRELAS
Milton Maia Filho

Param no tempo
os melhores momentos,
caminhamos.
Voltamos...

Sobretudo,
no céu, lá bem fundo,
a lua,
e saudade tua.

Mas nas estrelas é que vejo
teu doce olhar,
aonde fica o desejo

de te encontrar.
Então “eu mando
a saudade esperar”.


A ÂNCORA DO AMOR
Milton Maia Filho

Ouvi os céus
E vi brilhantes
Eram estrelas, seus
diamantes...

O firmamento tocava
Surgia da luz da lua
Uma sonata
Para um seresteiro de rua

As estrelas são vagalumes
De Deus
Que dão, ao amor, volumes

Um grande farol iluminou
O caminho do navegante
Ao Porto que um dia sonhou


AS PEDRAS DA SAUDADE
Milton Maia Filho

Não se via nada em curta distância.
Chovia muito e os vultos se difundiam
Entrelaçando-se com ventos de esperança.
Dançavam sombras, e sobre o tempo escorriam...

O molhado era saudade, o ar que ventilava
Levava-a para o rio
Bem encorpado, que nadava
Para chegar ao mar, seu desafio.

No meio do caminho não mais se encontrou,
Nas pedras ressecadas
Seu leito restou

A morada
Final,
Amada.

***

No armazém da saudade tem lembranças por atacado e a varejo. Na balança está o tempo a retalho. Mas não há preço que pague um grama de recordação, visto que o endereço da registradora é o coração.
Milton Maia Filho

***

“Borboletas que beijam o vento” e dançam como se não saíssem do lugar, aprisionam o tempo fazendo dele a estação de primavera. Mas em verdade, quando menos se espera, fazem voar saudades.
Milton Maia Filho

***

Com luar nas alturas as estrelas dormem em noites escuras.
Milton Maia Filho





__________________
MILTON MAIA FILHO é acreano de Rio Branco. Professor, advogado, engenheiro e poeta. Reside em Portugal.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

POESIAS DE LEANDRO TOCANTINS

BREVIÁRIO LÍRICO EM ABSTRATAS IMAGENS
DO ACRE QUE O MENINO INCORPOROU
AOS SEUS CINCO SENTIDOS  
Desenho à bico de pena de Percy Lau do seringal Foz do Muru, onde viveu Leandro Tocantins.



O SERINGAL GUARDA SAUDADES E SONHOS
Leandro Tocantins (1919-2004)

O lar inunda o barracão na beira do rio Muru
em auroras de alegria.
Mas a sintaxe das tristezas
adormecida na família pelas saudades de Belém
caminha faminta e viva
girando na roldana das distâncias.
O menino apenas estreia nos sentimentos do mundo
Quer agora escutar rente ao rio
os sons do motor e o secreto nascimento
de viagens naqueles funis de águas encantadas.
O batelão, pássaro livre, desliza na torrente
que flutua nas margens adormecidas.
O menino não sente saudades de Belém
(a estrela de seu natal ainda distante para ele)
segue apenas a mutação colorida dos sonhos
no mural trançado de folhagens
onde estão esculpidos astros e conchas
nos vales, vales que se desgarram
das dobras de florestas imemoriais, mais florestas
mais rios
Rio.

Rio de janeiro, 1994


ONDE OS RIOS SE ENCONTRAM
Leandro Tocantins (1919-2004)

Pode-se ouvir o tempo reler a paisagem
mesmo na nostalgia tendida para a infância
fugaz como todas as infâncias.
O ato de ver divide-se em dois rios
sossegados em sua alma subterrânea.
O rio Muru de águas esverdeadas e lentas, no verão
(Na sua foz a minha morada no barracão)
flui para o mais inquieto e turvo Tarauacá.
Minha lembrança pastoreia vertigens de imagens
A cidadezinha ronda as beiras do Tarauacá,
A catraia vai e vem, leva o menino, traz o menino
Nas penumbras do silêncio do rio que mede o tempo,
As matas fazem vibrações de verde,
O céu lugar-comum de azul.
Discursam os ventos em rastros irremissíveis
O infante exalando miragens de vida
E todas as vozes impressas na solidão.

Rio de Janeiro, 1994


ROTEIRO INFANTE
Leandro Tocantins (1919-2004)

A José Néri da Rocha, que foi, como eu,
menino de Tarauacá

Eis o rumo principal, Avenida Juvêncio de Menezes.
O calçadão entornando-se no meio da rua
(não havia automóveis)
articula os passos do menino.
Aqui é o fórum adiante o mercado,
A maçonaria, a prefeitura, o telégrafo
(Ah! Sua torre, alta e esguia, a torre do telégrafo
como um fio descido do céu, aproxima-se das nuvens
para transmitir segredos ao pé do ouvido).
A avenida vem ao encontro da Praça do Coreto
Onde deslizam os sonhos, de onde vêm? Para onde vão?
E o cinema no puro instante da imagem muda e iluminada
Liberta fantasias na extensão de mundos inalcançáveis.
Ali o menino vai receber
Aulas de piano na bonita casa da professora.
O médico, o delegado de polícia, a parteira, o padre
Abrem as janelas e portas com vocação
De receber e armar gestos amigos.
A Avenida Juvêncio de Menezes
leva as almas no instante do amor e do socorro
na Igreja de São José que oferece
a face, o perfil, a fonte da Santa Paz do Senhor.
Nem o tempo íngreme imobiliza em meus ouvidos
Os sons da banda como borboletas encantadas
No coreto que se desprende do roteiro da
Avenida Juvêncio de Menezes.

Rio de Janeiro, 1994


O RIO, A FLORESTA, O BATELÃO
Leandro Tocantins (1919-2004)

O rio (Tarauacá) nos pasmados repiquete
afeta, engole os barrancos, alarga o leito-espaço.
Seu reino fluvial com arrogância de domínio
abre ladeiras de águas
atravessadas pela ronda dos batelões
incansáveis vetores da sobrevivência humana.
E a floresta levanta a grande vela
que se infla de verde
colorindo as brancas nuvens.
Nesse deserto em que os pássaros soluçam
vão criaturas com miragens do ser humano
rumando em águas que circulam nos vales desolados
sob o silêncio do brejo da solidão.

Rio de Janeiro, 1994


Tocantins, Leandro. O aprendiz renascido (poesia). Belém: Cejup, 1995.

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LEANDRO TOCANTINS nasceu em Belém do Pará no dia 08 de maio de 1919, e faleceu no Rio de Janeiro em 2004. Chegou ao Acre aos nove meses de idade, quando seus pais estabeleceram-se no Seringal Foz do Muru, em frente à cidade de Tarauacá, de onde administravam os seus seringais, herança da liquidação da Casa Aviadora Barbosa & Tocantins, na Praça de Belém, afetada pela crise econômica da borracha. Os cenários virgens acreanos foram a primeira visão no espírito do menino, que mais tarde, se inspiraria, já escritor, a produzir Os Olhos Inocentes: Imitação da Infância (1984), Prêmio Osvaldo Orico da Academia Brasileira de Letras, que ele classifica de novela existencial, e Aventuras de Tizinho: nos rios e nas selvas amazônicas (1978), novela juvenil adaptada para o teatro e encenada no Rio de Janeiro. Na verdade, toda a obra de escritor gira em torno de dois pólos de influência: Pará (Belém e ilha do Marajó) e Acre. Entre suas obras poéticas, encontram-se: Cosmoinfância (1969); A Memória de Viver (1972); Os silêncios do Canto (1975); Invenção da Floresta (1993, reunião dos três primeiros livros mais Poemas da hora imaginada) e; O aprendiz renascido (1995).