segunda-feira, 1 de junho de 2015

POESIAS DE LEANDRO TOCANTINS

BREVIÁRIO LÍRICO EM ABSTRATAS IMAGENS
DO ACRE QUE O MENINO INCORPOROU
AOS SEUS CINCO SENTIDOS  
Desenho à bico de pena de Percy Lau do seringal Foz do Muru, onde viveu Leandro Tocantins.



O SERINGAL GUARDA SAUDADES E SONHOS
Leandro Tocantins (1919-2004)

O lar inunda o barracão na beira do rio Muru
em auroras de alegria.
Mas a sintaxe das tristezas
adormecida na família pelas saudades de Belém
caminha faminta e viva
girando na roldana das distâncias.
O menino apenas estreia nos sentimentos do mundo
Quer agora escutar rente ao rio
os sons do motor e o secreto nascimento
de viagens naqueles funis de águas encantadas.
O batelão, pássaro livre, desliza na torrente
que flutua nas margens adormecidas.
O menino não sente saudades de Belém
(a estrela de seu natal ainda distante para ele)
segue apenas a mutação colorida dos sonhos
no mural trançado de folhagens
onde estão esculpidos astros e conchas
nos vales, vales que se desgarram
das dobras de florestas imemoriais, mais florestas
mais rios
Rio.

Rio de janeiro, 1994


ONDE OS RIOS SE ENCONTRAM
Leandro Tocantins (1919-2004)

Pode-se ouvir o tempo reler a paisagem
mesmo na nostalgia tendida para a infância
fugaz como todas as infâncias.
O ato de ver divide-se em dois rios
sossegados em sua alma subterrânea.
O rio Muru de águas esverdeadas e lentas, no verão
(Na sua foz a minha morada no barracão)
flui para o mais inquieto e turvo Tarauacá.
Minha lembrança pastoreia vertigens de imagens
A cidadezinha ronda as beiras do Tarauacá,
A catraia vai e vem, leva o menino, traz o menino
Nas penumbras do silêncio do rio que mede o tempo,
As matas fazem vibrações de verde,
O céu lugar-comum de azul.
Discursam os ventos em rastros irremissíveis
O infante exalando miragens de vida
E todas as vozes impressas na solidão.

Rio de Janeiro, 1994


ROTEIRO INFANTE
Leandro Tocantins (1919-2004)

A José Néri da Rocha, que foi, como eu,
menino de Tarauacá

Eis o rumo principal, Avenida Juvêncio de Menezes.
O calçadão entornando-se no meio da rua
(não havia automóveis)
articula os passos do menino.
Aqui é o fórum adiante o mercado,
A maçonaria, a prefeitura, o telégrafo
(Ah! Sua torre, alta e esguia, a torre do telégrafo
como um fio descido do céu, aproxima-se das nuvens
para transmitir segredos ao pé do ouvido).
A avenida vem ao encontro da Praça do Coreto
Onde deslizam os sonhos, de onde vêm? Para onde vão?
E o cinema no puro instante da imagem muda e iluminada
Liberta fantasias na extensão de mundos inalcançáveis.
Ali o menino vai receber
Aulas de piano na bonita casa da professora.
O médico, o delegado de polícia, a parteira, o padre
Abrem as janelas e portas com vocação
De receber e armar gestos amigos.
A Avenida Juvêncio de Menezes
leva as almas no instante do amor e do socorro
na Igreja de São José que oferece
a face, o perfil, a fonte da Santa Paz do Senhor.
Nem o tempo íngreme imobiliza em meus ouvidos
Os sons da banda como borboletas encantadas
No coreto que se desprende do roteiro da
Avenida Juvêncio de Menezes.

Rio de Janeiro, 1994


O RIO, A FLORESTA, O BATELÃO
Leandro Tocantins (1919-2004)

O rio (Tarauacá) nos pasmados repiquete
afeta, engole os barrancos, alarga o leito-espaço.
Seu reino fluvial com arrogância de domínio
abre ladeiras de águas
atravessadas pela ronda dos batelões
incansáveis vetores da sobrevivência humana.
E a floresta levanta a grande vela
que se infla de verde
colorindo as brancas nuvens.
Nesse deserto em que os pássaros soluçam
vão criaturas com miragens do ser humano
rumando em águas que circulam nos vales desolados
sob o silêncio do brejo da solidão.

Rio de Janeiro, 1994


Tocantins, Leandro. O aprendiz renascido (poesia). Belém: Cejup, 1995.

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LEANDRO TOCANTINS nasceu em Belém do Pará no dia 08 de maio de 1919, e faleceu no Rio de Janeiro em 2004. Chegou ao Acre aos nove meses de idade, quando seus pais estabeleceram-se no Seringal Foz do Muru, em frente à cidade de Tarauacá, de onde administravam os seus seringais, herança da liquidação da Casa Aviadora Barbosa & Tocantins, na Praça de Belém, afetada pela crise econômica da borracha. Os cenários virgens acreanos foram a primeira visão no espírito do menino, que mais tarde, se inspiraria, já escritor, a produzir Os Olhos Inocentes: Imitação da Infância (1984), Prêmio Osvaldo Orico da Academia Brasileira de Letras, que ele classifica de novela existencial, e Aventuras de Tizinho: nos rios e nas selvas amazônicas (1978), novela juvenil adaptada para o teatro e encenada no Rio de Janeiro. Na verdade, toda a obra de escritor gira em torno de dois pólos de influência: Pará (Belém e ilha do Marajó) e Acre. Entre suas obras poéticas, encontram-se: Cosmoinfância (1969); A Memória de Viver (1972); Os silêncios do Canto (1975); Invenção da Floresta (1993, reunião dos três primeiros livros mais Poemas da hora imaginada) e; O aprendiz renascido (1995).
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