quinta-feira, 11 de junho de 2015

O JABUTI

Florentina Esteves

O Jabuti tinha fôlego curto.

Grande, desengonçado, desbotada a pintura. Pesadão. Pachorrento, fazia a travessia do rio. Ponte não havia.

O catraieiro – cumprindo o horário de funcionário público – dispendia em esforços tanto quanto lhe pagava a Prefeitura Municipal. Devagar.

E lá estava o Jabuti, sempre atracado, tangidas suas viagens a espaço de sesta.

No verão, rio raso, a viagem era curta. Demora maior, a de completar a lotação. E nem tão penosa: havia o toldo encardido e a brisa. Uma caneca de leite condensado, de mão em mão, bebia-se água fresquinha do rio. No mais, pressa, pra quê?

No inverno, rio revolto, correnteza “braba”, balseiros de bubuia descendo com os repiquetes, a viagem ganhava em tempo e pitoresco. Era subir, primeiro, até quase ao “Pavilhão”, sempre aproveitando os remansos e evitando os balseiros. Depois, em diagonal, apenas controlar nas faias a direção, e deixar a descida por conta da correnteza.

A meio caminho da viagem cruzavam-se os que iam e os que vinham. Ou emparelhavam. Jabuti e “seu” Neco: disputa dura, quem mais devagar? Remadas curtas, meio a sopapos, “seu” Neco esbanjava em mau humor o que poupava em energia.

Quando passava chatinha e os catraieiros corriam para pegar banzeiro lá encostado à roda, passageiro do Jabuti só olhava, atracado à distância das emoções da montanha russa aquática. Bolsos vazios não se viaja ilusão, não se senta em toalhinhas brancas, não se sobe pela escada. Porto pouco abaixo, sempre mal cuidado, cometia a diferença entre os que podiam ou não podiam pagar. O Jabuti. Não tinha tabuleta que lhe desenfadasse o anonimato. Seu farol não tinha vidro colorido, nem uma nota de mil-réis presa em sua manga. Não disputava regatas. E à garotada não era permitido levá-lo na volta da escola.

Domingo não trafegava. Se chovia, cadê catraieiro? O Jabuti não tinha toldo azul.

Não se podia brincar de balançar. Também não se pegava aposta.

O Jabuti tinha o fôlego curto.


ESTEVES, Florentina. Enredos da Memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro Ed., 1990. p.42-23
*Foto "canoas na escadaria em Rio Branco" (1953) de Antonio José Teixeira Guerra e Tibor Jablonsky.
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